[INÁCIO ARAÚJO, in FOLHA DE 17-9-99, a propósito de “Os deuses malditos”, de Visconti: “Gilles Deleuze escreveu que ‘os objetos e os meios conquistam uma realidade material autônoma que os faz valer por si mesmos’ . Na história de uma família de industriais alemães que se afunda até o pescoço numa aventura nazista, uma almofada é tão importante quanto um massacre. Na observação de Deleuze, sobrevive do neo-realismo original, num filme dos anos 60, a idéia de que pessoas e coisas existem desde que são olhadas. Por mais que aconteçam coisas, são filmes de situação, antes de serem de ação.”] O romance abaixo,
parcial, foi desenvolvido nos primeiros anos da década de 50. A
influência de Proust é evidente. Seu conteúdo, entretanto, elocubrava no
campo de um certo misticismo (figuras criadoras vs. figuras criadas,
p.e.). A carta a Osmar Pimentel, na época junto com Álvaro Lins nossa
maior autoridade crítica de ficção, explicava-lhe a concepção e
os objetivos, após um papo pessoal e ocasional na casa de Mario Chamie.
Ela vem transcrita abaixo, após o capítulo III do romance. (ouça a entrevista com Fernando Rios, em duas partes ( cf. gav. Entrevistas), nas quais se alinhavam coisas ligadas à concepção do mesmo e à maneira de ver Poesia que o Autor tinha na época da elaboração)
(REDAÇÃO DA ÉPOCA DO INÍCIO)
DATA: Iniciado em novembro de 1952.
TÍTULO DA OBRA (“Nausaérea”, originariamente) : OS SENTIMENTOS DIDÁTICOS.
ASSUNTO DA OBRA CÍCLICA: O primeiro relato é uma espécie de conciliação proust-joyciana obedecendo à seg. deliberação: a) Primeiramente, a ação é descrita no estilo de Proust – por conseguinte: num fraseado interminável, penetrante, com profusas digressões de ordem psicológica, etc e onde o acontecimento é visto subjetivamente, isto é, através do Narrador. O início do conto já é seu próprio fim (como acontece com a vasta obra de À LA RECHERCHE DU TEMPS PERDU) e tudo que foi dito pertence a um momento passado, que preparou aquela fração de minuto por onde se desenrola o capítulo (relato). Naturalmente, tudo pode não ter sido senão a expressão de um temperamento e, portanto, uma fuga da realidade objetiva. b) Em seguida a ação é descrita no estilo de Joyce (o Joyce de ULYSSES) – POR CONSEGUINTE: num estilo sincopado o ubÍquo, cinematográfico, essencialmente objetivo, contingentemente subjetivo (monólogo interior), onde o acontecimento é visto estritamente ligado ao fato, e naquela fração de minuto por onde se desenrola : o tempo, responsável pela existência de todo o passado (e o passado, quando passa a existir, adultera o presente) é nesta parte eliminado.
A SEGUIR: II) A Tiróide e a Rosa III) Mulher de Alma Oxigenada IV) O Prazer é Todo Nosso
[NOTA DA ATUALIDADE: NOS ESCRITOS DA ÉPOCA VEM A FRASE: “QUASE TUDO MODIFICADO” ]
Finalmente, o romance entra na fase do estilo fundido, unica forma estética que encontrei para adentrar o “universo das possibilidades impossíveis”, mundo e ambientação de toda OBRA CÍCLICA, cujo ponto de partida é “A tiróide e a rosa”, e onde as coisas também vêem os homens, numa espécie de advertência mística que, se não chega a vingar, no mais das vezes, interrompe entretanto o fluxo vital, iniciando as “possibilidades evitadas”. Como consequência, liberta-se a criatura no rompimento do convencional. Aquele estranho mundo Absurdo* por onde se movimenta Mariana na parte (cap.) III (“Mulher de alma oxigenada”) da Obra Cíclica, nada mais é que uma “imageria” criada em função de sua vontade subterrânea, isto é, a de trair o marido. E aquela maneira estranha de fazê-lo, num mundo não menos estranho, de costumes inversos, de Moral inversa, onde predomina, enfim, o Absurdo, acaba sendo perfeitamente normal, pois determina seu temperamento nervoso, sua motivação absolutamente velada e satisfaz, de um modo cômodo, implericlitante, sua cabal intenção. Pois evitando, naquela tarde de extraordinária aventura e de grande pecado, encontrar-se com alguém, trai gostosamente o marido; mas não se encontrando com ninguém não é, neste mundo (que não o da novela) um perfeito exemplo de fidelidade? Ai reside o perene retrato de seu temperamento e a normalização de seu temor. 7-XII-52 * O universo da Obra Cíclica não é o do absurdo Kafkiano. Tem outra natureza e bem diversa, pelo que aconselho a classificação de suave absurdo, pois é um mero jogo de símbolos e imagens em função de pensamentos funcionais (possibilidades evitadas).
O homem absurdo de Kafka aspira, ou melhor, é consumido pela transcendência. O de Camus não transcende, antes se antepõe ao de Kafka pelo mito de Sisifo: A pedra, em termos simbólicos, o aguilhoa ao mundo concreto. É o absurdo sem esperança. O homem absurdo de NAUSAÉREA, como o título do universo sugere, é o absurdo por consequência de uma fuga para as regiões da distração: e aqui podemos falar de distraidismo, em nausaérismo (a verificação de tal fenômeno produz essa espécie de naúsea das alturas). F.M. 17-7-53 *
****** Os Sentimentos Didáticos ( primeiro nome: “Palimpsesto”.) I Teplan! A porta, dando com a cara nos umbrais, soltou um grito amarelecido misturado a uma dessas atitudes vingativas que só as coisas inanimadas possuem, quando nos olham na expressão estática de seu inconformismo natural, para depois exigirem de nós uma atitude de compaixão por sua inexplicável paralisia – o que se dá logo após metermos o joelho ou o cotovelo numa quina de mesa e com o sangue no terceiro andar desandamos a socá-la irrefreadamente, para, em seguida, pararmos estúpidos a sentir a dor que recrudesce e multiplica – deslocou uma baforada de ar que revoluteou pela sala toda, impregnando tudo daquele perfume de carne fresca misturado a talco, loção e viço. Seguiu-se a tudo um silêncio entrecortado pela presença de pequenas coisas deslocadas – tapetes, papeizinhos em espiral, toalha de mesa se franzindo pelo peso aparente do braço de algum conviva provinciano assustado – e que por sinal nos visitara há tanto tempo, quando a minha mãe, adotando a mesma atitude por causa de rusgazinha doméstica, saiu arrastando a porta consigo, deixando atrás do mesmíssimo “teplan!”, não o perfume vermelho, esparramado, contrabandista de sensualidade como o de Mariana naquele momento, mas um misto de asseio e suór, anacarado e triste – o que contribuiu para que eu, de minha posição passiva, achasse mais petulante aquela manifestação de histeria da rapariga, por uns segundos vaidosa e desprezível em seu manto de perfume espúrio... Coisa que me foi dado pensar talvez pelo enjôo que me provocaram as excessivas exalações, pois Mariana, em seus 7 dias de casada, era um modelo, se não de fidelidade ( o que também absolutamente não nego, por não suspeitar do contrário ) pelo menos de simpatia. Há bem 2 horas antes, quando o ascensorista lhe veio trazer o cartão do marido que dizia: - QUERIDA, PASSAREI A NOITE EM VIAGEM; EXPLICO O MOTIVO AMANHÃ. BEIJOS DO FELÔNIO, isso desenhado numa letra em que não se sabia o que mais admirar = se a visível pressa com que foi escrito ou se o traço bruxoleante e vago, acusando uma virilidade afetada no esforço