IP-TRADU. 16-2-97. Algumas coisas que eu vou encontrando no meio de livros, sacolas etc. TRADUÇÕES AVULSAS, esporádicas, para um agrupamento definitivo. “Keats dispôs que o epitáfio Here lies one whose name was writ in water (aqui jaz alguém cujo nome foi escrito na água) ficasse gravado no seu sepulcro.” (Borges, Introdução à Literatura Inglesa) O som é de algo que, sorvido pela água, borgulha (borbulha no mergulho, ou mergulha no borbulho), sumindo tristemente: pode ser vertido -- no conceito borgesiano do virtualmente intraduzível: a) Na lápide plúmbea meu nome, de plúvia, se espuma. b) Eis quem não sobra nada além. c) Ávida vida de vidro à vista. d) Eis cujo, cujo nome é sujo.
NOTAS: a) Dá uma idéia (sonora) de algo jogado n’água. b) Versão puramente parassemântica. Pessimismo só. c) Isto é : existência clara mas errônea (a do próprio K.) d) Os dois “cujo” : o cúmulo do anonimato, condizente com a função da frase do epitáfio.
Mas, onde quer que tenha eu conseguido a maior similitude, fui traído, malheureusement, pelo som fechado, quando, no original, o objeto que parece cair n’água é algo de claramente aberto, isto é, eclatant (claro!... sem trocadilho)
(No João Sehn, 9-6-1986)
Tradução, exercício de: v. caixinhas ou pastas/sacolas, LIVRO, "A rebours", "tentativa de chegar ao nível do excelente".
@ To be is to do (Sócrates) To do is to be (Sartre) To be do be do (Sinatra)
(Visto no filme “Subway”, do Luc Besson)
( Ser é fazer Fazer cera Até tu, bidu ? )
@ To have and haeven not (Um hippy para Hemingway)
( Meu e não céu ) (Fonetismo debochado de um hippy nosso)
Var. do "To have or haeven not", cf. ( "Meu e não céu" ):
Meu ou não Cêu Meu é não cêu [ os sinais do é e do cêu estão em parêntese ]
@ - Zwei sind einer zuviel zum glück Zwei sind genug für ein unglück har einer den anderen zum glück
Dois são um demais para a felicidade Dois são bastantes para uma infelicidade quando um vê no outro sua felicidade
LETRA DO PERCY:
DOIS PARA UM É DEMAIS POR SORTE DOIS É O SUFICIENTE POR AZAR UM TEM O OUTRO POR SORTE
@ - ALGUNS
POEMAS DE RILKE:
SONETOS A ORFEU:
UM DEUS O FAZ, MAS DE QUE JEITO, DIZE, O HOMEM FARÁ, COM TÃO PEQUENA LIRA? SUA ALMA SE ABRE. E NO AMBÍVIO DAS VIAS DO CORAÇÃO NÃO HÁ TEMPLO DE APOLO.
NÃO É DESEJO O CANTO QUE TU ENSINAS: NEM ESP´ERANÇA (FALAZ) DE PRETENDENTE. CANTAR É EXISTIR. A UM DEUS É FÁCIL. MAS NÓS, QUANDO EXISTIMOS NÓS, E QUANDO
SERÃO EM NÓS AS ESTRELAS E A TERRA? NÃO SE TRATA DE AMAR, RAPAZ, EMBORA A VOZ TE FORCE A BOCA, - MAS APRENDE
A OLVIDAR O AFÃ DO GRITO: PASSA... CANTAR DE FATO, AH! ÊSSE É UM OUTRO SÔPRO. RODEANDO NADA. UM VÔO EM DEUS. UM VENTO.
→DECASSÍLABO (30/12/51)
NÃO É SENÃO NO ESPAÇO ONDE SE EXULTA, QUE O LAMENTO PODE VIVER (A NINFA DA CHORADA EMANAÇÃO), VELANDO, AFIM DE QUE O QUE DE NÓS SE CONDENSA NO MESMO ROCHEDO PERMANEÇA TRANSLÚCIDO
E QUE SUSTENTE OS ALTARES E OS PÓRTICOS. VEJO, SÔBRE SUAS ESPÁDUAS TRANQÜILHAS, NASCER A AURORA DE SUA CONSCIÊNCIA DE SER A MAIS NOVA ENTRE AS IRMÃS NA ALMA.
A FELICIDADE SABE E O DESEJO CONFESSA,- MAS O LAMENTO SÓ AINDA VIGORA; SUAS MÃOS DE MOÇA CONTAM NOITES, DURANDO O ANCIÃO DESASTRE.
MAS DE REPENTE, EM GESTO OBLÍQUO E INEXPERTO PERCEBE UMA CONSTELAÇÃO DE NOSSA VOZ NO CÉU QUE SEU ANSEIO NÃO CONTURBA. →SEM MÉTRICA
31/12/51
Algumas poesias de RAINER MARIA RILKE, por mim traduzidas.
“LIVRO DE IMAGENS” (1899-1905)
HORA GRAVE
QUEM QUER QUE CHORE AGORA NUM LUGAR DO MUNDO, SEM RAZÃO CHORA NO MUNDO, CHORA SÔBRE MIM.
QUEM QUER QUE RIA AGORA EM TAL LUGAR DA NOITE, SEM RAZÃO SE RI NA NOITE, RI-SE DE MIM.
QUEM QUER QUE MARCHE AGORA NUM LUGAR DO MUNDO, SEM RAZÃO MARCHA NO MUNDO, VEM PRA MIM.
QUEM QUER QUE MORRA AGORA NUM LUGAR DO MUNDO, SEM RAZÃO MORRE NO MUNDO, ME CONTEMPLA.
(31/12/51)
OS ANJOS ÊLES TÊM BOCAS CANSADAS, ILUMINADAS ALMAS SEM LIMITES, E UMA NOSTALGIA (TALVEZ DO PECADO) MUITA VEZ CORTA SEUS SONHOS.
E VÃO, POR TANTA SEMELHANÇA UNIDOS, CALAR-SE JUNTOS NOS JARDINS DE DEUS, COMO INTERVALOS MUITO NUMEROSOS EM SUA POTÊNCIA E MELODIA.
MAS LOGO QUE SE LARGAM,DE REPENTE, AS ASAS, PROMOVEM EXULTANTE VENTO: COMO SE DEUS, COM AS LARGAS MÃOS DE ESTATUÁRIO, MARCHASSE, ARREBATANDO AS PÁGINAS, NO LIVRO OBSCURO DA GÊNESE. (31/12/51)
“ÚLTIMAS POESIAS” ( ? ) MÚSICA
MÚSICA: HÁLITO DAS ESTÁTUAS, OU TALVEZ: SILÊNCIO DAS IMAGENS, LÍNGUA ONDE TÊM FIM AS LÍNGUAS. TEMPO PERPENDICULAR AOS CORAÇÕES FUNDIDOS.
SENTIMENTOS POR QUE? METAMORFOSE DE SENTIMENTOS EM QUE? – EM PAISAGEM DE SONS. - PAÍS ESTRANGEIRO, CORAÇÃO QUE ESCAPA DE NÓS. O MAIS ÍNTIMO ESPAÇO DE NÓS MESMOS QUE NOS COBRE, NOS SUPERA NOS EXPULSA: SAGRADO AFASTAMENTO...
