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ROMANCE

 

[INÁCIO ARAÚJO, in FOLHA DE 17-9-99, a propósito de “Os deuses malditos”, de Visconti: “Gilles Deleuze escreveu que ‘os objetos e os meios conquistam uma realidade material autônoma que os faz valer por si mesmos’ . Na história de uma família de industriais alemães que se afunda até o pescoço numa aventura nazista, uma almofada é tão importante quanto um massacre. Na observação de Deleuze, sobrevive do neo-realismo original, num filme dos anos 60, a idéia de que pessoas e coisas existem desde que são olhadas. Por mais que aconteçam coisas, são filmes de situação, antes de serem de ação.”]

O romance abaixo, parcial, foi desenvolvido nos primeiros anos da década de 50. A influência de Proust é evidente. Seu conteúdo, entretanto, elocubrava no campo de um certo misticismo (figuras criadoras vs. figuras criadas, p.e.). A carta a Osmar Pimentel, na época junto com Álvaro Lins nossa maior autoridade crítica de ficção, explicava-lhe a concepção e os objetivos, após um papo pessoal e ocasional na casa de Mario Chamie. Ela vem transcrita abaixo, após o capítulo III do romance.
 

(ouça a entrevista com Fernando Rios, em duas partes ( cf. gav. Entrevistas), nas quais se alinhavam coisas ligadas à concepção do mesmo e à maneira de ver Poesia que o Autor tinha na época da elaboração)

 

(REDAÇÃO DA ÉPOCA DO INÍCIO)

 

DATA: Iniciado em novembro de 1952.

 

TÍTULO DA OBRA (“Nausaérea”, originariamente) : OS SENTIMENTOS DIDÁTICOS.

 

ASSUNTO DA OBRA CÍCLICA: O primeiro relato é uma espécie de conciliação proust-joyciana obedecendo à seg. deliberação:

a) Primeiramente, a ação é descrita no estilo de Proust – por conseguinte: num fraseado interminável, penetrante, com profusas digressões de ordem psicológica, etc e onde o acontecimento é visto subjetivamente, isto é, através do Narrador. O início do conto já é seu próprio fim (como acontece com a vasta obra de À LA RECHERCHE DU TEMPS PERDU) e tudo que foi dito pertence a um momento passado, que preparou aquela fração de minuto por onde se desenrola o capítulo (relato). Naturalmente, tudo pode não ter sido senão a expressão de um temperamento e, portanto, uma fuga da realidade objetiva.

b) Em seguida a ação é descrita no estilo de Joyce (o Joyce de ULYSSES) – POR CONSEGUINTE: num estilo sincopado o ubÍquo, cinematográfico, essencialmente objetivo, contingentemente subjetivo (monólogo interior), onde o acontecimento é visto estritamente ligado ao fato, e naquela fração de minuto por onde se desenrola : o tempo, responsável pela existência de todo o passado (e o passado, quando passa a existir, adultera o presente) é nesta parte eliminado.

 

A SEGUIR: II) A Tiróide e a Rosa

                   III) Mulher de Alma Oxigenada

                   IV) O Prazer é Todo Nosso

 

 

[NOTA DA ATUALIDADE: NOS ESCRITOS DA ÉPOCA VEM A FRASE: “QUASE TUDO MODIFICADO” ]

 

Finalmente, o romance entra na fase do estilo fundido, unica forma estética que encontrei para adentrar o “universo das possibilidades impossíveis”, mundo e ambientação de toda OBRA CÍCLICA, cujo ponto de partida é “A tiróide e a rosa”, e onde as coisas também vêem os homens, numa espécie de advertência mística que, se não chega a vingar, no mais das vezes, interrompe entretanto o fluxo vital, iniciando as “possibilidades evitadas”. Como consequência,  liberta-se a criatura no rompimento do convencional. Aquele estranho mundo Absurdo* por onde se movimenta Mariana na parte (cap.) III (“Mulher de alma oxigenada”) da Obra Cíclica, nada mais é que uma “imageria” criada em função de sua vontade subterrânea, isto é, a de trair o marido. E aquela maneira estranha de fazê-lo, num mundo não menos estranho, de costumes inversos, de Moral inversa, onde predomina, enfim, o Absurdo, acaba sendo perfeitamente normal, pois determina seu temperamento nervoso, sua motivação absolutamente velada e satisfaz, de um modo cômodo, implericlitante, sua cabal intenção. Pois evitando, naquela tarde de extraordinária aventura e de grande pecado, encontrar-se com alguém, trai gostosamente o marido; mas não se encontrando com ninguém não é, neste mundo (que não o da novela) um perfeito exemplo de fidelidade?

Ai reside o perene retrato de seu temperamento e a normalização de seu temor. 7-XII-52

 * O universo da Obra Cíclica não é o do absurdo Kafkiano. Tem outra natureza e bem diversa, pelo que aconselho a classificação de suave absurdo, pois é um mero jogo de símbolos e imagens em função de pensamentos funcionais (possibilidades evitadas).

 


 

O homem absurdo de Kafka aspira, ou melhor, é consumido pela transcendência. O de Camus não transcende, antes se antepõe ao de Kafka pelo mito de Sisifo: A pedra, em termos simbólicos, o aguilhoa ao mundo concreto. É o absurdo sem esperança.

O homem absurdo de NAUSAÉREA, como o título do universo sugere, é o absurdo por consequência de uma fuga para as regiões da distração: e aqui podemos falar de distraidismo, em nausaérismo (a verificação de tal fenômeno produz essa espécie de naúsea das alturas). F.M. 17-7-53

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            Afora  o aspecto da chatice que é ler todo aquele entrecho que se desfragmenta, vai para o passado, volta, entra num fisiologismo descritivo,  fisionomias escaneadas..., câmaras-lentas durante o enredo, enfim, não estava nada explicado ao leitor ( v., agora, o Site, introdução ao Romance, quais minhas pretensões juvenís de esticar o enredo)  ( disse uma vez que meu livro, na época o Romance só, era como se escrito num elástico esticado: você soltava as duas pontas, ele condensava reduzia / encolhia tudo aquilo num indecifrável borrão/ponto/sei lá o quê. Era uma estética que veio a ser adotada, na déc. de 50 pelo Nouveau Roman. Mas quase ninguém reconheceu, excetuando Mário Chamie, Raduan Nassar, Modesto Carone, Hamilton Trevisan, Décio de Almeida Prado, então professor da Escola de Arte Dramática ( e diretor do Suplemento Literário d´ “O Estado de S. Paulo”) onde apresentei um capítulo em concurso para uma das 15 vagas. Classifiquei-me numa delas, com Ondina Ferreira, Caio Caiuby, Hernani Donato, José Renato, Gilda de Mello e Souza, Jorge Andrade, Patrícia Galvão (Pagu), meados de 1952, tinha eu 21 anos , fogem-me alguns nomes, talvez por  eclipse do prestígio.

 

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 Os Sentimentos Didáticos ( primeiro nome: “Palimpsesto”.)

                                                           I

                        Teplan!

                        A porta, dando com a cara nos umbrais, soltou um grito amarelecido misturado a uma dessas atitudes vingativas que só as coisas inanimadas possuem, quando nos olham na expressão estática de seu inconformismo natural, para depois exigirem de nós uma atitude de compaixão por sua inexplicável paralisia – o que se dá logo após metermos o joelho ou o cotovelo numa quina de mesa e com o sangue no terceiro andar desandamos a socá-la irrefreadamente, para, em seguida,  pararmos estúpidos a sentir a dor que recrudesce e multiplica – deslocou uma baforada de ar que revoluteou pela sala toda, impregnando tudo daquele perfume de carne fresca misturado a talco, loção e viço.

                        Seguiu-se a tudo um silêncio entrecortado pela presença de pequenas coisas deslocadas – tapetes, papeizinhos em espiral, toalha de mesa se franzindo pelo peso aparente do braço de algum conviva provinciano assustado – e que por sinal nos visitara há tanto tempo, quando a minha mãe, adotando a mesma atitude por causa de rusgazinha doméstica, saiu arrastando a porta consigo, deixando atrás do mesmíssimo “teplan!”, não o perfume vermelho, esparramado, contrabandista de sensualidade como o de Mariana naquele momento, mas um misto de asseio e suór, anacarado e triste – o que contribuiu para que eu, de minha posição passiva, achasse mais petulante aquela manifestação de histeria da rapariga, por uns segundos vaidosa e desprezível em seu manto de perfume espúrio... Coisa que me foi dado pensar talvez pelo enjôo que me provocaram as excessivas exalações, pois Mariana, em seus 7 dias de casada, era um modelo, se não de fidelidade ( o que também absolutamente não nego, por não suspeitar do contrário ) pelo menos de simpatia. Há bem 2 horas antes, quando o ascensorista lhe veio trazer o cartão do marido que dizia: - QUERIDA, PASSAREI A NOITE EM VIAGEM; EXPLICO O MOTIVO AMANHÃ. BEIJOS DO FELÔNIO, isso desenhado numa letra em que não se sabia o que mais admirar = se a visível pressa com que foi escrito ou se o traço bruxoleante e vago, acusando uma virilidade afetada no esforço que fazia para fechar os “o” ( o que deu a Mariana um arrepio que temo não ter sido provocado pelo vento da manhã ) e que lhe fez quase perder a linha e esquecer-se de que estava diante de um estranho ) – há bem 1 hora antes, foi ela quem [ na margem: 4-11-52 e, sob tal data: 5-11-52 ] saiu de sua posição de intocabilidade própria das recém-casadas, dirigindo ao rapazola um olhar que, escorregando pelo nariz, forçou a boca num sorriso melífluo, parecendo dizer: “- Ora, não se impressione! Fique à vontade!” E tal foi a força que imprimiu aos lábios, que me pareceu ter desconsertado mais aquele que, minutos antes, entorpecido pela timidez trazida pelo pensamento de que violava um princípio de inoportunidade, mas ao mesmo tempo maravilhado pelo antegozo de ver de perto uma figura que iria ou não corresponder à idéia que fazia das virgens abaladas, prenunciava o seu aparecimento no toque da campainha: Mariana acabava de se empoar, admirando no espelho os belos seios protuberantes que despontavam de um colo de rara maciez, e ensaiando uma pose que possibilitasse a reconstituição de um passado remoto e que ela só vivera na imaginação: o tempo das conquistas audaciosas do romance de capa e espada, quando se via, naquela petrificação fogosa das Venus provocantes, postada em altas sacadas, à espera de que lhe viessem arrebatar à força e sob o olhar que acusava o reflexo de uma lua onde as crateras ainda eram São Jorge. Diante de tais pensamentos, mexia-se defronte do espelho, fabricando gestos, modulando atitudes, dosando olhares, umidecendo os grandes lábios carnudos e sonhando, na motilidade interior dos maxilares ( esse gesto instintivo de que somos tomados quando caracterizamos: - senhores, a Nação”...(LINCOLN) ou “hum! hum” (NAPOLEÃO) , ou então quando borramos a figura grotesca da última festa ) – sonhando ser uma Messalina que, se correspondesse ao estado de agregação da lua de mel e que ela reputa vergonhosa, entretanto fosse estranhar a todos pela atitude de relutância extraordinária com que precedia a entrega.[ na margem: 5-11-52 e, sob tal data: 7-11-52, nada. Logo a serguir, anotado: 26-2-53 ] Assim, acabou vendo, num lugar que se situava além da face morena do espelho, longe do jogo de luzes mornas que emprestam à nossa figura projetada o aspecto de soturna dependência, um amontoado de linhas que acabava por delinear a presença do marido, primeiro em forma de sorriso, depois encabulado, em seguida com ares de uma espécie de paternidade degenerada: - a linha da testa se diluindo numa ruga que lhe estravasava a face até a base do malar, a arcada superciliar encerrando cinco ou seis olhares em gaza, somo suportes ogivais daqueles tempos remotos que, sob o signo de explêndidas cruzes, entranhavam um mundo de sortilégio, sensualidade e arrepios, numa atmosfera que não se sabe ao que mais convida: se à genealogia do pedreiro, amontoando pedra em cima de pedra, em meio de ufas! e inconsciências remoídas, ou se à vontade de nos desintegrarmos no hino que parece residir  nos encontros que determinam tal perspectiva ou naquele olhar de anjo que pespegam os olhos perversos das catedrais. E perduraria tal idéia, até um séc. de contemplação mais que divagação, se não viesse despertá-la o toque, a princípio surdo, logo se alongando num timbre que denunciava uma campainha apertada de leve, levíssimo, por fim [ na margem: 27-2-53 ] repinicada  num grande anseio de coragem. Quem seria? Seria F.? Impossível. De fato sou bela. Saiu não faz 2 horas.Quem sai somente há 2 horas... A beleza vai aderir à 1ª tentativa de fuga sem adesão. Porisso ela também adere ao primeiro arrepio que lhe bate às costas; não: mais abaixo, torneando a cintura, até se perder numa região que até agora ela não conseguiu localizar: não soube dizer ao certo se nas imediações indevassáveis do umbigo ou no prolongamento do cocix, esse lugar etéreo onde se acabam os arrepios e que convidam a idéia à idéia de outros convites. Mas um sorriso bem calibrado ela soube repor na face do espelho justo onde outra boca lhe endereçava outro sorriso. Uma associação desse sentimento à imagem que ele representa – ou a retribuição simultânea de tal fato – foi o bastante para que se evaporasse a figura de F., agora mais terna que distante, e Mariana tivesse a consciência de que estava só... – O que lhe valeu por um paradoxo, pois se na rua lhe acontecesse transtornar a fisionomia por causa de um mínimo atraso do sorriso contrário ( eu provocava... Hoje, seria desumano... Mas que dá uma tentação, dá!... Ainda mais agora: assim. Não: assim, assssiiim, fffff, com o busto assssiiim) – aí então é que ela se dividia no meio da multidão, sentindo a pressão de todos, a boca de todos, ou a gargalhada que podia explodir de onde ensaiasse uma boca a forma de sorriso. Entretanto, entre o primeiro toque da campainha – ( como já disse, levíssimo) e o segundo ( que denotava empreendimento e audácia ) a nossa recém-casada se entregou gostosamente a um emaranhado de sensações que, se tivessem cheiro ( o olfato é a melhor visão ), recenderiam a esses jardins de Espanha, mas bem longe de Espanha: aqui, dentro dessa moldura, na fotografia que lhes empresta alma. Foi pendendo o corpo, no encosto da banquetinha sem encosto, que ela pôde saborear um F. longe de sua configuração original. O nariz, arrogante, arrebitado, mas que arrogante, desde o primeiro dia de casado lhe cheirava os cabelos, como se eu não tivesse outra coisa pra cheirar! o estúpido! – deixava de ser arrogante, formado no espelho pela  perspectiva brusca que só se sente nos ares das catedrais batidas pelos séculos, ( não pelo tempo, mas pelo espaço, pois uma catedral moderna não avançou no tempo e sim retrocede no espaço, retrocedendo o limite, conduzindo a Beleza à origem, sob a forma de síntese ) – aquele nariz bem que podia lhe cheirar outras partes do corpo, ou simplesmente não cheirar, como agora, no espelho. A boca, entretanto, abrindo-se desmesuradamente, numa confissão babosa, ondulante, muda, perdia o ar que lhe depunha F. na realidade, adquirindo ângulos de uma formidável indiscrição. Mariana chegou até a sentí-la mais arrogante que o nariz e, pondo de lado a idéia de associar o marido a catedrais, [ na margem: 2-3-53 ]  desviou por segundos o olhar do espelho, que de fascinante passava a obcessão [ sic ], arqueou o corpo para frente e, não sem fechar o colo, até então alvo de uma grande agitação, foi cerrar as portinholas de uma catedral em miniatura que parecia fincada na superfície direita do pixixê: em planície habitada, ou antes inabitada, por grampos que se assemelhavam a seres fulminados pela simples estrutura daquele bloco irremediável. Para isso bastou se reduzirem os mortos às pernas, unicamente ( pois estas bastam às estruturas) e Mariana – agora compenetrada, de uma forma semi-inconsciente, de que cedia, desde que se sentara, à força da miniatura e só a isso – vendo aqueles grampos, que do cabelo (maldito nariz) [ jaziam, ou algo parecido ] em volta da catedral, pernaltas e teimosos em sua morte – sentiu um estremeção e divagou, desordenada: quantas vezes ela também não sucumbira à estrutura! Agora, de modo indireto, chegava à fatal conclusão, em que oscilou a vida toda, de que era isso, não há dúvida: a estrutura! Pecado, mulher, o marido, os homens, conceito de família, religião, semi-sentiu: estrutura! Aquele peso aniquilador das catedrais, quando nelas entrava, provinha da estrutura, essa forma bestial unindo pedras que separadas ( ah! separação ), ela aguentaria sem o menor esforço de adesão. Gostava de F., por exemplo, quando este lhe vinha e oferecia um sorriso que ela vira, em criança, na fisionomia daquele tio, cuja atração reconfortante se esvaia [ esvaía [?] ] à medida que se aproximasse p/ beijar a menina, n’um cheiro encardido, não sabia se da barba, e azedo, não sabia se dos olhos, tão estranhos e marcos de uma fase a que chegariam todos os olhos um certo dia, mas que eram de pronto repelidos à simples idéia disso, fazendo o tio levar da menina a impressão de certa rebeldia histérica ( oh, que idiota era ele em pensar assim!), mas que se consertaria com os anos.[ na margem: 3-3-53 ] Ou então aquele acento de presença, embora roufenha,  [ há um pingo/acento no u, parecendo um vocábulo inexistente: vocifenha, vorifenha ] com que o marido modulava a voz, em contraste  com a distância, perpétua, fatal, hodienda nos olhos: uma distância que, se a punha à vontade, entretanto lhe incutia um prazer de pairar além dos limites de uma certa responsabilidade, a que chamarei: gótica, do casamento, mas que só a aturdia depois de sua recuperação real. [ na margem: 4-3-53 ] Agora, por exemplo: Nem ela saberá discernir onde termina a surpresa e começa o cansaço, que não é tédio nem exaustão, mas simples familiaridade, mais delegada que instintiva, que parece dar-lhe ânimo para agir dentro de uma individualidade crescente, justo ( mas é absurdo! ) onde perdura o anseio de agregação, a vontade de se dividir, querendo apalpar o mundo que a apalpa, querendo arrepiar o silêncio que a arrepia, querendo ser sedosa como a combinação [ peignoir ] que a excita, querendo ser masculina como essa falha, essa imperfeição da imaginação, que truncava as coisas pela metade: querendo isso, querendo ser aquilo, querendo querendo, que-ren-do, assim, nesse tom de êxtase, hipnótico, aterrador, sensualidade. De súbito, Mariana virou invasão em si mesma, se bastou, comemorou com grande azáfama. Estúrdia. Adiós. Té loguinho, tetéia. Grande besta! Mariana saiu  do espelho, chamou o marido, trouxe ele até a porta do quarto, lhe disse:

                        - Agora você me carrega e me põe aqui dentro, deitada nos braços, igualzinho naquela fita do Gary [sic] Grant ( e não me pise no vestido! ), mas igualzinho , senão vou chamar o leiteiro. E ele me põe.

-         A idéia do leiteiro aterrou o marido. E ele não    conhecia o leiteiro.

Que não andaria fazendo sua mulher, que já reverenciava  o leiteiro. Deve ser assim:

                        - É aquele, de cabelo repartido no meio?

- Ah, então você conhece?

                        Não. Mas imagina. Sujeito forte, atleta, que agrada mulher, deve ter cabelo repartido no meio. Grande besta. Té loguinho, hein! Onde vou? Passear.

                        - “Não!”

                        E lá vinha o acento rouco mas palpável, eletrizando, lhe provocando um arrepio diferente. Mas o olhar, inexercido, parando lá naquele puto de lugar maldito, era um desafio. E ela aceitou. Na frente, nas barbas ( nas fuças desse peste!),  nas barbas do marido ( Ingrata ), alí, atual, com ares de um cotidiano horrendo, ( eu não queria dizer fuça...) deu uma gargalhada que o fez estremecer, e jurar que nunca, em nenhum planeta, pudesse existir uma gargalhada naquele ritmo, crueldade pura, ritmo pelo ritmo, mas sem a cadência sensitiva, -- saindo de uma boca de vinte e poucos anos. Ficou estático. E sem olhar, ou melhor, procurando enterrar ainda mais o olhar, de uma forma que saissem pela nuca afora, e fossem acolhidos por umas pálpebras que ele não tinha e desesperadamente procurava cerrar, F. se abstraiu e deixou de assistir à seguinte cena: [ na margem: 5-3-53 ]

                        ( A narrativa, interrompida em 5/3/53, foi continuada em 23/4/53, após um período de cansaço físico que provo ao escrever, chegando quase à extenuação total.

                               A ação, já elaborada mentalmente, com todas as variações que sofrerá até o término de seu curso, ainda longínquo, foi retomada nessa última data: veja página seguinte ) [ Esses dois períodos entre parêntese são de época e estão na ordem da escrita ]                

 

                               Estavam os dois numa grande festa, rodeados de gente por todos os lados, suprimidos como uma ilha, assim, infantilmente. F., naquela despreocupação que, apesar de natural, denunciava uma inquietação de sensaboria, ia na frente como um sonâmbulo, abrindo caminho num mar de cotovelos. Como se não bastasse um supremo aviso de um sussurro de enterro, ambientando-os implacavelmente naquela atmosfera de anisedade popular, saltavam-lhe à frente os olhares de espectros dos santos fabulosos: aqui o Santo Antônio empalidecendo numa atitude servil que, bem considerada, entremostrava o símbolo de seus fluidos intervencionistas; mais adiante, o São Sebastião, enfático na dor, resumindo obscuridade, bem menos exotérico nos lábios que na flecha entrepartida; e mais adiante o crucifixo, num esforço de afasto, delegando toda a impertinência aos pregos, de onde pendia um Cristo aquiescendo naquele contraponto de masoquismo e desarticulação mental.

                        Mariana era mesmo a fatal concentração. Aqueles  cinco minutos somente, entre os quais segui-se o préstito, borrado de ladaínhas íntimas ou de suspiros de velhas gaiteras [ sic ] ,as palavras rituais, depois um seguimento pelo corredor no fim do qual as desincumbências da primeira fase davam lugar aos empreendimentos onde a Santa Economia imperava ( pois econômicos  são os casais nos abraços, tanto como no jogo de olhares, dispersados estes pela premência dos pensamentos que afastam qualquer idéia de aconchego das massas afluentes) – aqueles cinco minutos foram cinco séculos. Mariana [ na margem: 27-IV ] sentia cócegas. No pudor. Não chegou a notar a presença do marido, que casava o ar aéreo ao esplendor da fisionomia esfumaçada. Entre um aperto de mão e uma profecia inoportuna, espoliados ambos, limitavam-se a trocar um e outro sorriso ou a se cotucarem furtivamente. O que mais a importunava era se ajeitar à idéia de que a enorme multidão focalizava as atenções na considerável abstração de F. Quando lhe veio por trás um velhote, bambo, os olhinhos trêmulos mas de mão viril e lhe cotucou o homoplata, desejando-lhe boa sorte, respondeu-lhe, com cara de menino cujo sexo não bem se delimitara:

                        - leve-a.

                        Mariana nada fez senão oscilar entre os dois extremos de uma situação horripilante. Porque no íntimo nunca se conformou com a enorme diferença de idade que os diferenciava. Quando o viu pela primeira vez, guardou dele a sensação elástica de um afago que lhe saia das mãos de seda como uma rede envolvendo-a de arrepios esburacados. Isso mesmo, foi como uma rede de arrepios. Ficou entusiasmadíssima em contacto com uma coisa ( podia chamar-lhe coisa ) a que desde [ na margem: 25-IV-53 ]  logo aderiu sem saber onde residia definitivamente a fascinação. Agora, entretanto, também se valeu de uma sensação estranha [ na margem: 19-V-53 ], um outro ser como os que vira  em suas noites de “imemorial desleixo”, que nela se traduz pelo despertar do sexo em situação de povoado. Mais tarde, acidentalmente, ficarão nítidos os acontecimentos daquela fase, e os pormenores de Serrinha, a cidade-fábula da Paraíba do Norte. Lá, onde o sexo se acomoda à economia, e esta extrai daquele as possibilidades ( fatais, às vezes ) de um temperamento infra-temporal, subterrâneo [ na margem : 20-V-53 ] e onde o goso dos grandes momentos  vive em função do que o sexo oposto tem de reacionário ou, simplesmente, contemplativo. Todavia, tanto em Serrinha ( já vão longe seus quinze anos ) como na Igreja da Consolação, foi preciso que o velhote de mão trêmula e compleição bamba provocasse no marido um leve transtorno da fisionomia, raramente intranquila, constituindo-lhe marco da personalidade: Aquele – “leve-a”, tão temperamental, bastou para que naquela mesma noite explodisse o fenômeno de rara consequência: enquanto Mariana, após um começo de pileque, descaía, pendular e eriçada, num mundo de cortinas e frestas aventadas, esvoaçante no leito, F. se dirigiu ao banheiro, de onde saiu envolto num roupão de listras horizontais. Trazia no gesto certa onda de serenidade, nas feições uma sagacidade sutilmente velada, apenas perceptivel para um observador arguto e que tentasse quebar a cadeia de toda aquela absoluta virilidade, por si só um meio de postergar a afetividade. [ está riscado “postergação de uma afetividade apressada”]

                        Quando surgiu aos olhos de Mariana, esta não pôde conter um “oh”, também inaudível, e trêfega, saindo do espelho, puxou o marido para perto de si, e poetisando tudo, degenerando tudo, apresentou-lhe o velhote da cerimônia. O desgraçado do velho é maçante mesmo. Cretino. Decrépito. Mas tem alguma coisa de um tempo que é um pouco meu. Será que foi em sonho? Mas eu já me vi assim. Sou eu naquela – não tem dúvida – situação horrorosa, meu Deus, em que me vi falido dos homens... e das coisas...Sem ter realizado nada. Só. Na porta da igreja. Que destino mais filho da. Não, isso ele nunca seria. Mas, porque será que ela me “amarra” [ não sei se escrevi “amassa” ] assim? Porque será que foi ter essa idéia filha da ( isso ela nunca seria ) de trazer esse desgraçado para dentro do quarto? Porque será que ela. Ou será que não? Agora: veja. Ou não? Esses olhos, Mariana. Ou será que foram sempre assim? ( Não se olha assim para uma moça indefesa, não. Então ele não devia saber que a gente nessas situações é sempre uma mulher... como dizia o Tio...”muito sem jeito, pois” ? Agora. Outra vez:

                        De súbito, no baque surdo, na consciência fabulosa da situação, tão horripilante quanto embriagadora, F. se pendurou no cabide, e veio ter com ela o guapo roupão de listras horizontais. E, à medida que a foi envolvendo, descortinando-lhe o horizonte que a tragou, irremediável, sedutoramente, não pôde evitar o grito enorme, guérrico, que se transformou em gargalhada mais gritante: porque na hora do choro remoído, a gargalhada soa como desencontro de potências; o que vale dizer: pouca bola, muita farófa, pra banda do Norte. E ria, ria, ria, e ele não compreendia que, por cima, como uma múmia amorosa, lhe apertava as costelas, provocando cócegas. Ah! Ah! Ah! E ele tinha ficado preso no cabide. Ah! Ah! Ah! O roupão. O maravilhoso roupão. Que podia ter dentro 2 ou 3 figuras de um album de de políticos. Do Norte. Ou do Sul.