que fazia para fechar os “o” ( o que deu a Mariana um arrepio que temo não ter sido provocado pelo vento da manhã ) e que lhe fez quase perder a linha e esquecer-se de que estava diante de um estranho ) – há bem 1 hora antes, foi ela quem [ na margem: 4-11-52 e, sob tal data: 5-11-52 ] saiu de sua posição de intocabilidade própria das recém-casadas, dirigindo ao rapazola um olhar que, escorregando pelo nariz, forçou a boca num sorriso melífluo, parecendo dizer: “- Ora, não se impressione! Fique à vontade!” E tal foi a força que imprimiu aos lábios, que me pareceu ter desconsertado mais aquele que, minutos antes, entorpecido pela timidez trazida pelo pensamento de que violava um princípio de inoportunidade, mas ao mesmo tempo maravilhado pelo antegozo de ver de perto uma figura que iria ou não corresponder à idéia que fazia das virgens abaladas, prenunciava o seu aparecimento no toque da campainha: Mariana acabava de se empoar, admirando no espelho os belos seios protuberantes que despontavam de um colo de rara maciez, e ensaiando uma pose que possibilitasse a reconstituição de um passado remoto e que ela só vivera na imaginação: o tempo das conquistas audaciosas do romance de capa e espada, quando se via, naquela petrificação fogosa das Venus provocantes, postada em altas sacadas, à espera de que lhe viessem arrebatar à força e sob o olhar que acusava o reflexo de uma lua onde as crateras ainda eram São Jorge. Diante de tais pensamentos, mexia-se defronte do espelho, fabricando gestos, modulando atitudes, dosando olhares, umidecendo os grandes lábios carnudos e sonhando, na motilidade interior dos maxilares ( esse gesto instintivo de que somos tomados quando caracterizamos: - senhores, a Nação”...(LINCOLN) ou “hum! hum” (NAPOLEÃO) , ou então quando borramos a figura grotesca da última festa ) – sonhando ser uma Messalina que, se correspondesse ao estado de agregação da lua de mel e que ela reputa vergonhosa, entretanto fosse estranhar a todos pela atitude de relutância extraordinária com que precedia a entrega.[ na margem: 5-11-52 e, sob tal data: 7-11-52, nada. Logo a serguir, anotado: 26-2-53 ] Assim, acabou vendo, num lugar que se situava além da face morena do espelho, longe do jogo de luzes mornas que emprestam à nossa figura projetada o aspecto de soturna dependência, um amontoado de linhas que acabava por delinear a presença do marido, primeiro em forma de sorriso, depois encabulado, em seguida com ares de uma espécie de paternidade degenerada: - a linha da testa se diluindo numa ruga que lhe estravasava a face até a base do malar, a arcada superciliar encerrando cinco ou seis olhares em gaza, somo suportes ogivais daqueles tempos remotos que, sob o signo de explêndidas cruzes, entranhavam um mundo de sortilégio, sensualidade e arrepios, numa atmosfera que não se sabe ao que mais convida: se à genealogia do pedreiro, amontoando pedra em cima de pedra, em meio de ufas! e inconsciências remoídas, ou se à vontade de nos desintegrarmos no hino que parece residir nos encontros que determinam tal perspectiva ou naquele olhar de anjo que pespegam os olhos perversos das catedrais. E perduraria tal idéia, até um séc. de contemplação mais que divagação, se não viesse despertá-la o toque, a princípio surdo, logo se alongando num timbre que denunciava uma campainha apertada de leve, levíssimo, por fim [ na margem: 27-2-53 ] repinicada num grande anseio de coragem. Quem seria? Seria F.? Impossível. De fato sou bela. Saiu não faz 2 horas.Quem sai somente há 2 horas... A beleza vai aderir à 1ª tentativa de fuga sem adesão. Porisso ela também adere ao primeiro arrepio que lhe bate às costas; não: mais abaixo, torneando a cintura, até se perder numa região que até agora ela não conseguiu localizar: não soube dizer ao certo se nas imediações indevassáveis do umbigo ou no prolongamento do cocix, esse lugar etéreo onde se acabam os arrepios e que convidam a idéia à idéia de outros convites. Mas um sorriso bem calibrado ela soube repor na face do espelho justo onde outra boca lhe endereçava outro sorriso. Uma associação desse sentimento à imagem que ele representa – ou a retribuição simultânea de tal fato – foi o bastante para que se evaporasse a figura de F., agora mais terna que distante, e Mariana tivesse a consciência de que estava só... – O que lhe valeu por um paradoxo, pois se na rua lhe acontecesse transtornar a fisionomia por causa de um mínimo atraso do sorriso contrário ( eu provocava... Hoje, seria desumano... Mas que dá uma tentação, dá!... Ainda mais agora: assim. Não: assim, assssiiim, fffff, com o busto assssiiim) – aí então é que ela se dividia no meio da multidão, sentindo a pressão de todos, a boca de todos, ou a gargalhada que podia explodir de onde ensaiasse uma boca a forma de sorriso. Entretanto, entre o primeiro toque da campainha – ( como já disse, levíssimo) e o segundo ( que denotava empreendimento e audácia ) a nossa recém-casada se entregou gostosamente a um emaranhado de sensações que, se tivessem cheiro ( o olfato é a melhor visão ), recenderiam a esses jardins de Espanha, mas bem longe de Espanha: aqui, dentro dessa moldura, na fotografia que lhes empresta alma. Foi pendendo o corpo, no encosto da banquetinha sem encosto, que ela pôde saborear um F. longe de sua configuração original. O nariz, arrogante, arrebitado, mas que arrogante, desde o primeiro dia de casado lhe cheirava os cabelos, como se eu não tivesse outra coisa pra cheirar! o estúpido! – deixava de ser arrogante, formado no espelho pela perspectiva brusca que só se sente nos ares das catedrais batidas pelos séculos, ( não pelo tempo, mas pelo espaço, pois uma catedral moderna não avançou no tempo e sim retrocede no espaço, retrocedendo o limite, conduzindo a Beleza à origem, sob a forma de síntese ) – aquele nariz bem que podia lhe cheirar outras partes do corpo, ou simplesmente não cheirar, como agora, no espelho. A boca, entretanto, abrindo-se desmesuradamente, numa confissão babosa, ondulante, muda, perdia o ar que lhe depunha F. na realidade, adquirindo ângulos de uma formidável indiscrição. Mariana chegou até a sentí-la mais arrogante que o nariz e, pondo de lado a idéia de associar o marido a catedrais, [ na margem: 2-3-53 ] desviou por segundos o olhar do espelho, que de fascinante passava a obcessão [ sic ], arqueou o corpo para frente e, não sem fechar o colo, até então alvo de uma grande agitação, foi cerrar as portinholas de uma catedral em miniatura que parecia fincada na superfície direita do pixixê: em planície habitada, ou antes inabitada, por grampos que se assemelhavam a seres fulminados pela simples estrutura daquele bloco irremediável. Para isso bastou se reduzirem os mortos às pernas, unicamente ( pois estas bastam às estruturas) e Mariana – agora compenetrada, de uma forma semi-inconsciente, de que cedia, desde que se sentara, à força da miniatura e só a isso – vendo aqueles grampos, que do cabelo (maldito nariz) [ jaziam, ou algo parecido ] em volta da catedral, pernaltas e teimosos em sua morte – sentiu um estremeção e