NOSSO INTERIOR NOS CINGE, COMO UMA DISTÂNCIA PERFEITAMENTE EXERCIDA, COMO UM REVERSO DE AR. PURO, IMENSO, INABITÁVEL (31/12/51)
EPITÁFIO (composto por Rilke para seu túmulo)
ROSA, OH! PURA CONTRADIÇÃO, VOLÚPIA DE NÃO SER O SONO DE NINGUÉM SOB TANTAS PÁLPEBRAS.
RAINER MARIA RILKE (continuação)
Só quem levanta sua lira em meio das sombras <<<<<<<<<<<<<<<<(ou “trevas”) pode, pressentindo, render infinda homenagem.
Só aquêle que com os mortos comeu papoula, do seu, não perderá nunca, mesmo, o som mais ligeiro.
Tem a miragem no lago muita vez que se turvar; conheço a imagem.
No império duplo As vozes se fazem ternas e sempiternas.
→SEM MÉTRICA (31/12/51)
AQUILO É CELEBRAR, ELEITO AO JÚBILO, JORROU TAL MINERAL DAS PEDRAS MUDAS. SEU CORAÇÃO, OH! EFÊMERO LAGAR DE UM VINHO QUE ESGOTAR NÃO PODE, O HOMEM.
MORTE NENHUMA TENTA A INEXTIGUÍVEL VOZ, SE ELEVADA PELO EXEMPLO DIVO. SE TORNA VINHAS TUDO E AMADURECE-LHE A ÚVA AO CORAÇÃO DO FIM SENSÍVEL.
NEM NOS SARCÓFAGOS, OS REIS PUTRÉFAGOS, NEM PROJETADA A SOMBRA À TERRA, DEUSES SABERIAM NEGAR SEU BOM TRANSPORTE.
POIS É ENTRE OS MENSAGEIROS QUE INDA VIVEM QUE ATRÁS DOS PÓRTICOS DOS MORTOS SE ERGUEM
CHEIAS TAÇAS DE
FRUTOS VENTUROSOS. →DECASSÍLABO (31/12/51) **********
ENQUANTO SE MORRE
Peça em 1 ato de Augusto Strindberg Tradução de Florivaldo Menezes
(Senhor Durand, de
pé, olhando o lago com binóculos. Adèle vem da cosinha, com avental,
mangas regaçadas; trás o café sobre uma badeja.)
ADÈLE – É, estou
esgotada, mas eu pelo menos tenho agüentado durante todo esse tempo.
(Os mesmos, mais
Pièrre, que entra com uma cesta)
ADÈLE – (remexendo
dentro da cesta) Nada de pão! Somente uma conta! Duas, três!
CENA III
(Senhor Durand,
Antonio)
ANTONIO – (entra ao
fundo) Bom dia, senhor Durand!
CENA IV (ANTONIO; pouco depois entra THÉRÈSE, em “peignoir”, trazendo uma ratoeira, , cabelos esparramados. Logo mais, ADÈLE.)
CENA V
DURAND – A menos
que eu prefira a bengala, pego meu fusil da ultima guerra...
CENA VII
DURAND – Não,
querida. Quero somente que vocês sejam um pouco menos cruéis para
comigo. Para o gato vocês encontram o creme, mas renegam o leite ao
próprio pai...que não come...há tanto tempo...
(Sai Adèle)
DURAND – ADÈLE!
Agora você vai me ouvir...e compreender! Se eu falo em meias palavras é
unicamente para livrar tua consciência de saber demais. Fica sossegada,
que as crianças estão nos quartos. Pergunta primeiro: “você tem seguro
de vida?”. Vamos!
********** @ - Verlaine / “Chanson d´Automne”. O violão, ausente do original, onde um violino soluçante embala uma canção triste, no poema “Chanson d´Automne”, é figura principal nesta versão que fiz do poema, na déc. de 70. Acho que a denominei Blumenbosque, que era como me chamava seu criador, meu queridíssimo e saudoso Jacob Leiner, revelando-me que meu nome era uma versão/tradução/versão: Blumenbosque ( Florivaldo ) : Uma versão : FLOR = BLUMEN, juntada a uma tradução : WALD = BOSQUE. Então...Florwald. Veja-se a versão do “sanglotlong” como uma tradução desdobrável, pois as duas outras estrofes são correspondentes temáticas, ideológicas, da tradução da primeira estrofe (trad. onde há uma estrofe repetindo, aparentemente, a 1ª estrofe, mas refletindo as duas outras estrofes do poema). O morno outono de longa calma soliloquaz enche minh´alma de um solussono faz e nefaz.
Os mornos tons de um só violão soliloquaz dão outros dons ao coração que se desfaz.
O solilouco som do silêncio outonal deixa-me um pouco só e refém se o tom é mau.
Depois, com uma posição para violão, de método de posicionamento dos dedos, estudar as notas que sugiram os sons das palavras, para dar a frase: Só o sangue ao longe me dá a distância que vai do corpo à alma exangue. >>>>>>>>>>>>>>>de tal sorte que a tirada da nota da última sílaba do primeiro verso ressoe, na mesma corda, na primeira sílaba do segundo verso ( ge...me!)
**********
@ - “Men seldom make passes at girls who wear glasses.” (De quem mesmo? V. agendas antigas)
“Os homens não pensam em ósculos com moças que usam óculos.”
Ou: “Homens não pensam em ósculos com moças que usam óculos.” :ACHO QUE MELHOR ASSIM.
Geoffrey Chaucer, por mim, déc. de 50, cf. p. 24 de “Anthologie de la Poésie Anglaise”, par Louis Casamien, STOCK. *** - (Na minha tradução de 1950 (1949?) de “The Waste Land” (Eliot), lá no Umuarama Hotel,. em Campos do Jorão, surpreendido por uma moça culta e bonita, que se espantou:
- ( Pegando o gancho do intróito da 4ª capa da “Anthologie de la poésie chinoise classique”, de Paul Demiéville, Gallimard, 1962): - Pra gô vernar um país grande, na toada do taoismo, é preciso toda a delicadeza e agilidade das mão de um mestre-cuca que saiba fritar pastéis no ponto. O mesmo se pode dizer da poesia chinesa: quem a malabordar estará frito. É preciso uma iniciação. Tentarei indicar aqui algumas precauções re-comendáveis ao leitor não-chin. A poesia na China anda por todo o canto. No baobucio dos pequininos, onde os folclowristas colhem florações chinesgotáveis; na boca dos campomeses e dos opiorários, que arroztam suas penas escandentemente, suas coisas sérias ou meras bambuzeiras; na goela do conde-nado à forca que, tal como o heroi de um célebre conto moderno, entoa um trecho de ópera no próprio lugar de sua execução (ver onde a continuação. N. de 13-02-04)
***********
- V. aquela idéia de verter um poema para o inglês, pedir a fulano que traduza para o português, pedir a sicrano que verta para o francês, pedir a beltrano que traduza para o português, pedir a mengano que verta para o espanhol, versão esta que será traduzida para o português... no fim comparar tudo!