                        Oh, como fora infeliz em beber justo naquela noite!...

                        Instintivamente, ao som da campainha, a visão do marido se precipita verticalmente, em direção ascensional. [ na margem: 17-7-53 ]

                        Mariana atravessa, rápida, a sala. Deixa um pedaço de recordação pendurado neste meu retrato, procurando evitar-me o olhar. Mas o perfume vermelho, esparramado, contrabandista de sensualidade, perdura na insistência de uma consideração que, certamente, exorbita da calma rapariga. Durante essas divagações, o ascensorista deu 2 ou 3 vezes à campainha e, quando ia desistir, Mariana abre a porta.

                        Podia ter dito: bom dia! Mas diante de uma figura que entra balançando, mas num bambolêio opaco, [ palavra seguinte ininteligível: parece escrito extunvando ] o mundo inteiro, a gente tem vontade de dizer: bom sempre! bons futuros! E fica-se sem saber que ralho de coisa [ na margem: 20.7.53 ] exquisita está virando o mundo: essa gente não se define mais!

                        - Bom dia, dona.

                        ... não se define mais, mas se eu ficar mais 1 minuto olhando pra ele assim, acaba se desmontando.

                        - ... dia, dona. Sou o ascensorista do prédio. A senhora já deve ter me visto.

                        Ou será que não me viu? Vivo sempre imaginando, mas que coisa exquisita!

                        ... se desmontando. Vai lá um sorriso, coitado.

                        - Ah, bom dia...

                        ... exquisita. Ah! graças a Deus o negócio já vai melhorando.

                        - Eu trouxe aqui um cartãozinho do seu marido: me deixou hoje cedo, pediu que eu entregasse à senhora, lá para as 9 horas...

                        ... sorriso, coitado. ---------- !!!

                        ... vai melhorando, pediu que eu entregasse agora; na certa, Deus me livre, lá vou dizer isso!, na certa para não acordar a senhora; podia dizer. Que há de mal nisso?

-         An. Do meu marido?

... !!! Que será?! Tréco.

                        - É sim senhora. [ na margem: 21.7.53 ]

                        ... de mal nisso?  “É sim senhora”! – Ah, Gardênia, você morreu na pele, somente na pele! E que mal há em se ficar sem pele? Podia dar um soluço, do tamanho do mundo, mas ninguém notaria, Gardênia! Oh, meu Deus, o pior é que ninguém notaria, pois v. foi sozinha, Gardênia... aquele enterro, Gardênia... eu não fui... ninguém foi... mas, na mesma tarde, perguntando a duas flores, duas heroínas cruzando na beira do túmulo, ... me disseram que v. baixou à terra com aquela mania tola de deixar lembrança... [ na margem: 24/8/53 ] Aquela insistência, que v. tinha, Gardênia, em se tornar presente... Aquilo era ingenuidade, não tem dúvida... mas, pra outro ingênuo, como v. me chamava, aquilo surtia um grande efeito, Gardênia... Mas também não precisa aquela mania, de se sentar na sala, que v. fazia questão de feichar [ sic ] quase inteira, só deixando uma penumbra sufocante, e depois, quando eu me distraia por causa do nosso silêncio, e da nossa distância ( era questão apenas de 2 sofazinhos, meu Deus ), você saia na ponta dos pés e ficava no limiar da porta; e ficava agitando a ponta do vestido; e até que numa hora o puxava inteiramente; e ficava sussurrando atrás da porta. Até hoje não sei se você fazia aquilo de calor ou de vergonha... Oh, meu Deus, que vontade de ficar louco, quando penso que apesar de tudo, eu a via inteira, completa, com os joelhos muito juntos... onde só havia cadeira... E então v. era outra... mais alegre... mais irrequieta... até que sua mãe ( Ah! meu Deus, como me fazem mal os mártires ) aparecia e lhe dava um tranco q. me doia, Gardênia, oh era triste era triste era triste. 

                        - O senhor quer entrar?

                        Mariana rescendia inquietação. Sepélio levou a mão à boca, afim de prender todos os sentimentos que o derreavam. A nossa recém-casada se abismou em verificar aquele melancólico fenômeno de ajuste, preciso, irremediável, entre o maneirismo do ascensorista e seu toque de campainha. Por um minuto ficaram sem falar; e, no meio daquela estática calcárea, como dois trogloditas a se contemplarem, longe do mundo, anacronizando todos os móveis, , que adquiriam feições agressivas, somente  os unia uma espécie de “vontade de planície”: tiveram ímpetos de arrebentar tudo, de sairem se repelindo, fazendo perguntas que escoassem pelo infinito, mas que absolutamente não tivessem resposta. O que poderia ser fatal.

                        - Está muito bem. Obrigada. Meu marido só deixou isso?

                        O cartão. Se ele pudesse, daria uma olhadela no cartão. Tinha certeza de que aquele cartãozinho trazia alguma coisa de consternador. O modo pelo qual o marido o entregou, e se referiu à mulher, como se se tratasse de um inventário para ser entregue a um morto ( uma coisa do outro mundo, meu Deus, esquisito. Ou será o cansaço de tanta coisa que me tem acontecido?), depois a fisionomia da recém casada, alí, a dois passos dele, que lhe lembrava Gardênia, tinha certeza de que havia mais alguma coisa além  “disso”. Agrega, num contrapêso trabalhado:

                        - Só isso, dona. Agora, se a senhora me dá licença, já vou indo.

                        - À vontade. Muito obrigada.

                        Estendeu-lhe a mão. Dois segundos depois, ao contacto morno, diabólico, Sepélio mergulhava num Inferno que só lhe proporcionava uma estranha delícia, e exaustiva. Por um instante, teve vergonha de se aproveitar de um oferecimento inanimado daquele natureza, e não sabia onde enfiar os olhos. Estava que era um puro lascivo beijando um espectro proibido. Mariana reagia de modo perspicaz e não menos deliciada, mas de uma delícia diferente, celestial, acolhedora, com os instintos azulados. Aquela mãozinha afilada, que apertava um aperto inédito, para fora, e  os lábios estranhamente unidos, formulando um perdão maquinal, pelo desabuso de uma descoberta que parecia importantíssima, lhe despertaram todas  as ternuras cabíveis de imaginar. E pela posição que as acomodava, podia-se ver que eram ternuras amorais, mas nunca imorais, melancolia do sexo, que se extingue num momento, de maneira quase brutal, deixando atrás de si um vago de improfanável despedida.

                        Sepélio puxou a mão com suavidade. Imediatamente desaparecia pela porta afora. [ na margem: 30/10/53 ] No corredor,ficou pendendoo entre as duas portas, a do apartamento e a do elevador, ainda meio combalido. Por fim, nada mais achando como pretexto de tornar a entrar, e incriminando-se pelo fenômeno, que já vinha se tornando habitual, de se “largar” infungivelmente a toda espécie de novidade, decidiu-se pela do elevador. Durante todo o encontro, acabrunhador, terrificante, experimentava debalde aquela angélica recorrência a esse sentimento que o tomou, enquanto apertava o botão: esse chamado de ancestralidade, trazido por tanto recalque diante das novidades da vida, ou antes pela incapacidade de discernir entre a natureza das novidades – a de não se  perpetuar – e o seu próprio temperamento – alérgico a todo passado: a capacidade de aceitar tudo como um verdadeiro homem. Mas o nosso rapazola, embora portador de tamanha sensibilidade, nunca chegou a sentí-la em termos de nitidez: diante das pessoas com que tratava, acontecia exatamente o que vimos em seu contacto com Mariana. Reagia com tamanho desespero, que, ao invés de se libertar ( ou talvez por manifestar sua liberdade ), acabava se aniquilando.

Se ele pudesse daria a vida  de, pelo menos, mostrar a tôdos que essa fisionomia transtornada era antes uma fraqueza, não era falta de entendimento, meu Deus. Esse elevador não vem. Eu então sacrificaria tôda minha existência para decifrar o enigma dessa escolha: justo êle, meu Deus, justo com seus pálidos, bambos, doentios dezenove anos , acumulava tanta coisa insuportável. Será que quebrou alguma peça? Ó inferno de vida. Gardênia. Ó santas bondades, tôdos os espíritos do céu, reunidos, o livrassem dessa lembrança. Mas isso era sina. O que adianta arrebentar esse botão, apertar tanto? Até isso já aceito, como sou um sujeito bom, um santo. Interessante. Ainda não havia pensado em como trato tôdo mundo muito bem, com bondade. Será que tôdos eles me vêm com a exclamação – “Mas é fantástico! Estou para ver alma generosa como a de Sepélio?” Isso lhe dá aparência até de homem maduro, de supremo entendedor dos homens de tôdas as mentalidades. E seu aspecto? Pode alguém compreender que, por trás de uma configuração quase infantil, raivosamente tímida, existe um sujeito que, pelo simples olhar, é capaz de aparar o sofrimento de qualquer indivíduo, mesmo o mais gratuito?   [na margem 31/10/53]  Ele já vira , no livro  de um poeta moderno, o sentimento que vem provando na mais ingênua antiguidade: “Perdôo, remanescentemente, a batida de todos os corações que sinto num só peito”. Parecia poeta. Ah; parece que vem vindo! 2, 3...4... Mas esse aspecto pueril ele bem que pode consertar com certo meneio de cabeça. Levanta-a. Auto-esculpe-se. 5...6... A moleza dos olhos, êle também pode fazer desaparecer. Que tal se lhes desse ares de certa crueldade? Fixa-os num ponto além de qualquer espaço. Logra o efeito da crueldade pela cumplicidade da distância. 7...8...9... Mas não adianta. E a bôca? E o nariz? Como iria modificar o nariz? Abrindo as narinas, nêssa fôrça interior? 10...11... Experimenta. Interessante, como começava a existir dentro dêle tôda a pessôa de seu tio Natálio. Era horrível, meu Deus, como é que a gente pode sentir-se outro, repuxando o nariz. Experimenta, sem definir, a sensação de que cada repuxo traz  a provocação de determinada memória, acabando por não se conseguir livrar do tio Natalio...12...13... Faz um leve bico, na ponta dos lábios, já ressequidos de tanto esfôrço; e à medida que vai dilatando as narinas a ponto de não mais suportá-las, percebe o quanto deve ser grotesco o contraste daquele narigão empinado, empertigado, intolerante do tio com seus lábios humildes, quase lamuriantes. 14...

A visão do elevador veio arrancá-lo dessa região tão fatigante do pensamento, e só então Sepélio aventou a possibilidade de estar sendo espreitado, e até gosado. Um leve rubor lhe subiu pela face enquanto fez um movimento de pêndulo com a cabeça, examinando o corredor. A velha do 155 lá estava, no fundo, balançando duas toalhas mas espanando-se a si mesma de tão gorda estava. Do outro lado vinha um ruído de vozes surdas, quase atordoantes, uma gritaria apocalíptica de crianças. Tudo muito estranho, como crianças (eram crianças, não havia dúvidas) como crianças conseguiam imprimir naquela lamentação penetrante um sentido de catarse horrível, de mau agouro! Ouvia-se bem longe uma vozinha anti-natural, anunciando o fim do mundo, que tudo ia acabar, no meio da algazarra, mais avivada pelo toque de um tamborzinho de lata. Mas, no meio de todo acontecimento, o que mais aniquilava era um fenômeno de intolerância, de sobrepujança infantil que se fazia notar por parte de uma voz que só poderia ter saído de algum menino pálido, delgado, na certa com duas olheiras extravagantes: era uma voz que se impunha, reduzindo a barulheira a um estado de senilidade, onde se percebiam as inconsistentes crianças numa condição de velhice, anarquisando, irracionalizando as próprias pausas, criaturas de uma grande liberdade encadeada, circular, pondo um sentido de ociosidade em tôdas as coisas. Tudo se passou, entretanto, num tempo insignificante, quase inclassificável. Uma hora, teve-se a impressão de que uma porta se abriu, atrás do corredor, saindo dela uma mulher alta (notava-se pelo passo) e que mal chegou às imediações da criançada, volveu tôda embrulhada num grito não menos apocalíptico, logo se abafando num cubículo qualquer. Imediatamente, antes que Sepélio pudesse abrir sequer a porta do ascensor, arrebentou dos fundos um alarme de dor, azulado, e ele sentiu aquela angústia remota  que tinha provado na tarde em que se desesperava por querer se esgotar, desaparecer naquela farândula horrível, mas prazerosa e inacessível: saboreava por detrás da vidraça, maldizendo a dor de garganta, com o maldito azul de metileno na garganta, revirando o estômago. Agora era a mesmíssima sensação; até o grito, penetrante, arrepiava num acesso azulado, no delíquio que sufocava.. Quando se “atualizou”; tornou a ouvir os passos da mulher alta, apenas mais agitados, porém compensados pelos de alguém, que deveria ser seu marido. No meio da balbúrdia, que já se tornava insustentável, percebeu que a mulher se abandonava a uma crise de choro. E ainda o marido compensando: êle pôde distinguir seu chamado paciente, advertindo na certa o filho, numa tonalidade de voz que evidentemente se ia arrefecendo diante da algazarra já quase tétrica resvalando pelo sentimental, pois havia naquilo tudo uma nota de sentimento, como se a criançada obedecesse a uma reviravolta lúdica de todos os instintos, embora extenuadíssimos. A mulher aumentava o grito, caindo na histeria, o marido perdia a fala, deixando-se dominar, o fim do mundo se construindo, entre pequenas anunciações, tais como: -“Este é o meu!”, ou – “Eu vou pra outro planeta”, ou então –“Morre o meu avô, que só tosse!”. Tudo muito rápido, mas num lapso suficiente para que Sepélio pudesse se abandonar a uma espécie de tragédia de vizinhança, e esquecesse seus próprios problemas. Ao entrar no elevador, ainda pôde ouvir o casal, clamando pelo filho (e aqui ele teve um sentimento de revolta) e as últimas palavras deste último:

- Pode acabar o mundo mãe... Pode acabar pai... Eu não ligo... Eu é que estou perseguindo...