divagou, desordenada: quantas vezes ela também não sucumbira à estrutura! Agora, de modo indireto, chegava à fatal conclusão, em que oscilou a vida toda, de que era isso, não há dúvida: a estrutura! Pecado, mulher, o marido, os homens, conceito de família, religião, semi-sentiu: estrutura! Aquele peso aniquilador das catedrais, quando nelas entrava, provinha da estrutura, essa forma bestial unindo pedras que separadas ( ah! separação ), ela aguentaria sem o menor esforço de adesão. Gostava de F., por exemplo, quando este lhe vinha e oferecia um sorriso que ela vira, em criança, na fisionomia daquele tio, cuja atração reconfortante se esvaia [ esvaía [?] ] à medida que se aproximasse p/ beijar a menina, n’um cheiro encardido, não sabia se da barba, e azedo, não sabia se dos olhos, tão estranhos e marcos de uma fase a que chegariam todos os olhos um certo dia, mas que eram de pronto repelidos à simples idéia disso, fazendo o tio levar da menina a impressão de certa rebeldia histérica ( oh, que idiota era ele em pensar assim!), mas que se consertaria com os anos.[ na margem: 3-3-53 ] Ou então aquele acento de presença, embora roufenha, [ há um pingo/acento no u, parecendo um vocábulo inexistente: vocifenha, vorifenha ] com que o marido modulava a voz, em contraste com a distância, perpétua, fatal, hodienda nos olhos: uma distância que, se a punha à vontade, entretanto lhe incutia um prazer de pairar além dos limites de uma certa responsabilidade, a que chamarei: gótica, do casamento, mas que só a aturdia depois de sua recuperação real. [ na margem: 4-3-53 ] Agora, por exemplo: Nem ela saberá discernir onde termina a surpresa e começa o cansaço, que não é tédio nem exaustão, mas simples familiaridade, mais delegada que instintiva, que parece dar-lhe ânimo para agir dentro de uma individualidade crescente, justo ( mas é absurdo! ) onde perdura o anseio de agregação, a vontade de se dividir, querendo apalpar o mundo que a apalpa, querendo arrepiar o silêncio que a arrepia, querendo ser sedosa como a combinação [ peignoir ] que a excita, querendo ser masculina como essa falha, essa imperfeição da imaginação, que truncava as coisas pela metade: querendo isso, querendo ser aquilo, querendo querendo, que-ren-do, assim, nesse tom de êxtase, hipnótico, aterrador, sensualidade. De súbito, Mariana virou invasão em si mesma, se bastou, comemorou com grande azáfama. Estúrdia. Adiós. Té loguinho, tetéia. Grande besta! Mariana saiu do espelho, chamou o marido, trouxe ele até a porta do quarto, lhe disse: - Agora você me carrega e me põe aqui dentro, deitada nos braços, igualzinho naquela fita do Gary [sic] Grant ( e não me pise no vestido! ), mas igualzinho , senão vou chamar o leiteiro. E ele me põe. - A idéia do leiteiro aterrou o marido. E ele não conhecia o leiteiro. Que não andaria fazendo sua mulher, que já reverenciava o leiteiro. Deve ser assim: - É aquele, de cabelo repartido no meio? - Ah, então você conhece? Não. Mas imagina. Sujeito forte, atleta, que agrada mulher, deve ter cabelo repartido no meio. Grande besta. Té loguinho, hein! Onde vou? Passear. - “Não!” E lá vinha o acento rouco mas palpável, eletrizando, lhe provocando um arrepio diferente. Mas o olhar, inexercido, parando lá naquele puto de lugar maldito, era um desafio. E ela aceitou. Na frente, nas barbas ( nas fuças desse peste!), nas barbas do marido ( Ingrata ), alí, atual, com ares de um cotidiano horrendo, ( eu não queria dizer fuça...) deu uma gargalhada que o fez estremecer, e jurar que nunca, em nenhum planeta, pudesse existir uma gargalhada naquele ritmo, crueldade pura, ritmo pelo ritmo, mas sem a cadência sensitiva, -- saindo de uma boca de vinte e poucos anos. Ficou estático. E sem olhar, ou melhor, procurando enterrar ainda mais o olhar, de uma forma que saissem pela nuca afora, e fossem acolhidos por umas pálpebras que ele não tinha e desesperadamente procurava cerrar, F. se abstraiu e deixou de assistir à seguinte cena: [ na margem: 5-3-53 ] ( A narrativa, interrompida em 5/3/53, foi continuada em 23/4/53, após um período de cansaço físico que provo ao escrever, chegando quase à extenuação total. A ação, já elaborada mentalmente, com todas as variações que sofrerá até o término de seu curso, ainda longínquo, foi retomada nessa última data: veja página seguinte ) [ Esses dois períodos entre parêntese são de época e estão na ordem da escrita ]
Estavam os dois numa grande festa, rodeados de gente por todos os lados, suprimidos como uma ilha, assim, infantilmente. F., naquela despreocupação que, apesar de natural, denunciava uma inquietação de sensaboria, ia na frente como um sonâmbulo, abrindo caminho num mar de cotovelos. Como se não bastasse um supremo aviso de um sussurro de enterro, ambientando-os implacavelmente naquela atmosfera de anisedade popular, saltavam-lhe à frente os olhares de espectros dos santos fabulosos: aqui o Santo Antônio empalidecendo numa atitude servil que, bem considerada, entremostrava o símbolo de seus fluidos intervencionistas; mais adiante, o São Sebastião, enfático na dor, resumindo obscuridade, bem menos exotérico nos lábios que na flecha entrepartida; e mais adiante o crucifixo, num esforço de afasto, delegando toda a impertinência aos pregos, de onde pendia um Cristo aquiescendo naquele contraponto de masoquismo e desarticulação mental. Mariana era mesmo a fatal concentração. Aqueles cinco minutos somente, entre os quais segui-se o préstito, borrado de ladaínhas íntimas ou de suspiros de velhas gaiteras [ sic ] ,as palavras rituais, depois um seguimento pelo corredor no fim do qual as desincumbências da primeira fase davam lugar aos empreendimentos onde a Santa Economia imperava ( pois econômicos são os casais nos abraços, tanto como no jogo de olhares, dispersados estes pela premência dos pensamentos que afastam qualquer idéia de aconchego das massas afluentes) – aqueles cinco minutos foram cinco séculos. Mariana [ na margem: 27-IV ] sentia cócegas. No pudor. Não chegou a notar a presença do marido, que casava o ar aéreo ao esplendor da fisionomia esfumaçada. Entre um aperto de mão e uma profecia inoportuna, espoliados ambos, limitavam-se a trocar um e outro sorriso ou a se cotucarem furtivamente. O que mais a importunava era se ajeitar à idéia de que a enorme multidão focalizava as atenções na considerável abstração de F. Quando lhe veio por trás um velhote, bambo, os olhinhos trêmulos mas de mão viril e lhe cotucou o homoplata, desejando-lhe boa sorte, respondeu-lhe, com cara de menino cujo sexo não bem se delimitara: - leve-a. Mariana nada fez senão oscilar entre os dois extremos de uma situação horripilante. Porque no íntimo nunca se conformou com a enorme diferença de idade que os diferenciava. Quando o viu pela primeira vez, guardou dele a sensação elástica de um afago que lhe saia das mãos de seda como uma rede envolvendo-a de arrepios esburacados. Isso mesmo, foi como uma rede de arrepios. Ficou entusiasmadíssima em contacto com uma coisa ( podia chamar-lhe coisa ) a que desde [ na margem: 25-IV-53 ] logo aderiu sem saber