*********** The Waste Land” (Eliot)
Notas, atuais, às Notas da época da tradução
Na minha tradução de 1950 (1949? 1951?), de “The Waste Land” (Eliot), que se vê abaixo, feita lá no Umuarama Hotel,. em Campos do Jordão, fui surpreendido por uma moça culta e bonita, que se espantou: - O que?!, traduzinho Eliot ... e esse poema?! Moço... Intelectual! Também tenho um irmão que gosta (e faz ) essas coisas! ( mais tarde contou-me detalhes, tratava-se de um rapaz chamado Décio Pignatari.) - Precisar, exatamente, o ano da tradução, ficou muito difícil, pois, em minha juventude, morando em Presidente Prudente, passava minhas férias escolares ora em São Paulo, ora em Campos do Jordão, hospedando-me no Umuarama Hotel, então de propriedade do Mackenzie e gerenciado por um casal suiço( Daniel e Clara) de quem me afeiçoei filialmente e que tragicamente perdeu sua única filha numa queda de cavalo. - Lá conheci também algumas figuras ilustres da sociedade médica e política, entre eles o celebrado médico Oscar da Rocha von Pfull, autor de importantes ensaios sobre teatro, especialmente o brasileiro, cuja ideologia muito nos atraiu e aproximou, apesar da diferença considerável de idade ( ideologia= o comunismo!) - Os originais de minha tradução, feita com o suporte do francês e do italiano, estão datilografados em papéis-ofício timbrados com “Departamento das Municipalidades”, orgão público estadual que antecedeu o Departamento de Águas e Energia Elétrica, no qual comecei a trabalhar após concurso de 1952 (domingo de manhã da morte do Rei da Voz, Chico Alves). É bem provável que eu tenha, como todo burocrata malandro sem má fé, costumeiro, me apropriado daqueles papéis para uso de minhas produções...Daí a confusão das datas. ********** – Usei logo no início a palavra primaverais. ( Nesta nota dada agora, 06-02-2004, ao reler a magistral “História Concisa da Literatura Brasileira”, do Alfredo Bosi, deparo com primaveral, neologismo elencado pelo autor entre os criados no Prefácio Interessantìssimo de “Paulicéia Desvairada”, do Mário de Andrade.
Quando tento explicar uma tendência de poesia-bula, nas modernidade e pós-modernidade, em passagem da INTRODUÇÃO (cf.), praticamente polarizo a importância, tópica para aqueles futuros, do que está “...implícito na poesia referencial de Pound e Eliot, embora neste mais adentrado no conteúdo.” (sic). Isto levando-se em conta que a Modernidade começou com “Les fleurs du Mal”, e “Madame Bovary”, 1856, e a Contemporaneidade , com “The Waste Land” e “Ulysses” , 1922. Os dois inovadores poderiam ser chamados, pois, como os pais da modernidade contemporânea.
TERRA DESERTA por T.S. Eliot -:-:- Do original inglês: THE WASTE LAND -:-:- Tradução de FLORIVALDO MENEZES
I. - O ENTÊRRO DOS MORTOS.
Abril é o mais cruel dos meses; engendra lilases da terra morta, mescla memórias e desejos, e desperta raízes preguiçosas com chuvas primaverais. 5- O inverno nos manteve cálidos cobrindo a terra com neve esquecediça, nutrindo uma pequena vida com tubérculos sêcos. Surpreendeu-nos o verão, quando surgiu sôbre o Starnbergersee com um aguaceiro; detivemo-nos sob a colunata, 10- e seguimos sob o sol, dentro do Hofgarten, e tomamos café, e conversamos durante uma hora. Bin gar keine Russin, stamm aus Litauen, echt deutsch. E quando éramos crianças, visitando a casa de meu primo o arquiduque, êle me pôs em seu trenó. 15- Eu tinha medo, e êle me disse: Maria, Maria, segura-te bem. E deslizamos morro abaixo. Nas montanhas, ali é que se sente livre. Leio, quase a noite tôda, e no inverno sigo ao Sul.
Quais são as raízes que arraígam, que ramos crescem 20- nêstes escombreos pétreos? Filho do homem, tu não podes dizê-lo nem adivinhá-lo, pois tão só conheces uma porção de imagens rôtas, onde o sol bate. A árvore morta não abriga, o grilo não consola, da ressequida pedra não emana água. Só 25- existe sombra nesta rocha rubra. (Vem sob a sombra desta rocha rubra), e te ensinarei algo diferente de tua sombra que te segue a pegada pela manhã ou de tua sombra que à tarde se levanta para encontrar-te; 30- te mostrarei o que é o medo num punhado de pó.
Frisch weht der Wind Der Heimat zu, Mein Irisch Kind, Wo weilest du?
35- “Me deste jacintos pela primeira vez há um ano; chamaram-me a menina dos jacintos”. - Mas quando regressamos, tarde, do jardim dos jacintos, teus braços carregados, e teus cabelos úmidos, não pude falar, meus olhos se anublaram, não estava nem 40- vivo nem morto, e não sabia nada, vendo no coração da luz o silêncio. Oed und leer das Meer.
Madame Sosostris, famosa clarividente, possuía um mau defluxo, muito embora 45- se conheça como a mulher mais sábia da Europa, com um maldito baralho. Aqui, diz ela, está sua carta, o Marinheiro Fenício, que morreu afogado. (O que eram olhos ora são pérolas, olha!)
Eis Beladona, a Dama dos Recifes, 50- a dama das situações. Aqui está o homem dos três bastos, aqui a Roda[da Fortuna], e aqui está o comerciante torto, e esta carta em branco é algo que leva sôbre o dorso, que não posso ver. Não encontro 55- o Enforcado. Evite a morte por água. Vejo um tropel de gente rodando em círculo. Obrigada. Se você vir a estimadíssima senhora Equitone, diga-lhe que eu mesma lhe levarei o horóscopo: A gente tem que ser tão prevenida nêstes dias...
60- Cidade Irreal, Sob a névoa parda de um amanhecer de inverno, tal multidão fluía sôbre a Ponte de Londres, que nunca houvera eu crido ser tantos os que a morte arrebatara. Levavam tôdos os olhos cravados 65- diante dos pés e exalavam suspiros... Costa acima e logo rua King William abaixo até onde Santa Maria Woolnoth guarda as horas com um som de morte ao fim da nona badalada. Ali vi um conhecido, e o detive, chamando-lhe: “Stetson!, 70- Tu que estavas comigo nos barcos de Mylae!: Aquêle cadáver que plantaste o ano passado em teu jardim começou a germinar? Florescerá êste ano? Ou o repentino orvalho perturba seu leito? Ah, tira de perto o Cão, que é amigo dos homens, 75- que, se não, o desenterrará de novo com as unhas! Tu, hypocrite lecteur! - mon semblable, - mon frère!”
