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[INÁCIO ARAÚJO, in
FOLHA DE 17-9-99, a propósito de “Os deuses malditos”, de Visconti:
“Gilles Deleuze escreveu que ‘os objetos e os meios conquistam uma
realidade material autônoma que os faz valer por si mesmos’ . Na
história de uma família de industriais alemães que se afunda até o
pescoço numa aventura nazista, uma almofada é tão importante quanto
um massacre. Na observação de Deleuze, sobrevive do neo-realismo
original, num filme dos anos 60, a idéia de que pessoas e coisas
existem desde que são olhadas. Por mais que aconteçam coisas, são
filmes de situação, antes de serem de ação.”]
O romance abaixo,
parcial, foi desenvolvido nos primeiros anos da década de 50. A
influência de Proust é evidente. Seu conteúdo, entretanto, elocubrava no
campo de um certo misticismo (figuras criadoras vs. figuras criadas,
p.e.). A carta a Osmar Pimentel, na época junto com Álvaro Lins nossa
maior autoridade crítica de ficção, explicava-lhe a concepção e
os objetivos, após um papo pessoal e ocasional na casa de Mario Chamie.
Ela vem transcrita abaixo, após o capítulo III do romance.
(ouça a
entrevista com Fernando Rios, em duas partes ( cf. gav. Entrevistas),
nas quais se alinhavam coisas ligadas à concepção do mesmo e à maneira
de ver Poesia que o Autor tinha na época da elaboração)
(REDAÇÃO DA ÉPOCA DO INÍCIO)
DATA:
Iniciado em novembro de 1952.
TÍTULO
DA OBRA (“Nausaérea”, originariamente) : OS
SENTIMENTOS DIDÁTICOS.
ASSUNTO DA OBRA CÍCLICA: O primeiro relato é uma espécie de
conciliação proust-joyciana obedecendo à seg. deliberação:
a) Primeiramente, a ação é descrita no estilo de Proust – por
conseguinte: num fraseado interminável, penetrante, com
profusas digressões de ordem psicológica, etc e onde o acontecimento
é visto subjetivamente, isto é, através do Narrador. O início do
conto já é seu próprio fim (como
acontece com a vasta obra de À LA RECHERCHE
DU TEMPS PERDU) e tudo que foi dito pertence a um momento
passado, que preparou aquela fração de minuto por onde se desenrola
o capítulo (relato). Naturalmente, tudo pode não ter sido
senão a expressão de um temperamento e, portanto, uma fuga da
realidade objetiva.
b) Em seguida a ação é descrita no estilo de Joyce (o Joyce de
ULYSSES) – POR CONSEGUINTE:
num estilo sincopado o ubÍquo, cinematográfico, essencialmente
objetivo, contingentemente subjetivo (monólogo
interior), onde o acontecimento é visto estritamente ligado
ao fato, e naquela fração de minuto por onde se desenrola :
o tempo, responsável pela existência
de todo o passado (e o passado, quando
passa a existir, adultera o presente) é nesta parte
eliminado.
A SEGUIR: II) A Tiróide e a
Rosa
III) Mulher de
Alma Oxigenada
IV) O Prazer é
Todo Nosso
[NOTA DA ATUALIDADE: NOS ESCRITOS DA ÉPOCA VEM A FRASE: “QUASE
TUDO MODIFICADO” ]
Finalmente, o romance entra na fase
do estilo fundido, unica forma estética que encontrei para adentrar
o “universo das possibilidades impossíveis”, mundo e ambientação de
toda OBRA CÍCLICA, cujo ponto de partida é “A tiróide e a rosa”, e
onde as coisas também vêem os homens, numa espécie de
advertência mística que, se não chega a vingar, no mais das vezes,
interrompe entretanto o fluxo vital, iniciando as “possibilidades
evitadas”. Como consequência, liberta-se a criatura no rompimento
do convencional. Aquele estranho mundo Absurdo* por onde se
movimenta Mariana na parte (cap.) III (“Mulher de alma oxigenada”)
da Obra Cíclica, nada mais é que uma “imageria” criada em função de
sua vontade subterrânea, isto é, a de trair o marido. E aquela
maneira estranha de fazê-lo, num mundo não menos estranho, de
costumes inversos, de Moral inversa, onde predomina, enfim, o
Absurdo, acaba sendo perfeitamente normal, pois determina seu
temperamento nervoso, sua motivação absolutamente velada e satisfaz,
de um modo cômodo, implericlitante, sua cabal intenção. Pois
evitando, naquela tarde de extraordinária aventura e de grande
pecado, encontrar-se com alguém, trai gostosamente o marido;
mas não se encontrando com ninguém não é, neste mundo (que não o da
novela) um perfeito exemplo de fidelidade?
Ai reside o perene retrato de seu temperamento e a normalização de
seu temor. 7-XII-52
* O universo da
Obra Cíclica não é o do absurdo Kafkiano. Tem outra natureza e bem
diversa, pelo que aconselho a classificação de suave absurdo,
pois é um mero jogo de símbolos e imagens em função de
pensamentos funcionais (possibilidades evitadas).
*
O homem absurdo de Kafka aspira, ou melhor, é consumido pela
transcendência. O de Camus não transcende, antes se antepõe ao de
Kafka pelo mito de Sisifo: A pedra, em termos simbólicos, o aguilhoa
ao mundo concreto. É o absurdo sem esperança.
O homem absurdo de NAUSAÉREA, como o título do universo sugere, é o
absurdo por consequência de uma fuga para as regiões da distração: e
aqui podemos falar de distraidismo, em nausaérismo (a verificação de
tal fenômeno produz essa espécie de naúsea das alturas). F.M.
17-7-53
*
Afora o aspecto da chatice que é ler todo aquele entrecho
que se desfragmenta, vai para o passado, volta, entra num fisiologismo
descritivo, fisionomias escaneadas..., câmaras-lentas durante o enredo,
enfim, não estava nada explicado ao leitor ( v., agora, o Site,
introdução ao Romance, quais minhas pretensões juvenís de esticar o
enredo) ( disse uma vez que meu livro, na época o Romance só, era como
se escrito num elástico esticado: você soltava as duas
pontas, ele condensava reduzia / encolhia tudo aquilo num indecifrável
borrão/ponto/sei lá o quê. Era uma estética que veio a ser adotada, na
déc. de 50 pelo Nouveau Roman. Mas quase ninguém
reconheceu, excetuando Mário Chamie, Raduan Nassar, Modesto Carone,
Hamilton Trevisan, Décio de Almeida Prado, então
professor da Escola de Arte Dramática ( e diretor do Suplemento
Literário d´ “O Estado de S. Paulo”) onde apresentei um capítulo em
concurso para uma das 15 vagas. Classifiquei-me numa delas, com Ondina
Ferreira, Caio Caiuby, Hernani Donato, José Renato, Gilda de Mello e
Souza, Jorge Andrade, Patrícia Galvão (Pagu), meados de 1952, tinha eu
21 anos , fogem-me alguns nomes, talvez por eclipse do prestígio.
******
Os Sentimentos Didáticos ( primeiro nome:
“Palimpsesto”.)
I
Teplan!
A porta, dando com a cara nos umbrais, soltou um
grito amarelecido misturado a uma dessas atitudes vingativas que só as
coisas inanimadas possuem, quando nos olham na expressão estática de seu
inconformismo natural, para depois exigirem de nós uma atitude de
compaixão por sua inexplicável paralisia – o que se dá logo após
metermos o joelho ou o cotovelo numa quina de mesa e com o sangue no
terceiro andar desandamos a socá-la irrefreadamente, para, em seguida,
pararmos estúpidos a sentir a dor que recrudesce e multiplica – deslocou
uma baforada de ar que revoluteou pela sala toda, impregnando tudo
daquele perfume de carne fresca misturado a talco, loção e viço.
Seguiu-se a tudo um silêncio entrecortado pela
presença de pequenas coisas deslocadas – tapetes, papeizinhos em
espiral, toalha de mesa se franzindo pelo peso aparente do braço de
algum conviva provinciano assustado – e que por sinal nos visitara há
tanto tempo, quando a minha mãe, adotando a mesma atitude por causa de
rusgazinha doméstica, saiu arrastando a porta consigo, deixando atrás do
mesmíssimo “teplan!”, não o perfume vermelho, esparramado,
contrabandista de sensualidade como o de Mariana naquele momento, mas um
misto de asseio e suór, anacarado e triste – o que contribuiu para que
eu, de minha posição passiva, achasse mais petulante aquela manifestação
de histeria da rapariga, por uns segundos vaidosa e desprezível em seu
manto de perfume espúrio... Coisa que me foi dado pensar talvez pelo
enjôo que me provocaram as excessivas exalações, pois Mariana, em seus 7
dias de casada, era um modelo, se não de fidelidade ( o que também
absolutamente não nego, por não suspeitar do contrário ) pelo menos de
simpatia. Há bem 2 horas antes, quando o ascensorista lhe veio trazer o
cartão do marido que dizia: - QUERIDA, PASSAREI A NOITE EM VIAGEM;
EXPLICO O MOTIVO AMANHÃ. BEIJOS DO FELÔNIO, isso desenhado numa letra em
que não se sabia o que mais admirar = se a visível pressa com que foi
escrito ou se o traço bruxoleante e vago, acusando uma virilidade
afetada no esforço que fazia para fechar os “o” ( o que deu a Mariana um
arrepio que temo não ter sido provocado pelo vento da manhã ) e que lhe
fez quase perder a linha e esquecer-se de que estava diante de um
estranho ) – há bem 1 hora antes, foi ela quem [ na margem: 4-11-52
e, sob tal data: 5-11-52 ] saiu de sua posição de intocabilidade
própria das recém-casadas, dirigindo ao rapazola um olhar que,
escorregando pelo nariz, forçou a boca num sorriso melífluo, parecendo
dizer: “- Ora, não se impressione! Fique à vontade!” E tal foi a força
que imprimiu aos lábios, que me pareceu ter desconsertado mais aquele
que, minutos antes, entorpecido pela timidez trazida pelo pensamento de
que violava um princípio de inoportunidade, mas ao mesmo tempo
maravilhado pelo antegozo de ver de perto uma figura que iria ou não
corresponder à idéia que fazia das virgens abaladas, prenunciava o seu
aparecimento no toque da campainha: Mariana acabava de se empoar,
admirando no espelho os belos seios protuberantes que despontavam de um
colo de rara maciez, e ensaiando uma pose que possibilitasse a
reconstituição de um passado remoto e que ela só vivera na imaginação: o
tempo das conquistas audaciosas do romance de capa e espada, quando se
via, naquela petrificação fogosa das Venus provocantes, postada em altas
sacadas, à espera de que lhe viessem arrebatar à força e sob o olhar que
acusava o reflexo de uma lua onde as crateras ainda eram São Jorge.
Diante de tais pensamentos, mexia-se defronte do espelho, fabricando
gestos, modulando atitudes, dosando olhares, umidecendo os grandes
lábios carnudos e sonhando, na motilidade interior dos maxilares ( esse
gesto instintivo de que somos tomados quando caracterizamos: - senhores,
a Nação”...(LINCOLN) ou “hum! hum” (NAPOLEÃO) , ou então quando borramos
a figura grotesca da última festa ) – sonhando ser uma Messalina que, se
correspondesse ao estado de agregação da lua de mel e que ela reputa
vergonhosa, entretanto fosse estranhar a todos pela atitude de
relutância extraordinária com que precedia a entrega.[ na margem:
5-11-52 e, sob tal data: 7-11-52, nada. Logo a serguir, anotado: 26-2-53
] Assim, acabou vendo, num lugar que se situava além da face morena
do espelho, longe do jogo de luzes mornas que emprestam à nossa figura
projetada o aspecto de soturna dependência, um amontoado de linhas que
acabava por delinear a presença do marido, primeiro em forma de sorriso,
depois encabulado, em seguida com ares de uma espécie de paternidade
degenerada: - a linha da testa se diluindo numa ruga que lhe estravasava
a face até a base do malar, a arcada superciliar encerrando cinco ou
seis olhares em gaza, somo suportes ogivais daqueles tempos remotos que,
sob o signo de explêndidas cruzes, entranhavam um mundo de sortilégio,
sensualidade e arrepios, numa atmosfera que não se sabe ao que mais
convida: se à genealogia do pedreiro, amontoando pedra em cima de pedra,
em meio de ufas! e inconsciências remoídas, ou se à vontade de nos
desintegrarmos no hino que parece residir nos encontros que determinam
tal perspectiva ou naquele olhar de anjo que pespegam os olhos perversos
das catedrais. E perduraria tal idéia, até um séc. de contemplação mais
que divagação, se não viesse despertá-la o toque, a princípio surdo,
logo se alongando num timbre que denunciava uma campainha apertada de
leve, levíssimo, por fim [ na margem: 27-2-53 ] repinicada num
grande anseio de coragem. Quem seria? Seria F.? Impossível. De fato sou
bela. Saiu não faz 2 horas.Quem sai somente há 2 horas... A beleza vai
aderir à 1ª tentativa de fuga sem adesão. Porisso ela também
adere ao primeiro arrepio que lhe bate às costas; não: mais abaixo,
torneando a cintura, até se perder numa região que até agora ela não
conseguiu localizar: não soube dizer ao certo se nas imediações
indevassáveis do umbigo ou no prolongamento do cocix, esse lugar etéreo
onde se acabam os arrepios e que convidam a idéia à idéia de outros
convites. Mas um sorriso bem calibrado ela soube repor na face do
espelho justo onde outra boca lhe endereçava outro sorriso. Uma
associação desse sentimento à imagem que ele representa – ou a
retribuição simultânea de tal fato – foi o bastante para que se
evaporasse a figura de F., agora mais terna que distante, e Mariana
tivesse a consciência de que estava só... – O que lhe valeu por um
paradoxo, pois se na rua lhe acontecesse transtornar a fisionomia por
causa de um mínimo atraso do sorriso contrário ( eu provocava... Hoje,
seria desumano... Mas que dá uma tentação, dá!... Ainda mais agora:
assim. Não: assim, assssiiim, fffff, com o busto assssiiim) – aí então é
que ela se dividia no meio da multidão, sentindo a pressão de todos, a
boca de todos, ou a gargalhada que podia explodir de onde ensaiasse uma
boca a forma de sorriso. Entretanto, entre o primeiro toque da campainha
– ( como já disse, levíssimo) e o segundo ( que denotava empreendimento
e audácia ) a nossa recém-casada se entregou gostosamente a um
emaranhado de sensações que, se tivessem cheiro ( o olfato é a melhor
visão ), recenderiam a esses jardins de Espanha, mas bem longe de
Espanha: aqui, dentro dessa moldura, na fotografia que lhes empresta
alma. Foi pendendo o corpo, no encosto da banquetinha sem encosto, que
ela pôde saborear um F. longe de sua configuração original. O nariz,
arrogante, arrebitado, mas que arrogante, desde o primeiro dia de casado
lhe cheirava os cabelos, como se eu não tivesse outra coisa pra cheirar!
o estúpido! – deixava de ser arrogante, formado no espelho pela
perspectiva brusca que só se sente nos ares das catedrais batidas pelos
séculos, ( não pelo tempo, mas pelo espaço, pois uma catedral moderna
não avançou no tempo e sim retrocede no espaço, retrocedendo o limite,
conduzindo a Beleza à origem, sob a forma de síntese ) – aquele nariz
bem que podia lhe cheirar outras partes do corpo, ou simplesmente não
cheirar, como agora, no espelho. A boca, entretanto, abrindo-se
desmesuradamente, numa confissão babosa, ondulante, muda, perdia o ar
que lhe depunha F. na realidade, adquirindo ângulos de uma formidável
indiscrição. Mariana chegou até a sentí-la mais arrogante que o nariz e,
pondo de lado a idéia de associar o marido a catedrais, [ na margem:
2-3-53 ] desviou por segundos o olhar do espelho, que de fascinante
passava a obcessão [ sic ], arqueou o corpo para frente e, não
sem fechar o colo, até então alvo de uma grande agitação, foi cerrar as
portinholas de uma catedral em miniatura que parecia fincada na
superfície direita do pixixê: em planície habitada, ou antes inabitada,
por grampos que se assemelhavam a seres fulminados pela simples
estrutura daquele bloco irremediável. Para isso bastou se reduzirem os
mortos às pernas, unicamente ( pois estas bastam às estruturas) e
Mariana – agora compenetrada, de uma forma semi-inconsciente, de que
cedia, desde que se sentara, à força da miniatura e só a isso – vendo
aqueles grampos, que do cabelo (maldito nariz) [ jaziam, ou
algo parecido ] em volta da catedral, pernaltas e teimosos em sua
morte – sentiu um estremeção e divagou, desordenada: quantas vezes ela
também não sucumbira à estrutura! Agora, de modo indireto, chegava à
fatal conclusão, em que oscilou a vida toda, de que era isso, não há
dúvida: a estrutura! Pecado, mulher, o marido, os homens, conceito de
família, religião, semi-sentiu: estrutura! Aquele peso aniquilador das
catedrais, quando nelas entrava, provinha da estrutura, essa forma
bestial unindo pedras que separadas ( ah! separação ), ela aguentaria
sem o menor esforço de adesão. Gostava de F., por exemplo, quando este
lhe vinha e oferecia um sorriso que ela vira, em criança, na fisionomia
daquele tio, cuja atração reconfortante se esvaia [ esvaía [?] ]
à medida que se aproximasse p/ beijar a menina, n’um cheiro encardido,
não sabia se da barba, e azedo, não sabia se dos olhos, tão estranhos e
marcos de uma fase a que chegariam todos os olhos um certo dia, mas que
eram de pronto repelidos à simples idéia disso, fazendo o tio levar da
menina a impressão de certa rebeldia histérica ( oh, que idiota era ele
em pensar assim!), mas que se consertaria com os anos.[ na margem:
3-3-53 ] Ou então aquele acento de presença, embora roufenha, [
há um pingo/acento no u, parecendo um vocábulo inexistente: vocifenha,
vorifenha ] com que o marido modulava a voz, em contraste com a
distância, perpétua, fatal, hodienda nos olhos: uma distância que, se a
punha à vontade, entretanto lhe incutia um prazer de pairar além dos
limites de uma certa responsabilidade, a que chamarei: gótica, do
casamento, mas que só a aturdia depois de sua recuperação real. [ na
margem: 4-3-53 ] Agora, por exemplo: Nem ela saberá discernir onde
termina a surpresa e começa o cansaço, que não é tédio nem exaustão, mas
simples familiaridade, mais delegada que instintiva, que parece dar-lhe
ânimo para agir dentro de uma individualidade crescente, justo ( mas é
absurdo! ) onde perdura o anseio de agregação, a vontade de se dividir,
querendo apalpar o mundo que a apalpa, querendo arrepiar o silêncio que
a arrepia, querendo ser sedosa como a combinação [ peignoir ] que
a excita, querendo ser masculina como essa falha, essa imperfeição da
imaginação, que truncava as coisas pela metade: querendo isso, querendo
ser aquilo, querendo querendo, que-ren-do, assim, nesse tom de êxtase,
hipnótico, aterrador, sensualidade. De súbito, Mariana virou invasão em
si mesma, se bastou, comemorou com grande azáfama. Estúrdia. Adiós. Té
loguinho, tetéia. Grande besta! Mariana saiu do espelho, chamou o
marido, trouxe ele até a porta do quarto, lhe disse:
- Agora você me carrega e me põe aqui dentro,
deitada nos braços, igualzinho naquela fita do Gary [sic] Grant (
e não me pise no vestido! ), mas igualzinho , senão vou chamar o
leiteiro. E ele me põe.
-
A idéia do leiteiro aterrou o marido. E ele não
conhecia o leiteiro.
Que não
andaria fazendo sua mulher, que já reverenciava o leiteiro. Deve ser
assim:
- É aquele, de cabelo repartido no meio?
- Ah, então você conhece?
Não. Mas imagina. Sujeito forte, atleta, que
agrada mulher, deve ter cabelo repartido no meio. Grande besta. Té
loguinho, hein! Onde vou? Passear.
- “Não!”
E lá vinha o acento rouco mas palpável,
eletrizando, lhe provocando um arrepio diferente. Mas o olhar,
inexercido, parando lá naquele puto de lugar maldito, era um desafio. E
ela aceitou. Na frente, nas barbas ( nas fuças desse peste!), nas
barbas do marido ( Ingrata ), alí, atual, com ares de um cotidiano
horrendo, ( eu não queria dizer fuça...) deu uma gargalhada que o fez
estremecer, e jurar que nunca, em nenhum planeta, pudesse existir uma
gargalhada naquele ritmo, crueldade pura, ritmo pelo ritmo, mas sem a
cadência sensitiva, -- saindo de uma boca de vinte e poucos anos. Ficou
estático. E sem olhar, ou melhor, procurando enterrar ainda mais o
olhar, de uma forma que saissem pela nuca afora, e fossem acolhidos por
umas pálpebras que ele não tinha e desesperadamente procurava cerrar, F.
se abstraiu e deixou de assistir à seguinte cena: [ na margem: 5-3-53
]
( A narrativa,
interrompida em 5/3/53, foi continuada em 23/4/53, após um período de
cansaço físico que provo ao escrever, chegando quase à extenuação total.
A ação, já elaborada mentalmente, com
todas as variações que sofrerá até o término de seu curso, ainda
longínquo, foi retomada nessa última data: veja página seguinte ) [
Esses dois períodos entre parêntese são de época e estão na ordem da
escrita ]
Estavam os dois numa grande
festa, rodeados de gente por todos os lados, suprimidos como uma ilha,
assim, infantilmente. F., naquela despreocupação que, apesar de natural,
denunciava uma inquietação de sensaboria, ia na frente como um
sonâmbulo, abrindo caminho num mar de cotovelos. Como se não bastasse um
supremo aviso de um sussurro de enterro, ambientando-os implacavelmente
naquela atmosfera de anisedade popular, saltavam-lhe à frente os olhares
de espectros dos santos fabulosos: aqui o Santo Antônio empalidecendo
numa atitude servil que, bem considerada, entremostrava o símbolo de
seus fluidos intervencionistas; mais adiante, o São Sebastião, enfático
na dor, resumindo obscuridade, bem menos exotérico nos lábios que na
flecha entrepartida; e mais adiante o crucifixo, num esforço de afasto,
delegando toda a impertinência aos pregos, de onde pendia um Cristo
aquiescendo naquele contraponto de masoquismo e desarticulação mental.
Mariana era mesmo a fatal concentração. Aqueles
cinco minutos somente, entre os quais segui-se o préstito, borrado de
ladaínhas íntimas ou de suspiros de velhas gaiteras [ sic ] ,as
palavras rituais, depois um seguimento pelo corredor no fim do qual as
desincumbências da primeira fase davam lugar aos empreendimentos onde a
Santa Economia imperava ( pois econômicos são os casais nos abraços,
tanto como no jogo de olhares, dispersados estes pela premência dos
pensamentos que afastam qualquer idéia de aconchego das massas
afluentes) – aqueles cinco minutos foram cinco séculos. Mariana [ na
margem: 27-IV ] sentia cócegas. No pudor. Não chegou a notar a
presença do marido, que casava o ar aéreo ao esplendor da fisionomia
esfumaçada. Entre um aperto de mão e uma profecia inoportuna, espoliados
ambos, limitavam-se a trocar um e outro sorriso ou a se cotucarem
furtivamente. O que mais a importunava era se ajeitar à idéia de que a
enorme multidão focalizava as atenções na considerável abstração de F.
Quando lhe veio por trás um velhote, bambo, os olhinhos trêmulos mas de
mão viril e lhe cotucou o homoplata, desejando-lhe boa sorte,
respondeu-lhe, com cara de menino cujo sexo não bem se delimitara:
- leve-a.
Mariana nada fez senão oscilar entre os dois
extremos de uma situação horripilante. Porque no íntimo nunca se
conformou com a enorme diferença de idade que os diferenciava. Quando o
viu pela primeira vez, guardou dele a sensação elástica de um afago que
lhe saia das mãos de seda como uma rede envolvendo-a de arrepios
esburacados. Isso mesmo, foi como uma rede de arrepios. Ficou
entusiasmadíssima em contacto com uma coisa ( podia chamar-lhe coisa ) a
que desde [ na margem: 25-IV-53 ] logo aderiu sem saber onde
residia definitivamente a fascinação. Agora, entretanto, também se valeu
de uma sensação estranha [ na margem: 19-V-53 ], um outro ser
como os que vira em suas noites de “imemorial desleixo”, que nela se
traduz pelo despertar do sexo em situação de povoado. Mais tarde,
acidentalmente, ficarão nítidos os acontecimentos daquela fase, e os
pormenores de Serrinha, a cidade-fábula da Paraíba do Norte. Lá, onde o
sexo se acomoda à economia, e esta extrai daquele as possibilidades (
fatais, às vezes ) de um temperamento infra-temporal, subterrâneo [
na margem : 20-V-53 ] e onde o goso dos grandes momentos vive em
função do que o sexo oposto tem de reacionário ou, simplesmente,
contemplativo. Todavia, tanto em Serrinha ( já vão longe seus quinze
anos ) como na Igreja da Consolação, foi preciso que o velhote de mão
trêmula e compleição bamba provocasse no marido um leve transtorno da
fisionomia, raramente intranquila, constituindo-lhe marco da
personalidade: Aquele – “leve-a”, tão temperamental, bastou para que
naquela mesma noite explodisse o fenômeno de rara consequência: enquanto
Mariana, após um começo de pileque, descaía, pendular e eriçada, num
mundo de cortinas e frestas aventadas, esvoaçante no leito, F. se
dirigiu ao banheiro, de onde saiu envolto num roupão de listras
horizontais. Trazia no gesto certa onda de serenidade, nas feições uma
sagacidade sutilmente velada, apenas perceptivel para um observador
arguto e que tentasse quebar a cadeia de toda aquela absoluta
virilidade, por si só um meio de postergar a afetividade. [ está
riscado “postergação de uma afetividade apressada”]
Quando surgiu aos olhos de Mariana, esta não
pôde conter um “oh”, também inaudível, e trêfega, saindo do espelho,
puxou o marido para perto de si, e poetisando tudo, degenerando tudo,
apresentou-lhe o velhote da cerimônia. O desgraçado do velho é maçante
mesmo. Cretino. Decrépito. Mas tem alguma coisa de um tempo que é um
pouco meu. Será que foi em sonho? Mas eu já me vi assim. Sou eu naquela
– não tem dúvida – situação horrorosa, meu Deus, em que me vi falido dos
homens... e das coisas...Sem ter realizado nada. Só. Na porta da igreja.