onde residia definitivamente a fascinação. Agora, entretanto, também se valeu de uma sensação estranha [ na margem: 19-V-53 ], um outro ser como os que vira em suas noites de “imemorial desleixo”, que nela se traduz pelo despertar do sexo em situação de povoado. Mais tarde, acidentalmente, ficarão nítidos os acontecimentos daquela fase, e os pormenores de Serrinha, a cidade-fábula da Paraíba do Norte. Lá, onde o sexo se acomoda à economia, e esta extrai daquele as possibilidades ( fatais, às vezes ) de um temperamento infra-temporal, subterrâneo [ na margem : 20-V-53 ] e onde o goso dos grandes momentos vive em função do que o sexo oposto tem de reacionário ou, simplesmente, contemplativo. Todavia, tanto em Serrinha ( já vão longe seus quinze anos ) como na Igreja da Consolação, foi preciso que o velhote de mão trêmula e compleição bamba provocasse no marido um leve transtorno da fisionomia, raramente intranquila, constituindo-lhe marco da personalidade: Aquele – “leve-a”, tão temperamental, bastou para que naquela mesma noite explodisse o fenômeno de rara consequência: enquanto Mariana, após um começo de pileque, descaía, pendular e eriçada, num mundo de cortinas e frestas aventadas, esvoaçante no leito, F. se dirigiu ao banheiro, de onde saiu envolto num roupão de listras horizontais. Trazia no gesto certa onda de serenidade, nas feições uma sagacidade sutilmente velada, apenas perceptivel para um observador arguto e que tentasse quebar a cadeia de toda aquela absoluta virilidade, por si só um meio de postergar a afetividade. [ está riscado “postergação de uma afetividade apressada”] Quando surgiu aos olhos de Mariana, esta não pôde conter um “oh”, também inaudível, e trêfega, saindo do espelho, puxou o marido para perto de si, e poetisando tudo, degenerando tudo, apresentou-lhe o velhote da cerimônia. O desgraçado do velho é maçante mesmo. Cretino. Decrépito. Mas tem alguma coisa de um tempo que é um pouco meu. Será que foi em sonho? Mas eu já me vi assim. Sou eu naquela – não tem dúvida – situação horrorosa, meu Deus, em que me vi falido dos homens... e das coisas...Sem ter realizado nada. Só. Na porta da igreja. Que destino mais filho da. Não, isso ele nunca seria. Mas, porque será que ela me “amarra” [ não sei se escrevi “amassa” ] assim? Porque será que foi ter essa idéia filha da ( isso ela nunca seria ) de trazer esse desgraçado para dentro do quarto? Porque será que ela. Ou será que não? Agora: veja. Ou não? Esses olhos, Mariana. Ou será que foram sempre assim? ( Não se olha assim para uma moça indefesa, não. Então ele não devia saber que a gente nessas situações é sempre uma mulher... como dizia o Tio...”muito sem jeito, pois” ? Agora. Outra vez: De súbito, no baque surdo, na consciência fabulosa da situação, tão horripilante quanto embriagadora, F. se pendurou no cabide, e veio ter com ela o guapo roupão de listras horizontais. E, à medida que a foi envolvendo, descortinando-lhe o horizonte que a tragou, irremediável, sedutoramente, não pôde evitar o grito enorme, guérrico, que se transformou em gargalhada mais gritante: porque na hora do choro remoído, a gargalhada soa como desencontro de potências; o que vale dizer: pouca bola, muita farófa, pra banda do Norte. E ria, ria, ria, e ele não compreendia que, por cima, como uma múmia amorosa, lhe apertava as costelas, provocando cócegas. Ah! Ah! Ah! E ele tinha ficado preso no cabide. Ah! Ah! Ah! O roupão. O maravilhoso roupão. Que podia ter dentro 2 ou 3 figuras de um album de de políticos. Do Norte. Ou do Sul. Oh, como fora infeliz em beber justo naquela noite!... Instintivamente, ao som da campainha, a visão do marido se precipita verticalmente, em direção ascensional. [ na margem: 17-7-53 ] Mariana atravessa, rápida, a sala. Deixa um pedaço de recordação pendurado neste meu retrato, procurando evitar-me o olhar. Mas o perfume vermelho, esparramado, contrabandista de sensualidade, perdura na insistência de uma consideração que, certamente, exorbita da calma rapariga. Durante essas divagações, o ascensorista deu 2 ou 3 vezes à campainha e, quando ia desistir, Mariana abre a porta. Podia ter dito: bom dia! Mas diante de uma figura que entra balançando, mas num bambolêio opaco, [ palavra seguinte ininteligível: parece escrito extunvando ] o mundo inteiro, a gente tem vontade de dizer: bom sempre! bons futuros! E fica-se sem saber que ralho de coisa [ na margem: 20.7.53 ] exquisita está virando o mundo: essa gente não se define mais! - Bom dia, dona. ... não se define mais, mas se eu ficar mais 1 minuto olhando pra ele assim, acaba se desmontando. - ... dia, dona. Sou o ascensorista do prédio. A senhora já deve ter me visto. Ou será que não me viu? Vivo sempre imaginando, mas que coisa exquisita! ... se desmontando. Vai lá um sorriso, coitado. - Ah, bom dia... ... exquisita. Ah! graças a Deus o negócio já vai melhorando. - Eu trouxe aqui um cartãozinho do seu marido: me deixou hoje cedo, pediu que eu entregasse à senhora, lá para as 9 horas... ... sorriso, coitado. ---------- !!! ... vai melhorando, pediu que eu entregasse agora; na certa, Deus me livre, lá vou dizer isso!, na certa para não acordar a senhora; podia dizer. Que há de mal nisso? - An. Do meu marido? ... !!! Que será?! Tréco. - É sim senhora. [ na margem: 21.7.53 ] ... de mal nisso? “É sim senhora”! – Ah, Gardênia, você morreu na pele, somente na pele! E que mal há em se ficar sem pele? Podia dar um soluço, do tamanho do mundo, mas ninguém notaria, Gardênia! Oh, meu Deus, o pior é que ninguém notaria, pois v. foi sozinha, Gardênia... aquele enterro, Gardênia... eu não fui... ninguém foi... mas, na mesma tarde, perguntando a duas flores, duas heroínas cruzando na beira do túmulo, ... me disseram que v. baixou à terra com aquela mania tola de deixar lembrança... [ na margem: 24/8/53 ] Aquela insistência, que v. tinha, Gardênia, em se tornar presente... Aquilo era ingenuidade, não tem dúvida... mas, pra outro ingênuo, como v. me chamava, aquilo surtia um grande efeito, Gardênia... Mas também não precisa aquela mania, de se sentar na sala, que v. fazia questão de feichar [ sic ] quase inteira, só deixando uma penumbra sufocante, e depois, quando eu me distraia por causa do nosso silêncio, e da nossa distância ( era questão apenas de 2 sofazinhos, meu Deus ), você saia na ponta dos pés e ficava no limiar da porta; e ficava agitando a ponta do vestido; e até que numa hora o puxava inteiramente; e ficava sussurrando atrás da porta. Até hoje não sei se você fazia aquilo de calor ou de vergonha... Oh, meu Deus, que vontade de ficar louco, quando penso que apesar de tudo, eu a via inteira, completa, com os joelhos muito juntos... onde só havia cadeira... E então v. era outra... mais alegre... mais irrequieta... até que sua mãe ( Ah! meu Deus, como me fazem mal os mártires ) aparecia e lhe dava um tranco q. me doia, Gardênia, oh era triste era triste era triste. - O senhor quer entrar? Mariana rescendia inquietação. Sepélio levou a mão à boca, afim de prender todos os sentimentos que o derreavam. A nossa recém-casada