II.- UMA PARTIDA DE XADREZ
A Cadeira em que estava sentada, como um brunido trono, reluzia sôbre o mármore, onde o espêlho, suspenso por estantes lavradas de uvas frutuosas, 80- onde um Cupido dourado se assomava (outro escondia os olhos sob a asa), multiplicava as chamas dos candelabros de sete braços que refletiam sua luz à mesa, enquanto o esplendor de suas jóias, soltas em rica profusão 85- em cofres de setim, saiu a encontrá-la. Em redomas de marfim e vidro colorido, destampadas, formidavam seus raros perfumes sintéticos, ungüentos, pulverulentos, líquidos – inquietando, confundindo e afogando os sentidos em olor; movidos pelo vento 90- que soprava da janela, ascendiam nutrindo as prolongadas chamas das velas, que espargiam seus fumos pela laquearia e animavam os desenhos do artesonado teto. Enormes lenhos recolhidos da praia, em bronzeas pátinas, 95- ardiam verdes e alaranjados, em moldura de pedra multicor, e nessa triste luz nadava um delfim talhado. Sôbre a antiga chaminé, era representada a metamorfose de Filomena, pelo rei bárbaro 100-tão rudemente violentada; no entanto ali o rouxinol enchia tôdo o deserto com voz inviolável e ela ainda gritava, e ainda ecoa pelo mundo, “Tiu Tiú”, a ouvidos torpes, E outros tacões murchados pelo tempo 105-eram dispostos nas paredes; formas cintilantes sobressaíam, inclinando-se, silenciando o âmbito da alcova. Ouviu-se um passo na escada. À luz da lareira, sob a escôva, seus cabelos fulguravam em pontos flamejantes 110-incendiando-se em palavras, permanecendo logo selvagemente quietos. “Meus nervos estão agitados esta noite. Sim, descompostos. Fica comigo, fala comigo. Por que nunca falas? Fala. Em que pensas? Que pensas? O que? Nunca sei o que pensas. Pensas.”
115-Penso que estamos na ruela dos ratos onde os mortos perderam seus ossos.
“Que ruído é êsse?” O vento sob a porta. “Que ruído é esse agora? Que faz o vento?” 120- Nada, outra vez nada. “Não sabes nada? Não vês nada? Não te recordas de nada?”
Recordo 125-que o que foram seus olhos agora são pérolas. “Estás vivo ou não? Não há nada em tua cabeça?” Mas ÓÓÓÓ, que rag shakespeareariano!... Tão elegante 130-Tão inteligente “Que farei agora? Que farei?” “Me apressarei a sair tal como estou, e andarei pelas ruas “assim, de cabelo sôlto. Que faremos amanhã? “Que faremos sempre?” 135- Um banho quente às dez. E, se chove, um carro fechado às quatro. E jogaremos uma partida de xadrez, fatigando nossos olhos sem pálpebras e esperando que batam à porta.
Quando o marido de Lil foi desligado, eu disse – 140- e não comi palavras – falei-lhe sem rodeios: ARRUMA-TE POR FAVOR QUE JÁ É HORA. Agora Alberto vai regressar, embeleza-te um pouco. Êle desejará saber o que fizeste com aquêle dinheiro que te deu para tratar dos dentes. E que te deu realmente,eu estava lá. 145-Extrai-os todos, Lil, e compra uma boa dentadura, disse êle; juro que não posso ver-te cara-a-cara. Nem eu tampouco, eu disse, e pensa no pobre Alberto, serviu o exército quatro anos, quer divertir-se agora, e se não o fazes, haverá outras que o façam, disse eu. 150-Então há outras, hein? disse ela. Ou algo assim,disse eu. Então já sei a quem agradecer, disse olhando-me de cima em baixo. ARRUMA-TE POR FAVOR, QUE JÁ É HORA Se não gostaste, engole-o, eu disse. Outras gosarão do bom, se tu não podes. 155-Mas, se Alberto se for, será tua a culpa, pois houve quem te preveniu. Deves te envergonhar, disse, de parecer tão acabada. (Ela não tem mais que trinta e um anos) Não é culpa minha, disse com cara atribulada, são essas malditas pílulas que tomei para abortar. 160-(Ela já havia parido cinco, e há pouco quase morre com Jorginho.) O farmacêutico me disse que não seria nada, mas nunca voltei a ser a mesma. És verdadeira idiota, eu disse. Pois se Alberto não te deixa quieta, aí está, disse. Por que te casaste, se não querias ter filhos? 165-ARRUMA-TE POR FAVOR QUE JÁ É HORA Pois bem, aquêle domingo Alberto estava em casa, tinham presunto assado, e me convidaram para ceiar, para saborear o presuntinho quente... ARRUMA-TE POR FAVOR, QUE JÁ É HORA ARRUMA-TE POR FAVOR, QUE JÁ É HORA 170-Boa noite Bill. Boa noite Lou. Boa noite May. Boa noite. Até logo. Boa noite. Boa noite. Boa noite, senhoras, boa noite, simpáticas senhoras, boa noite boa noite.
III.- O SERMÃO DO FOGO
A tenda do rio se rompeu: os últimos dedos das folhas se agarram e se fundem ao úmido barranco. O vento cruza a planície escura, silenciosamente. As ninfas se foram. 175-Doce Tâmisa, flua suavemente, até terminar meu canto. Ao leito do rio – nem garrafas vazias nem papéis de sanduiches nem lenços de seda nem cartões nem pontas de cigarro nem outras testemunhas das noites de verão. As ninfas se foram. E seus amigos, os preguiçosos herdeiros de autoridades municipais 180-partiram sem deixar as novas direções. Às margens de Leman sentei-me e chorei... Doce Tâmisa, flua suavemente, até terminar meu canto, Doce Tâmisa, flua suavemente, pois não falarei áspera nem longamente. Porém às minhas costas ouço um vento frio 185-Estalos de ossos e risos afogados. Um rato deslizou brandamente entre os matagais arrastando a viscosa barriga pela margem enquanto eu pescava no canal obscuro, numa noite de inverno, atrás da fábrica de gás, 190-meditando sobre o naufrágio de meu irmão rei e sobre a morte anterior de meu pai rei. Brancos corpos desnudos sobre a baixa terra úmida e ossos abandonados em trapeira seca e baixa, só sacudidos pela pata dos ratões, anos e anos. 195-Porém às minhas costas de vez em quando ouço businas e autos, que levaram Sweeney na primavera até a senhora Porter. Oh! A lua fulgurava radiantemente sôbre a senhora Porter e sua filha. 200-Elas lavam os pés com água gasosa Et O ces voix d´enfants, chantant dans la coupole!
Tuit tuit tuit Iag iag iag iag iag iag tão rudemente violada 205-Tereu
Cidade Irreal Sob a névoa parda de um meio-dia invernal o senhor Eugênides, comerciante de Esmirna sem se barbear, com um bolso cheio de passas 210-C.i.f. London: documentos à vista, me convidou em bom francês demótico a almoçar no Hotel Cannon Street e a passar o weekend no Metrópole.
À hora violeta, quando os olhos e a espádua 215-carregamos do escritório, quando a máquina humana aguarda como um taxímetro que vibrando espera, eu, Tirésias, embora cego, palpitando entre duas vidas, velho, com enrugadas tetas de mulher, posso ver a hora violeta, essa hora da tarde que nos impele 220-até ao lar, e o mar devolve o marinheiro à casa, e a datilógrafa, para tomar o chá da tarde, recolhe o resto do breakfeast, acende a estufa, prepara alimentos em conserva. Fora da janela perigosamente postas a secar estão suas combinações, tocadas pelos últimos raios do sol, 225-sobre o divã (que à noite lhe serve de cama) estão amontoados meias, chinelas, calças, soutiens. Eu Tiresias, um velho de tetas enrugadas Vi a cena e predisse o resto – Eu também aguardava a esperada visita. 230-Êle, um jovem bexiguento, chega, secretário de uma agência mercantil, porte altaneiro, um desses vadios sobre quem o descaramento assenta quanto uma cartola sobre um milionário de Bradford. A hora é propícia e, como imaginou, 235-a ceia é finda, ela está aborrecida e cansada, ele trata de excitá-la com carícias indesejadas, ainda que não repelidas. Inflamado e decidido, ele a assalta em seguida; suas mãos exploradoras não encontram resistência; 240-sua vaidade não requer resposta, e até chega a acolher a indiferença. (E eu Teresias que tolerei todo o ocorrido neste mesmo divã ou leito; eu que sentei sob as muralhas de Tebas 245-e andei entre o mais profundo dos sepultos) e dá-lhe, finalmente, um beijo protetor, descendo tateando pela escada escura...