Que destino mais filho da. Não, isso ele nunca seria. Mas, porque será
que ela me “amarra” [ não sei se escrevi “amassa” ] assim? Porque
será que foi ter essa idéia filha da ( isso ela nunca seria ) de trazer
esse desgraçado para dentro do quarto? Porque será que ela. Ou será que
não? Agora: veja. Ou não? Esses olhos, Mariana. Ou será que foram sempre
assim? ( Não se olha assim para uma moça indefesa, não. Então ele não
devia saber que a gente nessas situações é sempre uma mulher... como
dizia o Tio...”muito sem jeito, pois” ? Agora. Outra vez:
De súbito, no baque surdo, na consciência
fabulosa da situação, tão horripilante quanto embriagadora, F. se
pendurou no cabide, e veio ter com ela o guapo roupão de listras
horizontais. E, à medida que a foi envolvendo, descortinando-lhe o
horizonte que a tragou, irremediável, sedutoramente, não pôde evitar o
grito enorme, guérrico, que se transformou em gargalhada mais gritante:
porque na hora do choro remoído, a gargalhada soa como desencontro de
potências; o que vale dizer: pouca bola, muita farófa, pra banda do
Norte. E ria, ria, ria, e ele não compreendia que, por cima, como uma
múmia amorosa, lhe apertava as costelas, provocando cócegas.
Ah! Ah! Ah! E ele tinha ficado preso no
cabide. Ah! Ah! Ah! O roupão. O maravilhoso
roupão. Que podia ter dentro 2 ou 3 figuras de um album de de políticos.
Do Norte. Ou do Sul.
Oh, como fora infeliz em beber justo naquela
noite!...
Instintivamente, ao som da campainha, a visão do
marido se precipita verticalmente, em direção ascensional. [ na
margem: 17-7-53 ]
Mariana atravessa, rápida, a sala. Deixa um
pedaço de recordação pendurado neste meu retrato, procurando evitar-me o
olhar. Mas o perfume vermelho, esparramado, contrabandista de
sensualidade, perdura na insistência de uma consideração que,
certamente, exorbita da calma rapariga. Durante essas divagações, o
ascensorista deu 2 ou 3 vezes à campainha e, quando ia desistir, Mariana
abre a porta.
Podia ter dito: bom dia! Mas diante de uma
figura que entra balançando, mas num bambolêio opaco, [ palavra
seguinte ininteligível: parece escrito extunvando ] o mundo
inteiro, a gente tem vontade de dizer: bom sempre! bons futuros! E
fica-se sem saber que ralho de coisa [ na margem: 20.7.53 ]
exquisita está virando o mundo: essa gente não se define mais!
- Bom dia, dona.
... não se define mais, mas se eu ficar mais 1
minuto olhando pra ele assim, acaba se desmontando.
- ... dia, dona. Sou o ascensorista do prédio. A
senhora já deve ter me visto.
Ou será que não me viu? Vivo sempre imaginando,
mas que coisa exquisita!
... se desmontando. Vai lá um sorriso, coitado.
- Ah, bom dia...
... exquisita. Ah! graças a Deus o negócio já
vai melhorando.
- Eu trouxe aqui um cartãozinho do seu marido:
me deixou hoje cedo, pediu que eu entregasse à senhora, lá para as 9
horas...
... sorriso, coitado. ---------- !!!
... vai melhorando, pediu que eu entregasse
agora; na certa, Deus me livre, lá vou dizer isso!, na certa para não
acordar a senhora; podia dizer. Que há de mal nisso?
-
An. Do meu marido?
... !!! Que será?! Tréco.
- É sim senhora. [ na margem: 21.7.53 ]
... de mal nisso? “É sim senhora”! – Ah, Gardênia,
você morreu na pele, somente na pele! E que mal há em se ficar sem pele?
Podia dar um soluço, do tamanho do mundo, mas ninguém notaria, Gardênia!
Oh, meu Deus, o pior é que ninguém notaria, pois v. foi sozinha,
Gardênia... aquele enterro, Gardênia... eu não fui... ninguém foi...
mas, na mesma tarde, perguntando a duas flores, duas heroínas cruzando
na beira do túmulo, ... me disseram que v. baixou à terra com aquela
mania tola de deixar lembrança... [ na margem: 24/8/53 ] Aquela
insistência, que v. tinha, Gardênia, em se tornar presente... Aquilo era
ingenuidade, não tem dúvida... mas, pra outro ingênuo, como v. me
chamava, aquilo surtia um grande efeito, Gardênia... Mas também não
precisa aquela mania, de se sentar na sala, que v. fazia questão de
feichar [ sic ] quase inteira, só deixando uma penumbra sufocante, e
depois, quando eu me distraia por causa do nosso silêncio, e da nossa
distância ( era questão apenas de 2 sofazinhos, meu Deus ), você saia na
ponta dos pés e ficava no limiar da porta; e ficava agitando a ponta do
vestido; e até que numa hora o puxava inteiramente; e ficava sussurrando
atrás da porta. Até hoje não sei se você fazia aquilo de calor ou de
vergonha... Oh, meu Deus, que vontade de ficar louco, quando penso que
apesar de tudo, eu a via inteira, completa, com os joelhos muito
juntos... onde só havia cadeira... E então v. era outra... mais
alegre... mais irrequieta... até que sua mãe ( Ah! meu Deus, como me
fazem mal os mártires ) aparecia e lhe dava um tranco q. me doia,
Gardênia, oh era triste era triste era triste.
- O senhor quer entrar?
Mariana rescendia inquietação. Sepélio levou a mão
à boca, afim de prender todos os sentimentos que o derreavam. A nossa
recém-casada se abismou em verificar aquele melancólico fenômeno de
ajuste, preciso, irremediável, entre o maneirismo do ascensorista e seu
toque de campainha. Por um minuto ficaram sem falar; e, no meio daquela
estática calcárea, como dois trogloditas a se contemplarem, longe do
mundo, anacronizando todos os móveis, , que adquiriam feições
agressivas, somente os unia uma espécie de “vontade de planície”:
tiveram ímpetos de arrebentar tudo, de sairem se repelindo, fazendo
perguntas que escoassem pelo infinito, mas que absolutamente não
tivessem resposta. O que poderia ser fatal.
- Está muito bem. Obrigada. Meu marido só deixou
isso?
O cartão. Se ele pudesse,
daria uma olhadela no cartão. Tinha certeza de que aquele cartãozinho
trazia alguma coisa de consternador. O modo pelo qual o marido o
entregou, e se referiu à mulher, como se se tratasse de um inventário
para ser entregue a um morto ( uma coisa do outro mundo, meu Deus,
esquisito. Ou será o cansaço de tanta coisa que me tem acontecido?),
depois a fisionomia da recém casada, alí, a dois passos dele, que lhe
lembrava Gardênia, tinha certeza de que havia mais alguma coisa além
“disso”. Agrega, num contrapêso trabalhado:
- Só isso, dona. Agora, se a senhora me dá
licença, já vou indo.
- À vontade. Muito obrigada.
Estendeu-lhe a mão. Dois segundos depois, ao
contacto morno, diabólico, Sepélio mergulhava num Inferno que só lhe
proporcionava uma estranha delícia, e exaustiva. Por um instante, teve
vergonha de se aproveitar de um oferecimento inanimado daquele natureza,
e não sabia onde enfiar os olhos. Estava que era um puro lascivo
beijando um espectro proibido. Mariana reagia de modo perspicaz e não
menos deliciada, mas de uma delícia diferente, celestial, acolhedora,
com os instintos azulados. Aquela mãozinha afilada, que apertava um
aperto inédito, para fora, e os lábios estranhamente unidos, formulando
um perdão maquinal, pelo desabuso de uma descoberta que parecia
importantíssima, lhe despertaram todas as ternuras cabíveis de
imaginar. E pela posição que as acomodava, podia-se ver que eram
ternuras amorais, mas nunca imorais, melancolia do sexo, que se extingue
num momento, de maneira quase brutal, deixando atrás de si um vago de
improfanável despedida.
Sepélio puxou a mão com suavidade. Imediatamente
desaparecia pela porta afora. [ na margem: 30/10/53 ] No
corredor,ficou pendendoo entre as duas portas, a do apartamento e a do
elevador, ainda meio combalido. Por fim, nada mais achando como pretexto
de tornar a entrar, e incriminando-se pelo fenômeno, que já vinha se
tornando habitual, de se “largar” infungivelmente a toda espécie de
novidade, decidiu-se pela do elevador. Durante todo o encontro,
acabrunhador, terrificante, experimentava debalde aquela angélica
recorrência a esse sentimento que o tomou, enquanto apertava o botão:
esse chamado de ancestralidade, trazido por tanto recalque diante das
novidades da vida, ou antes pela incapacidade de discernir entre a
natureza das novidades – a de não se perpetuar – e o seu próprio
temperamento – alérgico a todo passado: a capacidade de aceitar tudo
como um verdadeiro homem. Mas o nosso rapazola, embora portador de
tamanha sensibilidade, nunca chegou a sentí-la em termos de nitidez:
diante das pessoas com que tratava, acontecia exatamente o que vimos em
seu contacto com Mariana. Reagia com tamanho desespero, que, ao invés de
se libertar ( ou talvez por manifestar sua liberdade ), acabava se
aniquilando.
Se ele pudesse daria a vida de, pelo menos, mostrar a tôdos que essa
fisionomia transtornada era antes uma fraqueza, não era falta de
entendimento, meu Deus. Esse elevador não vem. Eu então sacrificaria
tôda minha existência para decifrar o enigma dessa escolha: justo êle,
meu Deus, justo com seus pálidos, bambos, doentios dezenove anos ,
acumulava tanta coisa insuportável. Será que quebrou alguma peça? Ó
inferno de vida. Gardênia. Ó santas bondades, tôdos os espíritos do céu,
reunidos, o livrassem dessa lembrança. Mas isso era sina. O que adianta
arrebentar esse botão, apertar tanto? Até isso já aceito, como sou um
sujeito bom, um santo. Interessante. Ainda não havia pensado em como
trato tôdo mundo muito bem, com bondade. Será que tôdos eles me vêm com
a exclamação – “Mas é fantástico! Estou para ver alma generosa como a de
Sepélio?” Isso lhe dá aparência até de homem maduro, de supremo
entendedor dos homens de tôdas as mentalidades. E seu aspecto? Pode
alguém compreender que, por trás de uma configuração quase infantil,
raivosamente tímida, existe um sujeito que, pelo simples olhar, é capaz
de aparar o sofrimento de qualquer indivíduo, mesmo o mais gratuito?
[na margem 31/10/53] Ele já vira , no livro de um
poeta moderno, o sentimento que vem provando na mais ingênua
antiguidade: “Perdôo, remanescentemente, a batida de todos os corações
que sinto num só peito”. Parecia poeta. Ah; parece que vem vindo! 2,
3...4... Mas esse aspecto pueril ele bem que pode consertar com certo
meneio de cabeça. Levanta-a. Auto-esculpe-se. 5...6... A moleza dos
olhos, êle também pode fazer desaparecer. Que tal se lhes desse ares de
certa crueldade? Fixa-os num ponto além de qualquer espaço. Logra o
efeito da crueldade pela cumplicidade da distância. 7...8...9... Mas não
adianta. E a bôca? E o nariz? Como iria modificar o nariz? Abrindo as
narinas, nêssa fôrça interior? 10...11... Experimenta. Interessante,
como começava a existir dentro dêle tôda a pessôa de seu tio Natálio.
Era horrível, meu Deus, como é que a gente pode sentir-se outro,
repuxando o nariz. Experimenta, sem definir, a sensação de que cada
repuxo traz a provocação de determinada memória, acabando por não se
conseguir livrar do tio Natalio...12...13... Faz um leve bico, na ponta
dos lábios, já ressequidos de tanto esfôrço; e à medida que vai
dilatando as narinas a ponto de não mais suportá-las, percebe o quanto
deve ser grotesco o contraste daquele narigão empinado, empertigado,
intolerante do tio com seus lábios humildes, quase lamuriantes. 14...
A visão do elevador veio arrancá-lo dessa região tão fatigante do
pensamento, e só então Sepélio aventou a possibilidade de estar sendo
espreitado, e até gosado. Um leve rubor lhe subiu pela face enquanto fez
um movimento de pêndulo com a cabeça, examinando o corredor. A velha do
155 lá estava, no fundo, balançando duas toalhas mas espanando-se a si
mesma de tão gorda estava. Do outro lado vinha um ruído de vozes surdas,
quase atordoantes, uma gritaria apocalíptica de crianças. Tudo muito
estranho, como crianças (eram crianças, não havia dúvidas) como crianças
conseguiam imprimir naquela lamentação penetrante um sentido de catarse
horrível, de mau agouro! Ouvia-se bem longe uma vozinha anti-natural,
anunciando o fim do mundo, que tudo ia acabar, no meio da algazarra,
mais avivada pelo toque de um tamborzinho de lata. Mas, no meio de todo
acontecimento, o que mais aniquilava era um fenômeno de intolerância, de
sobrepujança infantil que se fazia notar por parte de uma voz que só
poderia ter saído de algum menino pálido, delgado, na certa com duas
olheiras extravagantes: era uma voz que se impunha, reduzindo a
barulheira a um estado de senilidade, onde se percebiam as
inconsistentes crianças numa condição de velhice, anarquisando,
irracionalizando as próprias pausas, criaturas de uma grande liberdade
encadeada, circular, pondo um sentido de ociosidade em tôdas as coisas.
Tudo se passou, entretanto, num tempo insignificante, quase
inclassificável. Uma hora, teve-se a impressão de que uma porta se
abriu, atrás do corredor, saindo dela uma mulher alta (notava-se pelo
passo) e que mal chegou às imediações da criançada, volveu tôda
embrulhada num grito não menos apocalíptico, logo se abafando num
cubículo qualquer. Imediatamente, antes que Sepélio pudesse abrir sequer
a porta do ascensor, arrebentou dos fundos um alarme de dor, azulado, e
ele sentiu aquela angústia remota que tinha provado na tarde em que se
desesperava por querer se esgotar, desaparecer naquela farândula
horrível, mas prazerosa e inacessível: saboreava por detrás da
vidraça, maldizendo a dor de garganta, com o maldito azul de metileno na
garganta, revirando o estômago. Agora era a mesmíssima sensação; até o
grito, penetrante, arrepiava num acesso azulado, no delíquio que
sufocava.. Quando se “atualizou”; tornou a ouvir os passos da mulher
alta, apenas mais agitados, porém compensados pelos de alguém, que
deveria ser seu marido. No meio da balbúrdia, que já se tornava
insustentável, percebeu que a mulher se abandonava a uma crise de choro.
E ainda o marido compensando: êle pôde distinguir seu chamado paciente,
advertindo na certa o filho, numa tonalidade de voz que evidentemente se
ia arrefecendo diante da algazarra já quase tétrica resvalando pelo
sentimental, pois havia naquilo tudo uma nota de sentimento, como se a
criançada obedecesse a uma reviravolta lúdica de todos os instintos,
embora extenuadíssimos. A mulher aumentava o grito, caindo na histeria,
o marido perdia a fala, deixando-se dominar, o fim do mundo se
construindo, entre pequenas anunciações, tais como: -“Este é o meu!”, ou
– “Eu vou pra outro planeta”, ou então –“Morre o meu avô, que só
tosse!”. Tudo muito rápido, mas num lapso suficiente para que Sepélio
pudesse se abandonar a uma espécie de tragédia de vizinhança, e
esquecesse seus próprios problemas. Ao entrar no elevador, ainda pôde
ouvir o casal, clamando pelo filho (e aqui ele teve um sentimento de
revolta) e as últimas palavras deste último:
- Pode acabar o mundo mãe... Pode acabar pai... Eu não ligo... Eu é que
estou perseguindo...
E um barulho demonstrativo de sua agressividade quase santa. Sepélio tocou
para o térreo. Estava visivelmente perturbado, e procurou dissimular o
máximo, inventando uma fisionomia de bem estar, que viesse de uma plena
inatividade. A engrenagem do elevador o ajudava: era só apertar o
botãozinho do térreo (aperta-o) estaria no térreo – TLIM. E se encontrou
no térreo. Entrou um rapagão espadaúdo, pediu pelo 15. Inferno, teria
que voltar para o quinze.
[ Na margem: Enxertar algum pensamento a respeito do rapagão].
O rapagão não entende muito de intranquilidade, é excessivamente
saudável: não percebe absolutamente qualquer sinal de contragosto, e
torna a pedir naturalíssimo, como se já não o tivesse feito:
- Quinze, façoavôr.
Tinha uns belos olhos oblíquos, o nariz entre anguloso e curvo. Trajava
um terno excessivamente justo,evidenciando o formato atlético cuja
presença já se fazia notar, entretanto, no maneirismno dos braços –
inclinados para trás - e na postura das pernas: uma ereta, apoiando o
corpo, a outra levemente sôlta, um pouco mais pra frente, formando um
ângulo aparatoso, nessa posição típica de mulher em sociedade. Entre um
andar e outro, não esboçou mínimo movimento nem tampouco percebia a
agitação de Sepélio, mexendo peças, apertando botões, procurando
“representar” a mínima interferência que fôsse, em algo que, a qualquer
vista, era de natureza estável e mecanicamente orgulhosa. Se êle tivesse
quarenta anos, como seu pai, por exemplo, mesmo que tivesse necessidade
vital daquêle ordenado, acharia ridículas as próprias paredes de um
hotel que, possuindo elevadores automáticos, empregava ascensoristas.
Tinha certeza de que seu pai, com aquêle jeito [na margem 2-11-53] de pairar altivamente por
sôbre tôdos os abismos, mesmo sabendo que se afunda, encontraria um modo
de explodir sua revolta, que não era de orgulho, mas antes de humildade;
uma humildade cega, talvez demasiadamente áspera, de quem é
demasiadamente bom para se disciplinar à miséria. Sepélio, entretanto,
com seus dezenove anos sobrecarregados de tanta exasperação delegada,
conseguira se enformar nêsse recipiente de grande tensão, embora
ultimamente viesse provando os calores de certa fermentação. Qualquer
dia transbordava, queimaria alguém. O sinal lhe indicou o décimo quinto,
e êle abriu a porta incontinente. O rapagão desceu como extrangeiro e
foi saboroso o ato pelo qual se diluiu todo aquêle aspecto de
trasmontano: engatilhou um flébil – obrigado – que destoou de tal forma
com o físico poderoso, que Sepélio teve vontade de lhe dar um tranco que
o fizesse rolar escadaria abaixo. Mas o erro foi ter transbordado a
vontade nos olhinhos insignificantes. O espadaúdo se recuperou, ato
mediato, com um simples olhar, e efetivo: quando Sepélio se “atualizou”,
já estava a meio caminho, mastigando o luminoso do sinal, que descia
metabolicamente: 7...6...5...4...3...Ó Gardênia...2...não pode viver sem
Gardênia...1...Ela era a presença...Até no vácuo ela aparecia...Ele era
passivo, Gardênia...Térreo.Tlim.
No décimo quinto reinava um silêncio de morte, e talvez por isso havia uma
quebra tremenda de perspectiva. Para o teto, subia uma rampa de cimento
sem corrimão, abruptamente desviada pela curva helicoidal de gradilhado
amarelo, acompanhando a escada. Duas ou três janelinhas de pombo coavam
uma luz gordurosa, que vergava todas as portas, de maneira que, detrás
de uma convexidade agressiva, se divisassem os sinais de uma vida
comedida, normal, até vulgar. Quem por ali passasse, sem observar
daquêle angulo longínquo, é claro, sentiria as emanações de um diálogo
sem entraves, convidativo mesmo, mas ostensivamente maléfico: visto de
longe, entretanto, por quem sai do elevador e em determinada hora da
manhã, exercia tal poder de deturpação visual, que era raro transeunte
que não lhe apertasse a campainha a titulo de verificar se havia ou não
correspondência entre a “fachada” e seus inquilinos. O número de –“Ó, me
desculpe, foi engano!” era assustador. Naquêle dia, no entanto, o que
estranhava era a impossibilidade com que o rapagão espadaúdo, tirando um
cartão do bolso, atravessou o corredor, sem dar por qualquer nota de
particularidade: deu dois passos para a direita, examinou a numeração,
volveu-se, atravessou o enorme corredor, incorporando-se à perspectiva.
A medida que se perdia na distância ganhava um volume todo especial,
pela lepidez com que seu andar alegre ia esmagando os espaços
destinados a um respeito pressagioso: passasse alguém por ali,
descobriria todo o fenômeno da perspectiva moderna. Evidentemente, por
ali caminhava um ser destituído de qualquer sentimento místico:
notava-se-lhe num passo a alegria (e fincava o pé com fôrça), no outro a
coragem – e dava ao côrpo um balanço de homenzarrão distraído, a quem a
menor concentração pesarosa (nêste caso um tique de solidariedade
humana) provocaria uma náusea de lhe virar o avêsso. E o avesso é-lhe
insondável. Nasceu para a euforia. Joga com braços. Não vê escuridão.
Balança as cadeiras. Não respeita a reflexão da treva: - por aqui pode
ter buraco. Alarga-se, deixando um sulco brutal.. Num minuto, tudo
deixou de ter espaço. Há volume e mais volume, o homem do séc. XX,
transformando-se já em homem póstumo. E o nosso rapagão consegue, quase
no fim do corredor, transmudar a rampa em braços voluptuosos, aceitando
as résteas de luz coada nos olhos onde brilha uma pletora sem
inteligência, atlética.[na margem:por gostar de todas as coisas. vulgar. absurdo]Então,
antes de bater à porta, imprime automático, ares de grande humanização
às coisas que o rodeiam. Aí está o colarinho. Enfia-lhe o dedo, faz a
volta, como se não tivesse emenda. E foi aprumando o nó da gravata que
apertou a campainha. Nem procura ouvir o toque, que vem logo para fora;
não estabelece a menor relação. Examina a porta com uma seriedade
estupidíssima. Quem a abriu, pode dizer, com a maior propriedade: “-
Olá, senhor Vulgar! Então é o senhor? Como vai?” Ele não se importará.
Agora já está tornando um pouco, impaciente. Torna a tocar.
Dzzziiiinnfff.
Começa
a notar qualquer anormalidade. Então pensa alguma coisa. Em seguida,
levantando o braço, com muita leveza, imprime novo toque, meio
desanimado. Agora, se alguém o visse, o acharia reduzido às verdadeiras
proporções: não mais havia quebra de perspectiva, pois vinha não se sabe
de onde, uma luz mais forte, que o envolveu, esclarecendo-lhe o
semblante, agora de sofredor. Então esse alguém o acharia normal, muito
normal. E simpático. E fraco. Dzzziiinnfff.
[ na margem 3/11/53]
Dzzziiinff. A campainha veio surpreender Mariana na posição em que à
haviamos deixado: pouco tempo se passou entre a saída de Sepélio e o
chamado do rapagão. A nossa recém-casada permanecia na saleta de espera,
com o cartão do marido entre as mãos enraivecidas, o mesmo ar de
incredulidade: apenas a fisionomia um pouco gasta pela situação, que ela
forçava por gosar até as últimas conseqüências. Quando a surpreendemos
de novo, abrindo a porta, pudemos, com certa facilidade, perceber-lhe
uma grande modificação no semblante, que descia pelo porte, dando-lhe
ares de um certo esgotamento, e desenhando-lhe a figura de modo que a
mesma pessôa, que a tivesse visto um minuto atrás, lhe estendesse as
mãos, sem intuito de proteção: ver-se-ia invadida por um desejo fabuloso
de apalpar-lhe aquela postura viciosa, que lhe ia bem. Entretanto,
durante todos esses acontecimentos, seu pensamento transitou entre o
marido e o cartão, sem que isso lhe tirasse o prazer de saborear aquêle
encontro tão sensual quanto fortuito, e passageiro. Entre um toque e
outro, ela tentou se recompor, assentando o vestido, ainda com o
cartãozinho entre os dedos. Se custou a abrir, foi menos pela
possibilidade de uma exploração visual, quase infantil mas atraente, que
pela impossibilidade de dar com o marido numa posição de ilegalidade:
nêsse caso, modificado, rejuvenescido e que se entregasse, como o fez o
ascensorista. Mariana umideceu os labios, caminhou até a mesa, deixou lá
o cartão, finalmente abriu a porta.
Aqui a necessidade nos obriga a afastarmos e a deixá-la com o rapagão
espadaúdo, sem que no entanto não os possamos apreciar à distância. Se
conseguirmos deduzir de seus gestos algo de que falam, haveremos logrado
uma possível descoberta, que a natureza de meu ponto de vista impede de
perscrutar. É que me sinto envolvido pela verdura com que fui plasmado:
êsse mesmo instinto vegetal, que me presenteia uma visão escorregada da
vida que nos envolve por fora, me impede que discorra sôbre algo que,
mesmo que se desenvolva às minhas vistas, me escapa ao ouvido, ou ao
tacto visual, cuja aproximação somente se subentende.