E um barulho demonstrativo de sua agressividade quase santa. Sepélio tocou para o térreo. Estava visivelmente perturbado, e procurou dissimular o máximo, inventando uma fisionomia de bem estar, que viesse de uma plena inatividade. A engrenagem do elevador o ajudava: era só apertar o botãozinho do térreo (aperta-o) estaria no térreo – TLIM. E se encontrou no térreo. Entrou um  rapagão espadaúdo, pediu pelo 15. Inferno, teria que voltar para o quinze. [ Na margem: Enxertar algum pensamento a respeito do rapagão]. O rapagão não entende muito de intranquilidade, é excessivamente saudável: não percebe absolutamente qualquer sinal de contragosto, e torna a pedir naturalíssimo, como se já não o tivesse feito:

- Quinze, façoavôr.

Tinha uns belos olhos oblíquos, o nariz entre anguloso e curvo. Trajava um terno excessivamente justo,evidenciando o formato atlético cuja presença já se fazia notar, entretanto, no maneirismno dos braços – inclinados  para trás -  e na postura das pernas: uma ereta, apoiando o corpo, a outra levemente sôlta, um pouco mais pra frente, formando um ângulo aparatoso,  nessa posição típica de mulher em sociedade. Entre um andar e outro, não esboçou mínimo movimento nem tampouco percebia a agitação de Sepélio, mexendo peças, apertando botões, procurando “representar” a mínima interferência que fôsse, em algo que, a qualquer vista, era de natureza estável e mecanicamente orgulhosa. Se êle tivesse quarenta anos, como seu pai, por exemplo, mesmo que tivesse necessidade vital daquêle ordenado, acharia ridículas as próprias paredes de um hotel que, possuindo elevadores automáticos, empregava ascensoristas. Tinha certeza de que seu pai, com aquêle jeito [na margem 2-11-53] de pairar altivamente por sôbre tôdos os abismos, mesmo sabendo que se afunda, encontraria um modo de explodir sua revolta, que não era de orgulho, mas antes de humildade; uma humildade cega, talvez demasiadamente áspera, de quem é demasiadamente bom para se disciplinar à miséria. Sepélio, entretanto, com seus dezenove anos sobrecarregados de tanta exasperação delegada, conseguira se enformar nêsse recipiente de grande tensão, embora ultimamente viesse provando os calores de certa fermentação. Qualquer dia transbordava, queimaria alguém. O sinal lhe indicou o décimo quinto, e êle abriu a porta incontinente. O rapagão desceu como extrangeiro e foi saboroso o ato pelo qual se diluiu todo aquêle aspecto de trasmontano: engatilhou um flébil – obrigado – que destoou de tal forma com o físico poderoso, que Sepélio teve vontade de lhe dar um tranco que o fizesse rolar escadaria abaixo. Mas o erro foi ter transbordado a vontade nos olhinhos insignificantes. O espadaúdo se recuperou, ato mediato, com um simples olhar, e efetivo: quando Sepélio se “atualizou”, já estava a meio caminho, mastigando o luminoso do sinal, que descia metabolicamente: 7...6...5...4...3...Ó Gardênia...2...não pode viver sem Gardênia...1...Ela era a presença...Até no vácuo ela aparecia...Ele era passivo, Gardênia...Térreo.Tlim.

No décimo quinto reinava um silêncio de morte, e talvez por isso havia uma quebra tremenda  de perspectiva. Para o teto, subia uma rampa de cimento sem corrimão, abruptamente desviada pela curva helicoidal de gradilhado amarelo, acompanhando a escada. Duas ou três janelinhas de pombo coavam uma luz gordurosa, que vergava  todas as portas, de maneira que, detrás de uma convexidade agressiva, se divisassem os sinais de uma vida comedida, normal, até vulgar. Quem por ali passasse, sem observar daquêle angulo longínquo, é claro, sentiria as emanações de um diálogo sem entraves, convidativo mesmo, mas ostensivamente maléfico: visto de longe, entretanto, por quem sai do elevador e em determinada hora da manhã, exercia tal poder de deturpação visual, que era raro transeunte que não lhe apertasse a campainha a titulo de verificar se havia ou não correspondência entre a “fachada” e seus inquilinos. O número de –“Ó, me desculpe, foi engano!” era assustador. Naquêle dia, no entanto, o que estranhava era a impossibilidade com que o rapagão espadaúdo, tirando um cartão do bolso, atravessou o corredor, sem dar por qualquer nota de particularidade: deu dois passos para a direita, examinou a numeração, volveu-se, atravessou o enorme corredor, incorporando-se à perspectiva. A medida que se perdia na distância ganhava um volume todo especial, pela lepidez com que seu andar alegre ia esmagando  os espaços destinados a um respeito pressagioso: passasse alguém por ali, descobriria todo o fenômeno da perspectiva moderna. Evidentemente, por ali caminhava um ser destituído de qualquer sentimento místico: notava-se-lhe num passo a alegria (e fincava o pé com fôrça), no outro a coragem – e dava ao côrpo um balanço de homenzarrão distraído, a quem a menor concentração pesarosa (nêste caso um tique de solidariedade humana) provocaria uma náusea de lhe virar o avêsso. E o avesso é-lhe insondável. Nasceu para a euforia. Joga com braços. Não vê escuridão. Balança as cadeiras. Não respeita a reflexão da treva: - por aqui pode ter buraco. Alarga-se, deixando um sulco brutal.. Num minuto, tudo deixou de ter espaço. Há volume e mais volume, o homem do séc. XX, transformando-se já em homem póstumo. E o nosso rapagão consegue, quase no fim do corredor, transmudar a rampa em braços voluptuosos, aceitando as résteas de luz coada nos olhos onde brilha uma pletora  sem inteligência, atlética.[na margem:por gostar de todas as coisas. vulgar. absurdo]Então, antes de bater à porta, imprime automático, ares de grande humanização às coisas que o rodeiam. Aí está o colarinho. Enfia-lhe o dedo, faz a volta, como se não tivesse emenda. E foi aprumando o nó da gravata que apertou a campainha. Nem procura ouvir o toque, que vem logo para fora; não estabelece a menor relação. Examina a porta com uma seriedade estupidíssima. Quem a abriu, pode dizer, com a maior propriedade: “- Olá, senhor Vulgar! Então é o senhor? Como vai?” Ele não se importará. Agora já está tornando um pouco, impaciente. Torna a tocar. Dzzziiiinnfff.

Começa a notar qualquer anormalidade. Então pensa alguma coisa. Em seguida, levantando o braço, com muita leveza, imprime novo toque, meio desanimado. Agora, se alguém o visse, o acharia reduzido às verdadeiras proporções: não mais havia quebra de perspectiva, pois vinha não se sabe de onde, uma luz mais forte, que o envolveu, esclarecendo-lhe o semblante, agora de sofredor. Então esse alguém o acharia normal, muito normal. E simpático. E fraco. Dzzziiinnfff. [ na margem 3/11/53]

Dzzziiinff. A campainha veio surpreender Mariana na posição em que à haviamos deixado: pouco tempo se passou entre a saída de Sepélio e o chamado do rapagão. A nossa recém-casada permanecia na saleta de espera, com o cartão do marido entre as mãos enraivecidas, o mesmo ar de incredulidade: apenas a fisionomia um pouco gasta pela situação, que ela forçava por gosar até as últimas conseqüências. Quando a surpreendemos de novo, abrindo a porta, pudemos, com certa facilidade, perceber-lhe uma grande modificação no semblante, que descia pelo porte, dando-lhe ares de um certo esgotamento, e desenhando-lhe a figura de modo que a mesma pessôa, que a tivesse visto um minuto atrás, lhe estendesse as mãos, sem intuito de proteção: ver-se-ia invadida por um desejo fabuloso de apalpar-lhe aquela postura viciosa, que lhe ia bem. Entretanto, durante todos esses acontecimentos, seu pensamento transitou entre o marido e o cartão, sem que isso lhe tirasse o prazer de saborear aquêle encontro tão sensual quanto fortuito, e passageiro. Entre um toque e outro, ela tentou se recompor, assentando o vestido, ainda com o cartãozinho entre os dedos. Se custou a abrir, foi menos pela possibilidade de uma exploração visual, quase infantil mas atraente, que pela impossibilidade de dar com o marido numa posição de ilegalidade: nêsse caso, modificado, rejuvenescido e que se entregasse, como o fez o ascensorista. Mariana umideceu os labios, caminhou até a mesa, deixou lá o cartão, finalmente abriu a porta.

Aqui a necessidade nos obriga a afastarmos e a deixá-la com o rapagão espadaúdo, sem que no entanto não os possamos apreciar à distância. Se conseguirmos deduzir de seus gestos algo de que falam, haveremos logrado uma possível descoberta, que a natureza de meu ponto de vista impede de perscrutar. É que me sinto envolvido pela verdura com que fui plasmado: êsse mesmo instinto vegetal, que me presenteia uma visão escorregada da vida que nos envolve por fora, me impede que discorra sôbre algo que, mesmo que se desenvolva às minhas vistas, me escapa ao ouvido, ou ao tacto visual, cuja aproximação somente se subentende.

É necessário que esclareça que êsse que vos fala com tanto dinamismo é forçado a fazê-lo por sua condição de figura impressionista.

            Quando, no comêço do relato, me referi ao perfume da rapariga, aludindo à “minha posição passiva”, esqueci-me de dizer que a observava de um retrato impressionista. O fato em si se excusa de justificação, pois com o correr da narrativa já se deve ter percebido o quanto há de arbitrário no modo com que conduzo a ação, em sua maior parte indiferente ao meu pensamento ou à minha vontade. Ignoro o mais grosso do que ficou enunciado. Os que tiveram a curiosidade de estudar a arte impressionista desprezarão o que ora se vai assentando a título de esclarecimento de um incidente que pertence à história. Há bem uns vinte e cinco anos, por volta de 1925, passou por nossa casa um pintor faminto que, à custa de uma insistência, que nos desnorteou a tôdos, se propôs fazer o retrato da família. Era um belo rapaz, um tanto gordo, mas de uma gordura interior, que vasava nos olhos portadores da maior amizade que me foi dado contemplar. Ofereceu-se para ficar como nosso hóspede durante quinze dias, no fim dos quais nos entregaria a obra que seria o repositório de tôda uma geração, e onde se exporiam tôdas as virtudes de nossa “egrégia família”, e se esconderiam também as “tarinhas”, que êle fazia questão de acentuar entre duas gargalhadas úmidas, quase murchas e já irremediavelmente familiares. [na margem 4-11-53] Pois, passados cinco ou seis dias, sem que déssemos por isso, o nosso bom pintor se incorporara aos nossos sentimentos de tal maneira que nem siquer cuidávamos do resultado de tôdas aquelas pôses: durante a manhã, defronte à fachada esbatida de nossa casa, a obrigação do bloco vinha tirar meus pais do trabalho, para reunír-nos a todos numa disposição pictórica (quê êle construia e modificava alternadamente) onde pela primeira vez nossos reais sentimentos de pais para filhos e vice-versa se podiam intercalar por um elo de ternura inédita, celeste, abafante, intrusa. Começou por modificar a disposição dos móveis; alegando que tal cadeira embargava a afeição do velho ou que aquêle castiçal excitava a complacência da velha, etc. Em seguida, passando do interior para o exterior, sugeriu a meu pai mandasse reunir tôdos os parentes que morassem em São Paulo; idéia imediatamente cumprida pelo “velho” naquêle domingo inesquecível. Joaquim (era como se chamava o pintor) – Joaquim mesmo fez questão de os convencer. Foi admirável o ato pelo qual, alçando os braços maravilhosamente torneados, e atraindo os parentes naquela imantação das narinas espatuladas na base, êle conseguiu conciliá-los. Mas Joaquim não ficou nisso. Afogueou-se tôdo e fez reunir a visinhança. Para êsses, usou de outro atrativo: correu casa por casa, explicou-lhe o motivo de “uma estatística para a posteridade” e, quando alguém não entendia, arrastava com êle, abraçando-o, injetando-lhe duas ou três gargalhadas bilabiais e muito estranhas. E muito tristes. Todos os dias, durante largo espaço, o bairro desfilava perplexo diante de nosso casa, o que desgostava – superficialmente, embora – a meu pai, fazendo-o não dirigir a palavra a Joaquim por algumas horas. O que se desfazia como por encanto, naquêle caso como por desencanto, pois Joaquim, ignorando a quase multidão perplexa do bairro, abandonava sua distância e, com o pincel e paleta na mão, percorria figura por figura, ajeitava uma, afastava outra, repuxava o chápeu de um tio, para chegar enfim diante de meu pai. Então ficava-lhe olhando o nariz como que artisticamente admirado, mas numa seriedade quase funérea, o que fazia o “velho” abandonar a mágua, à custa do tremendo enigma daquêle empreendimento, infundido na hora...