Ela se volta e olha-se no espelho, sem se turbar com a partida do amante; 250-seu cérebro consegue formular um pensamento espúrio: “Bem, assunto morto, alegro-me que tenha terminado.” Quando uma mulher formosa comete tais loucuras e se vê sozinha andando pelo quarto, alisa os cabelos com gesto automático 255-e põe um disco no gramofone.
“Esta música deslizou comigo sobre as ondas” ao longo do Strand, rua Rainha Vitoria acima. Oh! Cidade, Cidade, às vezes posso escutar perto de um bar de Lower Thames Street 260-o agradável lamento de um bandolim e o murmúrio e o vozerio que sai de dentro, onde os peixeiros descansam ao meio-dia: lá onde os muros de Magnus Mártyr irradiam inexplicável esplendor de iônica brancura e ouro.
265-O rio súa azeite e breu As lanchas derivam com inconstante maré Velas rubras 270-abertas a sotavento, enfunam sobre os mastros. As lanchas submergem toras ao desvio navegando até Greenwich 275-além da Ilha dos Cães Weialala leia Wallala leialala
Elizabeth e Leicester remando 280-A popa era dourado casco vermelho e ouro
A esteira irrequieta inundou de ondas as margens 285-O vento do sudoeste carregou água em declínio O dobre dos sinos Torres brancas Weialala leia 290- Wallala leialala
“Bondes e poeirantes árvores. Highbury me viu nascer. Richmond e Kew puseram-me a perder. Em Richmond elevei os joelhos em posição supina ao fundo da canoa estreita.”
295-“Meus pés estão em Moorgate, e meu coração sob meus pés. Depois do acontecido ele chorou. Prometeu-me “começar de novo.” Não comentei. Por que guardar rancor?”
“Sôbre Margate Sands 300-Não posso coordenar nada com nada. As unhas rôtas de mãos sujas. Minha gente humilde, que não espera nada.” 305- la la
Logo vim a Cartago
Abrasando abrasando abrasando abrasando Oh, Senhor, Tu estás me depenando Oh, Senhor, Tu me depenas
310-abrasando
IV.- MORTE POR ÁGUA
Flebas o Fenício, morto há uma quinzena, esqueceu o grito das gaivotas, e o fundo mar de levas e as ganâncias e as perdas. Uma corrente submarina 315-recolheu-lhe os ossos em sussuro. Equilibrista, percorreu as etapas de sua idade e juventude adentrando o turbilhão. Gentílico ou Judeu – oh, tu, que moves o timão e olhas ao barlavento, 320-recorda-te de Flebas, que uma vez foi belo e forte como tu.
V.- O QUE DISSE O TROVÃO
Após a luz vermelha de tochas sobre rostos suarentos após o gelado silêncio nos jardins após a agonia em lugares pétreos gritaria e choro 325-prisão e palácio e reverberação de trovão primaveril sobre distantes montes, aquêle que antes vivia já está morto nós que vivíamos antes agora estamos morrendo com um pouco de paciência
330-Aqui não há água, mas só rocha rocha e não água e no caminho arenoso a senda sobe serpenteando as montanhas que são montanhas de rocha sem água se houvesse água nos deteríamos a beber 335-entre as rochas ninguém pode parar nem meditar o suor é seco e os pés sobre a areia se só houvesse água entre as rochas montanha morta, boca de cariados dentes que não pode cuspir aqui ninguém pode parar nem encostar-se nem sentar-se 340-não há nem silêncio siquer nas montanhas senão o seco trovão estéril sem chuva não há nem solitude siquer nas montanhas senão severos rostos rubros que entre os dentes grunhem desde os umbrais de casa de terrões pisados 345- Se houvesse água
e não rocha Se houvesse rocha e também água e água 350-Um manancial Um poço entra as rochas Se só se ouvisse rumor de água não a cigarra nem a erva seca cantando 355-senão rumor de água sôbre rocha ali onde o estorninho canta entre os pinhos drip drop drip drop drop drop drop Mas não há água Quem é êsse terceiro que caminha sempre a teu lado? 360-Quando conto, somos dois, tu e eu, unidos Mas quando olho deante de mim sobre o caminho branco há sempre outra pessôa que caminha a teu lado deslizando-se em sua capa escura em carapuça Não sei se é homem ou mulher 365- - Mas quem é êsse que vai a teu lado?
Que ruído é êsse que alto vibra no ar Murmúrio de maternal lamentação Que hordas encapuçadas são essas que formigam por planícies sem fim, tropeçando por fendidas terras 370-só aneladas pelo horizonte aberto Que cidade é essa sôbre as montanhas Estalidos e reformas e explosões no ar violeta Torres que ruem Jerusalem Atenas Alexandria 375-Viena Londres Irreal!
Uma mulher soltou a longa cabeleira negra e extraiu sussurradora música ao tanger tais cordas e morcegos de caras infantis silvavam na luz violeta 380-e batiam as asas e escorregaram cabeça abaixo em lúgubre muralha E de torres inversas no ar saíam toques de sinos reminiscentes, que guardavam as horas e cântigos de cisternas vazias e poços esgotados.
385-Neste buraco podre das montanhas sob o lânguido luar, a relva canta sôbre tumbas derruídas em tôrno da capela. Ali está a capela abandonada, solitário lar do vento. Não tem janelas e a porta geme nos gonzos, 390-ossos sêcos não prejudicam ninguém. Só um galo se via no telhado cócóricó, cócórocó à luz do relâmpago. Logo, um vento úmido trazendo chuva.
395-Ganga estava submerso, e as débeis folhas aguardavam a chuva enquanto as nuvens se amontoavam à distância, sôbre Himavant. A selva se abaixa encurvada em silêncio. Então o trovão falou 400-DA Datta: que temos dado? Meu amigo, o sangue me golpeia o coração ao pensar que é pelo atrevimento de render-se que um século de prudência não saberá reparar, 405-por isso, e só por isso, é que existimos - o que não se encontrará em nossos obituários nem nas memórias tecidas pela benévolente aranha nem sob os lacres que o magro escrivão romperá em nossas alcovas vazias 410-DA Dayadhvam: ouvi a chave girar na fechadura uma vez e só uma vez. Pensamos numa chave, cada qual em sua prisão. Pensando em uma chave, cada um confirma uma prisão. 415-Somente ao anoitecer, rumores etéreos revivem por um momento um Coriolano rôto DA Damyata: O barco obedeceu alegremente, à mão afeita à vela e remo. 420-Sereno estava o mar, teu coração poderia responder alegremente ao convite, obediente, palpitando nas dextras mãos
Sentei-me na margem a pescar, tendo por trás a árida planície.