É necessário que esclareça que êsse que vos fala com tanto dinamismo é
forçado a fazê-lo por sua condição de figura impressionista.
Quando, no comêço do relato, me referi ao perfume da
rapariga, aludindo à “minha posição passiva”, esqueci-me de dizer que a
observava de um retrato impressionista. O fato em si se excusa de
justificação, pois com o correr da narrativa já se deve ter percebido o
quanto há de arbitrário no modo com que conduzo a ação, em sua maior
parte indiferente ao meu pensamento ou à minha vontade. Ignoro o mais
grosso do que ficou enunciado. Os que tiveram a curiosidade de estudar a
arte impressionista desprezarão o que ora se vai assentando a título de
esclarecimento de um incidente que pertence à história. Há bem uns vinte
e cinco anos, por volta de 1925, passou por nossa casa um pintor faminto
que, à custa de uma insistência, que nos desnorteou a tôdos, se propôs
fazer o retrato da família. Era um belo rapaz, um tanto gordo, mas de
uma gordura interior, que vasava nos olhos portadores da maior amizade
que me foi dado contemplar. Ofereceu-se para ficar como nosso hóspede
durante quinze dias, no fim dos quais nos entregaria a obra que seria o
repositório de tôda uma geração, e onde se exporiam tôdas as virtudes de
nossa “egrégia família”, e se esconderiam também as “tarinhas”, que êle
fazia questão de acentuar entre duas gargalhadas úmidas, quase murchas e
já irremediavelmente familiares. [na margem 4-11-53] Pois,
passados cinco ou seis dias, sem que déssemos por isso, o nosso bom
pintor se incorporara aos nossos sentimentos de tal maneira que nem
siquer cuidávamos do resultado de tôdas aquelas pôses: durante a manhã,
defronte à fachada esbatida de nossa casa, a obrigação do bloco vinha
tirar meus pais do trabalho, para reunír-nos a todos numa disposição
pictórica (quê êle construia e modificava alternadamente) onde pela
primeira vez nossos reais sentimentos de pais para filhos e vice-versa
se podiam intercalar por um elo de ternura inédita, celeste, abafante,
intrusa. Começou por modificar a disposição dos móveis; alegando que tal
cadeira embargava a afeição do velho ou que aquêle castiçal excitava a
complacência da velha, etc. Em seguida, passando do interior para o
exterior, sugeriu a meu pai mandasse reunir tôdos os parentes que
morassem em São Paulo; idéia imediatamente cumprida pelo “velho” naquêle
domingo inesquecível. Joaquim (era como se chamava o pintor) – Joaquim
mesmo fez questão de os convencer. Foi admirável o ato pelo qual,
alçando os braços maravilhosamente torneados, e atraindo os parentes
naquela imantação das narinas espatuladas na base, êle conseguiu
conciliá-los. Mas Joaquim não ficou nisso. Afogueou-se tôdo e fez reunir
a visinhança. Para êsses, usou de outro atrativo: correu casa por casa,
explicou-lhe o motivo de “uma estatística para a posteridade” e, quando
alguém não entendia, arrastava com êle, abraçando-o, injetando-lhe duas
ou três gargalhadas bilabiais e muito estranhas. E muito tristes. Todos
os dias, durante largo espaço, o bairro desfilava perplexo diante de
nosso casa, o que desgostava – superficialmente, embora – a meu pai,
fazendo-o não dirigir a palavra a Joaquim por algumas horas. O que se
desfazia como por encanto, naquêle caso como por desencanto, pois
Joaquim, ignorando a quase multidão perplexa do bairro, abandonava sua
distância e, com o pincel e paleta na mão, percorria figura por figura,
ajeitava uma, afastava outra, repuxava o chápeu de um tio, para chegar
enfim diante de meu pai. Então ficava-lhe olhando o nariz como que
artisticamente admirado, mas numa seriedade quase funérea, o que fazia o
“velho” abandonar a mágua, à custa do tremendo enigma daquêle
empreendimento, infundido na hora...
Nos fim dos quinze dias, a obra ficou pronta. É certo que
talvez não se vissem logrados tôdos os esforços com que foi trabalhada,
e não se pode falar em decepção. Acontece que o nosso bom Joaquim nos
envolveu numa atmosfera que talvez não encontre similar em tôda a
história do Impressionismo, percorrendo de Manet a Renoir, Manzel a
Zandomeneghi. A inocência, direi: a pureza de sua arte desprezou o
sentido de profundidade que caracteriza o Salão, de Manzel {“Cenas de
Baile”, de Manzel}: aquela profundidade que é bem a maneira histórica do
movimento, que dispunha os seres numa escala hierárquica, a cada grupo
correspondendo tal ou qual motivo, encadeados tôdos num decrescendo de
esnobismo; uma relação humana onde os mais imaculáveis seres se
colocavam à distância, no fim do quadro, numa feitura pessimista, cuja a
seriedade berrava em contacto com a tamanha pasticitade ( porque não
dizer ? ) linfática. No nosso caso, fomos plasmados numa mesma
superfície. Ali estava a família, e a visinhança, vestidas de meio-tons,
numa intimidade primitiva, envolvendo-nos numa auréola que baixava até
aos pés. Aqui, se desvendam os segrêdos mais obscuros de determinada
pessoa. Acolá surpreendia aquela outra, num movimento de que não a
julgávamos capaz, e onde se revelava, embora veladamente. Os pormenores
dessa obra que não tenho receio de classificar como majestosa e
misteriosamente sábia, serão estudados em seu lugar oportuno: é o único
documento que nos resta para reconstituir quase uma sociedade e sua
época, onde alguns elementos nos serão preciosos, porventura vitais. Por
ora, devo dizer que seu principal enigma reside no fato de que se situa
entre o eufemismo arrepiado de todo aquêle mundo interior de Seurat e a
virilidade irresponsável de Manzel. Ali figura eternamente minha alma de
vinte e poucos anos, numa expressão que traz, no encarceramento da côr,
a graduação de minha liberdade diante de todos os eventos ulteriores,
até atingir os nossos dias. Quando me casei, há sete dias dei o quadro a
Mariana. Ela procurou em vão reconhecer-me. Colocou-o em cima da
camiseira, mas logo no segundo dia, impressionada com todo aquêle mundo
a nos espreitar no quarto, mudou-o para esta pequena cômoda, onde me
encontro. Ah, feliz e ao mesmo tempo cruel Joaquim, que percebeu que só
um impressionismo fora de época (1925) seria capaz de oferecer um
universo onde os seres se confundissem entre si, e também entre as
coisas! Um universo artístico com relação às tendências subterrâneas e
aéreas da vida. Que acabasse, enfim, com o microcosmo. Que eliminasse o
macrocosmo. Feliz e terrivel Joaquim boas saudades o guardem, sábio
criador do mesocrosmo, essa maravilha que, [ 111 de s.m.ra.,
dist. os vei. de cond..] 1onge de ser moralizadora, distingüe os
veículos de conduta.. Pois só assim posso compreender o que se passa,
sem me modificar, e compreendendo-me. E ao bater da porta, confundir-me
com outras vozes, conduzir as ações, representar o Romancista, que se
vai desligando periodicamente do narrador do quadro, aproveitando a
natureza das situações como essa, que durante êsse pequeno tempo foi
engendrando outras:
Mariana falava com o rapagão, abanando muito a cabeça, deixando-o quase
estonteado. Êste replicava a princípio articulando uma interjeição, logo
mais anuindo nos olhos, inexpressivos invariavelmente, apesar de belos e
esverdeados, e por fim aparando as frases no corpanzil que chamava o
sexo oposto à luta, mas exclusivamente à luta. Ao cabo de certo
instante, maquinou dois passos em sentido de volta, em movimento de quem
quer avançar para algo de que se entedia por prevenção. Dá ao corpo um
balanço de quem impõe uma retirada necessária para fortificar a
esperança de um novo encontro. Afinal se despedem. A nossa recém-casada
bateu a porta e se enfiou no quarto.[na margem 6-11-53] Pela
primeira vez, desde que se casara, sentiu necessidade do marido, do
amparo que representaria em tal momento. Foi daí que a figura de Felônio
foi ganhando corpo numa estruturação que passava da complacência
semi-doentia a um sentido de presença onde ela chegou a sentir-lhe o
nariz mais arrebitado, em nada sensuais. Oh, como ela o desejaria agora
no quarto, mesmo que o visse enfiado num pijama bem pálido, sem listras,
que lhe caisse melhor e o ajudasse, naquele andar jungido e quase
ordenado – as pernas pra frente, as duas pernas pra trás – a passar
entre os móveis. Vai até o pixexê, passa uma lixa nas unhas. Oh, como
ela daria a vida ( bate três vezes na boca) para acontecer um milagre
que modificasse aquilo de toda noite: ou Felônio viesse andando entre os
móveis, esbarrando-se, deslocando a cadeira, tropeçando-se no
criado-mudo, se confundisse, ou abandonasse aquêle jeito enigmatico de
empreender a caminhada, que era simples e curta. Era horrível aquilo
tudo. Como era odiento vê-lo sair do banheiro ( fazia fôrça para
encurtar o pescoço, enterrar mais a cabeça, enrubescendo), atravessar a
sala (aqui, sempre numa cadência melancolica, de contrafeição), depois
adentrar o quarto ( e quase nunca a olhava como se era de exigir, apesar
de tudo) imprimindo uma enorme expectativa no resultado daquêle passo,
que subentendia um zig-zague, algum choque, uma contusão! Uma contusão
que não se realizaria, e fortemente esmaecida naquêles ares de
segurança, que era antes de tudo a mescla do sorriso (nada além de uma
boca curva) com o gesto de enfiar ao mesmo tempo as duas mãos nos bolsos
do paletó do pijama, olhando-a como que a uma irmã, uma irmã!, e que
ainda lhe desagradasse. As caricias, depois de tudo, as caricias, apesar
de tudo, não assentavam bem, apesar de que, as caricias, e Mariana
sentia falta de caricias. E uns leves prenúncios de fome do almôço, que
já tardava, apesar de cedo.
II
A PRIMEIRA VÉSPERA
Antes de
prosseguirmos na série de acontecimentos dêsse mesmo dia, necessário é
dizermos umas tantas palavras a respeito de Felônio e do movel que o
levou a redigir aquele tão vago e enigmático cartão à mulher.
Criado em um ambiente onde as afeições se dividiam de maneira
brutal, e os seres se sucediam periódicamente, foi dando ao temperamento
um aspecto desconfiado: Felônio era o primeiro filho do segundo
matrimônio de sua mãe, uma delgada senhora de origem italiana e que cedo
enviuvara. Do primeiro casamento, teve um casal de filhos, mortos quando
encetavam os primeiros passos, fato que causou uma grande transformação
na vida dos esposos; desse dia em diante, passaram a viver assustadiços
e demasiadamente resguardados. Pouco frequentavam a sociedade paulistana
de fins de século, e desde então passaram a não vê-la mais
definitivamente, só vivendo para si e de maneira quase mórbida. Dessa
concentração afetiva, originou-se uma série de fatos que tornaram a vida
da família bastante célebre no pequeno circulo paulistano da época.
Dizem os que ainda subsistem que Aqueronte ( era o nome do marido)
engendrara as mais drásticas penitencias para expurgar o mal de que se
julgava culpado, chegando a se chicotear horrivelmente no sótão do
casarão, onde deixava ligado um gramofone no ultimo volume, afim de
abafar as eventuais manifestações desse castigo. O disco de que usava
nessas ocasiões foi, por muitos anos, religiosamente guardado pela mãe
de Felônio. Era uma triste melodia sem nome nem autor, entoada por um
conjunto de vozes que pareciam instrumentos de sopro executados por
alguém que perdia o fôlego, e que causava um grande efeito. A viúva, até
o segundo casamento, chegava a tocá-lo mas só em noites excessivamente
distantes e quando “ não era mais possível deixar de acudir àquele
chamado do marido irrealizável”, e que não era senão desejos de uma
mulher honesta e misticamente moderada. Depois de certo tempo, já de
novo casada e mãe de Felônio, passou a achar no disco semelhanças com
essas músicas árabes, de exaustiva aceitação, sendo-lhe dificílimo
ouvi-la sem esboçar um esgar de enfado ou mesmo repugnância.
Amâncio, o filho que tivera ainda do primeiro casamento, apesar
de levemente doentio e de gênio esquisito, destoava daquele gênero de
musica derramada: era um menino de maneiras sincopadas, de poucos
sentimentos, o rosto arredondado, os olhos invariavelmente virados para
o alto, dando-lhes um olhar branco e muito introspectivo. Para completar
essa figura, em sua simples aparência já tão estranha, agradava-lhe
explorar até o ultimo as situações que o rodeavam com um sorriso
azulado, sem formar curva, apenas alongando a linha da boca. Quando tais
sinais começaram a manifestar-se nítidos, bem precisos, a nossa mística
senhora abandonou a lembrança do pai, o primeiro marido, e enterrou o
disco numa velha mala de ferro, no meio de trapos, vestidos de casamento
e de explosivos da Guerra do Paraguai. Com o crescimento de Amâncio, a
lembrança que tinha do marido se desvanecera completamente.; Amava o
filho pelo que ele tinha de brusco e até de indesejável. Gostava de
beijar-lhe as costas, que lhe pareciam altivas, largas, por cima da
brancura quase descarnada.Era, de fato, na ondulação das costas que o
menino parecia suportar qualquer espécie de ambiente e para onde se
atraiam as atenções de todas as idades.No decorrer de cinco anos,
apagou-se por completo a visão do primeiro marido, e ela pode amar o
atual, pai de Felônio, com certa precisão e desenvoltura. Dizem certas
pessoas da época que nossa estranha mulher encontrou no segundo marido a
energia que nunca vira no primeiro, e desde então passou a amá-lo
efusivamente. Outros afirmam, de mão no peito, que a nossa heroína de
então até se divertia e preenchia o tempo de seus anseios líricos à
custa do tal disco do sacrifício, e se chegou a enfurná-lo foi porque
Amâncio, quando lhe escutava a melodia, tinha uns acessos de louca
alegria e esbofeteava Felônio desvairadamente. Isso deixava a mulher
profundamente enraivecida, pois já amava o novo marido e o produto de
seu amor de modo exclusivo: guardou o disco, mas não castigava o
primeiro filho, a não ser quando tudo acontecia na presença do marido
atual. Todavia, preocupava-se mais em retirar o disco do gramofone, o
que dava o tempo suficiente para que Amâncio se safasse, justificando
aquela choradeira pela seguinte situação: vinha ondulando o corpo magro,
as cadeiras enterradas para frente, realçando-lhe o costado enorme,
chegava perto do padrasto, dizia-lhe forte:
- Pá! (era assim que dissimulava o “papá”, que teria de lhe
dirigir, mas sem dissimular a aversão natural que dedicava ao padrasto)
– o Félão tá otra veiz com dô di denti...
O padrasto, não soubemos se por desamor ou se por excesso de
austeridade, que lhe dava um grande poder de descuidar de seus íntimos,
nunca lhe percebeu a dissimulação, ou pelo menos nunca o demonstrou.
Envolvia Amancio e ao próprio filho numa espécie de ternura episcopal,
um pouco solene, negra, obscuramente risonha, às vezes, e quase sempre
provocada. Mas, sinal dessas explosões que periodicamente os instintos
paternais provocam,quando percebem que os filhos se vão irmanando a
eles, apesar de o desejarem no fundo, jamais o tivemos. Depois de muitos
anos, Amâncio se desligou da família, indo morar na Lapa, em companhia
de sua irmã mais moça, rapariga nascida dez anos mais tarde, e em quem
vislumbrou a única espécie de afeição em que se poderia apoiar. Ainda
vivem hoje na Lapa, num mundo inacessível, estranho, crispado, contido
pelas paredes de um casebre de compleição nervosa, com telhado anguloso,
portas cicatrizadas e janelas violetas.
....
Feitas essas
considerações a respeito do ambiente em que se criou Felônio, podemos
ver bem claro a origem de seu temperamento desconfiado e mesmo de seu
olhar distante, inexercido, que desgostava Mariana, mas que lhe é bem a
única maneira de evitar uma realidade aniquiladora, mesmo quando
imaginada. Entretanto, voltemos à narrativa:
Na manhã dêsse mesmo dia, Felônio acordou às sete horas, depois
de um sono entrecortado por uma série de tensas preocupações, e na ponta
dos pés saiu do quarto, deixando a mulher dormindo. Procurou vestir-se
no banheiro: nem tomou seu banho habitual e, para sua própria surpresa,
às sete e quinze já se encontrava na rua Santo Antonio, tragando a
ladeira em passos mecânicos e largamente ritmados. Quando ganhou a Praça
das Bandeiras, foi dominado pelo cansaço. Mas algo estranho fez com que
se recuperasse incontinenti: ao passar defronte de espraiada vitrine,
lançou por ela um olhar meio maquinal, sem qualquer intenção de reparo e
chegou a ver-se em tonalidade diferente. Não se sabe se por influência
da brisa matutina, que lhe envolvia o rosto deliciosamente, ou se pelo
silêncio do local, excepcionalmente sem bondes, o certo é que pôde,
depois de muito, muito tempo situar-se numa posição em que desejaria
encontrar-se e que, desde que conhecera Mariana, o tinha abandonado.
Chegou a achar-se mais vigoroso, os olhos nas verdadeiras órbitas, a
cabeleira mais dura, enfim considerou-se mais palpável e provou a
delicia de poder saborear a alinhada postura da gravata e o assentamento
do terno. Por um minuto ou dois, sentiu um bem-estar fabuloso e como que
iluminada a praça, que êle captava pelo espêlho, por uma luz mais
intensa, chegando a queimar-lhe as costas, agradávelmente. Mariana lhe
havia sumido da mente, e nisso êle experimentou um sensabor seguido de
uma revigoração extraordinária. Cada transeunte que passava na calçada –
ora uma mulher, em seguida um velho carregando uma cesta, logo mais três
estudantes gordos, um jornaleiro, uma bela mas antipática moça de azul,
um torturado libanês de quarenta e dois anos – cada transeunte era logo
captado por seu olhar que procurava imaginar o sentido daquelas
fisionomias, mas que bisonhamente eram colocadas num plano de
inutilidade permanente e pertinaz. Entretanto, o nosso homem não pôde
suportar por mais de três minutos aquêle estágio na irresponsabilidade e
logo sentiu um vazio no estômago. Como se cumprisse um dever de evitar
qualquer dor ou qualquer outra agitação, entrou no primeiro bar que viu
pela frente, depois de lançar o último olhar pelo terno de grandes
listras paralelas, que êle considerou abomináveis, pediu uma média,
bastante pão e manteiga. Tragou-os, e deu volta às pernas.
Subiu de novo à rua Santo Antonio. A cada passo,
destinado a resolver altos desígnios, parecia ouvir a marcha de seus
grandes e belos momentos: aquela marcha que êle gostava de ouvir
executada pela Orquestra da Fôrça Pública, emb. n. int. n. s. p.... De
fato, tocava-se pelas imediações algo muito parecido e familiar. Felônio
respirou o ar forte da manhã, enfiou no rosto um ar negligente e
carregado, e estugou o passo em direção ao apartamento. Às sete e meia
já encontrou o ascensorista a postos; dirigiu-lhe um olhar de ambígua
significação, apunhalando-o. Por mais que quisesse patentear um estado
de desagrado por cima do rapazola, não conseguia livrar-se daquela
confusão de sentimentos, que lhe era muito própria e que lhe dava na voz
uma serenidade gasosa, sensual, esbarrando num tique de........
- Bom dia.
Soou triste como se falasse pela primeira vez. Ouvia a
própria frase e não tinha certeza de seu significado. Sepelio forçava a
resposta, a voz encrevava no gorgorinho que êle empinava, alçando-se no
vôo que seu ouvido encomendava. Era sempre a mesma zoada. Não sabia se
era o elevador subindo, logo de manhã: talvez o estômago vazio.
- Bom dia.
Felonio teve por instante a visão nitida do plano, de
seu imenso plano. Como seria bom recordar, num só momento da vida que
fosse, tudo aquilo que planejara para cortar com sua felicidade, mas que
lhe dissipasse as dúvidas. Felicidade. Por acaso êle teve algum dia
felicidade? Ora. E essa que vem tendo, desde que conheceu Mariana? E...
se fosse sómente um desencontro? Isso! Êle não havia pensado em que os
casais também se desencontram. Um dia, rebentariam juntos, numa explosão
em que um descobriria o outro, no mesmo instante. E haveria um êstase
mais espiritual. De como se abraçariam, até se aniquilarem, era coisa
por demais espiritual, mas que não comporta olhares de criança.
Encara Sepelio. Êste seu último pensamento
foi provocado pelo olhar flácido do ascensorista. O rapaz pululava
interiormente, passando de vez em quando a mão pela testa, ajeitando o
boné de setim chúmbeo. Afinal, êle bem que pode ser um simples meninote
e aquêles olhares são muito explicáveis. O ascensorista, enquanto aperta
um botão ou sacode o cotovêlo, nêsse hábito impressionista, vai
ponderando, uma por uma, tôdas as maneiras de Felonio, e que se resumem,
a seus olhos, num grande, imenso, utrajado cansaço. E uma desabituada
mulher. Não: uma desabitada mulher. Não: êle devia ter outros atrativos.
Era um tipo até que magro, não, até que atraente. Mas ela, como devia
ser horrível, meu Deus, ela deveria ser até humilhante núa, áspera,
morena, côr que dava raiva nos braços do rapagão espadaúdo. Êle tem
ciume é do rapagão espadaúdo. A figura do rapagão espadaúdo traz a
Sepelio um endurecimento em todas as partes do corpo. O próprio olhar,
singelo sempre, teve umas crispadas de dura revolta, e êle pôde encarar
de frente aquêle que até um minuto antes o atemorizava, demasiado.
Ganhou confiança até para um início de diálogo, que foi necessário,
nascido pela mesma posição de ambos diante de uma situação semelhante.
Apesar de ponderar que a tristeza daquêle ser ali, a dois passos de
distância, combalido, mas que poderia ter fôrça de ânimo para ser seu
pai, poderia ser fruto de sua imaginação, cismou em sentir-se irmanado e
arriscou:
- O senhor me desculpe, sou muito
distraido.
Felonio já não sabia do que se
tratava. Esboçou o sorriso negligente.
- Às vezes, tem gente que entra no elevador
– gente também distraida – que só me cumprimenta quando já fechei a
porta e quando já estamos os dois fechados, e mesmo assim não reparo, e
só vou responder quando abro a porta no andar que êle pediu... E êle
fica muito espantado... Isso me acontece muito, disse Sepelio com
sofreguidão, sem encarar Felonio.
- É, isso às vezes acontece,
articulou êste, procurando enquadrar-se no assunto.
- Não, cortou Sepelio, para mim isso
acontece sempre, disse quase com paixão, em seguida do que emendou, para
reparar o tom rebarbativo: - Quer dizer: quase tôdo dia, quando me
acontecem das minhas, lamuriou.
Felonio captou-lhe o olhar lasso,
escorregadio, quase confidente.
- Mas você é um rapaz muito novo para
ter problemas assim tão terriveis; isto é... terriveis pelo que se deduz
de suas palavras... De seu jeito..., agregou Felonio, querendo
entender-lhe o sentido. Estava quase certo do “estranhíssimo” caso do
adolescente.
- Ahn, a gente sofre cad... Se o
senhor vivesse comigo um dia – olhe: um só dia -, veria que não... não é
possível sofrer tanto... quem não faz nada... Não nasceu pra isso...
Esse “sofrer tanto...quem não
faz nada... não nasceu para isso” transformou Sepelio numa autêntica
rapariga (ali, naquêle local, uma holandesazinha sardenta) do seculo
XVIII, despudonorada à fôrça e que se retirara para um mundo de perpetuo
abatimento. Felonio estava confuso. Havia um pudor horrível, inadiável,
acomodando os dois. De desconfiado, passava também a confidente.
Ora, disso com certa precaução,
isso tudo acontece a qualquer um! Tôdos nós temos problemas.
Ao falar disso, lembrou-se de Mariana
e associou-a ao ascensorista. Enfiou as mãos nos bolsos do paletó:
assim, com os cotovelos aparatosos, era um manequim que inconcientemente
lhe dava uma solidez inanimada e que êle não possuia nêsses momentos.
- E quando descobrimos certos
problemas dos outros... que nos cercam, aumentamos os nossos, acentuou,
fortificando a suspeita de que o ascensorista sabia de algo a respeito
de Mariana.
- Ahn, isso é verdade! é muito certo!
O senhor disse uma coisa que eu muito penso! A gente que nos
rodeia...Ah..., e quase deu uma cusparada, meio absorto.
Felonio sentia o pêso de alguma coisa
oculta, que o outro forçava por dizer-lhe, só não o fazendo por não ter
encontrado o jeito de iniciar. Ia dar-lhe meios para tanto, quando um
sorriso muito diferente rasgou a face ovóide do rapaz; agora era êle,
Felonio, que precisava de um meio de iniciar a conversa sôbre “aquilo”.
Lembrou-se, num instante, daquêle encontro fortuito de cinco dias atrás:
: êle, vestido de amarelo (era horrivel) quase vergado no meio
(era o terno amarelo, acinturado) transportando Mariana pelo braço.