se abismou em verificar aquele melancólico fenômeno de ajuste, preciso, irremediável, entre o maneirismo do ascensorista e seu toque de campainha. Por um minuto ficaram sem falar; e, no meio daquela estática calcárea, como dois trogloditas a se contemplarem, longe do mundo, anacronizando todos os móveis, , que adquiriam feições agressivas, somente os unia uma espécie de “vontade de planície”: tiveram ímpetos de arrebentar tudo, de sairem se repelindo, fazendo perguntas que escoassem pelo infinito, mas que absolutamente não tivessem resposta. O que poderia ser fatal. - Está muito bem. Obrigada. Meu marido só deixou isso? O cartão. Se ele pudesse, daria uma olhadela no cartão. Tinha certeza de que aquele cartãozinho trazia alguma coisa de consternador. O modo pelo qual o marido o entregou, e se referiu à mulher, como se se tratasse de um inventário para ser entregue a um morto ( uma coisa do outro mundo, meu Deus, esquisito. Ou será o cansaço de tanta coisa que me tem acontecido?), depois a fisionomia da recém casada, alí, a dois passos dele, que lhe lembrava Gardênia, tinha certeza de que havia mais alguma coisa além “disso”. Agrega, num contrapêso trabalhado: - Só isso, dona. Agora, se a senhora me dá licença, já vou indo. - À vontade. Muito obrigada. Estendeu-lhe a mão. Dois segundos depois, ao contacto morno, diabólico, Sepélio mergulhava num Inferno que só lhe proporcionava uma estranha delícia, e exaustiva. Por um instante, teve vergonha de se aproveitar de um oferecimento inanimado daquele natureza, e não sabia onde enfiar os olhos. Estava que era um puro lascivo beijando um espectro proibido. Mariana reagia de modo perspicaz e não menos deliciada, mas de uma delícia diferente, celestial, acolhedora, com os instintos azulados. Aquela mãozinha afilada, que apertava um aperto inédito, para fora, e os lábios estranhamente unidos, formulando um perdão maquinal, pelo desabuso de uma descoberta que parecia importantíssima, lhe despertaram todas as ternuras cabíveis de imaginar. E pela posição que as acomodava, podia-se ver que eram ternuras amorais, mas nunca imorais, melancolia do sexo, que se extingue num momento, de maneira quase brutal, deixando atrás de si um vago de improfanável despedida. Sepélio puxou a mão com suavidade. Imediatamente desaparecia pela porta afora. [ na margem: 30/10/53 ] No corredor,ficou pendendoo entre as duas portas, a do apartamento e a do elevador, ainda meio combalido. Por fim, nada mais achando como pretexto de tornar a entrar, e incriminando-se pelo fenômeno, que já vinha se tornando habitual, de se “largar” infungivelmente a toda espécie de novidade, decidiu-se pela do elevador. Durante todo o encontro, acabrunhador, terrificante, experimentava debalde aquela angélica recorrência a esse sentimento que o tomou, enquanto apertava o botão: esse chamado de ancestralidade, trazido por tanto recalque diante das novidades da vida, ou antes pela incapacidade de discernir entre a natureza das novidades – a de não se perpetuar – e o seu próprio temperamento – alérgico a todo passado: a capacidade de aceitar tudo como um verdadeiro homem. Mas o nosso rapazola, embora portador de tamanha sensibilidade, nunca chegou a sentí-la em termos de nitidez: diante das pessoas com que tratava, acontecia exatamente o que vimos em seu contacto com Mariana. Reagia com tamanho desespero, que, ao invés de se libertar ( ou talvez por manifestar sua liberdade ), acabava se aniquilando. Se ele pudesse daria a vida de, pelo menos, mostrar a tôdos que essa fisionomia transtornada era antes uma fraqueza, não era falta de entendimento, meu Deus. Esse elevador não vem. Eu então sacrificaria tôda minha existência para decifrar o enigma dessa escolha: justo êle, meu Deus, justo com seus pálidos, bambos, doentios dezenove anos , acumulava tanta coisa insuportável. Será que quebrou alguma peça? Ó inferno de vida. Gardênia. Ó santas bondades, tôdos os espíritos do céu, reunidos, o livrassem dessa lembrança. Mas isso era sina. O que adianta arrebentar esse botão, apertar tanto? Até isso já aceito, como sou um sujeito bom, um santo. Interessante. Ainda não havia pensado em como trato tôdo mundo muito bem, com bondade. Será que tôdos eles me vêm com a exclamação – “Mas é fantástico! Estou para ver alma generosa como a de Sepélio?” Isso lhe dá aparência até de homem maduro, de supremo entendedor dos homens de tôdas as mentalidades. E seu aspecto? Pode alguém compreender que, por trás de uma configuração quase infantil, raivosamente tímida, existe um sujeito que, pelo simples olhar, é capaz de aparar o sofrimento de qualquer indivíduo, mesmo o mais gratuito? [na margem 31/10/53] Ele já vira , no livro de um poeta moderno, o sentimento que vem provando na mais ingênua antiguidade: “Perdôo, remanescentemente, a batida de todos os corações que sinto num só peito”. Parecia poeta. Ah; parece que vem vindo! 2, 3...4... Mas esse aspecto pueril ele bem que pode consertar com certo meneio de cabeça. Levanta-a. Auto-esculpe-se. 5...6... A moleza dos olhos, êle também pode fazer desaparecer. Que tal se lhes desse ares de certa crueldade? Fixa-os num ponto além de qualquer espaço. Logra o efeito da crueldade pela cumplicidade da distância. 7...8...9... Mas não adianta. E a bôca? E o nariz? Como iria modificar o nariz? Abrindo as narinas, nêssa fôrça interior? 10...11... Experimenta. Interessante, como começava a existir dentro dêle tôda a pessôa de seu tio Natálio. Era horrível, meu Deus, como é que a gente pode sentir-se outro, repuxando o nariz. Experimenta, sem definir, a sensação de que cada repuxo traz a provocação de determinada memória, acabando por não se conseguir livrar do tio Natalio...12...13... Faz um leve bico, na ponta dos lábios, já ressequidos de tanto esfôrço; e à medida que vai dilatando as narinas a ponto de não mais suportá-las, percebe o quanto deve ser grotesco o contraste daquele narigão empinado, empertigado, intolerante do tio com seus lábios humildes, quase lamuriantes. 14... A visão do elevador veio arrancá-lo dessa região tão fatigante do pensamento, e só então Sepélio aventou a possibilidade de estar sendo espreitado, e até gosado. Um leve rubor lhe subiu pela face enquanto fez um movimento de pêndulo com a cabeça, examinando o corredor. A velha do 155 lá estava, no fundo, balançando duas toalhas mas espanando-se a si mesma de tão gorda estava. Do outro lado vinha um ruído de vozes surdas, quase atordoantes, uma gritaria apocalíptica de crianças. Tudo muito estranho, como crianças (eram crianças, não havia dúvidas) como crianças conseguiam imprimir naquela lamentação penetrante um sentido de catarse horrível, de mau agouro! Ouvia-se bem longe uma vozinha anti-natural, anunciando o fim do mundo, que tudo ia acabar, no meio da algazarra, mais avivada pelo toque de um tamborzinho de lata. Mas, no meio de todo acontecimento, o que mais aniquilava era um fenômeno de intolerância, de sobrepujança infantil que se fazia notar por parte de uma voz que só poderia ter saído de algum menino pálido, delgado, na certa com duas olheiras