            Nos fim dos quinze dias, a obra ficou pronta. É certo que talvez não se vissem logrados tôdos os esforços com que foi trabalhada, e não se pode falar em decepção. Acontece que o nosso bom Joaquim nos envolveu numa atmosfera que talvez não encontre similar em tôda a história do Impressionismo, percorrendo de Manet a Renoir, Manzel a Zandomeneghi. A inocência, direi: a pureza de sua arte desprezou o sentido de profundidade que caracteriza o Salão, de Manzel {“Cenas de Baile”, de Manzel}: aquela profundidade que é bem a maneira histórica do movimento, que dispunha os seres numa escala hierárquica, a cada grupo correspondendo tal ou qual motivo, encadeados tôdos num decrescendo de esnobismo; uma relação humana onde os mais imaculáveis seres se colocavam à distância, no fim do quadro, numa feitura pessimista, cuja a seriedade berrava em contacto com a tamanha pasticitade ( porque não dizer ? ) linfática. No nosso caso, fomos plasmados numa mesma superfície. Ali estava a família, e a visinhança, vestidas de meio-tons, numa intimidade primitiva, envolvendo-nos numa auréola que baixava até aos pés. Aqui, se desvendam os segrêdos mais obscuros de determinada pessoa. Acolá surpreendia aquela outra, num movimento de que não a julgávamos capaz, e onde se revelava, embora veladamente. Os pormenores dessa obra que não tenho receio de classificar como majestosa e misteriosamente sábia, serão estudados em seu lugar oportuno: é o único documento que nos resta para reconstituir quase uma sociedade e sua época, onde alguns elementos nos serão preciosos, porventura vitais. Por ora, devo dizer que seu principal enigma reside no fato de que se situa entre o eufemismo arrepiado de todo aquêle mundo interior de Seurat e a virilidade irresponsável de Manzel. Ali figura eternamente minha alma de vinte e poucos anos, numa expressão que traz, no encarceramento da côr, a graduação de minha liberdade diante de todos os eventos ulteriores, até atingir os nossos dias. Quando me casei, há sete dias dei o quadro a Mariana. Ela procurou em vão reconhecer-me. Colocou-o em cima da camiseira, mas logo no segundo dia, impressionada com todo aquêle mundo a nos espreitar no quarto, mudou-o para esta pequena cômoda, onde me encontro. Ah, feliz e ao mesmo tempo cruel Joaquim, que percebeu que só um impressionismo fora de época (1925) seria capaz de oferecer um universo onde os seres se confundissem entre si, e também entre as coisas! Um universo artístico com relação às tendências subterrâneas e aéreas da vida. Que acabasse, enfim, com o microcosmo. Que eliminasse o macrocosmo. Feliz e terrivel Joaquim boas saudades o guardem, sábio criador do mesocrosmo, essa maravilha que, [ 111 de s.m.ra., dist. os vei. de cond..] 1onge de ser moralizadora, distingüe os veículos de conduta.. Pois só assim posso compreender o que se passa, sem me modificar, e compreendendo-me. E ao bater da porta, confundir-me com outras vozes, conduzir as ações, representar o Romancista, que se vai desligando periodicamente do narrador do quadro, aproveitando a natureza das situações como essa, que durante êsse pequeno tempo foi engendrando outras:

Mariana falava com o rapagão, abanando muito a cabeça, deixando-o quase estonteado. Êste replicava a princípio articulando uma interjeição, logo mais anuindo nos olhos, inexpressivos invariavelmente, apesar de belos e esverdeados, e por fim aparando as frases no corpanzil que chamava o sexo oposto à luta, mas exclusivamente à luta. Ao cabo de certo instante, maquinou dois passos em sentido de volta, em movimento de quem quer avançar para algo de que se entedia por prevenção. Dá ao corpo um balanço de quem impõe uma retirada necessária para fortificar a esperança de um novo encontro. Afinal se despedem. A nossa recém-casada bateu a porta e se enfiou no quarto.[na margem 6-11-53] Pela primeira vez, desde que se casara, sentiu necessidade do marido, do amparo que representaria em tal momento. Foi daí que a figura de Felônio foi ganhando corpo numa estruturação que passava da complacência semi-doentia a um sentido de presença onde ela chegou a sentir-lhe o nariz mais arrebitado, em nada sensuais. Oh, como ela o desejaria agora no quarto, mesmo que o visse enfiado num pijama bem pálido, sem listras, que lhe caisse melhor e o ajudasse, naquele andar jungido e quase ordenado – as pernas pra frente, as duas pernas pra trás – a passar entre os móveis. Vai até o pixexê, passa uma lixa nas unhas. Oh, como ela daria a vida ( bate três vezes na boca) para acontecer um milagre que modificasse aquilo de toda noite: ou Felônio viesse andando entre os móveis, esbarrando-se, deslocando a cadeira, tropeçando-se no criado-mudo, se confundisse, ou abandonasse aquêle jeito enigmatico de empreender a caminhada, que era simples e curta. Era horrível aquilo tudo. Como era odiento vê-lo sair do banheiro ( fazia fôrça para encurtar o pescoço, enterrar mais a cabeça, enrubescendo), atravessar a sala (aqui, sempre numa cadência melancolica, de contrafeição), depois adentrar o quarto ( e quase nunca a olhava como se era de exigir, apesar de tudo) imprimindo uma enorme expectativa no resultado daquêle passo, que subentendia um zig-zague, algum choque, uma contusão! Uma contusão que não se realizaria, e fortemente esmaecida naquêles ares de segurança, que era antes de tudo a mescla do sorriso (nada além de uma boca curva) com o gesto de enfiar ao mesmo tempo as duas mãos nos bolsos do paletó do pijama, olhando-a como que a uma irmã, uma irmã!, e que ainda lhe desagradasse. As caricias, depois de tudo, as caricias, apesar de tudo, não assentavam bem, apesar de que, as caricias, e Mariana sentia falta de caricias. E uns leves prenúncios de fome do almôço, que já tardava, apesar de cedo.

 

II

A PRIMEIRA VÉSPERA

 

         Antes de prosseguirmos na série de acontecimentos dêsse mesmo dia, necessário é dizermos umas tantas palavras a respeito de Felônio e do movel que o levou a redigir aquele tão vago e enigmático cartão à mulher.
         Criado em um ambiente onde as afeições  se dividiam de maneira brutal, e os seres se sucediam periódicamente, foi dando ao temperamento um aspecto desconfiado: Felônio era o primeiro filho do segundo matrimônio de sua mãe, uma delgada senhora de origem italiana e que cedo enviuvara. Do primeiro casamento, teve um casal de filhos, mortos quando encetavam os primeiros passos, fato que causou uma grande transformação na vida dos esposos; desse dia em diante, passaram a viver assustadiços e demasiadamente resguardados. Pouco frequentavam a sociedade paulistana de fins de século, e desde então passaram a não vê-la mais definitivamente, só vivendo para si e de maneira quase mórbida. Dessa concentração afetiva, originou-se uma série de fatos que tornaram a vida da família bastante célebre no pequeno circulo paulistano da época. Dizem os que ainda subsistem que Aqueronte ( era o nome do marido) engendrara as mais drásticas penitencias para expurgar o mal de que se julgava culpado, chegando a se chicotear  horrivelmente no sótão do casarão, onde deixava ligado um gramofone no ultimo volume, afim de abafar as eventuais manifestações  desse castigo. O disco de que usava nessas ocasiões foi, por muitos anos, religiosamente guardado pela mãe de Felônio. Era uma triste melodia sem nome nem autor, entoada por um conjunto de vozes que pareciam instrumentos de sopro executados por alguém que perdia o fôlego, e que causava um grande efeito. A viúva, até o segundo casamento, chegava a tocá-lo mas só em noites excessivamente distantes e quando “ não era mais possível deixar de acudir àquele chamado do marido irrealizável”, e que não era senão desejos de uma  mulher honesta e misticamente moderada. Depois de certo tempo, já de novo casada e mãe de Felônio, passou a achar no disco semelhanças com essas músicas árabes, de exaustiva aceitação, sendo-lhe dificílimo ouvi-la sem esboçar um esgar de enfado ou mesmo repugnância.
         Amâncio, o filho que tivera ainda do primeiro casamento, apesar de levemente doentio e de gênio esquisito, destoava daquele gênero de musica derramada: era um menino de maneiras sincopadas, de poucos sentimentos, o rosto arredondado, os olhos invariavelmente virados para o alto, dando-lhes um olhar branco e muito introspectivo. Para completar essa figura, em sua simples aparência já tão estranha, agradava-lhe explorar até o ultimo as situações que o rodeavam com um sorriso azulado, sem formar curva, apenas alongando a linha da boca. Quando tais sinais começaram a manifestar-se nítidos, bem precisos, a nossa mística senhora abandonou a lembrança do pai, o primeiro marido, e enterrou o disco numa velha mala de ferro, no meio de trapos, vestidos de casamento e de explosivos da Guerra do Paraguai.  Com  o crescimento de Amâncio, a lembrança que tinha do marido se desvanecera completamente.; Amava o filho pelo que ele tinha de brusco e até de indesejável. Gostava de beijar-lhe as costas, que lhe pareciam altivas, largas, por cima da brancura quase descarnada.Era, de fato, na ondulação das costas que o menino parecia suportar qualquer espécie de ambiente e para onde se atraiam as atenções de todas as idades.No decorrer de cinco anos, apagou-se por completo a visão do primeiro marido, e ela pode amar o atual, pai de Felônio, com certa precisão e desenvoltura. Dizem certas pessoas da época que nossa estranha mulher encontrou no segundo marido a energia que nunca vira no primeiro, e desde então passou a amá-lo efusivamente. Outros afirmam, de mão no peito, que a nossa heroína de então até se divertia e preenchia o tempo de seus anseios líricos à custa do tal disco do sacrifício, e se chegou a enfurná-lo foi  porque Amâncio, quando lhe escutava a melodia, tinha uns acessos de louca alegria e esbofeteava Felônio desvairadamente. Isso deixava a mulher profundamente enraivecida, pois já amava o novo marido e o produto de seu amor de modo exclusivo: guardou  o disco, mas não castigava o primeiro filho, a não ser quando tudo acontecia na presença do marido atual. Todavia, preocupava-se mais em retirar o disco do gramofone, o que dava o tempo suficiente para que Amâncio se safasse, justificando aquela choradeira pela seguinte situação: vinha ondulando o corpo magro, as cadeiras enterradas para frente, realçando-lhe o costado enorme, chegava perto do padrasto, dizia-lhe forte:
         - Pá! (era assim que dissimulava o “papá”, que teria de lhe dirigir, mas sem dissimular a aversão natural que dedicava ao padrasto) – o Félão tá otra veiz com dô di denti...
         O padrasto, não soubemos se por desamor ou se por excesso de austeridade, que lhe dava um grande poder de descuidar de seus íntimos, nunca lhe percebeu a dissimulação, ou pelo menos nunca o demonstrou. Envolvia Amancio e ao próprio filho numa espécie de ternura episcopal, um pouco solene, negra, obscuramente risonha, às vezes, e quase sempre provocada. Mas, sinal dessas explosões que periodicamente os instintos paternais provocam,quando percebem que os filhos se vão irmanando a eles, apesar de o desejarem no fundo, jamais o tivemos. Depois de muitos anos, Amâncio se desligou da família, indo morar na Lapa, em companhia de sua irmã mais moça, rapariga nascida dez anos mais tarde, e em quem vislumbrou a única espécie de afeição em que se poderia apoiar. Ainda vivem hoje na Lapa, num mundo inacessível, estranho, crispado, contido pelas paredes de um casebre de compleição nervosa, com telhado anguloso, portas cicatrizadas e janelas violetas.
         ....