Mariana era um primor de azul claro (agora êle olha Sepelio nos olhos:
êste parece que não está ali. Será que também pensa em? Sepelio é um
rapaz inteirinho oval, o nariz oval, a bôca mas é demais oval!). Êle
transportava Mariana, pondo a mão quase sublimemente sem pêlos no
cotovelo da mulher. O andar, entretanto, plant, tóc, plant, plant, tóc,
plant, tóc, plant, plant, tóc, êle não compreendia: seria possível? Iam
ambos em mesma distância, Felonio balançando-lhe o cotovelo, Mariana
falando, compulsiva, um assunto de rua e, no entanto, seu sapato de
borracha dava dois plant, o da mulher dava um tóc, êle queria consertar
aquilo, mas ficava tão soturno que só assim Mariana se subjugava. Então
deu mostras de cansaço, estava cansada e o marido a transportava, a mão
no cotovelo. Tinham atravessado tôdo o saguão do prédio; ao entrarem no
elevador, cumprimentaram o ascensorista, que respondeu muito pálido,
quase automático. Mariana enconstou-se à parede, desligando-se de
Felonio. Êste, virando-se duas ou três vezes para a mulher, como se a
consultasse sôbre algo, pôs as mãos nos bolsos do paletó amarelo, depois
de abotoá-lo. Pediu com os olhos ao ascensorista que o levasse ao décimo
quinto. Sepelio, de costas para ambos, vestido de jaqueta cinza, com o
pescoço gostosamente crescido, aparava o olhar suplicante de Felonio na
nuca e demorava-se muito em cumprir sua obrigação. Sabia que teria de
levá-los, mas alguma coisa lhe tolhia o movimento. De repente, tomou
consciencia de que esperava era um homem que havia despontado há pouco
lá no fundo do saguão. Virou-se, percorreu o casal com um olhar nublado,
indicou com a cabeça a figura do homem, que amiudou o passo logo que
percebeu que o elevador o esperava; por fim, tornou a postar-se numa
posição em que era tôdo pescoço. Mariana devorava-lhe o pescoço com
repugnância, conjeturando a respeito do marido. Felonio espreitava a
ambos e chegava a ser ridiculo aos olhos da mulher. Por um momento,
Mariana sentia-se bem, desligada de Felonio, com o cotovelo livre.
Chegava a encolher-se mais para o canto, como se o elevador estivesse
repleto. Esta atitude fez com que o rapagão espadaúdo, mal recuperasse o
fôlego da correria que empreendera para alcançar o elevador, lhe
dirigisse um olhar de humilde respeito, ao mesmo tempo que passava a mão
esquerda pelo rosto, tamborilando a coxa com a direita. Virou-se e
encarou Sepelio, significativo. O ascensorista dividiu o olhar entre os
três, enquanto apertava o botão do décimo quinto. Quando o elevador se
precipitou, deu quase meia volta ao corpo, abriu as pernas duras,
estancadas, esculpidas para suportar-lhe o corpo e olhou Felonio nos
olhos, que se colocara no meio do elevador. O ascensorista parecia
perguntar-lhe o numero do andar em que deveria aportá-los. Em seguida,
sem esperar qualquer outra solução visual, virou-se para o lado do
rapagão espadaúdo. Começou a esquadrinhar-lhe a figura de baixo para
cima, aguardando o momento de perfurar-lhe a cara com aquêles dois olhos
que azulavam, quase refletiam na gravata do rapagão, que era amarela, e
também onde se encontrava o olhar de Mariana. Esta, atemorizada por algo
de terrível que pressentira, mal se fecharam as portas do aparelho,
achegou-se a Felonio molemente, dando-lhe o braço, no que foi
correspondida por um balanceio de corpo negativo do marido, mas
abstraidamente. Êle tinha-se distraido, ha poucos segundos, com umas
ideias tolas, em que envolvia a mulher, o velho da porta da igreja (o
que lhe desejara boa sorte logo após o casamento, há três dias atrás), e
o proprio ascensorista. Recordava-se do olhar do rapazola, quando lhe
anunciou que era recém casados e que exigiam absoluta tranquilidade. Era
evidente que nunca vira rapaz com aquela expressão. Mas, depois de
curioso, adquiria feições de cúmplice de alguma coisa que não estava
certa. Disso êle tinha quase certeza. Depois do primeiro dia, o
ascensorista procurava até arrepiar caminho quando os via, ou não
encará-los de frente, quando tomavam o elevador.
O aparelho ganhava o
oitavo andar.
Mariana tirou-lhe o braço,
tornou a encolher-se em seu canto. Repentinamente, Sepelio começou a
olhar ao rapagão com outras expressões. Diabo: se êle lhe chegou um dia,
despreocupado, bonacheiro, até com o rosto estufado, enchendo a boca de
ar, nêsse gesto de saúde atlética, mas que lhe quebrava a beleza do
rosto com facilidade; se êle lhe pôs a mão no ombro e o chamou de lado,
num canto particular, sem dissimulação (se fôsse culpado, teria abordado
o ascensorista no proprio elevador, para dar mostra de que era uma coisa
de que não procurava eximir-se); se o rapagão chegou até a soprar-lhe na
cara, tal a importância do caso, não poupando ao ascensorista nem a
observância de um certo mau hálito; se êle chegou e lhe disse, é isso
mesmo, se lhe disse que “desejava muito falar à recém casada, mas sem
que o marido soubesse, pois era um caso de vida ou morte para umas
certas pessoas da estima do casal”, diabo, era caso para se respeitar, e
êle estava ali para atender, e êle estava ali para não desconfiar de
nada, diabo, não tinha nada com isso e, nem que tivesse, a única mulher
que lhe poderia inspirar ciume era Gardenia e Gardênia já morrera, aí
seu Deus, êle sofria até que Deus o livrasse dêsse mundo. Veio-lhe à
mente a figura do pai de Gardenia. Se pudesse tornar a viver para
praticar um só ato durante a vida tôda, passaria a vida tôda matando o
pai de Gardenia. Mas isso já era outro terror, e êle já estava cansado
de tanto terror. Entretanto, aquêle desmiolado pai tivera a culpa de sua
morte, sôbre isso não alimentava qualquer dúvida. Quando o elevador
ganhou e décimo terceiro andar, tôdos se prepararam dando um aprumo ao
corpo, como se fossem descer juntos e alegres se abraçassem em caminho
de algum festival já malogrado na mente dos quatro: o rapagão espadaúdo
sabia que não ia descer no décimo quinto, esticou o corpo e virou-se
para dar passagem, mas, atraído que estava pela situação de seu segrêdo,
delirava a passagem do perigo daquêle encontro em recinto fechado, e com
isso sorriu aos três e estufou o peito, parecendo imbecil aos olhos de
Mariana. Esta, a principio, quiz dar o braço ao marido. Resolução logo
desfeita por outro lépido maneirismo: armou as mãos em forma de
passadeira, deslizou-as pelo vestido à altura das coxas, enquanto
separava os maxilares, esticando o rosto, abandonando-se até às ultimas
conseqüências àquela situação tão fascinadora; sabia que os rapazes não
se atracariam (ela não sabia por que haveriam de se atracar!) talvez por
causa de sua presença, e nisso ela não quiz ter marido. Estufou o busto
e preparou-se para sair, não sem dizer com os olhos ao ascensorista que
nunca mais fizesse aquilo, que os rapazes triste não devem brigar,
atitude que a fez vaidosa aos olhos do rapagão e extravagante aos do
marido. O olhar que não puderam evitar fosse trocado, apesar do esfôrço
de ambos, que ligou os rostos dos rapazes através do rôlo de cabelo
incrustado na nuca de Mariana, foi o que prosternou Felonio: Sepelio a
principio enunciou, num franzir de nariz, que sentia muito o outro não
ter oportunidade de ver lograda sua missão junto à recem-casada. O
rapagão entendeu com isso que o ascensorista zombava o malôgro de uma
suposta relação ilegal dos dois e, firme, desviou os olhos dos outros
então chorosos do ascensorista e percorreu-os pelo corpo, àquela hora
sensual, da mulher, esquecendo-se do marido. Visava desnortear o
rapazola, mostrando-lhe que êle era absolutamente ridiculo e digno de
pena se procurasse interferir em seus desígnios de cobiçar e perseguir
uma mulher alheia. Assim agindo, pareceu um autêntico D. Juan aos olhos
do marido e fez com que o sangue lhe subisse à cabeça e à do
ascensorista. Felonio tomaria uma atitude enérgica; esboçara até um
movimento agressivo com a cabeça e chegaria a atropelar com o rapagão,
não fosse a suspicácia desesperada de Sepelio. Mariana sentiu a
mesmissima sensação de quando entregara a Felonio o primeiro beijo,
ainda em sua terra: um frio na barriga, uma revolta nas pernas, um
prazer que descia pela garganta e uma vontade de ser disputada, seguida
de uma vergonha altiva, que gerava um domínio sôbre tôdos os
circundantes. Cortou o encaramento entre o rapagão e o marido, que já se
sentia aniquilado pelo olhar ciumento do ascensorista. Dois segundos
mais, chegavam, ao décimo quinto andar.
.......................
Rememorando
êsses fatos, Felonio saía de um estado de torpor contemplativo, onde
tudo era duvidoso, para um comêço de cólera, onde vai se tornando
irremissivel. Fixa o olhar na boca de Sepelio, de onde saíra, ha cinco
ou seis segundos, aquêle: “Ahn, isso é verdade, é muito certo! O senhor
disse uma coisa que eu muito penso! A gente que nos rodeia! Ah! ... – e
logo a expressão facial enojada do rapaz.
- Olhe: eu gostaria
de conversar sôbre essa gente que o rodeia, disse, resoluto, Felonio,
acentuando o “conversar”.
Sepelio sentiu uma
lâmina gelada perfurar-lhe o estômago. Deus o livre.
- Szzzmtkkhanhhh
não tem importância se o senhor quizer, respondeu sem qualquer
pontuação, numa frase que mais parecia um grito remediado.
-É. Não, porque nós temos
um dia que nos desabafarmos com aguém, em quem a gente confia, não é?,
disse Felonio num tom em que a cólera era quase um chôro. O medo do
ascensorista lhe dava um desespêro inédito. Nos lampejos intermediários,
sua mente vislumbrava Mariana também desesperada, e com isso êle proprio
tinha medo e desviava o olhar do ascensorista, rezando por não vir
resposta.
- Szzznthahhh o
senhor tem razão. Grrr. (Tlim). Prontinho.
Haviam chegado no
andar de Felonio. Sepelio sentiu-se na obrigação de dizer algo.
- Às vezes não vale
a pena a gente falar sôbre isso. Às vezes não vale... Oh, é besteira a
gente comentar certas coisas... Não adianta, não conserta nada.
A maneira com que
foi dito isso era muito natural, as palavras escorregaram, listas, pela
boca oval de Sepelio; Felonio sentiu-se deslocado e nem das profundezas
da alma arranjaria mais qualquer palavra para dizer ao rapaz. Agradeceu
com os olhos, tirou as mãos dos bolsos do paletó.[NA MARGEM DO
ORIGINAL ENCONTRA-SE A FRASE: “Desenvolver depois, em Sepelio a “noção”
dessas fraquezas de Felonio. Êste terá também “ciência” de que se
“mostrou” e reagirá com ódio” ] Em outra atitude, em que parecia
alçar o corpo na ponta dos pés inconcientemente, endereçou novo olhar a
Sepelio, em que êle Felonio se desculpava por se ter ultrajado de modo
tão jogral, e coçou a ponta do nariz, mostrando uns dedos finos, longos,
que pareceram a Sepelio medonhamente viris, medonhamente românticos,
medonhamente com unhas bem tratadas. Sepelio também lhe enviou um olhar
à altura, antes de fechar a porta do elevador, mas em sua expressão se
misturaram visões tais como:[na margem 13-05-54]
UMA SALA MUITO AZUL.
Um quadro oval no meio da parede, quase rente ao chão. Papeis de parede,
colantes, listras de azul chileno. Dentro do quadro oval, meio corpo de
Felonio. À direita da sala, deitada, em transversal, uma figura em
cinzento diáfano. Os olhos muito esticados, não fora das órbitas, mas
pendentes da base do cabelo, onde começam as entradas. Dezenove anos e
braços em plano anteposto, de onde saem duas casas, azul cobalto,
ligadas pelo telhado, tendo no centro um vão sem perspectiva, pequeno
páteo, truncado por portas enfiadas na parede de atravessado, com quinas
salientes. À esquerda da sala azul, plantada no páteo comum das duas
casas, uma mulher em violeta, muito esticada, a cabeça pouco abaixo do
ponto de junção dos dois telhados. Seu rôlo de cabelo incrustado na nuca
é o globo de luz, muito antigo, também comum às duas casas. Não esparge
nenhuma luz. A mulher de violeta, de braços muito roliços, fina da
cabeça à cintura e engrossando da cintura para baixo (não era um volume
com duas formas, ou volume metade fino metade grosso: eram dois
volumes, um complemento de outro, jogando muito ao se deslocarem )
esculpe em barro amarelo-claro estátua de homem hercúleo, inflexivel. De
seu corpo pendem grandes excoriações na argamassa, algo esverdeada, onde
forma uma parede desrebocada a distâncias. Subindo pela parede uma
pequena janela, mais acima outra com outra paralela e, bem no alto,
talvez o sótão, outro ainda. Na casa da direita, a mesma superposição de
janelas, vermelhas, entretanto, e sómente a do meio se conservando
aberta. Na primeira janela da casa da esquerda, dois vasos com flores
indecifraveis, agressivas, encaracoladas de tal forma, que pareciam
constituir um parapeito de cimento nervoso, dêsses antigos, com
arcabouçozinhos de ferro do lado de fora. Dentro da janela, objetos
excessivamente estáveis, armário, mesa ovalada, banquetas e na única
cadeira um gato fincado, rijo, com uma expressão que parece esperar as
oito batidas do relógio e a escuridão envolvê-lo, para deslizar (os
objetos da sala não o deixam saltar) entre o chão e postar-se no fim do
corredor, onde te sua toca. Mas, tôdo êsse interior não se vê, é apenas
percebido. Na janela de cima, mal colocado, deixando vaga uma grande
parte, um homem de quarenta e cinco anos, rosto quadrado, olhar duro mas
alcançável aos poucos, absorvido de tôdo ambiente, janelas, telhado,
páteo, figuras. Seu olhar descansa ao longe, envolvendo, com uma espécie
de desvêlo indolente, a figura colocada de atravessado, em cinzento
diáfano.
[na margem 14-05-54]
É o rapaz de dezenove anos, que, no plano dos olhos do pai tem muitos
significados, mas que para aquêle apenas descansa a sesta em pequeno
jardim das imediações. Seus olhos, colocados na base do cabelo, são duas
margaridas incolores e sua postura tem algo de remanescencia de belos
objetos. Na última janela, talvez o sótão, uma mulher gôrda e
insignificante de fachada, mas de perfil martirizado. Seus grandes
braços, apoiados na base da janela e suportando-lhe o corpo, parecendo
impelí-lo para o interior, esmiuçam detritos que as mãos colhem,
nervosas, nos cantos da janela, em gesto inapercebido. Tem os olhos
fixos no páteo, onde se escutam, fazendo dos ouvidos olhos, colocados um
ao lado do outro, um menino e uma menina, a mesma idade. Na casa da
direita, na única janela que se conserva aberta, um homem magro e tôdo
cortado em ângulos, a nuca saliente, o pomo da garganta saliente, a
carcunda acentuada, a parte da barriga consideravelmente avançada. Visto
de frente, entretanto, chega a ser belo e estranhamente atraente. Não se
lhe vê a fisionomia; o cabelo, contudo, é liso, bem untado, para trás e
sem qualquer linha de corte. É o pai da menina ao lado do menino, no
pateo. A atmosfera indica ser sete e meia da tarde, e tôdos os contornos
se diluem com vagar, as figuras pouco ou quase nada se mexem. De
repente, começa a escurecer, vertiginoso. As casas sofrem com isso,
parece que estremecem, ouvem-se pequenos barulhos, indecifráveis, que
não se sabe de onde vêm. Não há pânico em relação às figuras das
janelas, que se postam, porém, em situação de desespêro procurando
aflitivamente as crianças no páteo. Escurece e escurece. Houve
estremeção ou apenas presságeo de tempo avassalador? O menino e a menina
do páteo se beijam na boca, assustados, sem notar qualquer outro perigo.
A mulher da janela do sótão grita por êles mas não é ouvida. Fecha a
janela, some-se por ela, notam-se-lhe os passos na escada. O marido, o
homem de cara quadrada, preenche agora tôdo o espaço da janela e chama
Sepelio. Sua voz, plangente, enérgica, mas logo de energia embriagada,
que só se completa com outra voz, em réplica, movimenta o rapaz cinzento
diáfano. Êle dá volta às casas, sobressaltado e quando chega ao páteo
olha para cima e começa imprecar contra o pai e contra o homem anguloso,
fronteiriço. O primeiro, envergonhado e surpreendido pela atitude do
rapaz, desaparece da janela num gesto brusco, de desagravo que, ainda
que passivo, lhe prometia um ajuste de contas. O homem da janela
fronteira levemente sorriu, Sepelio o maldisse com fervor, e só não o
matou com os olhos porque anteviu sua filha, Gardênia, chorando-lhe a
morte, e nisso êle se sentiu culpado, e quiz sumir-se nos fundos do
páteo. Estacou, vendo o irmão beijar a irmã de Gardênia. Então, sua
expressão de estarrecimento deu lugar a um sorriso de beatitude, sem que
de seus olhos desvanecesse um ressaibo de desaprovação. Mas êle parecia
ouvir o chamado plangente do pai e talvez o grito da mãe. Sentiu-se
combalido e teve impetos de bater à porta da frente e chamar Gardênia.
Virou-se e em seguida estacou, pela visão da mulher de violeta, muito
esticada, esculpindo. Experimenta, nos olhos, uma dessas impressões de
que já se viu tal ou qual pessoa em algum lugar. A atmosfera é quase
negra, e êle, aproveitando-se, com o sangue na cabeça, se lança ao
pescoço da mulher, que é Mariana. Ela, debalde, não se move, continua a
esculpir e desde então Sepelio percebe a estátua e encara o rapagão
espadaúdo com nojo, consumindo-se em ciume. Experimenta a sensação de
que a mulher apenas se distrai, esculpindo aquêle ser belissimo; fica
oscilando entre ciumento e longínqua, distraidamente compreensivo.
Enfim, aproveitando ainda o contacto com a mulher, suspende os braços,
leva a mão ao rôlo de cabelo incrustado na nuca de Mariana, e apaga o
globo, acendido há pouco, mergulhando tudo em quase completa escuridão.
Apaga a luz
do elevador.
Felonio quase
se ofendeu, só não fazendo devido a tudo se ter passado tão rapidamente,
que êle mal teve tempo (Sepelio logo acendeu a luz) de escoar a surpresa
na escuridão. O rapaz compensou tôdos esses instantes de turvação
mental, que pareceu a Felonio uma esquisitice acabrunhadora, com um
demorado sorriso amarelo, de lamentação. Seu rosto tomou logo a forma de
um bastão. Ao final do encontro, todo o ambiente tornou a se
transfigurar e Sepelio destruiu, com exasperação, toda aquela fileira de
janelas. Transportava-se de novo, e passando a mão pelos quadradinhos
nos botões dos andares, oito, cinco, quatro, botava tudo abaixo. Na
fileira de janelas da casa fronteiriça, alguém queria subir, no quarto
andar; o quadradinho reluzia. Felonio levou a mão e apagou, destruindo o
pai de Gardênia. De tudo, restou apenas um quadro oval quase rente ao
chão – a boca do ascensorista – e o papel de parede, colante, listras de
azul chileno – o terno de Felonio. O nosso homem balançou o corpo e
empreendeu uma retirada, não podendo mais suportar o ambiente;
entretanto, já reservava certa animação para voltar. Sumiu pelo
corredor.
Sepelio, já então
mais tranquilizado, teve um movimento com os braços lamentando a perda
de oportunidade de perguntar ao outro alguma opinião sôbre seu modo de
viver. No fundo, sabia que alguma palavra daquêle individuo lhe
resolveria grande parte dos problemas, e, mesmo assim, sentia um quase
pavor ao se aproximar dêle. Como êle estimaria que não fosse casado!
Casado. Agora, no
apartamento, tudo dizia a Felonio que estava casado, e êle não
acreditava: os moveis, o retrato, o relogio marcando sete e meia, uma
cadeira bem na quina da mesa, tudo formava um ambiente que só poderia
ser de casados. Êle foi à cozinha, pegou de um copo e tomou água. Em
cada gesto, queria fazer um barulho, para produzir algum outro mais
forte, de acordar alguém, mas evitava-o franzindo tôda a testa, como se
provocado pelo barulho. Parou uns instante na sala, em seguida entrou no
quarto e trocou a gravata. Enfiou no colarinho a “borboleta” roxa, já
bem antiga. Mariana jazia no leito submersa na coberta. Felonio
percorreu-lhe a figura através do espêlho do guarda-roupa. Assim, vista
indiretamente, provocava no marido uma fortíssima impressão de
ilicitude, que lhe disparava o coração. Êle gosou, por um segundo aquela
atmosfera deliciosa, perigosa, e fixava os olhos no criado-mudo, de onde
pendia um lenço impecável, bem passado. Ao virar-se e ao comtemplar o
leito de perto, deitou os olhos na face da cama que lhe pertencia. A
respiração da mulher oscilava a região montanhosa da outra face. Felonio
fez menção de arquear-se sôbre ela, mas interceptou o proprio gesto com
outra atitude, que lhe crispou a face: ao se aproximar da cama e ao
encarar o lado da cama que lhe pertencia, então amassado e com obcenas
amarrotações no lençol, provou uma certeza sinistra de que sua mulher o
trairia, fatalmente, pelo menos uma vez na vida. Tinha as pálpebras
quase cerradas, o corpo relaxado e sentia um gôsto amaríssimo na boca.
Então levantou o corpo, sem tirar os olhos da cama e do lençol
desabitado, de onde parecia que se propagava um cheiro azêdo, de roupa
mal lavada, ou nova. Relembrando certo acontecimentos, e com aquelas
figuras na cabeça, saiu do quarto na ponta dos pés. Na sala, sentou-se
distraidamente, tirou um cartão do bolso, pôs-se a escrever algo,
nervosa e trêmulamente. Não sabia porque lhe viera à mente a lembrança
do irmão Amâncio, que êle não vira ha muito tempo, senão de sosláio, na
Igreja. Êle talvez precisasse falar ao irmão, pois Amancio tinha sôbre
êle a vantagem de se moldar a qualquer especie de preocupações e possuia
mesmo uma grande altivez que se alimentava de situações trágicas. Mas,
antes, era necessario pôr à prova a fidelidade da mulher; não podia
invocar uma especie de homem daquêle sem estar certo de que o problema
existe. Conhece bem o irmão, sabe do que é capaz. Assina o cartão.
Trrrraaaço. Amâncio, sem ninguém notar, depois que se entrega, oh é
duro, duro, duro, ninguém o convence de que houve o equivoco. Levanta-se
em direção à porta. Mariana ainda estaria com a cabeça para dentro da
coberta? Lembra-se do caso do titulo quase protestado. Ah, como Amâncio.
Após olhar novamente ao relógio, Felonio resolve sair. Aperta o cartão
nos dedos e, escorregando-lhe o olhar mole mas quase raivoso, aguça o
ouvido em direção da porta do quarto, enquanto lê: “QUERIDA: PASSAREI O
DIA EM VIAGEM; EXPLICO-LHE O MOTIVO AMANHÃ, BEIJOS DO FELÔNIO”[na
margem 9-08-54]
E resolve sair, clamando,
num desespêro intimo, que lhe quebrava as coisas pela metade (o rádio é
um simples pedaço de pau, mudo....: q.n.a.lh.tr.ma.um.recrdç.~, aquêle
chinelo no canto da sala é um negocio sem sentido mas muito peculiar,
simpático e para conduzí-lo a alguma supresa ou em busca do sedativo) –
clamando a consequência daquêle barulho que vem do quarto, onde a mulher
dorme. Se êle a encontrasse a gora, ali, no limiar da porta,
trancando-lhe a passagem para convencê-lo de que era tudo um grande
absurdo, uma fraqueza de seu espirito ainda não realizado de marido,
tinha certeza de que abandonaria, de pronto, tão rude empreendimento.
Chegou a pensar mesmo que ainda que Mariana se levantasse imediatamente
para lhe dizer que de fato, sim, de fato, teve um desêjo enorme de
traí-lo (onde?), mas que não o faria mais, ou adiaria (desêjo porque?)
êsse... antes fosse capricho -, se êle deixasse de tolices, mesmo assim
êle extinguiria a idéia por definitivo. Entretanto, ao cabo de poucos
instantes, não veio nada do quarto e Felonio cruzou o arco da sala
contraindo muito a fisionomia, agora estranhamente realçada pelo nariz
arrebitado.[na margem 14-8-54].Estava efetivamente ferido em seu
amor proprio; isso lhe dava, contudo, um grande temor, temor de sentir
ferido no amor-proprio, pois no fundo tinha quase certeza de que não se
dedicara à mulher nenhum verdadeiro grande amor: como poderia sentir-se
ferido no amor-proprio, se não dedicara amor a ninguém? Será que não ama
Mariana? E êsse desespêro de imaginá-la dividida nessa afeição que êle
de forma alguma admite não lhe pertença totalmente?