extravagantes: era uma voz que se impunha, reduzindo a barulheira a um estado de senilidade, onde se percebiam as inconsistentes crianças numa condição de velhice, anarquisando, irracionalizando as próprias pausas, criaturas de uma grande liberdade encadeada, circular, pondo um sentido de ociosidade em tôdas as coisas. Tudo se passou, entretanto, num tempo insignificante, quase inclassificável. Uma hora, teve-se a impressão de que uma porta se abriu, atrás do corredor, saindo dela uma mulher alta (notava-se pelo passo) e que mal chegou às imediações da criançada, volveu tôda embrulhada num grito não menos apocalíptico, logo se abafando num cubículo qualquer. Imediatamente, antes que Sepélio pudesse abrir sequer a porta do ascensor, arrebentou dos fundos um alarme de dor, azulado, e ele sentiu aquela angústia remota que tinha provado na tarde em que se desesperava por querer se esgotar, desaparecer naquela farândula horrível, mas prazerosa e inacessível: saboreava por detrás da vidraça, maldizendo a dor de garganta, com o maldito azul de metileno na garganta, revirando o estômago. Agora era a mesmíssima sensação; até o grito, penetrante, arrepiava num acesso azulado, no delíquio que sufocava.. Quando se “atualizou”; tornou a ouvir os passos da mulher alta, apenas mais agitados, porém compensados pelos de alguém, que deveria ser seu marido. No meio da balbúrdia, que já se tornava insustentável, percebeu que a mulher se abandonava a uma crise de choro. E ainda o marido compensando: êle pôde distinguir seu chamado paciente, advertindo na certa o filho, numa tonalidade de voz que evidentemente se ia arrefecendo diante da algazarra já quase tétrica resvalando pelo sentimental, pois havia naquilo tudo uma nota de sentimento, como se a criançada obedecesse a uma reviravolta lúdica de todos os instintos, embora extenuadíssimos. A mulher aumentava o grito, caindo na histeria, o marido perdia a fala, deixando-se dominar, o fim do mundo se construindo, entre pequenas anunciações, tais como: -“Este é o meu!”, ou – “Eu vou pra outro planeta”, ou então –“Morre o meu avô, que só tosse!”. Tudo muito rápido, mas num lapso suficiente para que Sepélio pudesse se abandonar a uma espécie de tragédia de vizinhança, e esquecesse seus próprios problemas. Ao entrar no elevador, ainda pôde ouvir o casal, clamando pelo filho (e aqui ele teve um sentimento de revolta) e as últimas palavras deste último: - Pode acabar o mundo mãe... Pode acabar pai... Eu não ligo... Eu é que estou perseguindo... E um barulho demonstrativo de sua agressividade quase santa. Sepélio tocou para o térreo. Estava visivelmente perturbado, e procurou dissimular o máximo, inventando uma fisionomia de bem estar, que viesse de uma plena inatividade. A engrenagem do elevador o ajudava: era só apertar o botãozinho do térreo (aperta-o) estaria no térreo – TLIM. E se encontrou no térreo. Entrou um rapagão espadaúdo, pediu pelo 15. Inferno, teria que voltar para o quinze. [ Na margem: Enxertar algum pensamento a respeito do rapagão]. O rapagão não entende muito de intranquilidade, é excessivamente saudável: não percebe absolutamente qualquer sinal de contragosto, e torna a pedir naturalíssimo, como se já não o tivesse feito: - Quinze, façoavôr. Tinha uns belos olhos oblíquos, o nariz entre anguloso e curvo. Trajava um terno excessivamente justo,evidenciando o formato atlético cuja presença já se fazia notar, entretanto, no maneirismno dos braços – inclinados para trás - e na postura das pernas: uma ereta, apoiando o corpo, a outra levemente sôlta, um pouco mais pra frente, formando um ângulo aparatoso, nessa posição típica de mulher em sociedade. Entre um andar e outro, não esboçou mínimo movimento nem tampouco percebia a agitação de Sepélio, mexendo peças, apertando botões, procurando “representar” a mínima interferência que fôsse, em algo que, a qualquer vista, era de natureza estável e mecanicamente orgulhosa. Se êle tivesse quarenta anos, como seu pai, por exemplo, mesmo que tivesse necessidade vital daquêle ordenado, acharia ridículas as próprias paredes de um hotel que, possuindo elevadores automáticos, empregava ascensoristas. Tinha certeza de que seu pai, com aquêle jeito [na margem 2-11-53] de pairar altivamente por sôbre tôdos os abismos, mesmo sabendo que se afunda, encontraria um modo de explodir sua revolta, que não era de orgulho, mas antes de humildade; uma humildade cega, talvez demasiadamente áspera, de quem é demasiadamente bom para se disciplinar à miséria. Sepélio, entretanto, com seus dezenove anos sobrecarregados de tanta exasperação delegada, conseguira se enformar nêsse recipiente de grande tensão, embora ultimamente viesse provando os calores de certa fermentação. Qualquer dia transbordava, queimaria alguém. O sinal lhe indicou o décimo quinto, e êle abriu a porta incontinente. O rapagão desceu como extrangeiro e foi saboroso o ato pelo qual se diluiu todo aquêle aspecto de trasmontano: engatilhou um flébil – obrigado – que destoou de tal forma com o físico poderoso, que Sepélio teve vontade de lhe dar um tranco que o fizesse rolar escadaria abaixo. Mas o erro foi ter transbordado a vontade nos olhinhos insignificantes. O espadaúdo se recuperou, ato mediato, com um simples olhar, e efetivo: quando Sepélio se “atualizou”, já estava a meio caminho, mastigando o luminoso do sinal, que descia metabolicamente: 7...6...5...4...3...Ó Gardênia...2...não pode viver sem Gardênia...1...Ela era a presença...Até no vácuo ela aparecia...Ele era passivo, Gardênia...Térreo.Tlim. No décimo quinto reinava um silêncio de morte, e talvez por isso havia uma quebra tremenda de perspectiva. Para o teto, subia uma rampa de cimento sem corrimão, abruptamente desviada pela curva helicoidal de gradilhado amarelo, acompanhando a escada. Duas ou três janelinhas de pombo coavam uma luz gordurosa, que vergava todas as portas, de maneira que, detrás de uma convexidade agressiva, se divisassem os sinais de uma vida comedida, normal, até vulgar. Quem por ali passasse, sem observar daquêle angulo longínquo, é claro, sentiria as emanações de um diálogo sem entraves, convidativo mesmo, mas ostensivamente maléfico: visto de longe, entretanto, por quem sai do elevador e em determinada hora da manhã, exercia tal poder de deturpação visual, que era raro transeunte que não lhe apertasse a campainha a titulo de verificar se havia ou não correspondência entre a “fachada” e seus inquilinos. O número de –“Ó, me desculpe, foi engano!” era assustador. Naquêle dia, no entanto, o que estranhava era a impossibilidade com que o rapagão espadaúdo, tirando um cartão do bolso, atravessou o corredor, sem dar por qualquer nota de particularidade: deu dois passos para a direita, examinou a numeração, volveu-se, atravessou o enorme corredor, incorporando-se à perspectiva. A medida que se perdia na distância ganhava um volume todo especial, pela lepidez com que seu andar alegre ia esmagando os espaços destinados a um respeito pressagioso: passasse alguém por ali, descobriria todo o fenômeno da perspectiva moderna. Evidentemente, por ali caminhava um ser destituído de qualquer sentimento místico: notava-se-lhe num passo a alegria (e fincava o pé com fôrça), no outro a coragem – e dava ao côrpo um balanço de homenzarrão distraído, a quem a menor concentração pesarosa (nêste caso um tique de solidariedade humana) provocaria uma náusea de lhe virar o avêsso. E o avesso é-lhe insondável. Nasceu para a euforia. Joga com braços. Não vê escuridão. Balança as cadeiras. Não respeita a reflexão da treva: - por aqui pode ter buraco. Alarga-se, deixando um sulco brutal.. Num minuto, tudo deixou de ter espaço. Há volume e mais volume, o homem do séc. XX, transformando-se já em homem póstumo. E o nosso rapagão consegue, quase no fim do corredor, transmudar a rampa em braços voluptuosos, aceitando as résteas de luz coada nos olhos onde brilha uma pletora sem inteligência, atlética.