425-Devo ao menos pôr meus assuntos em dia? A Ponte de Londres aluindo aluindo aluindo Poi s´ascose nel foco che gli affina quando fiam uti chelidon – Ó andorinha andorinha Le Prince d´Aquitaine a la tour abolie 430-Folheei tais fragmentos sobre minhas ruínas Why then Ile fit you. Hieronymo´s mad againe. - Pois então vos consolo: “Jerônimo outra vez enlouqueceu...” Datta. Dayadhvam. Damyata. Shantih shantih shantih
NOTAS
Explicação preliminar: Estas notas procedem, umas da edição inglesa, e de próprio punho do autor, outras da tradução francesa de Pierre Leyris, com exegese de John Hayward, e outras, enfim, catadas de estudos publicados em jornais e revistas, e que o tradutor brasileiro procurou selecionar, seguindo o critério de as considerar conforme sua natureza oportunista: - é que inúmeros são os ensaios sôbre o poeta de FOUR QUARTETS, e trazê-los para cá, mesmo em síntese, seria desvirtuar o ofício das NOTAS de um poema, caindo em considerações a respeito do estilo, pensamento, feitura e natureza de um espírito discutidíssimo como o de Eliot. Ficou, pois, o que o “oportunismo” ditou ao caráter de TERRA DESERTA, pelo quê nos cingimos às mais incisivas considerações. Por outro lado, procuramos não distinguí-las umas das outras, salvo em casos excepcionais, apresentando-as à guisa do seguimento do poema, e indicando, no fim, uma pequena bibliografia, para o caso de pesquisa mais aprofundada.
TEMA: “O problema da história e do mecanismo do tempo é um dos grandes temas de TERRA DESERTA; ele se mescla ao desejo da salvação cósmica e individual. Jamais nenhum poema apresentou um sentido mais profundo da pressão do passado sôbre o presente e de sua existência no presente.” (H. L. Gardner) TÉCNICA: “Creio que os elementos pelos quais a música concerne mais intimamente ao poeta são o senso do ritmo e o da estrutura...O uso dos temas recorrentes é tão natural à poesia como à música. Há possibilidades prosódicas que apresentam alguma analogia com o desenvolvimento de um tema por diversos grupos de instrumentos: possibilidades de transição num poema, comparáveis aos diferentes movimentos de uma sinfonia ou de um quarteto, e possibilidades de arranjo em contraponto.” ( T.S. Eliot: THE MUSIC OF POETRY, 1942)
“Não somente o título, mas o plano e, em grande parte, o simbolismo acidental dêste poema foram sugeridos pelo livro de Miss Jessie L. Weston sôbre a lenda do Graal: “FROM RITUAL TO ROMANCE” (Cambridge). Devo-lhe tanto, em verdade, que o livro de Miss Weston elucidará as dificuldades do poema bem melhor que minhas notas...(Ib., ib.) ...”Sou igualmente devedor, de uma maneira geral, a uma outra obra de antropologia que tem profundamente influenciado nossa geração:“ O RAMO DE OURO”, e mais particularmente a contribuição dos dois volumes “ADONIS, ATIS, OSIRIS”. Tôdos aos quais estas obras são familiares reconhecerão, imediatamente, no poema certas referências aos ritos de vegetação.” (Ib.)
I.-O ENTÊRRO DOS MORTOS
Verso 1: abril, o mês do renascimento. Cf. “A VIAGEM DOS MAGOS”: “...Aquêle Nascimento foi para nós agonia amarga e dolorosa, foi como a Morte, foi nossa própria morte.” 8-10. Cenário: Munich e adjacências. 20. Cf. “Ezequiel”, II, i. 23. Cf. “Eclesiastes”, XII, V. 26. Cf. “Parsival”: “And this stone all men call the Graal... As children, the Graal doth call them, neath its shadow they wax and grow.”
(Esta pedra, tôdo mundo chama de Graal... Crianças, o Graal os chama, À sua sombra, elas germinam e crescem.)
31-34. V. “Tristan und Isolde”, I, estrofes 5-8: Fresquinho venta o Vento Em direção de sua Pátria, Minha criança irlandesa, Onde estás tu?”
42. As palavras do sentinela anunciam a Tristão que o navio de Isolda não se enxerga em nenhum lugar. Simbolisa a ausência do amor sôbre TERRA DESERTA. 47. O Marinheiro Fenício: tipo de deus da fertilidade jogado anualmente ao mar, para simbolizar a morte do verão. Utilizava-se o jogo de Tarot para predizer a subida das águas. 48. “Estas pérolas foram seus olhos”.(“A Tempestade”). 52. Comerciante torto: isto é, visto de perfil sôbre a carta a jogar. 60. Cf. Baudelaire: “Fourmillante cité, cité pleine de rêves, Où le spectre en plein jour raccroche le passant.” 63-68. Cf. “Inferno”, III, 55-57: “si lunga tratta di gente ch´io non avrei mai creduto che morte tanta n´avesne disfatta.”
São os que viveram sem louvor, sem censura, sem esperança da morte, - os infelizes que jamais viveram. A multidão é aquela matinal passageira da estrada de ferro, o pessoal que formigava na Cidade, vindo das estações suburbanas do sul do Tâmisa: homens de negócios, empregados, datilógrafos, etc. King William Street é a rua que vai do norte extremo ao coração da cidade. É uma cena londrina, típica da pressa da manhã. Os trabalhadores da Cidade devem estar em seus escritórios às 9 horas; donde a alusão ao relógio de St-Mary Woolnoth. T.S.Eliot trabalhou, por uns tempos, na Cidade, no Departamento Estrangeiro do Lloyds Bank. 68. “Um fenômeno que sempre observei.” (Eliot) 69. Cf. “Inferno”, III, 57: “Logo que distingui alguns dentre êles, vi e reconheci a sombra daquele que perpetrou, por covardia, a grande recusa”. O nome Stetson não tem significação particular: é, simplesmente, um nome típico de homem de negócios (Cf. o chapéu “Stetson”, marca americana muito usada por homens de negócios respeitáveis.). 70. Mylae, 260 a.C.: A grande vitória naval dos romanos sôbre os cartagineses, na primeira Guerra Púnica. Uma guerra comercial, (Cf. 1914-1918). Todas as guerras são uma só. 74. Cf. as lamentações de “The White Devil”, de Webster: “Oh! écarte le Chien, car cet ami de l´ homme Foullerait de ses griffes et le deterrerait!” O jardim suburbano. O Inglês e seu cachorro, seu amigável “demonio familiar”. O cão, substituindo o lobo, nesta alusão, é um exemplo frisante do uso que faz Eliot das citações, para integrar o passado no presente. A idéia sugere, portanto, que o cão, desenterrando o cadáver, pode fazer obstáculo ao renascimento, à ressurreição. 76. V. Baudelaire: prefácio de “Fleurs du Mal”.
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II.- UMA PARTIDA DE XADREZ
O contraste da vida dos grandes e a do povo sôbre uma terra estéril e desprovida de significação. Na peça de Middleton, o jôgo de xadrez cobre a sedução e o estupro. A maldição da terra no mito segue ao estupro das raparigas na côrte do Rei Pescador. Luxuria sem amor. Cf. também a “Filhas do Tâmisa”. 77. “A Cadeira em que estava sentada, como um brunido trono.” (“Antonio e Cleópatra”, II, ii, verso 190.) 92. Laquearia, V. “Eneida”, I, 726: “dependent lychni laquearibus aureis incensi, et noctem flammis funalia vincunt”.