Assim conjeturando,
Felonio saiu para o corredor, embaraçado em seus propósitos. À medida
que se distanciava da porta de entrada, porém, crescia-lhe n´alma uma
especie de revolta consumidora, que lhe transtornava a face,
dilatando-lhe as narinas, isso tudo provocado pela visão de seu recanto
fechado, entranhando Mariana, e do qual êle se desligava com grande
rapidez. Quando apertou o botão do elevador, essa revolta recrudesceu,
pois lhe veio à mente uma serie de associações não muito comuns, até
perturbadoras: começou a prestar atenção ao rosto de Mariana e em suas
reações faciais, por ocasião de seus coloquios com a mulher.[na
margem 22-8-54]. Somente então percebeu o verdadeiro significado do
olhar fugitivo de Mariana, exatamente nos momentos em que a fitava para
sentir-se seguro quando aventurava um chiste malicioso ou tentava uma
aproximação amorosa. Mariana iniciava a “retirada” com um passar de
dedos ao longo das pernas, simulando um assentamento da saia; logo mais,
desviava o olhar, de onde não se apagava um sentimento de respeito ao
temor que invadia Felonio nêsses instantes. Só agora êle compreendia que
aquêle ar encabulado da mulher era por culpa de sua falta de confiança,
que na certa ela já teria notado. E foi pensando nisso que Felonio se
sentiu horrivelmente ferido numa espécie de amor-próprio decorrente de
não poder siquer ousar em sentir-se ofendido, sem que o invadisse uma
humilhação que confundia com a pior das vergonhas.
Um minuto mais, a
porta do elevador abriu-se, êle entrou por ela, muito transtornado. Um
segundo depois, contudo, ao esboçar o primeiro gesto, desanuviou-se-lhe
a fisionomia, e êle adquiriu uma certa consistência animada nas feições:
o olhar se aclarou imediatamente, invadiu-lhe a testa uma limpidez quase
infantil, êle se tornava mais leve. Foi nêsse momento que disse ao
ascensorista, em tom desusado:
- Olhe,
menino: tome aqui êste envelope. Você me faz o favor de entregá-lo à
minha mulher, lá pelas dez e meia, viu?
Sepelio levou a mão
ao envelope, guardou-o no bolso, num gesto reflexo, muito rápido, antes
de atinar com o sentido daquelas palavras. Procurou debalde o olhar de
Felonio; não sabia enfrentar uma situação com aquêle homem sem primeiro
olhá-lo bem nos olhos. Felonio, contrariamente, não conseguia olhar ao
rapaz senão na medida em que êste procurava dissimular alguma coisa.
- Sim senhor.
O senhor quer que entregue às dez e meia, antes não, só depois das dez e
meia, não é?
O rapaz começava a
alimentar um grande desêjo de vê-la de perto. Começava a associá-la a
Gardênia, o coração batia-lhe forte, mas agora êle não teve medo.
- É, me faz o
favor. Mas não me entregue antes das dez e meia, faz favor?
E como notasse que
estava a repetir certas expressões, emendou atrás do “faz favor”:
- Ela está cansada,
Não quero acordá-la antes dessa hora.
Sepelio procurava-lhe o
olhar para dizer que sim, mas o remanescente da vergonha que invadira
Felonio no corredor parecia reavivar-se sob o influxo da idéia de
Mariana ser acordada em sua ausência. Antes que Sepelio pudesse afirmar
que sim, podia ficar descansado, o cartão não seria entregue antes das
dez e meia, Felonio ainda lhe disse, mas sem encará-lo siquer de
relance:
- E sôbre aquêle
negocio...daquêle pessoal, que parece que você disse...que o atormenta,
nós poderemos conversar qualquer noite dessas.
- Ah, isso não tem
pressa. Isso não se conserta assim, de uma hora para outra. Mas em tôdo
caso, eu chamo o senhor, eu agradeço muito, nós conversamos qualquer dia
dêsses, respondeu Sepelio, incoerente mas com estranha segurança.
A figura de Gardênia, sua
namorada morta em circunstâncias tão revoltosas, começava a tomar-lhe a
mente, provocada pela ideia de acarear-se com Mariana. E isso lhe tirava
qualquer temor.
- Mas precisa ser logo, disse
Felonio, em tom quase intimativo. O rapaz, inconcientemente, deu ao
rosto um trejeito de submissão.
- É. Porque hoje eu vou
viajar e volto amanhã. Mas, talvez depois dessa viagem eu faça outra...
E não sei para onde, nem se volto logo. Tem que ser nesta semana.
[na margem 25/ 08/54]
Coisa estranha: parecia a
Felonio que êle estava ali para infundir no rapaz uma espécie de
sofrimento muito cruel e sem sentido, e que entretanto êle não poderia
perceber através da fisionomia certamente transfigurada de Sepelio.
Felonio não aventurou olhá-lo nem por um segundo, até que o elevador
ganhasse o térreo. Só de então o ascensorista começou a modificar o
semblante, que adquiriu uma tristeza tão desesperada, que êle não pôde
deixar de dizer a Felonio, só faltando cair-se-lhe nos braços, como uma
criança que estivesse para morrer, mas que soubesse o significado da
morte e que fosse, de repente, diante de um ser mais velho, mais
avolumado, mais grave, destituida de tôda inteligência e reduzida a uma
criança bem menor, mas ainda com o significado da morte no coração,
tendo a mente conturbada:
- Oh, meu Deus, eu digo pro
senhor qualquer dia dêsses... não! qualquer, é melhor uma noite... Mas
eu não sei se devo dizer... Eu não estou bem certo... Essas coisas é
melhor a gente guardar oh meu Deus que vida desgraçado sou um desgraçado
desgraçado...
Ao proferir estas últimas
palavras, armava o punho e conduzia-o para o peito em gestos bruscos e
cortados, porém sem bater. Tôda sua familia e seus casos particulares
desfilavam-lhe nos olhos, àquela hora em chispas, profundamente
enraivecidos. Felonio armava no cérebro um mundo de desconfianças
envolvendo Mariana, o rapagão, o ascensorista, e isso lhe infundia um
egoismo estremamente pernicioso, que se manifestava nos olhos, fincados
no peito do rapaz, no ponto onde o punho descrevia a volta para novo
movimento. Felonio queria tirar o máximo proveito daquêle desespêro, mas
Sepelio subitamente quase lhe deu fim, limpando a fisionomia numa
atitude inexplicável, que lhe colocou na boca um sorriso muito amarelo
mas personalissimo, que desculpava imediatamente tôda a encenação.
Todavia, Felonio não
deixou que a calma se restabelecesse: inconcientemente, mas sem qualquer
reservas, lançou as mãos aos braços do rapaz, segurou-os, firmes, e
puxou-os para baixo, como se ainda houvesse desespêro:
- Bem, calma, calma,
rapaz, não faça isso... Hein? Ora, não! não se acanhe.
E dizendo isso, ainda não
chegava a olhá-lo no rosto. Quando, depois de algum tempo, soltou os
braços do rapaz, pendidos e sem resistência, êste lhe disse:
- O senhor me desculpe, é que
eu ando meio nervoso, e às vezes digo coisas sem pensar... mas amanhã
vou ter folga aqui no prédio e então chamo o senhor lá. Mas o senhor
promete? ...
E abriu a porta do ascensor.
Felonio ouviu-o com toda atenção concentrada e, à vista de outras
pessoas que aguardavam o aparelho, saiu, dando-lhe um tapinha no ombro.
Atravessou o saguão e saiu do prédio, com a intenção, não só deliberada
mas calcada em certa perversidade, de executar seu plano de verificação:
dali, ocuparia a manhã para descansar ( pois dormira mal) num quarto de
Hotel que alugaria em lugar bem retirado: talvez na Estação do Norte, ou
em qualquer outro recanto do Brás. Depois do almôço, ocuparia a tarde
rondando a mulher e espreitando, com extrema (oh, precisará de grande
habilidade. Êsse muleque sabe de alguma coisa, o como êle mesmo (que
cara!) disse o desgraçado. Qual habilidade!, vou lá me esfalfar por
causa dos estúpidos). Expreitando o rapagão espadaúdo, até saber onde
mora, ou em que lugar do prédio êle transita. Não é que sempre o vê?
Mariana daria seu passeio de tôda tarde; fatalmente (ou mesmo por
coincidência) cruzará com o rapagão. Haverá alguma coisa entre êles. Êle
os espreitará. À noite haverá alguma coisa. Mesmo que não haja, pela
conversa que tiver com Mariana no dia seguinte, sempre tirará algum
indício. Oh, como não vivem bem, sente isso, apesar de. Mesmo que não
deduza nada, êle tem que ir falar ao irmão Amancio. Amancio lhe
dirá que há sim, que ele deve cuidar bem do caso, ele Amancio lhe é bem
mais experiente: só isso lhe apontará o caminho de alguma desconfiança.
Como a manhã está fria. Gravata borboleta não se usa mais em São Paulo.
E Felonio se perdeu em São Paulo.
Mais tarde, pelas dez e meia,
Sepelio entregou o cartão a Mariana, no encontro por que já passamos, no
comêço do relato, ao qual se seguiu a visita do rapagão espadaúdo. E
afinal a deixamos no apartamento, com o cartão entre os dedos e o
pensamento dividido entre o marido e a fome do almôço, que ainda
tardava.
III
Não tardara muito, o rapagão tornava a chamar, vindo surpreender Sepelio
nas imediações do sétimo andar. O ascensorista deu um toque rápido na
manivela, comprimiu o botão e zarpou para o décimo quinto. Estava um
pouco sôfrego e a expressão do olhar traduzia um certo tédio não muito
comum àquela fisionomia de linhas dinâmicas. Tudo fazia crer que era à
custa de um grande desespêro de dissimulação que o rapaz afugentava do
rosto um ar de súplica, fazendo com que então fixasse os olhos para
baixo, até encontrar as costas da mão, onde se pendurou até a entrada de
outro rapaz. Quando êste entrou ao invés de fortificar a atitude,
lançou-lhe novo olhar, forte, resvalando pelo significativo mas quase
inédito: não era mais aquela maneira de parecer intrometido, querendo
perquirir como uma criança; agora, olhava-o com estranha simpatia, porém
desanimado.
O rapagão sentiu no outro uma espécie de desêjo
profissional, só faltando pedir-lhe às claras que lhe dissesse tudo, o
que fôra fazer junto à recém-casada, etc, mas com calma, muito calma,
pois estava abatido. Algum sentimento, contudo, (ou alguma veleidade
indifinível) pôs na boca do rapagão um sorriso como que enfiado para
dentro, esticando muito a pele do rosto até realçar os olhos, que
Sepelio percebeu serem esverdeados. No que será que esse menino não
deixa de pensar! Era isso, somente essa indagação, mas numa forma vaga,
a causa daquêle sorriso. O próprio rapagão pouco compreendia; tinha,
antes, a atenção ainda voltada para o encontro com a recém-casada e para
as primeiras consequencias dessa incumbência, que já prometiam muito.
Êle não esperava que os primeiros acontecimentos do “caso” evoluissem de
tal forma que já pressagiavam uma série infindável de aborrecimentos.
Abro um parêntese
para dizer algo sôbre o nosso rapaz. Começo por dizer que é advogado,
ainda novo, mas de grande visão profissional. Tem vinte e sete anos e
uma alma inqualificável; pouco tempo para uma profissão que exige sempre
um grande acumulo de malicia e prática, mas o certo é que, em cinco ou
seis causas que patrocinara desde a colação, chegou a pôr por terra
cinco ou seis famosos causidicos da Capital. Talvez o fato se deva às
características de sua alma, prodigiosamente inqualificável: Carlos
(Carlos Caldas) não é tímido nem desembaraçado; para cada uma das
situações encontra sempre a expressão justa de parecer bem acomodado.
Talvez o fato também se deva à maneia com que coloca os olhos ( que são
belíssimos, grandes e esverdeados ) num ponto acima do ombro do
interlocutor, e no costume de mexer os maxilares, para cima e para
baixo, sem abrir a boca. Aquela primeira caracteristica irradia uma
espécie infalivel de fascinio, pois lhe pinta na fisionomia ares de
grande sonhador. O simples olhar, entretanto, surtiria um efeito efêmero
e logo o mostraria aos olhos do interlocutor em sua reduzida proporção (
sim, porque o nosso rapaz no fundo é de espirito vazio ), não fosse
aquela mastigação ininterrupta, que não definia qualquer expressão. Os
demais sentimentos, de bondade ou maldade, inveja ou ambição, são coisa
em que jamais cogitara em seus vinte e sete anos de existência. Tinha um
ról considerável de amigos, quase tôdos súcubos, que não se cansavam de
fazer-lhe a roda, à noite, num certo ponto da Barão. Seus ombros largos
e andar aberto dam-lhe um aspecto de ampulheta e sua simples aparência
causa a impressão de um enorme corpo sem alma, mas estranhamente
generoso e atraente. Entretanto, são impressões; deixo registrado,
contudo, um fato recente, como sinal do que é capaz seu espírito vazio
mas que evoluira a um grau espantoso de estagnação nessa idade: um ano
antes do comêço dêste relato, Carlos Caldas cortejara, com insaciável
assiduidade, a uma rapariga de vinte anos, bailarina do Taxi Dancing
Maravilhoso. Não lhe custou muito fazer com que a “vadia” (era como
antes a chamava) abandonasse a súcia de milionários insatisfeitos e
viesse a cair-lhe nos braços; foi num fechar de olhos, e para seu
próprio espanto. Viveram juntos um mês, ou pouco mais. Parco tempo para
um idilio tão poéticamente nevrosado, mas o fato é que a rapariga não se
disincumbia com o mesmo afâ, chegando mesmo a maltratá-lo e a tratá-lo
com indiferença. Uma noite, êle apareceu pela Barão com aspecto doentio,
consternando e de olhos baixos. Mas como o “pessoal” estava alegre e
agindo com muito estrépito, o nosso rapagão, lépido, esvoaçante,
abandonou os ares de velório e passou a distribuir abraços e empurrões,
gingando o corpanzil, que parecia numa constante dança. Determinado
momento, diz-se, chegou até a insinuações de ordem particular. A
conversa descambou para o lado do amor, da fidelidade, alguém falou em
traição, por fim falava-se das mulheres da vida e seus amores. Um disse
que elas amavam violentamente, outro que era um tipo de amor controlado,
etc. subitamente, Carlos irrompeu:
- Coisa nenhuma! essas mulheres – é como eu sempre digo! –
não se apaixonam jamais por nenhuma criatura!, disse, muito lívido e com
segurança. E depois de pequena pausa: - ou, para não ser absoluto... só
se apaixonam por “tiras” da polícia ou traficantes de merc... ou
contrabandistas!...
Nêsse mesmissimo instante, êle percebera, como nunca, que
estava começando a dedicar à bailarina uma espécie de amor infausto,
honesto. Mas não se martirizou muito; quase em seguida, teve de conter a
explosão de um de seus melhores amigos, um rapaz magrissimo e alegre:
- Ora, deixe de ser bôbo! Não diga uma coisa dessa! Como é
então que não se apaixonam? Por acaso, elas são diferentes das outras
mulheres?
E um pouco mais calmo, mas em tom professoral:
- Francamente, você com isso mostra desconhecer
completamente a vida...
Aqui, a necessidade
nos obriga a cortar a cena e a transportá-lo para o dia seguinte, quando
êle, após passar “uma noite de cão”, foi em busca da rapariga, sem saber
em que acreditar. Encontrou-a viçosa e afável. Gastando duas palavras
envolvidas numa rouquidão evocativas para a rapariga, entrou, depois de
espiar pelo quarto, e franzindo tôda a cara por causa da nicotina
apagada. Uma hora mais tarde, caiam nos braços um do outro, com a leve
diferença de que a rapariga começava a reagir com certa indiferença,
como se estivesse intuindo alguma coisa.
De fato,
Carlos, com os olhos sempre fixos em seu pescoço, fino e rosado, evitou
chegar aos extremos da relação amorosa, substituindo o ato por uma
contemplação não muito sadia, que atemorizava a mulher. Então começou a
envolvê-la numa série de perguntas sôbre seus passado. A rapariga
desandou a contar uma história confusa, que gerava outras inocentes, sem
sofreguidão, com a pachorra prazeirosa com que essas mulheres relatam
fatos de seu passado. Carlos escutava-a desenhando-lhe algo no joelho
com a ponta do dedo, e levantava os olhos de quando em quando para o
teto. Pasmava-se da distração da outra, respondendo a perguntas que já
foram feitas nos primeiros dias daquela ligação. “Devia estar muito
amedrontada”. Contudo, tinha no rosto uma tranquilidade que dava realce
àquêle queixinho compriiido, como se fosse desprender da
bôca-faz-bico-e-estala. Tàla-Plaft!: quando a rapariga deu por si tinha
aparado uma bordoado no meio da face e rolara para o criado-mudo, sem
proferir gemido. Foi coisa de um segundo, desprendeu-se num vôo ardido,
esparramando-se no chão, de onde pôde ver, sem pensar nada, o corpo de
um homem (quem seria êsse malvado?) vestir-se e sair do quarto:
Carlos a provocou
até que ela se referisse a uma determinada passagem de sua vida
anterior. A rapariga ingenuamente desceu a minúcias dizendo que então
êle (o homem que a desencaminhara) chegara muito bêbado e então começou
a maltratá-la – somente com um gesto horrível – dizendo então que ela é
que não tinha mais jeito; e gritava (ou só dizia?) que era
somente...somente...por causa dela que não tinham nenhum filho; então
que êle não era o impotente, mas ela, e então com que cara ia levá-la à
sua “velha” (tinha quase a mesma idade da mãe) ? Então ela não sabia que
se a levasse para conhecer a mãe...assim...essas duas caras culpadas
aparecendo, seria capaz de fazer com que sua mãe os enxotasse pela
escada abaixo?
Em seguida, a
rapariga se levantou, apoiando-se nos punhos, e pôs o rosto para frente,
com as pernas para fora da cama. Carlos esperou o momento em que a
“rememoração” fosse patente, bem presente; e quando a rapariga
representou a atitude de uma mulher leviana dizendo a alguém uns
desafôros que não eram rispidos, mas humilhantes, soltou o braço com
vontade. Um minuto depois, tinha descido a escadaria de quatro em
quatro, trazendo os cabelos esvoaçantes na testa. Atravessou, rápido, a
Av. Rio Branco, tomou um bonde quase vazio no Paissandú e foi com ele
até a Angélica, mas sempre no estribo. Determinado momento, entrou-lhe
pelo espirito um bem estar extraordinario e êle pôde provar o gôso
deliquescente de uma felicidade que nunca sentira. Foi quando teve
vontade de atirar-se do bonde em alta velocidade (êle chegou a antever,
por cima do asfalto que se deslocava com um tapete mágico, suas pernas
se atropelando no ar), só não o fazendo devido ao temor que o invadiu
súbitamente, ao pensar que poderia ter sido preso no ato do
espancamento.
Dois mêses mais
tarde, soube-se na Barão que contraira noivado com uma moça do interior.
Chegou-se a dizer que Carlos instara junto à família da moça, para
transferi-la para São Paulo, no que foi atendido dentro de poucas
semanas. Foi desde então que não mais apareceu à noite ao encontro com
os amigos, e dêsse noivado o pouco que se soube com precisão foi que a
moça o amara deveras e com fervor. Um dia, quando já Carlos começava a
entregar-se naquela teia amorosa (digo “já” porque, por incrivel que
pareça, êsse rapaz é das pessoas mais difíceis de se apaixonarem que já
conheci), ouviu dizer de um indivíduo másculo, que lhe dava o dôbro e
que gesticulava entre ignorantes (eram ignorantes, não tinha dúvida!)
que “aquelas mulheres” não se apaixonavam por ninguém. Era num bar,
Carlos estava no balcão, chegara até a apoiar-se nos cotovelos esperando
a frase final, aquela que prorrompeu gostosamente: - isto é, só se
apaixonam por tiras etc etc.
Uma semana mais
tarde, diz-se, o nosso rapagão rompia o noivado, depois de deslanchar o
braço por cima do irmão da noiva, alegando que o molestava muito a
excessiva confiança com que, tinha certeza! , o outro rapaz se referia a
fatos amorosos em sua presença: comentou-se que Carlos era tratado como
um trouxa, mas o fato é que o nosso rapagão era demasiadamente
egocêntrico para se ofender com insinuações. Sôbre a verdadeira razão,
jamais se falou com nitidez...
E sôbre seu papel
nêste relato, basta saber, por ora, que o acaso fez com que conhecesse
os irmãos de Felonio, aquêle casal de solteirões que reside na Lapa, há
cerca de dois mêses. Carlos conhecera Amâncio Assunção no Joquei Clube
em circunstancias bem particulares, que serão mais tarde relatadas.
Presentemente, tinha uma missão a cumprir junto ao casal, de ordem
sigilosa para tôdos e principalmente para o marido: tratava-se de um
caso de herança, depois de determinado inventário do pai de Felonio e
Amâncio, falecido ainda em 1943.
O inventário
compreendia alguns bens esparsos, mal localizados e de parco valor, e
uma casa de dois andares e grandes colunas, construida no fundo de um
terreno baldio da estrada de Santo Amaro. Descontados os honorários do
antigo advogado e mais as despêsas de especificação dos bens, foi
preciso proceder-se a venda ou desistência daquêles bens esparsos, para
que pudessem sair quites do processo e com direitos iguais sôbre a casa
abandonada. Mas, ao tempo dêsses acontecimentos, o esquisito solteirão,
Amâncio Assunção, se via premido por necessidades quase desesperadoras
devido à vida desregrada a que se atirara de há longo tempo. Então
imaginou um meio de fazer com que Felonio, possuidor de outros bens,
abrisse mão de sua parte em favor da irmã, Julieta Mara, usando, para
tanto, certos artificios de ordem sentimental. O simples fato de fazer
com que o advogado fosse procurá-los uma semana apenas após o casamento
era um golpe de mestre que desferia “para inicio de conversa”, para usar
sua propria expressão.
Não pudemos
ouvir o diálogo entre Carlos e Mariana, mas podemos deixar bem claro que
o rapagão evitou dar qualquer esclarecimento à recém-casada.
Entregou-lhe o cartão profissional, rogando-lhe, num gesto quase
romântico e contudo muito seguro, que comparecesse ao seu escritório,
aquela mesma tarde, onde “teria o maximo e honrosos prazer de incumbi-la
( foi a palavra que agradou a mulher ) de cooperar com êle para o mais
rápido andamento numa causa de grande importância”.
Em
seguida, não pensou mais no caso, distraindo a atenção em coisinhas
minusculas e particulares. Foi êsse ar de risonho alheiamento, que dava
a impressão de superioridade zombeteira, a causa da inquietação do
ascensorista. Depois que o rapagão partiu, Sepelio deixou alguns
inquilinos em seus andares e sentiu enorme desêjo de voltar ao décimo
quinto. Queria saber de onde vinha aquêle vozerio atordoante de crianças
e confirmar num certo presságio que o vinha martirizando há mais de um
mês. Nas últimas semanas, êle vinha sonhando com certas situações
estranhas, horripilantes, sonhos onde se via acuado diante das coisas
que mais amava na vida, e onde, geralmente, era atormentado por
crianças. Ora era um meninote de seus ou sete anos, que lhe surgia de
sob a cama e lhe mastigava os cabelos com voracidade, produzindo-lhe
fortíssima dor de cabeça, ora um bebê que crescia, crescia, crescia
assustadoramente, até preencher tôdo o espaço do quarto e depois de
redondo explodia, voluteando seus fragmentos em bandeirolas que desciam
e espirais, até se fincarem no chão em fileiras simétricas. Uma e outra
vez, sonhava que seu pai atravessava a parede e se punha a altercar com
o senhor Jerônimo, pai de Gardênia, o detestável pai de Gardênia. A
discussão chegava-lhe até a cama envolvida em cantorias que procuravam
disfarçar a quem passasse pela rua, e certamente deveriam ser entoadas
por Gardênia, ou pela irmã. Certa hora, Sepelio ouvia um disparo e logo
uma lamentação abafada, à qual se sobrepunha um silêncio enlouquecedor.
O rapaz, com o coração aos trambolhos, virava-se convulso na cama,
aguardando com a fisionomia esbranquiçada o desfêcho daquela situação:
pedia a Deus que seu pai dissesse algo ou aparecesse por onde entrara.
Mas não vinha nada e então êle se consumia em pensamentos tenebrosos,
que se alongavam pela madrugada tôda, até o momento em que, prestes a
conciliar o sono realmente, ouvia os passos do pai se arrastarem
fanhosamente pelo corredor, para depois, do limiar da porta, sempre sem
entrar, acordá-lo com energia para o trabalho.
Relembrando
alguns de seus últimos sonhos, Sepelio trouxe à mente aquelas palavras
que ouvira de um dos meninos escondidos, antes de entregar o bilhete de
Felonio a Mariana:
- Pode acabar
o mundo, pai, pode acabar, eu é que... -, e aquêle barulho esquisito,
antes da lancinante lamúria.
O ascensorista
ainda estava abalado pelo encontro que tivera com Mariana. Agora,
rememorava, uma por uma, as linhas da fisionomia da mulher, forçando por
não acreditar que houvesse, naquêle apêrto de mão, qualquer intenção
sedutora. Tinha pouca prática com mulheres, mas logo que lhe vinha
qualquer dúvida sôbre determinada situação, invocava a lembrança de
Gardênia. Era seu ponto de partida para tirar deduções, de onde quase
infalivelmente generalizava. Assim, pois, corado pelo sorriso ambíguo da
recém-casada, e ainda mais excitado pelo contacto com aquela mão que
parecia um pêssego animado, Sepelio caminhava absortamente pelo
corredor, esquecendo-se de seu trabalho. Sua confusão aumentava à medida
em que se procurava transportar ao primeiro encontro com a amada
desaparecida. Lembrou-se:
FOI
NUMA TARDE, por volta de sete horas, antes de escurecer. Residia ainda
na mesma casa, o sobrado antigo da Barra Funda, estilo veneziano mal
delineado, uma moradia grotesca e empoleirada em outra geminada, onde
morava Gardênia. Faziam parte de um conjunto de casas de propriedade de
um italiano papalvo, que residia no Rio. Não fosse a velhice – deviam
ter sido construídas por volta de 1900 -, e o local - incrustada quase
entre dois cortiços onde a algazarra bimbalhava por volta das onze,
entre batucadas, palavrões e choros de crianças -, deviam ser de
altíssimo valor, cujo aluguél provavelmente não pudesse ser pago pelos
nossos inquilinos.