[na margem:por gostar de todas as coisas. vulgar. absurdo]Então, antes de bater à porta, imprime automático, ares de grande humanização às coisas que o rodeiam. Aí está o colarinho. Enfia-lhe o dedo, faz a volta, como se não tivesse emenda. E foi aprumando o nó da gravata que apertou a campainha. Nem procura ouvir o toque, que vem logo para fora; não estabelece a menor relação. Examina a porta com uma seriedade estupidíssima. Quem a abriu, pode dizer, com a maior propriedade: “- Olá, senhor Vulgar! Então é o senhor? Como vai?” Ele não se importará. Agora já está tornando um pouco, impaciente. Torna a tocar. Dzzziiiinnfff. Começa a notar qualquer anormalidade. Então pensa alguma coisa. Em seguida, levantando o braço, com muita leveza, imprime novo toque, meio desanimado. Agora, se alguém o visse, o acharia reduzido às verdadeiras proporções: não mais havia quebra de perspectiva, pois vinha não se sabe de onde, uma luz mais forte, que o envolveu, esclarecendo-lhe o semblante, agora de sofredor. Então esse alguém o acharia normal, muito normal. E simpático. E fraco. Dzzziiinnfff. [ na margem 3/11/53] Dzzziiinff. A campainha veio surpreender Mariana na posição em que à haviamos deixado: pouco tempo se passou entre a saída de Sepélio e o chamado do rapagão. A nossa recém-casada permanecia na saleta de espera, com o cartão do marido entre as mãos enraivecidas, o mesmo ar de incredulidade: apenas a fisionomia um pouco gasta pela situação, que ela forçava por gosar até as últimas conseqüências. Quando a surpreendemos de novo, abrindo a porta, pudemos, com certa facilidade, perceber-lhe uma grande modificação no semblante, que descia pelo porte, dando-lhe ares de um certo esgotamento, e desenhando-lhe a figura de modo que a mesma pessôa, que a tivesse visto um minuto atrás, lhe estendesse as mãos, sem intuito de proteção: ver-se-ia invadida por um desejo fabuloso de apalpar-lhe aquela postura viciosa, que lhe ia bem. Entretanto, durante todos esses acontecimentos, seu pensamento transitou entre o marido e o cartão, sem que isso lhe tirasse o prazer de saborear aquêle encontro tão sensual quanto fortuito, e passageiro. Entre um toque e outro, ela tentou se recompor, assentando o vestido, ainda com o cartãozinho entre os dedos. Se custou a abrir, foi menos pela possibilidade de uma exploração visual, quase infantil mas atraente, que pela impossibilidade de dar com o marido numa posição de ilegalidade: nêsse caso, modificado, rejuvenescido e que se entregasse, como o fez o ascensorista. Mariana umideceu os labios, caminhou até a mesa, deixou lá o cartão, finalmente abriu a porta. Aqui a necessidade nos obriga a afastarmos e a deixá-la com o rapagão espadaúdo, sem que no entanto não os possamos apreciar à distância. Se conseguirmos deduzir de seus gestos algo de que falam, haveremos logrado uma possível descoberta, que a natureza de meu ponto de vista impede de perscrutar. É que me sinto envolvido pela verdura com que fui plasmado: êsse mesmo instinto vegetal, que me presenteia uma visão escorregada da vida que nos envolve por fora, me impede que discorra sôbre algo que, mesmo que se desenvolva às minhas vistas, me escapa ao ouvido, ou ao tacto visual, cuja aproximação somente se subentende. É necessário que esclareça que êsse que vos fala com tanto dinamismo é forçado a fazê-lo por sua condição de figura impressionista. Quando, no comêço do relato, me referi ao perfume da rapariga, aludindo à “minha posição passiva”, esqueci-me de dizer que a observava de um retrato impressionista. O fato em si se excusa de justificação, pois com o correr da narrativa já se deve ter percebido o quanto há de arbitrário no modo com que conduzo a ação, em sua maior parte indiferente ao meu pensamento ou à minha vontade. Ignoro o mais grosso do que ficou enunciado. Os que tiveram a curiosidade de estudar a arte impressionista desprezarão o que ora se vai assentando a título de esclarecimento de um incidente que pertence à história. Há bem uns vinte e cinco anos, por volta de 1925, passou por nossa casa um pintor faminto que, à custa de uma insistência, que nos desnorteou a tôdos, se propôs fazer o retrato da família. Era um belo rapaz, um tanto gordo, mas de uma gordura interior, que vasava nos olhos portadores da maior amizade que me foi dado contemplar. Ofereceu-se para ficar como nosso hóspede durante quinze dias, no fim dos quais nos entregaria a obra que seria o repositório de tôda uma geração, e onde se exporiam tôdas as virtudes de nossa “egrégia família”, e se esconderiam também as “tarinhas”, que êle fazia questão de acentuar entre duas gargalhadas úmidas, quase murchas e já irremediavelmente familiares. [na margem 4-11-53] Pois, passados cinco ou seis dias, sem que déssemos por isso, o nosso bom pintor se incorporara aos nossos sentimentos de tal maneira que nem siquer cuidávamos do resultado de tôdas aquelas pôses: durante a manhã, defronte à fachada esbatida de nossa casa, a obrigação do bloco vinha tirar meus pais do trabalho, para reunír-nos a todos numa disposição pictórica (quê êle construia e modificava alternadamente) onde pela primeira vez nossos reais sentimentos de pais para filhos e vice-versa se podiam intercalar por um elo de ternura inédita, celeste, abafante, intrusa. Começou por modificar a disposição dos móveis; alegando que tal cadeira embargava a afeição do velho ou que aquêle castiçal excitava a complacência da velha, etc. Em seguida, passando do interior para o exterior, sugeriu a meu pai mandasse reunir tôdos os parentes que morassem em São Paulo; idéia imediatamente cumprida pelo “velho” naquêle domingo inesquecível. Joaquim (era como se chamava o pintor) – Joaquim mesmo fez questão de os convencer. Foi admirável o ato pelo qual, alçando os braços maravilhosamente torneados, e atraindo os parentes naquela imantação das narinas espatuladas na base, êle conseguiu conciliá-los. Mas Joaquim não ficou nisso. Afogueou-se tôdo e fez reunir a visinhança. Para êsses, usou de outro atrativo: correu casa por casa, explicou-lhe o motivo de “uma estatística para a posteridade” e, quando alguém não entendia, arrastava com êle, abraçando-o, injetando-lhe duas ou três gargalhadas bilabiais e muito