         Feitas essas considerações a respeito do ambiente em que se criou Felônio, podemos ver bem claro a origem de seu temperamento desconfiado e mesmo de seu olhar distante, inexercido, que desgostava Mariana, mas que lhe é bem a única maneira de evitar uma realidade aniquiladora, mesmo quando imaginada. Entretanto, voltemos à narrativa:
       Na manhã dêsse mesmo dia, Felônio acordou às sete horas, depois de um sono entrecortado por uma série de tensas preocupações, e na ponta dos pés saiu do quarto, deixando a mulher dormindo. Procurou vestir-se no banheiro: nem tomou seu banho habitual e, para sua própria surpresa, às sete e quinze já se encontrava na rua Santo Antonio, tragando a ladeira em passos mecânicos e largamente ritmados. Quando ganhou a Praça das Bandeiras, foi dominado pelo cansaço. Mas algo estranho fez com que se recuperasse incontinenti: ao passar defronte de espraiada vitrine, lançou por ela um olhar meio maquinal, sem qualquer intenção de reparo e chegou a ver-se em tonalidade diferente. Não se sabe se por influência da brisa matutina, que lhe envolvia o rosto deliciosamente, ou se pelo silêncio do local, excepcionalmente sem bondes, o certo é que pôde, depois de muito, muito tempo situar-se numa posição em que desejaria encontrar-se e que, desde que conhecera Mariana, o tinha abandonado. Chegou a achar-se mais vigoroso, os olhos nas verdadeiras órbitas, a cabeleira mais dura, enfim considerou-se mais palpável e provou a delicia de poder saborear a alinhada postura da gravata e o assentamento do terno. Por um minuto ou dois, sentiu um bem-estar fabuloso e como que iluminada a praça, que êle captava pelo espêlho, por uma luz mais intensa, chegando a queimar-lhe as costas, agradávelmente. Mariana lhe havia sumido da mente, e nisso êle experimentou um sensabor seguido de uma revigoração extraordinária. Cada transeunte que passava na calçada – ora uma mulher, em seguida um velho carregando uma cesta, logo mais três estudantes gordos, um jornaleiro, uma bela mas antipática moça de azul, um torturado libanês de quarenta e dois anos – cada transeunte era logo captado por seu olhar que procurava imaginar o sentido daquelas fisionomias, mas que bisonhamente eram colocadas num plano de inutilidade permanente e pertinaz. Entretanto, o nosso homem não pôde suportar por mais de três minutos aquêle estágio na irresponsabilidade e logo sentiu um vazio no estômago. Como se cumprisse um dever de evitar qualquer dor ou qualquer outra agitação, entrou no primeiro bar que viu pela frente, depois de lançar o último olhar pelo terno de grandes listras paralelas, que êle considerou abomináveis, pediu uma média, bastante pão e manteiga. Tragou-os, e deu volta às pernas.
      Subiu de novo à rua Santo Antonio. A cada passo, destinado a resolver altos desígnios, parecia ouvir a marcha de seus grandes e belos momentos: aquela marcha que êle gostava de ouvir executada pela Orquestra da Fôrça Pública, emb. n. int. n. s. p.... De fato, tocava-se pelas imediações algo muito parecido e familiar. Felônio respirou o ar forte da manhã, enfiou no rosto um ar negligente e carregado, e estugou o passo em direção ao apartamento. Às sete e meia já encontrou o ascensorista a postos; dirigiu-lhe um olhar de ambígua significação, apunhalando-o. Por mais que quisesse patentear um estado de desagrado por cima do rapazola, não conseguia livrar-se daquela confusão de sentimentos, que lhe era muito própria e que lhe dava na voz uma serenidade gasosa, sensual, esbarrando num tique de........
      - Bom dia.
     Soou triste como se falasse pela primeira vez. Ouvia a própria frase e não tinha certeza de seu significado. Sepelio forçava a resposta, a voz encrevava no gorgorinho que êle empinava, alçando-se no vôo que seu ouvido encomendava. Era sempre a mesma zoada. Não sabia se era o elevador subindo, logo de manhã: talvez o estômago vazio.
      - Bom dia.
     Felonio teve por instante a visão nitida do plano, de seu imenso plano. Como seria bom recordar, num só momento da vida que fosse, tudo aquilo que planejara para cortar com sua felicidade, mas que lhe dissipasse as dúvidas. Felicidade. Por acaso êle teve algum dia felicidade? Ora. E essa que vem tendo, desde que conheceu Mariana? E... se fosse sómente um desencontro? Isso! Êle não havia pensado em que os casais também se desencontram. Um dia, rebentariam juntos, numa explosão em que um descobriria o outro, no mesmo instante. E haveria um êstase mais espiritual. De como se abraçariam, até se aniquilarem, era coisa por demais espiritual, mas que não comporta olhares de criança.
       Encara Sepelio. Êste seu último pensamento foi provocado pelo olhar flácido do ascensorista. O rapaz pululava interiormente, passando de vez em quando a mão pela testa, ajeitando o boné de setim chúmbeo. Afinal, êle bem que pode ser um simples meninote e aquêles olhares são muito explicáveis. O ascensorista, enquanto aperta um botão ou sacode o cotovêlo, nêsse hábito impressionista, vai ponderando, uma por uma, tôdas as maneiras de Felonio, e que se resumem, a seus olhos, num grande, imenso, utrajado cansaço. E uma desabituada mulher. Não: uma desabitada mulher. Não: êle devia ter outros atrativos. Era um tipo até que magro, não, até que atraente. Mas ela, como devia ser horrível, meu Deus, ela deveria ser até humilhante núa, áspera, morena, côr que dava raiva nos braços do rapagão espadaúdo. Êle tem ciume é do rapagão espadaúdo. A figura do rapagão espadaúdo traz a Sepelio um endurecimento em todas as partes do corpo. O próprio olhar, singelo sempre, teve umas crispadas de dura revolta, e êle pôde encarar de frente aquêle que até um minuto antes o atemorizava, demasiado. Ganhou confiança até para um início de diálogo, que foi necessário, nascido pela mesma posição de ambos diante de uma situação semelhante. Apesar de ponderar que a tristeza daquêle ser ali, a dois passos de distância, combalido, mas que poderia ter fôrça de ânimo para ser seu pai, poderia ser fruto de sua imaginação, cismou em sentir-se irmanado e arriscou:
        - O senhor me desculpe, sou muito distraido.
        Felonio já não sabia do que se tratava. Esboçou o sorriso negligente.
       - Às vezes, tem gente que entra no elevador – gente também distraida – que só me cumprimenta quando já fechei a porta e quando já estamos os dois fechados, e mesmo assim não reparo, e só vou responder quando abro a porta no andar que êle pediu... E êle fica muito espantado... Isso me acontece muito, disse Sepelio com sofreguidão, sem encarar Felonio.
        - É, isso às vezes acontece, articulou êste, procurando enquadrar-se no assunto.
        - Não, cortou Sepelio, para mim isso acontece sempre, disse quase com paixão, em seguida do que emendou, para reparar o tom rebarbativo: - Quer dizer: quase tôdo dia, quando me acontecem das minhas, lamuriou.
        Felonio captou-lhe o olhar lasso, escorregadio, quase confidente.
        - Mas você é um rapaz muito novo para ter problemas assim tão terriveis; isto é... terriveis pelo que se deduz de suas palavras... De seu jeito..., agregou Felonio, querendo entender-lhe o sentido. Estava quase certo do “estranhíssimo” caso do adolescente.
        - Ahn, a gente sofre cad... Se o senhor vivesse comigo um dia – olhe: um só dia -, veria que não... não é possível sofrer tanto... quem não faz nada... Não nasceu pra isso...
         Esse “sofrer tanto...quem não faz nada... não nasceu para isso” transformou Sepelio numa autêntica rapariga (ali, naquêle local, uma holandesazinha sardenta) do seculo XVIII, despudonorada à fôrça e que se retirara para um mundo de perpetuo abatimento. Felonio estava confuso. Havia um pudor horrível, inadiável, acomodando os dois. De desconfiado, passava também a confidente.
         Ora, disso com certa precaução, isso tudo acontece a qualquer um! Tôdos nós temos problemas.
        Ao falar disso, lembrou-se de Mariana e associou-a ao ascensorista. Enfiou as mãos nos bolsos do paletó: assim, com os cotovelos aparatosos, era um manequim que inconcientemente lhe dava uma solidez inanimada e que êle não possuia nêsses momentos.
        - E quando descobrimos certos problemas dos outros... que nos cercam, aumentamos os nossos, acentuou, fortificando a suspeita de que o ascensorista sabia de algo a respeito de Mariana.
        - Ahn, isso é verdade! é muito certo! O senhor disse uma coisa que eu muito penso! A gente que nos rodeia...Ah..., e quase deu uma cusparada, meio absorto.
        Felonio sentia o pêso de alguma coisa oculta, que o outro forçava por dizer-lhe, só não o fazendo por não ter encontrado o jeito de iniciar. Ia dar-lhe meios para tanto, quando um sorriso muito diferente rasgou a face ovóide do rapaz; agora era êle, Felonio, que precisava de um meio de iniciar a conversa sôbre “aquilo”. Lembrou-se, num instante, daquêle encontro fortuito de cinco dias atrás:
        : êle, vestido de amarelo (era horrivel) quase vergado no meio (era o terno amarelo, acinturado) transportando Mariana pelo braço. Mariana era um primor de azul claro (agora êle olha Sepelio nos olhos: êste parece que não está ali. Será que também pensa em? Sepelio é um rapaz inteirinho oval, o nariz oval, a bôca mas é demais oval!). Êle transportava Mariana, pondo a mão quase sublimemente sem pêlos no cotovelo da mulher. O andar, entretanto, plant, tóc, plant, plant, tóc, plant, tóc, plant, plant, tóc, êle não compreendia: seria possível? Iam ambos em mesma distância, Felonio balançando-lhe o cotovelo, Mariana falando, compulsiva, um assunto de rua e, no entanto, seu sapato de borracha dava dois plant, o da mulher dava um tóc, êle queria consertar aquilo, mas ficava tão soturno que só assim Mariana se subjugava. Então deu mostras de cansaço, estava cansada e o marido a transportava, a mão no cotovelo. Tinham atravessado tôdo o saguão do prédio; ao entrarem no elevador, cumprimentaram o ascensorista, que respondeu muito pálido, quase automático. Mariana enconstou-se à parede, desligando-se de Felonio. Êste, virando-se duas ou três vezes para a mulher, como se a consultasse sôbre algo, pôs as mãos nos bolsos do paletó amarelo, depois de abotoá-lo. Pediu com os olhos ao ascensorista que o levasse ao décimo quinto. Sepelio, de costas para ambos, vestido de jaqueta cinza, com o pescoço gostosamente crescido, aparava o olhar suplicante de Felonio na nuca e demorava-se muito em cumprir sua obrigação. Sabia que teria de levá-los, mas alguma coisa lhe tolhia o movimento. De repente, tomou consciencia de que esperava era um homem que havia despontado há pouco lá no fundo do saguão. Virou-se, percorreu o casal com um olhar nublado, indicou com a cabeça a figura do homem, que amiudou o passo logo que percebeu que o elevador o esperava; por fim, tornou a postar-se numa posição em que era tôdo pescoço. Mariana devorava-lhe o pescoço com repugnância, conjeturando a respeito do marido. Felonio espreitava a ambos e chegava a ser ridiculo aos olhos da mulher. Por um momento, Mariana sentia-se bem, desligada de Felonio, com o cotovelo livre. Chegava a encolher-se mais para o canto, como se o elevador estivesse repleto. Esta atitude fez com que o rapagão espadaúdo, mal recuperasse o fôlego da correria que empreendera para alcançar o elevador, lhe dirigisse um olhar de humilde respeito, ao mesmo tempo que passava a mão esquerda pelo rosto, tamborilando a coxa com a direita. Virou-se e encarou Sepelio, significativo. O ascensorista dividiu o olhar entre os três, enquanto apertava o botão do décimo quinto. Quando o elevador se precipitou, deu quase meia volta ao corpo, abriu as pernas duras, estancadas, esculpidas para suportar-lhe o corpo e olhou Felonio nos olhos, que se colocara no meio do elevador. O ascensorista parecia perguntar-lhe o numero do andar em que deveria aportá-los. Em seguida, sem esperar qualquer outra solução visual, virou-se para o lado do rapagão espadaúdo. Começou a esquadrinhar-lhe a figura de baixo para cima, aguardando o momento de perfurar-lhe a cara com aquêles dois olhos que azulavam, quase refletiam na gravata do rapagão, que era amarela, e também onde se encontrava o olhar de Mariana. Esta, atemorizada por algo de terrível que pressentira, mal se fecharam as portas do aparelho, achegou-se a Felonio molemente, dando-lhe o braço, no que foi correspondida por um balanceio de corpo negativo do marido, mas abstraidamente. Êle tinha-se distraido, ha poucos segundos, com umas ideias tolas, em que envolvia a mulher, o velho da porta da igreja (o que lhe desejara boa sorte logo após o casamento, há três dias atrás), e o proprio ascensorista. Recordava-se do olhar do rapazola, quando lhe anunciou que era recém casados e que exigiam absoluta tranquilidade. Era evidente que nunca vira rapaz com aquela expressão. Mas, depois de curioso, adquiria feições de cúmplice de alguma coisa que não estava certa. Disso êle tinha quase certeza. Depois do primeiro dia, o ascensorista procurava até arrepiar caminho quando os via, ou não encará-los de frente, quando tomavam o elevador.
          O aparelho ganhava o oitavo andar.
         Mariana tirou-lhe o braço, tornou a encolher-se em seu canto. Repentinamente, Sepelio começou a olhar ao rapagão com outras expressões. Diabo: se êle lhe chegou um dia, despreocupado, bonacheiro, até com o rosto estufado, enchendo a boca de ar, nêsse gesto de saúde atlética, mas que lhe quebrava a beleza do rosto com facilidade; se êle lhe pôs a mão no ombro e o chamou de lado, num canto particular, sem dissimulação (se fôsse culpado, teria abordado o ascensorista no proprio elevador, para dar mostra de que era uma coisa de que não procurava eximir-se); se o rapagão chegou até a soprar-lhe na cara, tal a importância do caso, não poupando ao ascensorista nem a observância de um certo mau hálito; se êle chegou e lhe disse, é isso mesmo, se lhe disse que “desejava muito falar à recém casada, mas sem que o marido soubesse, pois era um caso de vida ou morte para umas certas pessoas da estima do casal”, diabo, era caso para se respeitar, e êle estava ali para atender, e êle estava ali para não desconfiar de nada, diabo, não tinha nada com isso e, nem que tivesse, a única mulher que lhe poderia inspirar ciume era Gardenia e Gardênia já morrera, aí seu Deus, êle sofria até que Deus o livrasse dêsse mundo. Veio-lhe à mente a figura do pai de Gardenia. Se pudesse tornar a viver para praticar um só ato durante a vida tôda, passaria a vida tôda matando o pai de Gardenia. Mas isso já era outro terror, e êle já estava cansado de tanto terror. Entretanto, aquêle desmiolado pai tivera a culpa de sua morte, sôbre isso não alimentava qualquer dúvida. Quando o elevador ganhou e décimo terceiro andar, tôdos se prepararam dando um aprumo ao corpo, como se fossem descer juntos e alegres se abraçassem em caminho de algum festival já malogrado na mente dos quatro: o rapagão espadaúdo sabia que não ia descer no décimo quinto, esticou o corpo e virou-se para dar passagem, mas, atraído que estava pela situação de seu segrêdo, delirava a passagem do perigo daquêle encontro em recinto fechado, e com isso sorriu aos três e estufou o peito, parecendo imbecil aos olhos de Mariana. Esta, a principio, quiz dar o braço ao marido. Resolução logo desfeita por outro lépido maneirismo: armou as mãos em forma de passadeira, deslizou-as pelo vestido à altura das coxas, enquanto separava os maxilares, esticando o rosto, abandonando-se até às ultimas conseqüências àquela situação tão fascinadora; sabia que os rapazes não se atracariam (ela não sabia por que haveriam de se atracar!) talvez por causa de sua presença, e nisso ela não quiz ter marido. Estufou o busto e preparou-se para sair, não sem dizer com os olhos ao ascensorista que nunca mais fizesse aquilo, que os rapazes triste não devem brigar, atitude que a fez vaidosa aos olhos do rapagão e extravagante aos do marido. O olhar que não puderam evitar fosse trocado, apesar do esfôrço de ambos, que ligou os rostos dos rapazes através do rôlo de cabelo incrustado na nuca de Mariana, foi o que prosternou Felonio: Sepelio a principio enunciou, num franzir de nariz, que sentia muito o outro não ter oportunidade de ver lograda sua missão junto à recem-casada. O rapagão entendeu com isso que o ascensorista zombava o malôgro de uma suposta relação ilegal dos dois e, firme, desviou os olhos dos outros então chorosos do ascensorista e percorreu-os pelo corpo, àquela hora sensual, da mulher, esquecendo-se do marido. Visava desnortear o rapazola, mostrando-lhe que êle era absolutamente ridiculo e digno de pena se procurasse interferir em seus desígnios de cobiçar e perseguir uma mulher alheia. Assim agindo, pareceu um autêntico D. Juan aos olhos do marido e fez com que o sangue lhe subisse à cabeça e à do ascensorista. Felonio tomaria uma atitude enérgica; esboçara até um movimento agressivo com a cabeça e chegaria a atropelar com o rapagão, não fosse a suspicácia desesperada de Sepelio. Mariana sentiu a mesmissima sensação de quando entregara a Felonio o primeiro beijo, ainda em sua terra: um frio na barriga, uma revolta nas pernas, um prazer que descia pela garganta e uma vontade de ser disputada, seguida de uma vergonha altiva, que gerava um domínio sôbre tôdos os circundantes. Cortou o encaramento entre o rapagão e o marido, que já se sentia aniquilado pelo olhar ciumento do ascensorista. Dois segundos mais, chegavam, ao décimo quinto andar.
            .......................
            Rememorando êsses fatos, Felonio saía de um estado de torpor contemplativo, onde tudo era duvidoso, para um comêço de cólera, onde vai se tornando irremissivel. Fixa o olhar na boca de Sepelio, de onde saíra, ha cinco ou seis segundos, aquêle: “Ahn, isso é verdade, é muito certo! O senhor disse uma coisa que eu muito penso! A gente que nos rodeia! Ah! ... – e logo a expressão facial enojada do rapaz.
           - Olhe: eu gostaria de conversar sôbre essa gente que o rodeia, disse, resoluto, Felonio, acentuando o “conversar”.
           Sepelio sentiu uma lâmina gelada perfurar-lhe o estômago. Deus o livre.
           - Szzzmtkkhanhhh não tem importância se o senhor quizer, respondeu sem qualquer pontuação, numa frase que mais parecia um grito remediado.
          -É. Não, porque nós temos um dia que nos desabafarmos com aguém, em quem a gente confia, não é?, disse Felonio num tom em que a cólera era quase um chôro. O medo do ascensorista lhe dava um desespêro inédito. Nos lampejos intermediários, sua mente vislumbrava Mariana também desesperada, e com isso êle proprio tinha medo e desviava o olhar do ascensorista, rezando por não vir resposta.
           - Szzznthahhh o senhor tem razão. Grrr. (Tlim). Prontinho.
           Haviam chegado no andar de Felonio. Sepelio sentiu-se na obrigação de dizer algo.
           - Às vezes não vale a pena a gente falar sôbre isso. Às vezes não vale... Oh, é besteira a gente comentar certas coisas... Não adianta, não conserta nada.
           A maneira com que foi dito isso era muito natural, as palavras escorregaram, listas, pela boca oval de Sepelio; Felonio sentiu-se deslocado e nem das profundezas da alma arranjaria mais qualquer palavra para dizer ao rapaz. Agradeceu com os olhos, tirou as mãos dos bolsos do paletó.[NA MARGEM DO ORIGINAL ENCONTRA-SE A FRASE: “Desenvolver depois, em Sepelio a “noção” dessas fraquezas de Felonio. Êste terá também “ciência” de que se “mostrou” e reagirá com ódio” ] Em outra atitude, em que parecia alçar o corpo na ponta dos pés inconcientemente, endereçou novo olhar a Sepelio, em que êle Felonio se desculpava por se ter ultrajado de modo tão jogral, e coçou a ponta do nariz, mostrando uns dedos finos, longos, que pareceram a Sepelio medonhamente viris, medonhamente românticos, medonhamente com unhas bem tratadas. Sepelio também lhe enviou um olhar à altura, antes de fechar a porta do elevador, mas em sua expressão se misturaram visões tais como:[na margem 13-05-54]
         