Àquela
hora, diariamente, Sepelio costumava sair para uma pequena caminhada até
a Praça Olavo Bilac, onde um minusculo e redondo jardim servia de campo
para a infalivel mas quase sempre inacabada “pelada” de moleques sujos e
briguentos. Naquela tarde, rodeou, como de costume, o pequeno pateo
comum às duas casas, levantou os olhos para o segundo andar, onde sempre
se postava seu pai, zangou-se contra êle, para logo em seguida
arrepender-se quase amaldiçoando-se e estugou o passo. Costumava
caminhar com pressa, sem ver onde pisava. Tinha já se distanciado uns
vinte metros, quando ouviu:
-Pst!
Voltou-se automaticamente em direção de casa, procurou o
rosto do pai. Entretanto, o homem parecia uma estátua, não percebia
nada, nem de fora, tampouco de dentro.
- Sou eu, disse-lhe uma vozinha fina e rouca, saída de trás do
muro, onde uma brecha de quatro ou cinco metros emoldurava um corpinho
espigado de menina, de uns dezesseis anos, alta, muito magra, morena, e
de cabelos podados na base das orelhas. Tinha o nariz fino e os lábios
grossos, mas quase sem côr. Os olhos eram doces e severos, de uma
confiança enérgica; entretanto, no conjunto, a rapariga dava impressão
de franqueza.
Sepelio encarou-a a princípio sem bem atinar com a
situação. A menina aproximou-se mais, fez-lhe um sinal ambiguo, em que
parecia falar com o cotovelo, anunciou-lhe que parasse, que tinha algo a
dizer-lhe, sem contudo sair da brecha do muro. Parecia esconder-se da
visinhança.
-Venha aqui (agora, nêste instante, Sepelio parecia ouvir a
frase, sibilina, elástica, aguda) um pouco, disse, separando, o “venha
aqui” de “um pouco”. – Não é você o Sepelio? Ou é o outro, o seu irmão?
Qual dos dois é o Sepélio?
- Sou eu mesmo,
disse o rapaz, aproximando-se, depois de olhar para a casa, como se
praticasse algum ato.
- Acho que você deve me conhecer, pelo menos de vista. Eu
moro naquela casa pegada à sua, há mais de três mêses... Mas eu não
apareço muito, não! agregou, adivinhando qualquer pensamento de Sepelio.
O rapaz sabia de tôdas essas particularidades, que então
considerava insignificantes. Entretanto, a expressão de seu olhar
parecia sugerir que estava surpreendido e que jamais a tinha visto.
- Aliás, continuou a menina, antes de nós, morava aquêle
casal de velhos, tios de papai, que você deve ter conhecido – conheceu?
É claro! Mas êles não aguentaram essa vida da Capital, coitado do meu
tio-avô: era bem mais doente do que vovó...Quer dizer, era minha
tia-avó, você sabe. Ah, “era”, veja só, êles não morreram ainda!
Voltaram pro interior e passaram a casa para nós. Foi uma sorte, porque
é mesmo difícil arranjar casa na capital... Que que você acha? Mas
aposto que nem sente isso. Você nasceu aqui mesmo, não é?
- Não, eu também nasci no interior, mas vim pra São Paulo
quando tinha uns três ou quatro anos. Meu irmão é que nasceu aqui -,
agregou Sepelio, aliviado por perceber que a conversa saia daquela teia
de considerações adultas, que o estiolavam.
- Logo se vê, logo se vê que o seu irmão nasceu numa
capital, disse a menina, sorrindo e sublinhando o “seu irmão”, como se
estivesse insinuando algo. Aliás, prosseguiu, não vá pensar que eu ando
especulando a vida dos outros, mas como as nossas casas são tão juntas –
e isso só não vê quem é cego ou quem é muito antiquado! – eu sempre
estou vendo vocês, principalmente na cozinha... Ha! do meu quarto, no
fundo, se vê sua cozinha inteirinha! Mas aposto que você nunca percebeu
isso, e da sua casa a vista é a mesma, as casas são gêmeas.
Visivelmente
perturbado, com a fisionomia tomada de surprêsa, Sepelio voltou-se num
gesto meio reflexo, a espiar a disposição das casas. Seu olhar deixou o
pescoço da rapariga (onde se pendurara no inicio do encontro) alongou-se
pelo muro, deslizou por seus intersticios, até então nunca notados e que
o convidavam para um ato obsceno ainda indefinido em sua mente, afinal
encaixou-se na janela do quarto da rapariga.
- Pode ver: não é
mesmo? perguntou a menina, devorando-lhe os gestos, estranhamente
interessada, Seu olhar adquiria lampejos de insaciável madureza.
O rapaz queria responder,
porém uma fortíssima sensação erótica lhe dava um nó na garganta. Era
horrível – percebia inconscientemente – não poder controlar-se, quando
tudo lhe indicava estar em plena rua e talvez à vista de transeuntes. A
visão do quarto de uma donzela, situado nos fundos de sua propria morada
e o convite para uma aproximação, feito em circunstancias inesperadas e
de iniciativa da própria donzela, tudo o punha confuso. Ainda mais,
devia estar assumindo atitude ridícula. Estava pensando nisso a ver se
dissimulava a excitação e encontrava qualquer palavra, quando ponderou
que ainda podia estar sendo visto por seu pai. Dando um pulo de uns três
palmos e mexendo a cabeça num requêbro de quem cabeceia uma bola,
assoviou forte e jogou o corpo para dentro da brecha do muro, caindo do
outro lado, perto da rapariga.
- Mas ora! Não é atôa que
eu pensava aquilo de você! Quando alguém começa a falar sério, você leva
logo pro lado das brincadeiras! Você precisa deixar de ser distraido!
A menina falava e
realmente se zangava com aquêle jeito do rapaz. Todavia, nem a mínima
percepção do estado de Sepélio – sua excitação, seu temor – lhe passava
pela cabeça. Desenhou na boca uma expressão séria, quase rude, puxando
os bordos dos labios para baixo. Seu pensamento voou para certos fatos
espreitados à socapa, em que envolvia Sepelio numa série de
recriminações muito sentidas. Devia tomar coragem e dizer-lhe tudo, o
quanto êle era odioso, agindo daquela maneira. Procurava arquitetar no
cérebro um acontecimento qualquer, por ela presenciado, para ilustrar
aquela admoestação, que começava a perturbá-la.
- Porque você é tão nervoso daquele jeito? perguntou num tom
onde um certo carinho, não infantil, mas de mulher, vinha arrancá-lo
daquêle alheiamento em que se enfiara, depois do pulo. À medida em que
perguntava, trazia o corpinho fino para perto do rapaz, que então se
encostara lateralmente no muro. Em seguida, com as costas na parede,
puxou a perna direita para cima e, dobrando-a no joelho, colocou a base
do pé na superficie do muro, em atitude de quem se reclina de pé.
Sepelio sentiu-lhe a presença coleante e também fez menção
de aproximar-se mais. Com o coração disparando, levantou o braço
esquerdo e pôs o pêso do corpo no cotovelo, fincando no muro bem perto
da cabeça de Gardênia. Sentia um enorme desejo de apalpar qualquer parte
do corpo da menina, porém não sabia como começar. A menina fizera a
pergunta e se pôs em posição de quem espera qualquer palavra para
engatilhar outra. O olhar que endereçava ao rapaz tinha um brilho de
safadeza, que fazia com que êle não a levasse muito a sério, apesar de a
pergunta tê-lo feito estremecer por um segundo, imaginando algo.
- Nervoso. Eu não tenho nada de nervoso! Você acha que eu
sou um sujeito nervoso?, disse, sem qualquer entusiasmo pelo sentido da
frase, com essa voz engastada e irrefletida de quem cochicha em colóquio
amoroso. Seu hálito parece que provocou mais a fisionomia de Gardênia.
“Ora que rapaz esquisito!” – pensava ela, quando começou a
dizer:
- Não, até que não! Você é muito calminho e tem sempre
razão! Eu acho que o seu pai é um monstro, quando quer fazer alguma
coisa com você! A sua mãe então, nem se fala! Eu acho que não está certo
ela fazer aquela história de ir provocar teu pai pra te surrar e depois,
quando seu pai se enfeza, ela fazer tôda aquela cena! Não, benzinho, eu
acho que você e sua mãe deviam agarrar o seu pai e nem sei o que fazer
com êle!...
Sepelio tinha deixado deslizar o braço pelo muro e já ia
enlaçá-la, quando essas ultimas palavras o fizeram recuar meio pálido e
com a mente completamente turva. Gardenia virou-se e, com a língua entre
os lábios, a ponta para fora alguns centímetros, avançou para o rapaz,
encarou-o por alguns instantes, olhando-o nos olhos. Repentinamente,
depois de olhar para tôdas as direções, levou a mão ao rosto de Sepelio,
começou a apertar-lhe a bochecha com fôrça, até unirem-se os cantos da
boca, sob a concha da mão, ao tempo em que dizia:
- Não, bobo, você é que tem razão! Não vá ficar outra vez
nervoso! Meus pais também são bonzinhos, porque se não fossem, fazendo o
que às vezes você faz...não sei! Mas olhe, escute aqui (e apertava ainda
mais a boca de Sepelio, encaixando o corpinho magro no corpo do rapaz):
- eu acho que sua mãe também não tem razão, obrigando você a ir à
Igreja. Ah, você pensa que eu não sei porque você não frequenta mais a
Igreja? Não seja bobo, meu bem. O que você precisava era uma mãe que
fosse uma mulher que te entendesse. É ou não é?, e finalmente tirou a
mão, sorrindo às últimas palavras.
Trazia desenhada da mente um imagem em que Sepelio aparecia
envolvendo-a num abraço que estreitava a cabeça ao corpo com muito afã.
Seus corpos caminhavam paralelos mas distantes, o abraço do rapaz colava
com energia as duas faces, fazendo com que o nariz de Sepelio
preenchesse o espaço de seu rosto, entre o nariz e o malar; sua boca,
por sua vez, se encaixava entre o lábio e o queixo do rapaz, assim, de
uma forma em que algo compensasse algo, os rostos caminhassem unidos e
os corpo não se tocassem.
- Se é uma questão de mulher, você pode servir, mal pôde
dizer Sepelio, sentindo-se invadido por uma onda de amor. Seus olhos
fixaram-se nos lábios grossos da rapariga, onde um leve rubor cobriu por
instante a brancura que causava certa espécie.
- Você quer ser minha mulher e me entender, meu bem?,
continuou, descolando com dificuldade as palavras do pensamento,
excitadíssimo. – Eu já pensei, muitas noites, em estar com você,
sozinhos, lá na água-furtada, onde ninguém nos amolaria... Você
gostaria? perguntou, mais seguro, ao passo em que lhe acariciava o
queixo.
- Ora, deixe de ser atrevido! Então você pensa que eu sou
dessa laia? explodiu a menina , de repente, à medida em que pôde
recuperar o senso. Por um segundo esteve pálida, quase branca, o chão
pareceu-lhe arrancar-se como um elevador descontrolado, e esteve à raia
do desmaio. Sepelio, visivelmente tomado de surpresa, afastou-se um
passo, com a cabeça turbilhadona. O primeiro movimento conciente a
empreender foi o olhar por tôda a extensão da rua, com um medo de ver
alguém, que se transformava em pavor ao perceber o pai de Gardênia bater
o portãozinho e caminhar em sua direção.
A menina trazia um coração aos galopes, como um animal
bravio que disparasse à toda em busca da acariciante crina desaparecida.
Suas feições adquiriam, a muito custo, uma tranquilidade remoida, que
transformava a menina numa dama de alta linhagem: em seguida, uniu as
mãos à altura da cintura, levantou a cabeça, fez um leve bico com a
boca, esperando a chegada do pai. Oh, como vinha em má hora, pensava,
quando aquêle homem anguloso, de cabelo muito untado, sem nenhuma linha
de corte, trajando um terno excessivamente justo, cujo paletó se abria
atrás, numa aba que se abanava sempre, se aproximou:
- Papai, tenho a oportunidade de apresentar-lhe o Sepelio,
nosso vizinho, que você tão bem conhece de vista, disse a menina com
afetação.
A timidez de Sepelio aumentava com o tom de frivolidade com
que Gardenia se postava.
- Ah, muito boa tarde, senhor Sepelio. Sabe que é um grande
prazer poder tratar com um vizinho distinto nesta terra abençoada de
gente desunida? Ahn-hã-Ahn-hã, quanto me custa acreditar que dois
vizinhos um dia se encontrassem e pudessem trocar duas palavrinhas dois
minutinhos, em São Paulo! Ahn-hã-Ahn-hã, tenho ou não razão, meu novo
amigo? Perguntou, quando ilustrava as três últimas palavras segurando as
duas mãos desjeitosas de Sepelio e guardando-as na altura do colo, com
certa elegância.
- Ah, é mesmo,
muito prazer!, o costume aqui nosso... Aqui ainda nós temos vizinhos
muito dados -, começou a dizer; e voltando-se para Gardênia: - Mas não
notou ainda em outros bairros como êles não se conhecem, anos e anos? –
e sorriu, afim de cobrir com o sorriso a falta de pronome, que não sabia
qual escolher para a menina.
- Não,
respondeu esta em tom admirativo. Mas também não temos saído geralmente,
não papai?
Crescia com o mal
estar do rapaz a cerimônia da menina para com o pai o que lhe dava
aspecto de grande rudeza precipitada, resentida pela surpresa do
encontro.
O nosso homem
passava por cima da filha e durante tôdo o encontro, se chegou a
dirigir-lhe a vista por uma só vez, foi muito. Teve, por tôdo o tempo,
os olhos presos à fisionomia de Sepelio, tragando-lhe, uma a uma, as
atitudes. Dir-se-ia que almejava ansiosamente “saídas” de classe daquêle
sêr diminuido pelas circunstâncias e que a desatanção ( não era
desprêzo) que devotava à filha tinha uma raiz em qualquer observação
anterior que fizera do casal.
- Mas veja senhor Sepelio
(ora: vou chamá-lo Sepelio se me permite), que também não “se há” prazer
em sair, quando não se pode falar com ninguém, disse, tomando a última
fala como se dita por Sepelio, ao passo que lhe largava as mãos.
- A não ser quando é para
levarmos mamãe a algum cinema ou teatro, não? E por falar na mamãe, como
está ela, está passando bem? perguntou estapafurdiamente a menina, a
Jeronimo.
Gardênia mirava o pai muito
crescida em anos: a dureza de seus olhos ultrapassavam o rancor de uma
mulher rigida. Contudo, mentalmente, pedia-se perdão por olhar com
desconsideração a seu pai, mas aquilo tudo era trazido por um fenômeno
que a transformava numa moça, sedenta de amor e de prazer e que era
interrompida desastradamente. A figura de Jeronimo, enquanto pai, perdia
em autoridade, enquanto ganhava em inoportuno, em antipático.
- Ora, mas você é um
rapaz diferente, um rapaz distinto e elegante, mas, o que adianta?, não
pode suprir a idade! Ahn-hã-Ahn-hã, no fundo é ainda uma bela criança, e
isso é perigoso, disse, e seus olhos se abriram enormemente, dando maior
realce ao cabelo emplastrado. – Mas é inteligente, muito elegante e
inteligente, disse com estranho vagar. Sùbitamente, alongou o pescoço, e
o pomo-de-adão subiu e desceu numa ondulação cômica e familiar.
- Não, é muita bondade do
senhor, ia dizendo Sepelio, quando Jerônimo, abanado a cabeça – (num
determinado perfil, Sepelio se apercebeu do perigo, do iminente perigo!,
se aquêle homem tivesse visto – e se tivesse visto?!!!) – e percorrendo
os cortiços, falou atropeladamente:
- Não: você tem no
que gastar seu tempo, mas nunca poderia ter notado certas coisas que só
o tempo traz. Mas... não quero dizer que o tempo não lhe seja precioso;
não, não é isso...Sabemos que você trabalhar em alguma coisa, não é
mesmo, Gardenia?
A menina
enrusbesceu e Sepelio se melindrou com certa mágua.
- Sabemos que você
é nobre, e o quanto me deu prazer...
-
Papai...
-
...conhecê-lo.
Essa menina
precisaria de uns tabefes para deixar de ser egoista. E será que eu
teria visto mal? E seria um mal?...
- Ah, mas nada
adianta, nada adianta, se não se comunicam as pessoas. Olhe: (e assumia
um ar de mistério a espreitar os cortiços) – só êsse negros é que se
conversam!
Sepelio quase se
aventurou a dizer que aquilo não era conversa, que era só briga,
pancadaria e desavença. Mas como podiam batucar tão bem? E no batuque os
ressentimentos não desapareciam? Era possivel criança de três e quatro
anos avançar pela madrugada tôda, comendo pedra com terra e aguentando
naquelas perninhas bambas a visão do espetáculo? Não, essa gente não era
conversa. Espiava o decote e o colo magro e a boca mordível de Gardênia.
- Ah, há, há,
começou a rir fanhoso e baixo, Jeronimo. Êsses malditos... Ah, Deus me
perdoi...Eu quase diria “êsses malditos”, mas o caso é que não têm
culpa, mas olhe: sómente êsses negros têm uma vida de relação nesta
terra! Ha!, mas isso está no sangue! Reparou como está no sangue? Mas é
uma linguagem degenerada, que êles não podem evitar, senão acontece uma
hemorragia!
Enquanto
falava, Jeronimo dava um balanço giratório com a cabeça,
continuadamente, percorrendo com avidez o bando do casario sórdido que
se engalfinha por tôda extensão da rua. Gardênia se distanciara uns
passos e descascava com a unha o reboque do muro, no lugar onde Sepelio
quase a enlaçara, quando seu pai surgira. Aumentava-lhe dentro do peito
um prazer medroso ao dar asas à imaginação, ao passo em que suas
unhadas, de leve, chegavam a transformar-se em carinho, raspando o muro,
ruóc, ruóc, e produzindo-lhe outros arrepios.
Jeronimo agarrava o rapaz atônito, cuja fisionomia sem rigor, apanhada
de surpresa, os olhos claudicantes, a boca aberta se ovalando, produzia
na menina uma fuga de virilidade, um prazer esvoaçante, que lhe tirava a
consistência das pernas. Aos poucos, também ela se sentia fraquejar, e
medrava-lhe no espírito insatisfeito um comêço de temor pelo pai. A
figura enlevante do meninote se diluia numa criança indefesa, e isso lhe
dava um mal-estar de cadeira de balanço abandonada de súbito por algum
velho achaqueado.
- Ah, calcule
uma hemorragia saindo das frestas do corpo dessa gente!, dizia Jeronimo,
empolgando-se. – Que espetáculo, como essas crianças fedidas-
pobrezinhas – lamberiam o sangue dos vizinhos! Ah... Maravilha de São
Paulo... Venha, venha você e traga seu pai qualquer noite dessas, para
jogar um baralho em casa. Vi logo que você era aquilo que eu pensava.
Menina (êsse “menina” infundiu em Sepelio um grave terror, do qual êle
jamais se esqueceu, sem nunca explicar a causa), não deixe de convidar o
nosso belo moço para jogar em casa.
- Está bem,
seu... Qualquer noite dessas eu vou, qualquer primeira oportunidade...
Muito obrigado.
Jeronimo
ainda lhe deu dois apertos de mão, um abraço, logo em seguida outro
apêrto de mão, quando então segurou a do rapaz enquanto olhava a filha
absortamente:
- Então vá para
casa, que acho que sua mãe não está muito bôa. Anda com os nervos
abalados. Mas é enxaquêca, não passa de enxaquêca; vá logo.
A menina chegou a
comover-se intimamente por um segundo e esqueceu-se de Sepelio. Êste,
durante tôdos êsse ultimos instantes, enfiara as mãos nos bolsos,
abstraindo-se por completo. Seu único pensamento podia resumir-se numa
espécie de promessa que fazia a si mesmo: parece que daquela hora em
diante, tinha certeza!, teria coragem de encarar o pai com energia e
conversar com êle naquêles mesmos têrmos. “Ora, meu pai, deixe essa vida
esquisita, pense bem, meu pai, abandone êsse negocio sem futuro, vá
trabalhar comigo, meu pai”... Oh, tristeza infinita, como sentia um
sofrimento estranho, que parecia derreter-lhe o sêr, ao cair na
realidade, da qual êle mal podia entender o aspecto exterior! Porque não
podia realizar nada do que planeja?
- Eh, bobo! Não vá
ficar com essa cara, que prefiro ir com o pai... Ah, meu pai é muito...
Ia dizer “bom” e
parece que não acreditava no que ia dizer. Em nenhum momento, todavia,
teve um leve estremeção de remorso ou mal-estar. Tôdo seu ser vibrava
por um ataque em bruto do rapaz, na delicia de ser amassada. De repente,
perpassou-lhe o corpo um endurecimento de proteção, que se manifestou no
rosto, incontinentimente sensual. A menina mordia os labios grossos e
brancos e seu olhar se transformava numa chama viva.
- Oh, meu
Deus, eu te protejo, venha, não tenha medo, aqui estamos seguros! -, e
Sepelio lançou-se ao pescoço da menina, apertando-a intempestivamente. –
Não tenha medo, não tenha medo, não tenha medo, dizia, mordendo-lhe o
cabelo, ao tempo em que suas mãos lhe desbravavam as costas, onde êle
pôde sentir os tórulos da espinha. Seu rosto, por cima do ombro de
Gardenia, estava livido e tremiam-se as fissuras dos labios, enquanto os
olhos pareciam vagar naquela região interior, onde se procura a
reflexão.
- Medo
de que? Medo de que?, dizia-lhe Gardenia, baixinho, ao ouvido. O que é
isso, meu bem?
As ultimas
palavras ainda aumentaram mais o embaraço do rapaz: o final da frase,
carinhosa, soava a Sepelio como o maior testemunho da segurança da
menina. Percebeu que devia estar grotesco, mas imediatamente se afastou,
repelindo-a sem lhe tirar as mãos dos ombros. Queria desviar-se de seus
reais sentimentos.
-Não podemos! Não
podemos nem pensar...em...nos amar! Você me perdôa... Eu queria... eu
daria a vida para continuar...assim. Mas você viu bem que o seu pai
percebeu tudo... Eu notei que o seu pai está tramando alguma coisa
contra você!
E enquanto
falava, descia as mãos pelos braços de Gardênia, não se aventurando a
qualquer outro movimento. Percebia a superioridade da menina.
Recordava-se, momentaneamente, da fortaleza da filha ao encarar o pai.
Parecia-lhe a espôsa do pai.
- Bobinho,
disse por fim Gardênia.
Houve quase
meio minuto de silencio, ao fim do qual a menina disse, tirando as mãos
de Sepelio de seus braços:
- Bobo!
A palavra, de
diminutivo para o normal, aumentava-lhe a airosidade. Envolvia-os um
vento frio, entremeado de uma garôa rala e intermitente.
- Você viu...Eu
queria...Eu tenho pensado muito em você..., insistia o rapaz, não
sabendo bem porque nem o que fazer dos braços, se os cruzava, se enfiava
as mãos nos bolsos. Era terrivel provar a sensação de dois membros
recém-nascidos.
- Tolinho,
disse a menina. E em seguida: - Tolo!
Aquêle alternar de
graus num sinônimo adulto também era uma mudança no rosto de Gardênia,
que, de minuto a minuto, crescia em presença de Sepelio. No intimo,
Gardenia ansiava, numa calidez que lhe aumentava o porte, por um abraço
e talvez um beijo de Sepelio. Se êle não estivesse tão transtornado, ela
se lançaria ao pescoço do rapaz e lhe beijaria a boca, nem que tôda
vizinhança estivesse espreitando-os.
De
repente, Sepelio puxou-a pela cabeça e pôs-lhe um beijo no rosto, do
lado esquerdo.
- Que é...?,
disse a menina, que se sentiu de novo numa sensação de leveza. Sua boca
parecia mastigar algo, sem abrir-se. Sepelio lhe segurou a mão direita,
afastando-se e com outra lhe apertava o cotovelo, subindo, de quando em
quando, pelo braço até a altura do ombro. Essa situação durou um certo
tempo, durante o qual a menina avançava a cabeça, fazendo recuar a de
Sepelio. Quando êste concentrava as fôrças, que pareciam sempre as
últimas, e avançava para o rosto de gardênia, esta recuava, com os olhos
exorbitados, a boca de mastigar algo e a mão apertando a de Sepelio.
Três ou quatro movimentos dessa natureza extenuaram tôdo o contrôle de
Sepelio, que não soube, por toda aquela noite, distinguir a
voluntariedade daquêles dois pêndulos de uma provável tontura que tivera
pelas emoções.
-
Gardênia! Gardênia! Chamou então uma voz, do lado do casario, e repetia:
Gardênia! Gardênia!, enquanto a menina se recompunha e dizia,
escorregando-se viscosamente de Sepelio:
- Eu
não volto.
Deu uma
corridinha e tornou a dizer:
- Eu
não volto, numa inflexão apática.