estranhas. E muito tristes. Todos os dias, durante largo espaço, o bairro desfilava perplexo diante de nosso casa, o que desgostava – superficialmente, embora – a meu pai, fazendo-o não dirigir a palavra a Joaquim por algumas horas. O que se desfazia como por encanto, naquêle caso como por desencanto, pois Joaquim, ignorando a quase multidão perplexa do bairro, abandonava sua distância e, com o pincel e paleta na mão, percorria figura por figura, ajeitava uma, afastava outra, repuxava o chápeu de um tio, para chegar enfim diante de meu pai. Então ficava-lhe olhando o nariz como que artisticamente admirado, mas numa seriedade quase funérea, o que fazia o “velho” abandonar a mágua, à custa do tremendo enigma daquêle empreendimento, infundido na hora... Nos fim dos quinze dias, a obra ficou pronta. É certo que talvez não se vissem logrados tôdos os esforços com que foi trabalhada, e não se pode falar em decepção. Acontece que o nosso bom Joaquim nos envolveu numa atmosfera que talvez não encontre similar em tôda a história do Impressionismo, percorrendo de Manet a Renoir, Manzel a Zandomeneghi. A inocência, direi: a pureza de sua arte desprezou o sentido de profundidade que caracteriza o Salão, de Manzel {“Cenas de Baile”, de Manzel}: aquela profundidade que é bem a maneira histórica do movimento, que dispunha os seres numa escala hierárquica, a cada grupo correspondendo tal ou qual motivo, encadeados tôdos num decrescendo de esnobismo; uma relação humana onde os mais imaculáveis seres se colocavam à distância, no fim do quadro, numa feitura pessimista, cuja a seriedade berrava em contacto com a tamanha pasticitade ( porque não dizer ? ) linfática. No nosso caso, fomos plasmados numa mesma superfície. Ali estava a família, e a visinhança, vestidas de meio-tons, numa intimidade primitiva, envolvendo-nos numa auréola que baixava até aos pés. Aqui, se desvendam os segrêdos mais obscuros de determinada pessoa. Acolá surpreendia aquela outra, num movimento de que não a julgávamos capaz, e onde se revelava, embora veladamente. Os pormenores dessa obra que não tenho receio de classificar como majestosa e misteriosamente sábia, serão estudados em seu lugar oportuno: é o único documento que nos resta para reconstituir quase uma sociedade e sua época, onde alguns elementos nos serão preciosos, porventura vitais. Por ora, devo dizer que seu principal enigma reside no fato de que se situa entre o eufemismo arrepiado de todo aquêle mundo interior de Seurat e a virilidade irresponsável de Manzel. Ali figura eternamente minha alma de vinte e poucos anos, numa expressão que traz, no encarceramento da côr, a graduação de minha liberdade diante de todos os eventos ulteriores, até atingir os nossos dias. Quando me casei, há sete dias dei o quadro a Mariana. Ela procurou em vão reconhecer-me. Colocou-o em cima da camiseira, mas logo no segundo dia, impressionada com todo aquêle mundo a nos espreitar no quarto, mudou-o para esta pequena cômoda, onde me encontro. Ah, feliz e ao mesmo tempo cruel Joaquim, que percebeu que só um impressionismo fora de época (1925) seria capaz de oferecer um universo onde os seres se confundissem entre si, e também entre as coisas! Um universo artístico com relação às tendências subterrâneas e aéreas da vida. Que acabasse, enfim, com o microcosmo. Que eliminasse o macrocosmo. Feliz e terrivel Joaquim boas saudades o guardem, sábio criador do mesocrosmo, essa maravilha que, [ 111 de s.m.ra., dist. os vei. de cond..] 1onge de ser moralizadora, distingüe os veículos de conduta.. Pois só assim posso compreender o que se passa, sem me modificar, e compreendendo-me. E ao bater da porta, confundir-me com outras vozes, conduzir as ações, representar o Romancista, que se vai desligando periodicamente do narrador do quadro, aproveitando a natureza das situações como essa, que durante êsse pequeno tempo foi engendrando outras: Mariana falava com o rapagão, abanando muito a cabeça, deixando-o quase estonteado. Êste replicava a princípio articulando uma interjeição, logo mais anuindo nos olhos, inexpressivos invariavelmente, apesar de belos e esverdeados, e por fim aparando as frases no corpanzil que chamava o sexo oposto à luta, mas exclusivamente à luta. Ao cabo de certo instante, maquinou dois passos em sentido de volta, em movimento de quem quer avançar para algo de que se entedia por prevenção. Dá ao corpo um balanço de quem impõe uma retirada necessária para fortificar a esperança de um novo encontro. Afinal se despedem. A nossa recém-casada bateu a porta e se enfiou no quarto.[na margem 6-11-53] Pela primeira vez, desde que se casara, sentiu necessidade do marido, do amparo que representaria em tal momento. Foi daí que a figura de Felônio foi ganhando corpo numa estruturação que passava da complacência semi-doentia a um sentido de presença onde ela chegou a sentir-lhe o nariz mais arrebitado, em nada sensuais. Oh, como ela o desejaria agora no quarto, mesmo que o visse enfiado num pijama bem pálido, sem listras, que lhe caisse melhor e o ajudasse, naquele andar jungido e quase ordenado – as pernas pra frente, as duas pernas pra trás – a passar entre os móveis. Vai até o pixexê, passa uma lixa nas unhas. Oh, como ela daria a vida ( bate três vezes na boca) para acontecer um milagre que modificasse aquilo de toda noite: ou Felônio viesse andando entre os móveis, esbarrando-se, deslocando a cadeira, tropeçando-se no criado-mudo, se confundisse, ou abandonasse aquêle jeito enigmatico de empreender a caminhada, que era simples e curta. Era horrível aquilo tudo. Como era odiento vê-lo sair do banheiro ( fazia fôrça para encurtar o pescoço, enterrar mais a cabeça, enrubescendo), atravessar a sala (aqui, sempre numa cadência melancolica, de contrafeição), depois adentrar o quarto ( e quase nunca a olhava como se era de exigir, apesar de tudo) imprimindo uma enorme expectativa no resultado daquêle passo, que subentendia um zig-zague, algum choque, uma contusão! Uma contusão que não se realizaria, e fortemente esmaecida naquêles ares de segurança, que era antes de tudo a mescla do sorriso (nada além de uma boca curva) com o gesto de enfiar ao mesmo tempo as duas mãos nos bolsos do paletó do pijama, olhando-a como que a uma irmã, uma irmã!, e que ainda lhe desagradasse. As caricias, depois de tudo, as caricias, apesar de tudo, não assentavam bem, apesar de que, as caricias, e Mariana sentia falta de caricias. E uns leves prenúncios de fome do almôço, que já tardava, apesar de cedo.
II A PRIMEIRA VÉSPERA
Antes de
prosseguirmos na série de acontecimentos dêsse mesmo dia, necessário é
dizermos umas tantas palavras a respeito de Felônio e do movel que o
levou a redigir aquele tão vago e enigmático cartão à mulher.
Feitas essas
considerações a respeito do ambiente em que se criou Felônio, podemos
ver bem claro a origem de seu temperamento desconfiado e mesmo de seu
olhar distante, inexercido, que desgostava Mariana, mas que lhe é bem a
única maneira de evitar uma realidade aniquiladora, mesmo quando
imaginada. Entretanto, voltemos à narrativa: |