UMA SALA MUITO AZUL. Um quadro oval no meio da parede, quase rente ao chão. Papeis de parede, colantes, listras de azul chileno. Dentro do quadro oval, meio corpo de Felonio. À direita da sala, deitada, em transversal, uma figura em cinzento diáfano. Os olhos muito esticados, não fora das órbitas, mas pendentes da base do cabelo, onde começam as entradas. Dezenove anos e braços em plano anteposto, de onde saem duas casas, azul cobalto, ligadas pelo telhado, tendo no centro um vão sem perspectiva, pequeno páteo, truncado por portas enfiadas na parede de atravessado, com quinas salientes. À esquerda da sala azul, plantada no páteo comum das duas casas, uma mulher em violeta, muito esticada, a cabeça pouco abaixo do ponto de junção dos dois telhados. Seu rôlo de cabelo incrustado na nuca é o globo de luz, muito antigo, também comum às duas casas. Não esparge nenhuma luz. A mulher de violeta, de braços muito roliços, fina da cabeça à cintura e engrossando da cintura para baixo (não era um volume com duas formas, ou volume metade fino metade grosso: eram dois  volumes, um complemento de outro, jogando muito ao se deslocarem ) esculpe em barro amarelo-claro estátua de homem hercúleo, inflexivel. De seu corpo pendem grandes excoriações na argamassa, algo esverdeada, onde forma uma parede desrebocada a distâncias. Subindo pela parede uma pequena janela, mais acima outra com outra paralela e, bem no alto, talvez o sótão, outro ainda. Na casa da direita, a mesma superposição de janelas, vermelhas, entretanto, e sómente a do meio se conservando aberta. Na primeira janela da casa da esquerda, dois vasos com flores indecifraveis, agressivas, encaracoladas de tal forma, que pareciam constituir um parapeito de cimento nervoso, dêsses antigos, com arcabouçozinhos de ferro do lado de fora. Dentro da janela, objetos excessivamente estáveis, armário, mesa ovalada, banquetas e na única cadeira um gato fincado, rijo, com uma expressão que parece esperar as oito batidas do relógio e a escuridão envolvê-lo, para deslizar (os objetos da sala não o deixam saltar) entre o chão e postar-se no fim do corredor, onde te sua toca. Mas, tôdo êsse interior não se vê, é apenas percebido. Na janela de cima, mal colocado, deixando vaga uma grande parte, um homem de quarenta e cinco anos, rosto quadrado, olhar duro mas alcançável aos poucos, absorvido de tôdo ambiente, janelas, telhado, páteo, figuras. Seu olhar descansa ao longe, envolvendo, com uma espécie de desvêlo indolente, a figura colocada de atravessado, em cinzento diáfano.