Foi uma noite
de insônia para ambos, mas o rapaz, estremunhado, distilando o silêncio
que escoava do outro lado da parede, imaginava Gardênia dormindo,
estirada, com uma perna quase fora da cama, e isso lhe afugentou o resto
do sono.
.....................................
Agora, no
corredor, ao terminar essa evocação que lhe infundira n’alma um misto de
exaustiva curiosidade e de um tédio que na certa traria a lembrança de
outras situações consequentes e mais tristes, Sepelio mal podia
manter-se de pé. Coisa deveras estranha: de uns tempos pra cá, estivesse
êle com a maior disposição de ânimo possivel bastava para derreá-lo a
lembrança de um so fato de seu passado recente e, pronto, num zás,
mergulhava-se no mais profundo mal humor. E tanto mais o nosso rapaz se
dava conta dêsse sintoma perigoso, mais açulava-lhe a alma irrequieta a
lembrança dos fatos seguintes. Êle não compreendia porque, à medida em
que procurava repelir o passado, mais se desmilinguia pelos labirintos
cinzentos da memória, como se seu corpo exausto corresse por um túnel
cujo chão se deslocasse em sentido contrário, e soubesse em seu percalço
um horrível trem repleto de seus conhecidos...Ah, seria triste ser morto
perto de “sua gente”, aquêle mundo de pessoas que lhe causam a morte
lentamente. Sepelio tinha, a miúdo, dessas associações de morte por
esmagamento em túnel hermético, de orifício inacessivel, como um adeus
claro que se perde em forma de alma branca. Depois era o choque, a
mistura de gritos, conversas distraidas que se interrompiam e se
encrustavam em janelas de madeira, que caiam a seus pés, trazendo meio
corpo de mulher que lhe falaria algo antes de expirar (e era sempre uma
menina – moça sensual na janela morrendo antes de ser possuida, para
cuja direção êle corria desafogadamente, afim de ouvir, no ouvido, num
ultimo alento a fala – santíssima? diabólica? – de uma mulher que morre
sem ser maculada, impressionada). Em seguida, não sabia se possuia a
menina – moça sensual, que depois de morta não tinha mais nenhuma
aparência, ou se lhe chorava morte: o que era chorar por algo que não
tem mais nenhuma aparência. Oh, seu Deus, fôra êsse sentimento que
tivera, quando seu olhar entorpecido tropeçara pelos porinhos de cera do
rosto de Gardênia, no caixão. Aquela menina fôra triste, oh seu Deus,
êle tambem era triste; aquela menina conseguiu não se parecer com nada,
quando esticada no caixao de madeira violentamente conspurcada por dois
mosquitos, zzznnn, um em cima do outro, como êle notara, como êle
notara. E êle se transformara em nada, depois de sua morte. Nada o
ajudava na vida a se reerguer. Já nascera vergado? Não podia ser
possivel. Mas a alegria que Gardênia lhe proporcionara fôra arrancada
como marionette (sempre como marionette) por Jerônimo, o maldito
Jerônimo. Seria mesmo cruel êsse homem, ou era êle o “marcado” pela
sorte, para ser um eterno joguete de sua propria incompreensão? Não lhe
pareceu ser tão bom, amigável, aquêle primeiro dia? Ora, menino
incompreensivel, então não percebera logo que era um indivíduo sinistro?
Como podia alguem ter duas caras, assim, como Jerônimo? Mas, será que
nunca se enganara? Tem até vergonha em pensar que fôra um animal (sim,
um animal) apavorado nas mãos daquela fera risonha. Chegara a chorar na
frente de Jerônimo? se desesperar? – como fizera agora, na frente de
Felônio?
Sepelio foi até o fim do corredor, olhou pra trás, abriu a
portinhola do encanamento do lixo e pendeu a cabeça, divagando. Na outra
ala de andar ouvia-se, espaçadamente, um e outro farfalhar de saias e
passos duros, metálicos, em grupo, castigarem o chão para se
interromperem de repente, de fronte de alguma porta. Duas ou três vezes
nêsses minutos tais sinais chegaram, anêmicos, até o ascensorista,
conduzidos parece que pela apenas réstia de claridade opaca que dobrava
do corredor. Sepelio sentiu-se invadido por um prolongado arrepio; a
temperatura descera considerávelmente em plena manhã (já seria hora do
almoço? Manhãzinha ainda? Quanto tempo fazia que se desesperara diante
de Felônio, aquêle outro patife?), tomando até o interior do prédio. O
ascensorista quis espiar o tempo la fora, pôs as mãos no pescoço e subiu
a pequena escadinha que conduzia ao terraço. Fora, a cidade
rorejava.
Em sua cabeça, o trânsito era mais complicado,
entrecruzavam-se passado e presente, figuras mortas e figuras que
nasciam daquêle temor nítido, uma visão acrimoniosa do futuro, e quase
insuportável. Não. Decididamente, mais ou menos, agora duvidosamente,
enfim desastrosamente, sempre fôra um medroso. Deixar uma menina tomar a
iniciativa, uma simples menina, que também sofria como êle, iniciar uma
atitude amorosa, e em seguida lançar-se ao pescoço da menina (ou era uma
mulher?), como se fôsse uma criança apavorada! Jamais podia desculpar-se
de tamanha vergonha! Mas também Gardênia aparentava ser a mulher de
Jerônimo, nunca vira filha nenhuma suportar certas conversas com o pai,
com aquela severidade muda, silenciosa como uma mulher arrogante,
aquelas mãos unidas atrás, pôse de alguêm que só deve zombar da fraqueza
de meio mundo! Não, Gardênia nunca; Gardênia fora uma coitadinha, como
deve ter morrido!, uma infeliz sofredora, e entretanto corajosa. Mas,
fôsse hoje, tem quase certeza de que também êle saberia tomar qualquer
atitude enérgica. Até há um ano atrás, era um simples adolescente,
pensa, que não experimentara nenhum destemor porque jamais provara
qualquer espécie de malicia. Fosse hoje, repetisse hoje aquela cena,
veriam como êle saberia impor-se virilmente. Sente que atualmente esta
mais corajoso, enérgico: às vezes tem até certas audácias porque estava
ficando meio imoral, não liga mais para as coisas...apesar de ser um
sujeito bom, que sente imensa felicidade, uma verdadeira exultação, ao
perceber tôdo mundo admirar-lhe, enigmável, a grande generosidade.
Recompõe a coragem que tivera ao “chamar o pai a si”, ante-ontem:
LOGO DE MANHÃ ISMAEL PULOU DA CAMA COM AZÁFAMA. Esticou os
braços e aproveitou no espreguiçamento a enfiada da camiseta, assobiou o
refrão de um bolero em voga, acompanhando-se com um trinado que
sincopava o solo na tomada do fôlego, enquanto se calçava. Em dois
minutos, já completamente trajado, adentrou o quarto de Sepelio, com
certo enliço no gesto e no olhar e, sem deixar de assobiar o bolero,
sentou-se na cama do filho pela primeira vez em três anos. Antonia, a
mulher, ao colher pelo fio do corredor a figura do marido sentado em
cima do rapaz (não estaria machucando o filho, tão magro?), sentiu-se
tomada de tal surprêsa e tão viva, que não pôde deixar de cantarolar o
mesmo bolero afim de abafar o barulho de seu coração desatinado, que
parecia denunciar-lhe a presença. Estava tão alegre e quase
derretendo-se de curiosidade ao tempo em que Ismael acordava o rapaz,
dizendo-lhe:
- Ande, acorde, Sepelio, acorde! Hoje você vai ver uma
grande coisa. Ande, meu filho, levante-se, que eu quero que você veja,
faço questão que você veja.
- Aaaiii, pai, você está sentado em cima de mim, dizia o
rapazola, ainda adormecido.
Ismael, animado por uma euforia que lhe embaciava os olhos,
misturava na fisionomia um ar de distração à ternura que parecia
concentrar sôbre o filho. Antonia mal podia reprimir a alegria de ver o
marido com tamanha disposição, chegando até a sentar-se em cima de
Sepelio.
- Ande, acorde, Sepelio! Vai ver como hoje decido a nossa
situação!
O rapaz pulou sobressaltado e compôs-se num abrir de olhos,
sentando-se no meio da cama. Tinha as costas doloridas, o ar encabulado
e o olhar parecia buscar na mãe, dentro da cozinha, o sentido daquêle
despertar oarístico. O pai, a despeito de tôda gesticulação festiva, não
conseguia desempanar daquêle rosto quadrado e costumeiramente remansoso
o ar de certo acanhamento.
- Vou lá hoje, na Secretaria, agora de manhã. Venha aqui,
Antonia, sente-se aqui. E você, meu filho, hoje não vai trabalhar. Hoje
é um dia marcado, é o nosso dia. Talvez você não precise mais trabalhar,
não é só hoje.
Filho e mãe
entreolharam-se com a mesma cena na cabeça: uma sala oval, mesa ovalada,
um homem pregado na janela, o rosto quadrado, o olhar distante, estanque
que só se desprende para dormir.
Ismael passou-lhes
os braços às costas, os três numa pôse indefinível, que logo os
cansaria.
- Eu sei que tenho um filho inteligente... Um dia você perdôa seu pai,
meu filho. Você não vai continuar os estudos? ... e ser grande,
filho?..., perguntava quase em tom de resposta, os olhos si fixando no
colo da mulher, sem nenhuma emoção.
Antonia, sem
compreender quase nada da situação, deixou rolar três lágrimas que
vieram molhar a mão do filho, que brotava de seu colo, andrógenamente.
Estavam unidos apertadamente, sem jeito, pelos braços de Ismael e pelos
proprios, desacostumados a êsse gesto.
- Ora, mulher,
deixe de ser bôba, deixe de chorar à-tôa, disse Ismael com rispidez, mas
forçando um sorriso e desenlaçando-os afoitamente.
- Não é à-tôa,
Ismael... É que faz tanto tempo que não vejo... vocês ´ es podiam
ser assim...unidos...a vida tôda ´ a que estamos assim, disse
Antonia com um suspiro intercalado, que aproveitava o final de cada
frase para o início de outra.
- Deixe de ser
besta, mulher! Porisso é que você vive com essa cara de mulher
martirizada, dando o que falar a êsses vizinhos filhos da... trouxas!,
disse Ismael numa voz que começou enérgica e desafogou num cansaço a
partir de “vizinhos”.
- Precisa ser
dura; se sofresse como êsse coitado do Jeronimo, patife!...
Percebeu que a
frase foi de uma necessidade falsa. Por fim começou a abrir um sorriso.
Sua feição, quadrada, se desantipatizou ovalando-se, os olhos tornaram a
fixar-se no colo da mulher. Estava cismador, quando engrolava:
- Coitado do
Jerônimo... Perder uma filha! E que filha! Filha?!...
Deu um cotucão em
Sepelio com o cotovelo. O rapaz sentiu uma pedra de gêlo lambuzar-lhe a
alma, teve impeto de desembargar o grito de indignação que o sufocava.
- Filha nem era
filha! emendou Ismael, percebendo o olhar lamurioso do filho: já era
uma verdadeira mulher.
Entretanto, estava
inocente nêsse perticular. Ademais, caso contrário, seu filho era um seu
prolongamento, sempre uma surprêsa, uma boa surprêsa, pensava, encarando
o filho com orgulho. Era extraordinária a candura de seu sorriso. Os
olhos por um fio não se cerraram.
- Nâo é Ismael...é que
essa vida desregrada que você leva e nos proporciona..., começou a
choramingar a mulher, aproveitando gososamente a quase beatitude do
marido. – É um dia bom, alegre, trabalha firme, no outro dia o martírio,
larga tudo, você é mal, essa vida cheia de alegria e tristeza acaba com
a saúde da gente, é vida pra desgraçados!...
A palavra “saúde”
começara a invocar em Ismael um olhar pelo corpo da mulher e
instintivamente recamou os olhos do marido de um namôro marron, algo
prestes a lhe dar um prazer e uma dor, sobrancelhas marrons se
plissando.
- Ou a gente vive
sempre feliz ou sempre infeliz! Essa vida desgraçada de um dia rir, no
outro dia chorar não é pra gente! Até negro mais fedido tem sua
felicidade!, disse algo antipática.
Ismael estava
sentado na cama, erecto, parece que engessado no ar. A luminosidade do
corredor formava um enorme vitral, deitado, onde o gato se cortava.
Antonia estava lívida, os olhos sensuais, a boca se chupando a si mesma,
contínua, o lábio inferior entrando e saindo. Sepelio, que se furtara
para o corredor, apoiados os cotovelos em cima de uma bacia, percorria o
olhar num e noutro, ora amando o pai, ora detestando a mãe, como num
santuário. De repente, Antonia, sentiu-se só, pôs-se a chorar como uma
criança e de novo sua figura alçou-se àquêle estado de mulher acabada,
que não se envergonha de chorar por _________
- Eu não tenho mais ânimo
nem pra me controlar! Shih! Até a beleza eu perdi! Shih! E ultimamente,
posso até me enfeitar para iludir esses pobres bobos... Ah, quem me viu
há vinte anos, você tem culpa disso! – estou andando na rua, me vem uma
tristeza tão forte, que preciso me encostar no canto de uma vitrine pra
tomar ar... Shih – Shih! Começo a chorar na frente de tôdo mundo!
Anteontem me aconteceu isso, eu estava com aquêle vestido lilaz,
apertado, mas andando, precisei parar e de repente... quase engasguei de
soluço, mas não sei se chorava! Era na “Triunfal”, sei que começava a
apertar tanto a mão e depois o braço de uma balconista, shih, a
coitadinha me olhava com espanto, mas não ousava arrancar o braço porque
o gerente estava olhando! – “minha senhora me permite, está sentindo-se
mal, não se acanhe, venha tomar um copo d´água comigo”, e o moço (muito
bem vestido) saiu comigo da casa, pôs o braço muito delicadamente no meu
ombro... era um senhor, casado, magro, uma distinção, muito bonito...
Precisava ver que delicadeza...
O olhar de Ismael
súbitamente pareceu chuchar a pausa, seu queixo se tornou quadrado de
novo. “Que fingida!” – seu espírito parecia gerar. Mas fingida de que
espécie? de doença? ou de que mais? –perguntava-lhe a alma, parecendo
criar e dar-lhe vida. Começou a tremelicar a perna, na ponta do pé.
- Entramos no bar
da “Casa dos Dois”, êle pediu-me um chá e disse sorrindo que acalmava!
Não sei quanto a gente deve a um sêr dêsses... mas ainda coro, tenho
vontade de sumir...quando penso...que vergonha lhe dei...shih...
O chôro, interrompido
pelo olôr da reminiscência, tornava a assumbrar e a ganhar corpo.
- Perdi a classe por sua
causa, disse agora com dureza, encarando Ismael. – Foi falta de classe,
foi falta de classe!, e batia as costas de uma na palma de outra mão. –
O homem me serviu o chá na boca, tinha o ar de médico, que paciência!,
na frente de tôdo mundo. Depois sorriu e desembrulhou um jornal e
começou a ler, e sorria de vez em quando, mas estava lendo para não me
desconsertar ou...sei lá! Mulher que sofre um dia, no outro se alegra,
volta a ser uma criança estúpida! Essas miseráveis que sofrem sem pausa,
pelo menos têm uma dignidade e uma pôse!... desastrosa, comecei a chorar
de novo, na frente de tôda gente – mas eu notava a pena que causava ao
homem: êle não tirava os olhos do meu corpo, do meu busto e da cintura,
acho que estava pensando como o sofrimento estraga a beleza...uma hora,
notei até que olhava com raiva! Levei a mão no jornal, arranquei a
ultima página, um pedaço, pûs no rosto e solucei! Shih! O que será que
não pensaram todos! Shih! O homem se levantou, olhou de lado,
espantado... e nem sei se falou alguma coisa... me abandonou no meio de
tôdo mundo! Shih!
Antonia chupava o
nariz e apertou a testa com o polegar e indicador. Parecia uma
verdadeira criança, de loquacidade apimentada, os olhos ganharam o
brilho de rapariga afogueada, impaciente. A boca não se cansava de
chupar-se, o lábio inferior a entrar e sair. Ismael batia com a sola no
assoalho, cadenciosamente, sem divagar. Sua expressão era a mescla do
nôjo e de certo remorso. Sepelio sentiu-se mal e ao mesmo tempo
penalizado com um sorriso de ironia defensiva de certa dor que aflorou
aos lábios do pai. Sem compreender, olhou para a mãe e também sentiu uma
cândida, clara repulsa. Quanto a Ismael, não sabia se devia amá-lo ou
detestá-lo. Sabia que devia detestar-se a si próprio e mordeu os lábios,
dorido e sem ação.
Querendo
tolher o gesto no ar, mas sem o conseguir, Ismael deu uma palmada nas
cadeiras da mulher, dizendo:
- Ora, mulher, você
ainda tem seus atrativos! Está se queixando à toa! Bah, a pobre não é
você!, e uma fulguração levou-lhe aos olhos algo daquela ironia
enigmática, que o punha simpático e ao mesmo tempo rancoroso, como um
justiceiro.
- Você é ainda
apetitosa, disse, mas imediatamente voltou-se para Sepelio. Sentia-se
que o escape lhe fora penoso. – Êsse aí está triste, mas vai se alegrar
muito. Venha aqui, filho, - e havia um carinho assimilado na voz do pai,
filho pródigo.
Sepelio se
aproximou em Antonia, correndo, foi recebê-lo no meio do caminho;
abraçava-o com fôrça, calorosamente.
- Bah! Não vão
precisar mais se abraçar, deixem disso, hão de ter do melhor, tudo!,
exprimiu-se mal Ismael. – Vou agora mesmo lá na Secretaria, vocês vão
ver como trago o contrato! Explico ao Secretário como se há de fazer a
coisa... E êle já me conhece! A Secretaria precisa do serviço, mas não
encontra um empreiteiro que tenha jeito... como eu... pra lidar com
matogrossense. Precisa muita malícia, mulher! O matogrossense é índio
disfarçado... E vá falando com o índio (aquêles que habitam a região das
“obras”): Só quem tem muita experiência da vida percebe que o tal é
matogrossense da cidade. Ficou sério e percebeu que soltou na frase um
grosso rôlo de hipocrisia, que devia ter sufocado o filho. Mas arranjou
logo justificação:
- Destituo o
Parra e trago o contrato já, num minuto. Aquele é um imoral, o
Secretario deve me preferir. Eu... é porque... Basta explicar ao
Secretario que agora estou decidido, que o Parra é um imoral, tem medo
de lidar com aquêle povo (explico que ele não é doente), que abandona as
obras e desce o rio Paraná: lá em Guaíra o mulheril é farto: as
paraguaias!
Repentinamente cortou a frase e pulou para o corredor. Deu uma espiadela
no espêlho e arrancou a porta atrás de si, distraído, saindo com
desplante. Mãe e filho aguardaram a volta, que durou duas horas, com o
coração aos pulos. Pelas dez horas perceberam Ismael entrar, mas sem
lepidez; mastigava os maxilares quadrados e soltava, espaçadamente, um
suspiro que terminava em assobio de vendaval. Súbito frio tomou-lhes o
coração, ao perceberem o olhar de Ismael caminhar, modorrento, entre os
objetos da sala, nem procurando encará-los. Céus, estaria muito ou
levemente embriagado? O homem deixou-se cair pesadamente numa cadeira,
mas quase em seguida se empertigou; tinha no rosto, principalmente na
boca, uma cerimônia flutuante, como se estivesse contracenando com
alguém dentro de si mesmo. Parecia um estranho se estranhando.
- Quando digo
que vocês não têm experiência das coisas...
Deu uma
espalmada na mesa.
- ...
digo somente para vocês levarem sua vida... – plant - ... e me deixarem
levar a minha.
Homem
indecente, 1estava quase a dizer a mulher.
- Bah, mulher, essa
cara não me intimida. Você pode guardar sua ironia para outras
situações. Meu filho, vá buscar um copo d’água.
Sepelio saiu
para o corredor, enraivecido, de cabeça pensa.
- Traga com
açucar! E pa-ra vo-cê começou a dizer espaçado à mulher, só lhe imploro
que me deixe continuar... como sempre fui. Não, não não: agora seu
marido está falando sério. Ou eu não tenho o direito de pedir
isso?...que é simples: vocês continuem com a sua vida, e deixem-me
continuar na minha! Você tem tudo o que uma mulher precisa; até o
direito de levar a vida que bem entender.
Antonia
estava tão colérica que não conseguia rebentar o chôro. Ao terminar a
frase, Ismael puxou os olhos adormecidos do cinzeiro e colocou-os nos
da mulher. O sentido inconciente da frase surtiu o efeito de uma ducha
fria. Tirou a lingua para fora e molhou a boca inteira.
Na
cozinha, Sepelio enchia o copo de água apertando-o frenèticamente, a ver
se o estilhaçava. Não o conseguindo, cuspiu-lhe dentro com acinte, e
começou a caminhar para a sala. Do corredor, olhou para o pai e para a
mãe; vendo-os conversar de longe, o pai numa animação forçada, a mãe de
pernas cruzadas elegantemente (como podia?),começou a beber a água num
rictus enojado, mas meio se purificando. Tornou a enchar o copo, com
lágrimas de um doridíssimo arrependimento nos olhos. Quando chegou à
sala, o pai parecia outro.
- Um dia,
quando puder compreender, você dará toda a razão a seu marido. E então
você se perdoará, pensando que está me perdoando. Por enquanto... vá
engulindo essa vida como pode...
E parecia
começar a embriagar-se de novo.
- Acabe logo com
isso. Não acho graça em suas palavras. E tome cuidado com o que diz,
homem, disse Antonia num tom enérgico mas calmo e delicioso. – Afinal,
não sei o que você quer dizer e nem compreendo esta falta de sentido...
de sua vida! Você para mim perdeu o sentido, não tem mais nenhum
sentido na vida! Você me obriga... eu não gosto de chegar a isto... Mas
isso que você ultimamente leva não é vida, é...masturbação...oh, meu
Deus!...
Deu um pulo e
alçou-se para a janela, parecendo um pano cinzento estirado pelo vento.
Foi de lá que disse, de costas, com o sêr inteiro a tremer e
amaldiçoando-se:
- É isso de
tudo, tudo! De sentimento, de indiferença, de amor!
Seus quadris
balançavam-se, ora apoiados numa, ora noutra perna. Ismael espoucou uma
gargalhada abafada, escarninha, que terminou em tosse. De novo
assomou-lhe ao rosto aquêle sorriso de ironia, que no fundo nada mais
era sinão a manifestação satisfeita de um espírito auto- suficiente em
matéria de compreensão humana. Parecia que êsse homem na vida se
resignava tão só a amar êsse dom de atinar com tudo.
De repente,
Antonia virou-se e caminhou uns passos em sua direção.
- Não me obrigue a
odiá-lo!, disse com tresloucada violência. Eu nem exijo nada! Você bem
sabe que eu nada, nada, nada (cada palavra repetida era uma fisionomia
diversa), nada mais exijo naquêle sentido!
O “sentido”, Ismael
o compreendeu e não pôde deixar de agradecer-se com novo sorrido
irônico. O máximo que a mulher pôde fazer diante de tal fato foi
atirar-se ao colo do marido com afã, ficando ajoelhada e abraçando suas
pernas, ao tempo em que suas unhas quase lhe dilaceravam as calças, só
não o fazendo porque logo começou a afrouxar-se, afundando a cabeça mais
e mais, até as virilhas. Dêsse lugar, pronunciaram-se espaçados
balbúcios, entre os quais se pôde distinguir algo como: - eu só quero,
ou imploro, que você me tenha aprêço, que você nunca deixe de me ter
aprêço, que você nunca deixe de me ter aprêço...
Sepelio, que um dia
também “espreitara” o sentido daquelas palavras, arremessou o copo com
água e pires ao chão. O açucareiro saltou-lhe das mãos e, dando duas
cambalhotas no ar, esparramou o açúcar sôbre a cabeleira negra da mãe,
que ficou totalmente pulverizada. Em seguida, o rapaz correu para o
canto da sala e se acocorou, chorando. Ismael tinha a voz embargada pela
emoção, quando dizia, sem tocar na mulher, os braços pendidos:
- Vá dormir,
meu filho... A noite é mais calma... Vá, que é sagrado dormir, meu
filho... Durma sempre com amor...
Houve uma
pequena pausa, em que o pensamento se desligou da mente de Ismael, que
balbuciava, lasso e confuso:
- ...ao seus
pais... Deixar de dormir na hora certa é pecado... Aos seus pais...
Depois dessas
palavras, pareceu perder a lucidez; o espírito fugia-lhe em ondas de
grande frio e tudo em volta rodava com celeridade, trazendo para a sala,
em cada reviravolta, novas cenas, outros ambientes, amigos, numa luz
muito triste. Tinha novamente na boca aquela cerimônia flutuante, quando
pendeu a cabeça e começou a lamber e a engulir o açúcar polvilhado na
cabeça da mulher. Esta, cujo pensamento era menos denso, e então quase
distraído, ao perceber aquêle movimento sôbre a nuca, não achou no que
pensar e sentiu-se invadida por terrível sensação. Deus! Acuda!
Proteja-nos! Proteja meu marido! Era mais ou menos o que pensava, quando
arremessou o corpo para trás, branca como cêra.
- O que que
você está fazendo? Ai, uf, uf...
Apoiou-se na mesa,
sôfrega, engulindo sêco. Ismael lançou-lhe um olhar meio aparvalhado,
que nada compreendia a não ser o estado da mulher. Desta, seu olhar
pulou para Sepelio, e o rapaz era mais branco que a mãe. O menino tinha
as mãos crispadas por detrás do corpo.