98. Cena silvestre: V. Milton, “O paraiso perdido”, IV, 140. 99. V. Ovidio “Metamorfoses”, VI. 101. Cf. Keats: “Ode a uma Urna Grega”. 118. Cf. Webster: “Is the wind in that door still?” (O vento está sempre nesta porta?”) 126. Cf. T.S.Eliot: “The Hollow Men”: “a cabeça cheia de palha.” 128. Rag: ragtime. O mundo sincopado de após guerra, o mundo “Jazz” de 1920, inquieto, sem rumo, trepidante, fútil, nevrosado. 135. Um levantar tardio para abreviar o tédio de uma manhã vazia. E, pela tarde chuvosa, um passeio em limousine, sem direção, para matar o tempo. 138. Cf. a partida de xadrez, em “Women beware Women”, de Middleton. 140. A fórmula tradicional gritada pelos donos de bares, quando a hora de fechar se aproxima (fórmula fixada pelas leis relativas ao consumo da bebida). 144. A má dentição das classes proletárias na Inglaterra, particularmente entre os rapazes e moças, é um fato notório. Assim, os dentes postiços, posto que muito comuns e mal ajustados, são objeto de jocosidade popular. 171. Cf. “Hamlet”, IV, 5. São as patéticas palavras de despedida de Ofélia, louca, às damas da corte do rei da Dinamarca. Hamlet acusou Ofélia de ser uma prostituta, mandando-a retirar-se a um “convento” – palavra da giria que significava bordel, no tempo de Shakespeare.
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III. – O SERMÃO DO FOGO
O Tâmisa, subindo para Londres, de Richmond a Maidenhead e a Henley, é o local favorito dos excursionistas da espécie descrita nos versos 178-180: “ninfas” modernas, acompanhadas de seus galantes em cabriolets de esporte, alegres “bon-vivants” e suas marionetes louras. 175. V. o “Prothalamion”, de Spenser: “Sweet Thames, run softly, till I end my song”. 181. Cf. A Conquista da Babilonia. – Uma parte do poema foi em escrito em Lausanne, donde “Leman”. 188-191. O REI PESCADOR, ferido e impotente. Seu castelo legendário era sempre situado ao longo de um rio, ou à beirada do mar. É o FISHER KING (Rei Pescador) o símbolo central do poema “The Waste Land”. Em O REI PESCADOR EM THE WASTE LAND, Jose Escobar Faria averigua: “Segundo o romance “JOSEPH D´ARIMATHIE”, de Roberto de Boron, Pilatos teria ofertado a José de Arimatéia o cálice de que se servira Cristo na última ceia, com o qual recolheu Arimatéia o sangue vertido pelo Salvador na cruz. Mas os sacerdotes judeus lançam-no em profunda masmorra, sem alimentos, para ali morrer; Cristo, porém, após ressuscitar, leva a Arimatéia o Graal, isto é, o cálice com o próprio sangue, e apenas a presença de tais reliquias santas é o bastante para que o discipulo em segrêdo de Jesus permaneça vivo”. A seguir, depois de capturada Jerusalém, vemos Arimatéia abandonar o oriente, instalando-se em terras longínquas, e levando consigo as relíquias. Vemos depois aparecer os doze filhos de Bron ou Hebron, cunhado de Arimatéia, e, das figuras que aparecem no relato, uma personificaria Judas: o hipócrita Moyset. Continua José Escobar Faria: “Bron, que sucedera a José de Arimatéia, é o Riche Pêcheur, apelido que passa a tomar depois de confiar-lhe Arimatéia, por designação divina, os “segredos do Graal”; o peixe colhido por Bron vem a figurar ao lado do cálice nos ritos misteriosos, o peixe, que é o símbolo de Cristo, da Eucaristia e do Espírito Santo”. Há dúvida quanto a lenda de que se serviu Eliot. Assim é que Georges Buraud, em LA QUÊTE DU GRAAL DANS LA LITTÉRATURE ET L´ART MODERNES, assegura que o poeta não se tenha servido das fábulas ingênuas do ciclo de romances de Lancelot, preferindo a versão de Wolfram: “Ora, diz Escobar Faria, a versão de Wolfram, segundo os críticos, não traz propriamente um conteúdo cristão, e bem sabemos que Eliot é poeta católico. Conclui-se, pois, que o poema será alternativamente cristão e pagão (acessoriamente pagão, no sentido de mais afirmar o sentido oposto, além de uma preocupação estético-erudita).” E, “onde os ideais cristãos contracenam com o símbolo do paganismo”, seguimos com Arimatéia, que se exila em terras que hoje formam o território metropolitano dos ingleses, onde fundou o cristianismo. Lá, José de Arimatéia tomara a si o encargo de guardar as “relíquias”, entre elas o cálice contendo o sangue de Cristo, que passou mais tarde, na Idade Média, a chamar-se o Santo Graal, ou Sangreal. (V. a presença da Metrópole no poema.) Continua o ensaista: “A êsse tempo, em razão da sagrada presença, a terra era fértil, os homens felizes e havia paz.” E mais abaixo: “Morrendo Arimatéia, a guarda do Graal passou a seus herdeiros, que mantiveram uma existência pura, isenta de pecados. Mas a continuidade feliz foi quebrada, certo dia, por um dos descendentes, o Rei Pelles, também chamado, segundo versões diversas, Pellinor, Pellan, Bron, Amfortas, isto é, o REI PESCADOR, o FISHER KING. Tendo o Rei Pelles caído em pecado com uma peregrina, a lança incontinenti o feriu, tornando-o impotente. CAI ENTÃO A MALDIÇÃO SOBRE A TERRA ANTES FERTIL, QUE SE TRANSFORMA EM CAMPOS E MONTES DESOLADOS E ESTEREIS”. Termina José Escobar Faria: “Compreende-se o objetivo de Eliot, poeta católico que é – um novo ideal para o nosso tempo, em que a imagem do Graal representaria o poder mais alto, o Eterno, e a do Fisher King a maldição a pesar sôbre os homens imersos no pecado. Do que se deduz, deveriam eles, a exemplo dos cavaleiros medievais, reiniciar a DEMANDA do Graal, exilado da terra, para que a humanidade possa de novo usufruir a paz”. 191. Cf. “A Tempestade”, I, 2. 195. Cf. Marvell: “To His Coy Mistress”: “Mais j´entends toujours par derrière Le chariot ailé du temps”. 196-197. Cf. Day, “Parliament of Bees”: “A noise of horns and hunting, which shall bring Actaeon to Diana in the spring, Where all shall see her naked skin...”
(Um ruido de trombetas e de caça, que levará Actaeon até Diana na primavera, onde todos terão a pele nua...)