          [na margem 14-05-54]
É o rapaz de dezenove anos, que, no plano dos olhos do pai tem muitos significados, mas que para aquêle apenas descansa a sesta em pequeno jardim das imediações. Seus olhos, colocados na base do cabelo, são duas margaridas incolores e sua postura tem algo de remanescencia de belos objetos. Na última janela, talvez o sótão, uma mulher gôrda e insignificante de fachada, mas de perfil martirizado. Seus grandes braços, apoiados na base da janela e suportando-lhe o corpo, parecendo impelí-lo para o interior, esmiuçam detritos que as mãos colhem, nervosas, nos cantos da janela, em gesto inapercebido. Tem os olhos fixos no páteo, onde se escutam, fazendo dos ouvidos olhos, colocados um ao lado do outro, um menino e uma menina, a mesma idade. Na casa da direita, na única janela que se conserva aberta, um homem magro e tôdo cortado em ângulos, a nuca saliente, o pomo da garganta saliente, a carcunda acentuada, a parte da barriga consideravelmente avançada. Visto de frente, entretanto, chega a ser belo e estranhamente atraente. Não se lhe vê a fisionomia; o cabelo, contudo, é liso, bem untado, para trás e sem qualquer linha de corte. É o pai da menina ao lado do menino, no pateo. A atmosfera indica ser sete e meia da tarde, e tôdos os contornos se diluem com vagar, as figuras pouco ou quase nada se mexem. De repente, começa a escurecer, vertiginoso. As casas sofrem com isso, parece que estremecem, ouvem-se pequenos barulhos, indecifráveis, que não se sabe de onde vêm. Não há pânico em relação às figuras das janelas, que se postam, porém, em situação de desespêro procurando aflitivamente as crianças no páteo. Escurece e escurece. Houve estremeção ou apenas presságeo de tempo avassalador? O menino e a menina do páteo se beijam na boca, assustados, sem notar qualquer outro perigo. A mulher da janela do sótão grita por êles mas não é ouvida. Fecha a janela, some-se por ela, notam-se-lhe os passos na escada. O marido, o homem de cara quadrada, preenche agora tôdo o espaço da janela e chama Sepelio. Sua voz, plangente, enérgica, mas logo de energia embriagada, que só se completa com outra voz, em réplica, movimenta o rapaz cinzento diáfano. Êle dá volta às casas, sobressaltado e quando chega ao páteo olha para cima e começa imprecar contra o pai e contra o homem anguloso, fronteiriço. O primeiro, envergonhado e surpreendido pela atitude do rapaz, desaparece da janela num gesto brusco, de desagravo que, ainda que passivo, lhe prometia um ajuste de contas. O homem da janela fronteira levemente sorriu, Sepelio o maldisse com fervor, e só não o matou com os olhos porque anteviu sua filha, Gardênia, chorando-lhe a morte, e nisso êle se sentiu culpado, e quiz sumir-se nos fundos do páteo. Estacou, vendo o irmão beijar a irmã de Gardênia. Então, sua expressão de estarrecimento deu lugar a um sorriso de beatitude, sem que de seus olhos desvanecesse um ressaibo de desaprovação. Mas êle parecia ouvir o chamado plangente do pai e talvez o grito da mãe. Sentiu-se combalido e teve impetos de bater à porta da frente e chamar Gardênia. Virou-se e em seguida estacou, pela visão da mulher de violeta, muito esticada, esculpindo. Experimenta, nos olhos, uma dessas impressões de que já se viu tal ou qual pessoa em algum lugar. A atmosfera é quase negra, e êle, aproveitando-se, com o sangue na cabeça, se lança ao pescoço da mulher, que é Mariana. Ela, debalde, não se move, continua a esculpir e desde então Sepelio percebe a estátua e encara o rapagão espadaúdo com nojo, consumindo-se em ciume. Experimenta a sensação de que a mulher apenas se distrai, esculpindo aquêle ser belissimo; fica oscilando entre ciumento e longínqua, distraidamente compreensivo. Enfim, aproveitando ainda o contacto com a mulher, suspende os braços, leva a mão ao rôlo de cabelo incrustado na nuca de Mariana, e apaga o globo, acendido há pouco, mergulhando tudo em quase completa escuridão.
            Apaga a luz do elevador.
            Felonio quase se ofendeu, só não fazendo devido a tudo se ter passado tão rapidamente, que êle mal teve tempo (Sepelio logo acendeu a luz) de escoar a surpresa na escuridão. O rapaz compensou tôdos esses instantes de turvação mental, que pareceu a Felonio uma esquisitice acabrunhadora, com um demorado sorriso amarelo, de lamentação. Seu rosto tomou logo a forma de um bastão. Ao final do encontro, todo o ambiente tornou a se transfigurar e Sepelio destruiu, com exasperação, toda aquela fileira de janelas. Transportava-se de novo, e passando a mão pelos quadradinhos nos botões dos andares, oito, cinco, quatro, botava tudo abaixo. Na fileira de janelas da casa fronteiriça, alguém queria subir, no quarto andar; o quadradinho reluzia. Felonio levou a mão e apagou, destruindo o pai de Gardênia. De tudo, restou apenas um quadro oval quase rente ao chão – a boca do ascensorista – e o papel de parede, colante, listras de azul chileno – o terno de Felonio. O nosso homem balançou o corpo e empreendeu uma retirada, não podendo mais suportar o ambiente; entretanto, já reservava certa animação para voltar. Sumiu pelo corredor.
           Sepelio, já então mais tranquilizado, teve um movimento com os braços lamentando a perda de oportunidade de perguntar ao outro alguma opinião sôbre seu modo de viver. No fundo, sabia que alguma palavra daquêle individuo lhe resolveria grande parte dos problemas, e, mesmo assim, sentia um quase pavor ao se aproximar dêle. Como êle estimaria que não fosse casado!
           Casado. Agora, no apartamento, tudo dizia a Felonio que estava casado, e êle não acreditava: os moveis, o retrato, o relogio marcando sete e meia, uma cadeira bem na quina da mesa, tudo formava um ambiente que só poderia ser de casados. Êle foi à cozinha, pegou de um copo e tomou água. Em cada gesto, queria fazer um barulho, para produzir algum outro mais forte, de acordar alguém, mas evitava-o franzindo tôda a testa, como se provocado pelo barulho. Parou uns instante na sala, em seguida entrou no quarto e trocou a gravata. Enfiou no colarinho a “borboleta” roxa, já bem antiga. Mariana jazia no leito submersa na coberta. Felonio percorreu-lhe a figura através do espêlho do guarda-roupa. Assim, vista indiretamente, provocava no marido uma fortíssima impressão de ilicitude, que lhe disparava o coração. Êle gosou, por um segundo aquela atmosfera deliciosa, perigosa, e fixava os olhos no criado-mudo, de onde pendia um lenço impecável, bem passado. Ao virar-se e ao comtemplar o leito de perto, deitou os olhos na face da cama que lhe pertencia. A respiração da mulher oscilava a região montanhosa da outra face. Felonio fez menção de arquear-se sôbre ela, mas interceptou o proprio gesto com outra atitude, que lhe crispou a face: ao se aproximar da cama e ao encarar o lado da cama que lhe pertencia, então amassado e com obcenas amarrotações no lençol, provou uma certeza sinistra de que sua mulher o trairia, fatalmente, pelo menos uma vez na vida. Tinha as pálpebras quase cerradas, o corpo relaxado e sentia um gôsto amaríssimo na boca. Então levantou o corpo, sem tirar os olhos da cama e do lençol desabitado, de onde parecia que se propagava um cheiro azêdo, de roupa mal lavada, ou nova. Relembrando certo acontecimentos, e com aquelas figuras na cabeça, saiu do quarto na ponta dos pés. Na sala, sentou-se distraidamente, tirou um cartão do bolso, pôs-se a escrever algo, nervosa e trêmulamente. Não sabia porque lhe viera à mente a lembrança do irmão Amâncio, que êle não vira ha muito tempo, senão de sosláio, na Igreja. Êle talvez precisasse falar ao irmão, pois Amancio tinha sôbre êle a vantagem de se moldar a qualquer especie de preocupações e possuia mesmo uma grande altivez que se alimentava de situações trágicas. Mas, antes, era necessario pôr à prova a fidelidade da mulher; não podia invocar uma especie de homem daquêle sem estar certo de que o problema existe. Conhece bem o irmão, sabe do que é capaz. Assina o cartão. Trrrraaaço. Amâncio, sem ninguém notar, depois que se entrega, oh é duro, duro, duro, ninguém o convence de que houve o equivoco. Levanta-se em direção à porta. Mariana ainda estaria com a cabeça para dentro da coberta? Lembra-se do caso do titulo quase protestado. Ah, como Amâncio. Após olhar novamente ao relógio, Felonio resolve sair. Aperta o cartão nos dedos e, escorregando-lhe o olhar mole mas quase raivoso, aguça o ouvido em direção da porta do quarto, enquanto lê: “QUERIDA: PASSAREI O DIA EM VIAGEM; EXPLICO-LHE O MOTIVO AMANHÃ, BEIJOS DO FELÔNIO”[na margem 9-08-54]
        
E resolve sair, clamando, num desespêro intimo, que lhe quebrava as coisas pela metade (o rádio é um simples pedaço de pau, mudo....: q.n.a.lh.tr.ma.um.recrdç.~, aquêle chinelo no canto da sala é um negocio sem sentido mas muito peculiar, simpático e para conduzí-lo a alguma supresa ou em busca do sedativo) – clamando a consequência daquêle barulho que vem do quarto, onde a mulher dorme. Se êle a encontrasse a gora, ali, no limiar da porta, trancando-lhe a passagem para convencê-lo de que era tudo um grande absurdo, uma fraqueza de seu espirito ainda não realizado de marido, tinha certeza de que abandonaria, de pronto, tão rude empreendimento. Chegou a pensar mesmo que ainda que Mariana se levantasse imediatamente para lhe dizer que de fato, sim, de fato, teve um desêjo enorme de traí-lo (onde?), mas que não o faria mais, ou adiaria (desêjo porque?) êsse... antes fosse capricho -, se êle deixasse de tolices, mesmo assim êle extinguiria a idéia por definitivo. Entretanto, ao cabo de poucos instantes, não veio nada do quarto e Felonio cruzou o arco da sala contraindo muito a fisionomia, agora estranhamente realçada pelo nariz arrebitado.[na margem 14-8-54].Estava efetivamente ferido em seu amor proprio; isso lhe dava, contudo, um grande temor, temor de sentir ferido no amor-proprio, pois no fundo tinha quase certeza de que não se dedicara à mulher nenhum verdadeiro grande amor: como poderia sentir-se ferido no amor-proprio, se não dedicara amor a ninguém? Será que não ama Mariana? E êsse desespêro de imaginá-la dividida nessa afeição que êle de forma alguma admite não lhe pertença totalmente?
          Assim conjeturando, Felonio saiu para o corredor, embaraçado em seus propósitos. À medida que se distanciava da porta de entrada, porém, crescia-lhe n´alma uma especie de revolta consumidora, que lhe transtornava a face, dilatando-lhe as narinas, isso tudo provocado pela visão de seu recanto fechado, entranhando Mariana, e do qual êle se desligava com grande rapidez. Quando apertou o botão do elevador, essa revolta recrudesceu, pois lhe veio à mente uma serie de associações não muito comuns, até perturbadoras: começou a prestar atenção ao rosto de Mariana e em suas reações faciais, por ocasião de seus coloquios com a mulher.[na margem 22-8-54]. Somente então percebeu o verdadeiro significado do olhar fugitivo de Mariana, exatamente nos momentos em que a fitava para sentir-se seguro quando aventurava um chiste malicioso ou tentava uma aproximação amorosa. Mariana iniciava a “retirada” com um passar de dedos ao longo das pernas, simulando um assentamento da saia; logo mais, desviava o olhar, de onde não se apagava um sentimento de respeito ao temor que invadia Felonio nêsses instantes. Só agora êle compreendia que aquêle ar encabulado da mulher era por culpa de sua falta de confiança, que na certa ela já teria notado. E foi pensando nisso que Felonio se sentiu horrivelmente ferido numa espécie de amor-próprio decorrente de não poder siquer ousar em sentir-se ofendido, sem que o invadisse uma humilhação que confundia com a pior das vergonhas.
           Um minuto mais, a porta do elevador abriu-se, êle entrou por ela, muito transtornado. Um segundo depois, contudo, ao esboçar o primeiro gesto, desanuviou-se-lhe a fisionomia, e êle adquiriu uma certa consistência animada nas feições: o olhar se aclarou imediatamente, invadiu-lhe a testa uma limpidez quase infantil, êle se tornava mais leve. Foi nêsse momento que disse ao ascensorista, em tom desusado:
            - Olhe, menino: tome aqui êste envelope. Você me faz o favor de entregá-lo à minha mulher, lá pelas dez e meia, viu?
           Sepelio levou a mão ao envelope, guardou-o no bolso, num gesto reflexo, muito rápido, antes de atinar com o sentido daquelas palavras. Procurou debalde o olhar de Felonio; não sabia enfrentar uma situação com aquêle homem sem primeiro olhá-lo bem nos olhos. Felonio, contrariamente, não conseguia olhar ao rapaz senão na medida em que êste procurava dissimular alguma coisa.
            - Sim senhor. O senhor quer que entregue às dez e meia, antes não, só depois das dez e meia, não é?
           O rapaz começava a alimentar um grande desêjo de vê-la de perto. Começava a associá-la a Gardênia, o coração batia-lhe forte, mas agora êle não teve medo.
           - É, me faz o favor. Mas não me entregue antes das dez e meia, faz favor?
           E como notasse que estava a repetir certas expressões, emendou atrás do “faz favor”:
           - Ela está cansada, Não quero acordá-la antes dessa hora.
          Sepelio procurava-lhe o olhar para dizer que sim, mas o remanescente da vergonha que invadira Felonio no corredor parecia reavivar-se sob o influxo da idéia de Mariana ser acordada em sua ausência. Antes que Sepelio pudesse afirmar que sim, podia ficar descansado, o cartão não seria entregue antes das dez e meia, Felonio ainda lhe disse, mas sem encará-lo siquer de relance:
          - E sôbre aquêle negocio...daquêle pessoal, que parece que você disse...que o atormenta, nós poderemos conversar qualquer noite dessas.
          - Ah, isso não tem pressa. Isso não se conserta assim, de uma hora para outra. Mas em tôdo caso, eu chamo o senhor, eu agradeço muito, nós conversamos qualquer dia dêsses, respondeu Sepelio, incoerente mas com estranha segurança.
          A figura de Gardênia, sua namorada morta em circunstâncias tão revoltosas, começava a tomar-lhe a mente, provocada pela ideia de acarear-se com Mariana. E isso lhe tirava qualquer temor.
         - Mas precisa ser logo, disse Felonio, em tom quase intimativo. O rapaz, inconcientemente, deu ao rosto um trejeito de submissão.
          - É. Porque hoje eu vou viajar e volto amanhã. Mas, talvez depois dessa viagem eu faça outra... E não sei para onde, nem se volto logo. Tem que ser nesta semana.

          [na margem 25/ 08/54]
Coisa estranha: parecia a Felonio que êle estava ali para infundir no rapaz uma espécie de sofrimento muito cruel e sem sentido, e que entretanto êle não poderia perceber através da fisionomia certamente transfigurada de Sepelio. Felonio não aventurou olhá-lo nem por um segundo, até que o elevador ganhasse o térreo. Só de então o ascensorista começou a modificar o semblante, que adquiriu uma tristeza tão desesperada, que êle não pôde deixar de dizer a Felonio, só faltando cair-se-lhe nos braços, como uma criança que estivesse para morrer, mas que soubesse o significado da morte e que fosse, de repente, diante de um ser mais velho, mais avolumado, mais grave, destituida de tôda inteligência e reduzida a uma criança bem menor, mas ainda com o significado da morte no coração, tendo a mente conturbada:
         - Oh, meu Deus, eu digo pro senhor qualquer dia dêsses... não! qualquer, é melhor uma noite... Mas eu não sei se devo dizer... Eu não estou bem certo... Essas coisas é melhor a gente guardar oh meu Deus que vida desgraçado sou um desgraçado desgraçado...
         Ao proferir estas últimas palavras, armava o punho e conduzia-o para o peito em gestos bruscos e cortados, porém sem bater. Tôda sua familia e seus casos particulares desfilavam-lhe nos olhos, àquela hora em chispas, profundamente enraivecidos. Felonio armava no cérebro um mundo de desconfianças envolvendo Mariana, o rapagão, o ascensorista, e isso lhe infundia um egoismo estremamente pernicioso, que se manifestava nos olhos, fincados no peito do rapaz, no ponto onde o punho descrevia a volta para novo movimento. Felonio queria tirar o máximo proveito daquêle desespêro, mas Sepelio subitamente quase lhe deu fim, limpando a fisionomia numa atitude inexplicável, que lhe colocou na boca um sorriso muito amarelo mas personalissimo, que desculpava imediatamente tôda a encenação.
          Todavia, Felonio não deixou que a calma se restabelecesse: inconcientemente, mas sem qualquer reservas, lançou as mãos aos braços do rapaz, segurou-os, firmes, e puxou-os para baixo, como se ainda houvesse desespêro:
          - Bem, calma, calma, rapaz, não faça isso... Hein? Ora, não! não se acanhe.
         E dizendo isso, ainda não chegava a olhá-lo no rosto. Quando, depois de algum tempo, soltou os braços do rapaz, pendidos e sem resistência, êste lhe disse:
         - O senhor me desculpe, é que e