- Vá dormir!
Vá dormir!, berrou Ismael tonitroante. – Eu não admito, não admito! Que
você não tenha amor a seus pais!, e desferiu violentissimo murro na
cadeira.
Estava
irremediávelmente embriagado.
- Eu percebo que
você é um revoltado, e sua mãe só não presta porque só pensa em você!,
dizia ainda quase aos berros. Em pensamento! Ela está ligada a você, seu
trouxa, mas é só em pensamento.
A mulher estava
fria, aguardando qualquer insensatice, ou crueldade. O rapaz, entre os
soluços, imprecava contra o pai, mas sofria, sofria imensamente com
aquilo.
- Rrrevoltado...
Mas não modifico nossa vida enquanto você não for homem.
E abaixou a cabeça,
com os olhos vidrados, a imaginação a procurar algo. Antonia correu para
o filho, disse-lhe algo no ouvido, aconselhou-o a retirar-se com ela,
abraçados como estavam.
Ismael levantou a
cabeça e começou a sorrir. Era um sorriso alargante, que conduzia babas
até as orelhas naquêle rosto quadrado, que começava a tomar outra forma.
Êle caminhou na direção dos dois, cambaleante. Fez menção de abraçá-los
num gesto amplo, mas a distância não permitia. Por fim, apoiou-se na
parede, junto dos dois.
- Oh, como eu gosto de
vê-los abraçados assim, meus queridinhos! Deus só deve me perdoar por
vocês não me compreenderem, me julgarem um vencido...Mas o meu castigo
está reservado, porque eu tomo as atitudes por vocês.
Bateu com o punho no peito. A mente começava a
aclarar-se, porém a emoção conduzia-o para campo diverso que o da
lucidez.
- ...porque... assim...vocês estão tornando Deus um
vencido... Não se sabe nunca o que vocês querem, nesta casa... Bhr,
maldição... Vocês me julgam um vencido?
Fez um trejeito, com a boca, de que ia chorar, e talvez o
fizesse, não tivesse interferido Sepélio, que só então pôde dizer:
- Não diga isso, pai, não diga isso, pai, eu...
- Olha aqui, bobinho! Venha ver um negócio-, e com as mãos
no ombro do filho, fê-lo sentar-se a seu pé, ao tempo em que fungava no
riso excitado por alguma idéia. – Quando na vida você quizer ser
desonesto, não entre no campo da desonestidade de outro. Você acaba
rindo como um homem com o demônio no corpo, quando devia chorar...
Porque você sofre duplamente... Ah, mas é um gôso diabólico mesmo
(estranho, como a expressão era típica de Jerônimo!)... você morre de
rir, principalmente se tiver a visão de seu pai... Ah, como êsse mundo
não presta, mas essa gente só me causa nojo.
Entrava a
amargurar-se, quando disse:
- Prefiro continuar
a vida que levo. Não tenho que lhes dar satisfação.
E com a frase,
suspendeu o olhar até a mulher, que se encostara no fio da porta aberta.
Homem coitado, indecente, pensava esta. Sepelio ansiava por que o pai
desabrochasse algo, relatasse algum fato, mas – coisa estranha –
consumia-se na vontade de que êsse algo tornasse ainda mais culpado o
pai, perante si e aos olhos da mãe. Era linear, quase pululante, a má
vontade de ajudar aquêle homem embriagado, mas desesperadamente solerte
no instinto, a recompor o fato. O olhar que endereçou ao pai estava
carregado de um brilho desafiador.
- Ha, ha, ha bobinho, isso não adianta; aprenda a ser
revoltado contra quem você puder compreender! Vê, mulher? O menino teve
por quem puxar. Olhe, meu filho – e daqui por diante falou com uma voz
enrolada, ora rápida, ora morosamente, a cabeça sempre subindo e
descendo, o queixo no peito, na hora das pausas – há certas atitudes que
um homem toma que seria um crime torná-las bôas só para que os outros
compreendessem. Nnnão. Ninguém morre de fome num mundo de desonestos.
Você pode ficar a vida tôda de papo pro ar, emagrecendo, sumindo,
contanto que olhe para êle (referia-se a alguém? Nêsse instante, o riso
fungou outra vez)... que antes do último suspiro... se você acompanhar
todos os seus movimentos...êle virá enfiar carnes, ovos na sua bôca, de
medo. Tem carne pra fritar, Antonia? Mas não-não-não-não (e aqui
cantarolou):
“num mundo de ladrão
é melhor ficar no chão”...
- Você não entende? Porisso é que eu digo: vá namorar meu
filho, é da sua idade...
Pensou em Gardênia, àquela hora “menina do vizinho”, não
pode deixar de dizer, mas com a melhor das intenções:
- Você não aproveitou!... Nessa idade se aprende muito,
menino, a gente tem campo aberto para se movimentar; tôdo mundo é puro,
ou quando não é puro é porque é louco, isso é filiz... A idade e
a imaginação, quando o rapaz vive – como seu pai viveu – faz com que a
gente pense em nunca abandonar a vida...
(AGORA, SEPELIO LEVOU AS MÃOS À CABEÇA, APERTOU-A, VEIO
PUXANDO-A ATÉ A PONTA DO TERRAÇO. E OS DENTES SE APERTAVAM TANTO QUE ÊLE
TEVE A NITIDA SENSAÇÃO DE QUE OS MAXILARES ESTAVAM TROCADOS, OU QUE
ESTAVA DE PONTA-CABEÇA).
- ... mas depois dessa idade, não se abandona mais, ah, às
vezes dá vontade, o que acontece é isso, que vocês não compreendem: é
muito mais digno eu ficar preso à janela um dia inteirinho, só escutando
o que se diz, parecendo não ver nada... Terrivel, como as janelas
penitenciam os outros... Da janela você vê as indecências, oh, mas eu
também não compreendo! È uma questão de honestidade.
Desferiu outra palmada na parede. Estava espreitador e
triste, quando disse muito baixo:
- Vocês pensam que é ser vencido?... Êsse desgraçado
(referia-se a Jerônimo) é um inocente nessa atrapalhação tôda que faz
para trabalhar! Mas pensem vocês que dá dinheiro em casa : também
não dá.
Antonia cada vez
mais se enjoava, mostrando-o no sesto de ironia que dava às narinas.
Como posso amar um homem tão ruim? pensava Sepélio. Será que Deus não
põe fim a isso? Terrivel, como êle é tão bom. Duro, mas merecido êsse
meu castigo. Ambicioso, maldoso, sou. Nada do que penso, em bondade,
saiu do coração. Será que Gardênia precisou de mim? Mas que podia eu, um
simples menino fraco – ou enfraquecido, fraco-ou-enfraquecido,
fraco-ou-enfraquecido?
- Mas no mal êle é
consciente. Sacrificar uma filha por amor à experiência! Eu também podia
pôr você no fogo pra ver no que dá, tá bem?
A frase foi
tão entorpecida e torpe, que Sepelio se levantou e não conseguiu evitar:
- O que o
senhor pensa que podia fazer? Eu trabalho! Eu larguei de estudar pra
trabalhar! E ... e... acho que faço mais que o senhor.
- É isso
mesmo, é isso mesmo, o menino está acabado de tanto sofrimento, disse
Antonia, muito lívida.
- Qual
sofrimento! Quem nunca passou a humilhação de ter pena de um sujeito
desonesto, mas que tem capacidade de vencer na vida sem nunca falar mal
de ninguém, como pode ter sofrido? Ah, o Parra, coitado, sabe que êle é
bom? bom mesmo?
Antonia puxou o
Parra à mente, recompôs as cenas do casarão, teve realmente lampejos de
uma grande, quase incontida alegria, o sorriso por um grande esfôrço
deixou de abrir-se na frase:
- Você precisa
deixar de ser frouxo com as pessoas com quem simpatisa. Sabe, homem, que
realmente tenho vontade de desprezá-lo alegremente, de uma hora para a
outra? Você não tem vergonha, não? Aposto que já arrumou as coisas com o
Parra! Mas você, homem, não vê que êle tem medo de você, mas que confia
na sua simpatia, e quando você sorri êle começa a espesinhá-lo na frente
de tôdo mundo ?
- Eu ia arrazá-lo, mulher, eu ia arrazá-lo, mulher! Mas eu
o encontrei agarrado num poste (quer dizer:) agarrado num copo, sentado
numa mesinha do “Corso” suspensa por uma corda, porque estavam lavando o
Restaurante. Êle me chamou tão triste, acho que o preto que ensaboava o
chão de vez em quando passava a escôva molhada em seu sapato, você vê
que êle não tinha ânimo nem pra chutar o malvado. Quando eu lhe falei
que ia expôr tudo ao Secretário – o que êle era, que vida levára
e-ti-cé-tera – êle disse: - Não; você deve mesmo reclamar o contrato,
porque você havia falado antes, só por isso. Mas eu disse: - não, quem
falou primeiro foi você, vou só reclamar ao Secretário porque você está
desmoralizando a classe! – Percebe, mulher, que eu estava procurando
arrazá-lo? E êle me disse: - Não, quem falou primeiro foi você. Mas eu
disse: - Não; foi você. – Então você me acha com cara de mentiroso? eu
perguntei.
Quem perguntou foi êle. No fundo é um grande cachorro.
- Êle disse: bobagem. E me explicou que estava assim por
causa da irmã, que estava fazendo das suas outra vez. Você vê? Como êle
tem dois encargos? Tem que resolver os casos da desmiolada. Aí ele me
disse: - Não podemos discutir o assunto assim, rosto a rosto; é uma
questão de pudor (Foi daí que quase lhe dei um abraço, mulher! Quiz
protejê-lo, dei um ponta-pé debaixo da mesa, acertei aquêle em cheio).
- A mente se aclarou súbitamente e Ismael percebeu Sepelio
com o rosto bem perto, como uma carranca trocando água com o da mãe. Fio
d’água jorrava da boca de um, entrava na de outra.
- O cachorro saiu ganindo. Restaurante sujo.
Ufa.
- E ele disse: - Vamos beber dez caninhas e depois resolver
o caso. Bebemos. Depois que bebemos, êle me disse, muito tiste: - Você
tem tôdo o direito de reclamar o contrato porque você havia falado
antes. Eu disse: - Não, quem falou primeiro foi você. Ademais não
estamos em igualdade. Você já havia bebido antes: você vinte caninhas,
eu só dez. – Então você me acha com cara de beberrão? êle me perguntou
aos berros para o garção. Eu falei: - Deus me livre, você é meu amigo. E
então êle me disse, quase chorando: - Pelo amor de Deus, deixe lhe dar
um beijo! Então vamos esculachar o Secretário juntos! Êle não me tem
pago, e eu preciso. – E eu lhe falei: - Combinado! Mas um de cada vez,
para o homem não pensar que estamos combinados. Aí, saimos, Antonia,
hhrp, tósss! Tósss. Na Secretaria, quando subi no elevador, achei melhor
que êle ficasse em baixo, na esquina do prédio fronteiro. A sala do
Secretário fica naquelas três janelas bêstas, parece de Igreja, do
terceiro andar. – Você percebe, Parra? Daqui você vai medindo nossos
gestos. Mas olhe que não faço por você, que você não presta, preste
atenção, olha, daqui dá pra ver as cabeças. Vá olhando só como desacato.
(- O senhor não estaria melhor sentado? Faça o favor de
sentar-se, senhor Ismael; afinal, não estou entendendo bem o que o
senhor está falando. Afaste-se um pouco; pode pôr-se à vontade e
explicar direitinho.)
Então falei ao Secretário que era imoral de sua parte
tripudiar sôbre o trabalho de um homem fraco. – É um homem
insignificante.
(- O senhor considera insignificante o trabalho, ou o Sr.
Parra? Francamente, sr. Ismael, não consigo compreender suas palavras.
Não seria melhor...o senhor voltar outro dia...quando então se
encontrasse com melhor disposição? Vejo que o senhor...) O
senhor faça o favor de se levantar. Talvez de pé o senhor consiga
entender-me melhor-, falei-lhe. E quando êle se levantou, tósss, tósss,
puz-lhe as mãos no ombro e fiz com que se sentasse. Vê, mulher? Isso
tudo aparecia na janela, debaixo dava para ver.
( - Só um minuto, doutor Mendes. Só um minuto. O senhor me
desculpe, tomei um pouco de alcool na casa de um amigo... Sente-se, não
quero que ninguém perceba alguma coisa. Desculpe a liberdade)
E olhou pela janela, a ver se o Parra passasse por ali. Que
dirá, quando me vir aqui? Será que êle estava bêbado? Fiz mal em
acompanhá-lo, quando tinha algo a dizer ao Secretário.
- Em casa de “um amigo”, logo de manhã, senhor Ismael?! Como
pode?!...)
- Bebe-se logo de manhã, doutor; é a desolação, doutor; a
fraqueza, doutor; a enorme solidão, doutor; e o medo, doutor. Em suma, é
isso! Mas se fosse bem pago, talvez pudesse suportar, doutor. Tenho pena
dêle...ainda mais quando se diz...naquela viagem que fiz às
obras...encontrei-o amarrado entre duas árvores, os pés numa, as mãos
noutra, balançando, com uma paraguaia bêbada em cima, tirando a sesta.
Mas se fosse bem pago, suportaria. A maioria dos homens precisa ser
remunerado. O dinheiro só não é muito importante para quem pode amar o
trabalho. Mas êsse amor é proprio das pessoas como...eu, doutor, e
modéstia à parte.
Sepélio tinha nos olhos uma expressão de imbecilidade
rotineira: as palpebras excessivamente abertas e o olhar preguiçoso,
procurando não ferir nada, apenas se acomodando àquêle estado de
completa gratuidade. Fugiu-lhe por completo o raciocinio e, quando
pensava algo, não sabia se devia levantar-se e pôr fim a tudo,
extinguindo os pais de qualquer forma, ou então entregar o corpo ao pai,
para que êle o estraçalhasse (pois o pai o tinha fabricado naquêle
instante), lhe raspasse alguma coisa nas costas, a começar pela nuca e
acabar pelos pés. O que não podia era mais suportar aquêle negro
desfilar de mentiras, que lhe forrava o coração de um pai desnaturado,
algo a tomar-lhe o peito e a infiltrar-se pelas vísceras como chúmbea,
ácida – oh destelhador de afetos, sôpro interno, falta completa de
hálito – visão de um mundo sem amor. Agora, nêsse mundo flutuante, tudo
lhe vem às claras, cenas que antes somente o amor impedira a
compreensão, mãe-mulher comum, que se divide com outros sêres, que se
transforma em mulher com falas estranhas e lhe apresenta outros sêres
estranhos. Ultimo plano da vida que o empurra, empurra. Mãezinha: podia
ainda segurá-lo?
- Depois, o senhor bem sabe que não é todo mundo que pode
suportar trabalhar numa obra interminável. Um sêr fraco é capaz de
aguentar trabalhar vinte ou trinta obras, que lhe tome a vida tôda. Mas
trabalhar numa construção a vida tôda...mesmo ganhando rios de dinheiro
e trabalhando só quatro horas por dia...recebendo ordens pra parar! Pra
destruir o que foi construido! Não, ninguém, quase ninguém aguenta.
( - Faça o favor: realmente não consigo atinar bem com suas
palavras. Tenha a bondade, olhe, escute aqui um minuto, por obséquio.
Ismael se arqueou...)
- Eh, mulher, o que pensaria você no lugar do Parra, vendo
minha cabecinha abaixando e sumindo na janela? Ah, ah, intimidade?
( ...: -
queira ter a bondade de se retirar com a máxima urgência, senhor Ismael.
É. Tenha a bondade. Presenteie-me com isso. Passe bem.)
- Aí êle me disse no ouvido, espiando de medo que o cochicho
pudesse interromper as gargalhadas de dois deputados...bah, mulher!...me
disse que guardasse aquêle segredo de um Homem de Estado: que da fato,
sim, o Estado precisa de gente de pouca visão e de pouco suporte como o
Parra. Que não era interessante deixar de proteger êsses coitados, que
se revoltam na sua fraqueza, contra o Estado, mas nunca o abandonam. Aí,
mulher, êle ainda me perguntou se eu podia compreender aquilo. Só no meu
olhar êle compreendeu que era uma afronta formular aquela pergunta.
Então perguntei se podia retirar-me arqueado até a porta. Era uma
questão enigmática, mas minha, e fatal.
( Depois daquela desgraça, não conseguia retirar-me
levantando-me. Era preciso sair amarrando os sapatos. Quanta humilhação.
Mas estava mesmo embriagado.)
- Aí, saí, mulher. Tósss, tósss. , se sentiu humilhado e me
disse: - Nãããooo. Você não pode fazer mais nada por mim, com uma pessoa
com que você tem tamanha intimidade; e mordeu a manga do palitó;
acho...não sei bem se falou mesmo isso ou...se só me cumprimentou e
passou reto.
De repente, Ismael teve diante de si, quase colado aos
olhos, o rosto de Sepélio numa feição que êle nunca vira. O rapazola
chorava e as lágrimas caiam-lhe pela garganta; exteriormente,
entretanto, tinha a face mais aniquilada que a de um cadáver: branca e
esperando, naquêle desespêro amorfo e impessoal, que alguma mão lhe
perpassasse a superficie, era só isso. Oh, Deus que seria aquilo?
Antonia, mulher, ajudasse-o a reanimar o filho. Numa ânsia
*
(CARTA AO CRÍTICO OSMAR PIMENTEL, AO INÍCIO REFERIDA)
Dr. Osmar
A maioria das cenas descritas nêsse trêcho de capítulo deixa, de certa
forma, no ar sua plena apreensão, principalmente em certas alusões das
“falas” dos personagens e nas remissões que a narrativa faz
acontecimentos, pura e simplesmente.
É que tôda essa meada de fatos está ou ligada ao que já se passou, nos
capítulos anteriores, ou preparada para encadear-se no que está por
acontecer (final do capítulo III, ainda em manuscrito, e desenvolvimento
dos seguintes).
Como intuição e benevolência, o senhor poderá compreender (se eu tive
capacidade para tanto) o caráter dos personagens e mais ou menos
vislumbrar suas intenções, bem como sua definição social.
O aparente misticismo que se depreende da “fala de Ismael, a partir do
momento em que volta embriagado para casa (pág. 27 ss.), só encontra sua
coerência na simbologia geral do romance, simbologia onde Ismael tem
papel de "Criador", em contraposição a “criatura” ( outros
personagens que aqui não aparecem).
Tentei fazer, nesse romance, uma história do próprio romance, um romance
do romance. Achei necessário associar o problema ao problema maior da
teologia, onde as relações de criador-criatura e criatura-criador se
ligam às faculdades do espírito de aceitar o fenômeno da vida com a
maior ou menor resignação diante do ato puro da vida, isto é, do
determinismo (sentido amplo) de todas as ações, que independem da
vontade humana.
Para que o processo não desumanizasse a história (que também e –
principalmente – tenta valer como “história”, análise de caracteres e
levantamento social) – não tentei no decurso da narrativa, em nenhum
momento, valer a teoria por meio de citações diretas, atitudes forjadas
à base de um simbolismo à la escola simbolista. O artifício que pretende
substituir aquele processo está ancorado na “estilização” da vida, o que
quer dizer: cada fase social de um povo, ao ser retratada numa obra de
arte, tem uma forma preestabelecida, no meu entender, de manifestação ;
os sentimentos vários, que assolam as pessoas, desde que o mundo é
mundo, são invariáveis na essência, mas o grau que atingem na
exteriorização está prêso às constantes sociais que celebrizam,
realçam mais uns sentimentos sobre os outros. O amor, por exemplo, na
Idade Média, teve a nota da contenção mística sobre o jôgo do instinto
brutal que originava as tentações no espírito dos personagens. Claro
está que, numa cena de adultério, por exemplo, a sanção moral, social ou
individual que exercem os que se logram sobre os adúlteros é quase
sempre extrema. Mas, comparando-se o fato no “Orlando Furioso”, frente a
um romance de Zola, e deste, ao “Dominique”, de Frommentin, a atitude
dramática tem sempre uma espécie de acessório que configura a ação como
sendo trágica, épica, romântica ou realista, conforme a época.
Talvez não tenha fôrça para explicar a um crítico de seu teor o inteiro
motivo desse dêsse romance. Ademais, é-me exaustivo forçar essa tarefa
de esquematizar uma história de quatro ou cinco famílias de diversa
casta, apenas para ilustrar um ponto de vista estético. Flaubert, ao
inventar o realismo quase cibernético (perdoe-me!) de “Madame Bovary”,
valeu-se simplesmente da palavra pura, que eliminou a tão celebre
“mescla de estilo” de que fala Auerbach (“Mimesis”), para que a ação não
se deteriorasse : para conservar a tensão do real que tinha em
mente, Flaubert quase se estiolou em busca da palavra impessoal, justa
ao objeto, para mostrar que a realidade, em si, é insuscetível de ser
apreendida por representação. O palavreado límpido de que usou
parece-me que representa um esfôrço fora do comum de dar ao romance
realista sua nova linha de conduta.
Assim, se usarmos do método contrário, não seria provar a tese de
Flaubert? Para fazer um romance do romance (Romance para mim é vida em
todo aspecto dela), que, hoje em dia, para mim, é a suprema ambição dum
romancista (dar o mecanismo de concepção de uma realidade que nos
concebe) – para fazer isso, pergunto, não há que se aferrar à
“estilização”? A narrativa impressionista de Proust, Larbaud ou Valle
Inclán ; a expressionista do Kafka da “Metamorfose”, ou de Capek
de “A guerra das salamandras”; o realismo aristocrático de Laclos, n´
“As relações perigosas” ; a cética objetivação de Stendhal,
principalmente na “Cartuxa”; o realismo acintosamente biológico
de Balzac (“caracterização” até das portas e interiores, em “Eugênia
Grandet”), para incorporar, como disse no prefácio da Comédia Humana, na
vida, a doutrina daquele biólogo seu contemporâneo (não me lembra o
nome), tôdos êsses estilos, enfim, não são produtos simples das escolas
literárias, mas uma maor simpatia junto aos indivíduos de sua
época : creio, para mim, que há seres impressionistas como há
seres trágicos de tragédia grega...
Nessa tragédia, por sinal, tôdo aquêle mundo épico, “histórico”, esta
contido pela apatia da conduta ética que “pairava no ar”, na Grécia
antiga. Mas, creio que estou me perdendo num campo onde me faltam pés. O
senhor saberá “descobrir”, na minha crítica confusa o anseio dos meus
objetivos de criação romanesca.
O que se poderá ver, talvez nítida, é alguma aptidão para o “metier”.
Gostaria que o Sr. fosse severo na análise dessa aptidão, se ela chega a
despontar nêsse trêcho que lhe entrego.
Florivaldo
SP, 20 de agôsto de 1958.

Osmar Pimentel, o último à direita
;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;
@ - DIÁLOGO
@ - “ - Imbecila! “
@ - “ - Helpem me! Helpem
me! “.
@ - TIPO-1 (Anotação de 31 de Maio
de 1985) - Conheci ontem dr. Rolando de Magalhães Couto, figura
humana simpática, carinhosa, séria, um “velho” da estirpe “arcadas São
Francisco”, ruibarbativo mas autêntico, humanista, redentor, tribúnico,
amável, gravata & colete, com quedas para a boêmia, feição do Monsieur
Verdoux mais velho e entristecido, andar de quem tem calo, meio
professoral, apreciador de esguelha de belas mulheres, Um papo na rua,
farejando livros. (Mora na Pça da República, 76/80, 4o., conjunto 405,
tel. 259-4913, elevador n. 2)
@ - Aquela cara cinzenta no escuro agachado,
um olhor terrífilo nuns lados da face. ( O CARA QUE ME
PEDIU AS MOEDAS NO FAROL, VOLTANDO DA CASA DO WILLY EM 20-12-98)
@ - AGONIA SEY IUO IS [ em
italiano ] MIS - ESUACEB EUQSIUP EUQROP [em ital.] EUPROP –
EH TNAVA ETNEMROIRETNAN [ em ital.] ELE - REVEN LI LÈ [
em ital.] ACNUN – DID A’N SÀMAJ [ em ital.] ZEF - *
·
[ NOTA ] : TRAZER DO ESCRITÓRIO ( APÊ ) A VERSÃO DO
‘’ ULYSSES’’ EM ITALIANO E PROSSEGUIR. ( 21-8-99 ).
@ - Romance a quatro mãos ( “ Romance em colaboração”
):
-
“O Mysterio” , 3ª edição, Cia. Editora
Nacional, 1928.
-
Coelho Netto,
-
Afranio Peixoto &
(Medeiros e Albuquerque),
-
Viriato Corrêa.
No
livro há história do gênero.
-
“Brandão entre o Mar e o Amor”, Liv. Martins
Editora, s.d., de
Aníbal
M. Machado, Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego e Raquel de
Queiroz.
-
“ O Mistério dos M M M “, por
-
Viriato Corrêa
-
Dinah Silveira de Queiroz
-
Lúcio Cardoso
-
Herberto Sales
-
Jorge Amado
-
José Condé
-
João Guimarães Rosa
-
Antônio Callado
-
Orpigenes Lessa
-
Rachel de Queiroz.
Coordenação de João Condé ( Edições O Cruzeiro, 1962.)
-
“Os sete pecados capitais” ( 7 novelas; há alguma
ligação?).
( A ira, Mário Donato;
-
A gula, Guilherme Figueiredo;
-
A luxúria, Carlos Heitor Cony;
-
A avareza, Otto Lara Rezende;
-
A inveja, José Condé;
-
A preguiça, Lygia Fagundes Telles;
-
A soberba, Guimarães Rosa )
to be
continued
|