198-199. “Sur Madame Porter, ô la lune brille Comme elle et sa fille Se lavent les pieds dans l´eau qui pétille”. “Não conheço a origem da balada cujos versos são tirados: ela me foi enviada de Sydney, Australia” (T.S.Eliot) 200-201. O som dos cantos da cerimônia da lavagem dos pés, que precede a restauração de Amfortas (o REI PESCADOR) por Percival, e o banimento da maldição que pesava sôbre TERRA DESERTA. 201. V. Verlaine, “Parsifal”. 205. Exemplo de reintrodução de um tema. 208. Os mercadores sírios eram portadores de lendas e de mistérios antigos do Graal. Mr. Eugenides, seu equivalente moderno, é seu deplorável descendente. 212. O Cannon Street Hotel era naquêle tempo um lugar de cômoda reunião dos homens de negócios estrangeiros e seus colegas ingleses. 214-215. O “amor” estéril da civilização urbana moderna. 217. Tirésias: personagem principal do poema, de grande interêsse antropológico, conforme versos de Ovidio insertos na edição original. A êle se unem tôdos os outros, e os sexos se confundem. O que Tiresias vê é, com efeito, toda a substância do poema. 233. Bradford, centro da indústria lanígera de Yorkshire, que ganhou imensa prosperidade graças aos contratos de guerra, de 1914 a 1918. O milionário deste verso é o tipo do “aproveitador de guerra”. 252. “when lovely woman stoops to folly”(Quando uma mulher formosa comete tais loucuras)V. Goldsmith, a canção do ‘Vicar of Wakefield”. 256. “This musica crept by me upon the waters”. V. “A Tempestade”. 257-58. A Londres antiga e a atual é aqui evocada. 260. A música do bandolim se deve, indubitavelmente, a um dos “buskers”, ou musicos ambulantes, que se vêem dentro e à frente dos bares de Londres. 263. O interior de St-Magnus Martyr é, na opinião, um dos mais belos de Wren. ST-Magnus Martyr foi construído em 1676 por Sir Cristopher Wren, para substituir a igreja primitiva que o Grande Incêndio de Londres destruiu em 1666. 265. Aqui começa a canção das (três) Filhas de Tâmisa. Elas falam alternativamente do verso 291 ao 304 inclusive. 278. Greenwich foi, outrora, um Palácio Real. Elizabeth recebeu Leicester. 292. Evocando Highbury (nordeste de Londres), Richmond e Kew, o poeta não se atentou a qualquer associação pessoal; foram escolhidos tão somente por seus aspectos contrastantes; - Richmond, famoso por suas características fluviais, e Kew por seus vastos jardins botânicos. 306. V. Santo Agostinho, “Confissões”: “Estive então em Cartago, onde um caldeirão de amores impuros me encheu as orelhas com seu canto.” 307. O texto completo do “Sermão do Fogo”, de Buda, corresponde em importância ao “Sermão da Montanha”. O primeiro, donde tiramos estas palavras, se encontra em inglês in BUDDHISM AND TRANSLATION (Henry Clarke Warren). 308. Cf, ainda “Confissões”, de Santo Agostinho. A aproximação dêsses dois representantes do ascetismo oriental e ocidental, no ponto culminante desta parte do poema, não é fortuita.
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IV.- MORTE POR ÁGUA
311. Flebas, o deus afogado dos cultos da fertilidade. É também o comerciante , o mercador, Cf. “ASH-WEDNESDAY” (Quarta-feira de Cinzas)
“Although I do not hope turn again .................................. Wavering between the profit and the loss In this brief transit where the dreams cross The dreamcrossed twilight between birth and dying.”
“Se bem que não espero mais voltar ........................................... Flutuando aqui e ali entre proveito e perda Durante o breve transe onde os sonhos se cruzam: Lusco-fusco de sonhos entre o nascer e a morte.”
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V.- O QUE DISSE O TROVÃO
No início da quinta parte, usaram-se três temas: a viagem a Emaús, a marcha para a Capela Perigosa (v. o livro de Miss Weston) e o atual declínio da Europa oriental. 321. Associação de Jesus, no Jardim de Gethsêmani, com os velhos deuses enforcados da lenda. 328. Cf. “MURDER AT THE CATHEDRAL”: “Vivo e meio vivo” ( o côro das mulheres de Canterbury). 343-344. Fisionomias asiáticas (tibetanas). A cena se transporta da Palestina para a Ásia Central. 356. Estorninho, conhecido cientificamente como: “Turdus aonalaschkae pallasii”, de canto notável pela pureza e doçura incomparáveis. 358. A volta de Deus. 359. Os versos seguintes foram sugeridos por uma das expedições antárticas (uma das de Shackleton), em que os exploradores padeciam terriveis ilusões sensoriais, aludindo constantemente às suas próprias pessoas, como sendo “um a mais”, que não podiam contar. 376. Uma das “Filhas da Música” (v. “Eclesiastes”, XII) 378-383. Eliot pensa que o imagismo desta passagem lhe foi,em parte, sugerido por uma pintura da escola de Hieronimus Bosch. 385. e segs. V. “From Ritual to Romance”: A Viagem à Capela Perigosa: - um rito de iniciação. A decoração macabra da capela mítica era destinada a pôr à prova a coragem do noviço. O cemitério é associado à Capela Perigosa em certas versões da lenda do Graal. 391. O galo afugenta os espíritos maus, cf. “Hamlet”, I, e “A Tempestade”: “Gritai: cócóricó!” 395 e segs. Referência às velhas crenças arianas a respeito da fertilidade. 401. “DATTA, DAYADHVAM, DAMYATA”: dá, simpatisa, conduz. 407. Cf. Webster, “O Demônio Branco”, V, VI:
“...They´ll remarry Ere the worm piece your winding sheet, ere the spider Make a thin curtain for your epitaphs.”
(“Êles tornarão a se unir, Antes mesmo que o verme remende a mortalha, ou que a aranha teça tênue cortina e embace teu epitáfio.”)
412. Cf. “Inferno”, XXXIII, 46: “ed io sentii chiavar l´uscio di sotto all ´orribile torre.” Cf. igualmente F. H. Bradley, “Appearance and Reality”: “Minhas sensações externas não me são menos privadas que meus pensamentos ou sentimentos. Nos dois casos, minha experiência vinga dentro de minha própria circunferência, uma circunferência fechada ao exterior; e, se bem que tôdos os seus elementos sejam parecidos, cada esfera permanece opaca àqueles que a cercam...Em breve, considerado como uma “existência” que se manifesta dentro de uma alma, o mundo inteiro, para cada um, é particular e privado àquela alma.” 416. Cf. parte I: “Frisch weht der Wind”: - o momento de felicidade na vida de Tristão e Isolda. 423-424. V. Weston, “From Ritual to Romance”, o capítulo sôbre o REI PESCADOR. 426. Refrão de uma famosa e tradicional canção de ama inglesa: “London Bridge is broken down Dance over my lady lee.” 427. V. “Purgatorio”, XXVI, 148. 429. V. Gerard de Nerval: “O Desditado”. 431. V. Kyd: “Spanish Tragedy”: “Jerônimo está louco!” 433. SHANTIH, repetido como é, constitui o fim ritual de um “UPANISHAD”: a paz, que significa a compreensão, o entendimento, seria nosso equivalente para essa palavra.” Ainda 431.: “Hieronymo´s mad againe”: A frase visa sugerir que tudo isto parecerá loucura ao mundo moderno. Mas é, como no caso de Jerônimo (primeiro precursor de Hamlet), uma loucura que tem um propósito. Cf. “Hamlet”: “Há método nesta loucura”.
POST-SCRIPTUM: V. T. S. Eliot, “Thoughts after Lambeth”:
“O mundo está em curso de procurar estabelecer uma mentalidade não cristã. A experiência ecoará, mas devemos pôr em prova muita paciência, esperando tal desgraça, e resgatar, outrossim, o tempo: afim de que a Fé possa conservar-se viva através das sombrias etapas do futuro; afim de renovar e reconstituir a civilização, e de salvar o mundo do suicídio.”
O Inferno de THE WASTE LAND, com efeito, aspira a um Purgatório. Êle não é, como supõem certos críticos, um poema de desilusão.
FIM
to be continued
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