@ - Divides o mar. De um lado há mar. De um lado amar. O mar: com seus verdes sulcos salvos de encurtar o abismo ao preamar. Pre-amar: com que sáfios saltos custa a só idéia de não te amar. Há mar.
Divides, embora, o mar. O mar, ora feito de um solar onde entre o mar sai o mar por seus alvos alvos de incrustar só o ar. Solar solar. Só mar.
Divides o mar. De um lado há mar. De um lado há mar. O mar: ora feito de um só lar onde entra o mar, sai. Amar por verdes salvas de casta idéia de ultramar.
Divides o mar.
S.P., 8 de setembro de 1966.
@ - O mel; da abelha sem o amargo vôo. Caule; no caule o encalhe desta espera. Pólem; no polo embalde d’haste: enjôo Pouso; na pausa do ar que desespera.
A abelha; a vala à luz do vácuo entoo Vale; do vaso a vólea cor quimera Falta; na foz da falha com que dou Falo; na fala aquém de quem se esmera.
Por se esperar no sol de pôr, a tarde perdida na escalão da vida inseta Vale, no vale, o olor da oferta; impura
Sou, forma de poema falta incerta Do mel da noite de asas
[ Interrompi aqui. Do segundo verso do primeiro terceto até a interrupção, está à mão. Há uma anotação para pôr no “allemongs”, naquelas partes cifradas, na maioria obcenas, na codificação de minha infância do aus, enter, ines, omber, ufter, cf. Tb. tem um” b) dístico final (14 sílabas, shakespeareno, em português: “CA-IN felicidade é um prato de cenouras vazio”. Há uma interrogação”déc. 50?”. DE PONTA-CABEÇA TEM UMA ANOTAÇÃO: “DESCOBRI “PARECIDO”, EM 11/1996, “TAÇA DE CORAL”(ALB. oLIV.) [ O IVAN TEIXEIRA ME DEU TAÇA DE CORAL COM ILUMINURAS DA DÉCADA DE 10, ÉPOCA DE SUA REPRODUÇÃO NUMA REVISTA, SE NÃO ME ENGANO, “A CARETA”]
***** @ - Soneto
Essa mulher que eu canto e que conheço Inspiradora de poetas mortos, Mulher que choro, sempre quando aceno <<<<<<<<<<substituir a linha, cf. nota ou pent. Ao pensamento que me deixa, -- e embora
Eu pense que é uma Hetera é abencerragem, Danaíde das vísceras efêmeras: Eliminando adúlteros espôsos, Hemoglobina, vasos e a pletora,
É sempre uma mulher que eu canto e encerro No fundo de meu ser, não sei bem onde, E mesmo duvidando que é uma hetera,
Eu a venero e a canto, venerando-me, Embora ela me diga entre soluços Que é inspiradora de poetas mortos.
( 2 horas da tarde de 31/10/51 )
***** @ - VOCAÇÃO DE AMOR Me deste uma rosa. Peguei. Tinha cheiro de musgo Molhado de lágrima rôxa. É a fase da fase Do musgo bem quisto. Da rosa não quista. Me deste mais tarde ( Na fase distante da fase da rosa - da rosa distante!) me deste Um musgo de quisto. Peguei Tinha cheiro de rosa Molhada do orvalho da bôca Que fala no perto. 4/5/52
***** @ - poema.
Um par de sapato andando Quebrando a noção de par Como borboleta iludindo pupilas Absortas nas asas de camêlo Eufórico, antidigressivo, mesmo bêbado. Tóc-tóc na calçada. Um par de sapato andando. Um na frente. Outro atrás. Sem oaristo. Grotêsco na solidão. Um par De sapato sem nada, andando Na calçada sem luar. ( Onde pode é [ riscadas as palavras ] Como pode um par de sapato Assim, idiotas, caprichosos, polarmente, Caminhar na calçada sem luar?)
Um par de sapato andando Sem gente sem ninguém martirizando O ritmo e nem porisso poéticos. Um par de sapato assim Monótono embora ninguém. Em cima nenhuma perna Nenhuma orientação de sonâmbulo. Mas, só o pêso do caminho percorrido. Só o chute reprimido, recalcado contra a janela [ palavra dereta] burguesa indignando A janela na madrugada convidando o chute. O baque. O pum. Depois tóc-tóc-toc, Fugindo. O grito, menos do sonho coincidido ( onde o incesto quase se comete Entre um gole de guaraná e uma pulga.) O grito mais da janela Na desincumbência aterradora Antes do cansaço do toque Tóc-tóc na calçada.
Que vale a visão O sedativo da pálpebra, Se a hora é absurda?
Um par, um Mundo no Tempo do silêncio, onde Um gato assusta o passo E o tropeço vale onze Quedas na pressa, mas Apenas dor, lamúria Vento ou antiespasmódico Quando o pensamento evita. Ah! Pegajôsa! Ah! Enorme, Irreal, frase fabulosa no ouvido! Escuta: é o imemorial do sexo. O gosado, o nexo mais o saxão no saxofône Da dança mas corpos parados.
A solução é abrir a janela. [ no cantinho a folha escrevi City of Santos [e desenhos retangulares ]] Mas solução contra-solucionada [ frase [Alguém não tem coragem] riscada] Falta ao alguém o afã O alcalóide ou a esperança mágica Que lhe suma as listras do pijama. Ah!, vagaroso! Depois, Na levitação da pausa No [ claror [?] ] [ chorar [?] ] da coloração do vago No ebúrneo, no susto, no grito cruzando o esôfago, No coração cariado já na boca, - Ninguém, ninguém, ninguém suporta o olhar amassado da rua Clamando chôro, festa, alergia. [escrevi alergia mas me parece alegria]
Um par de sapato andando Enormes, capricho, vulto De Chaplin que vem chorando Antigéstico, pés no asfalto. Sossôbro de rugas premeditando Aura do riso, a rosa solitária Vergando os postes no último tóque: E há um gesto soluçando fraterno, Mas nas ruas desertas predomina A repulsa, a eletricidade. [ Aqui no cantinho desenhei um casal conversando, plano americano]
Um par de sapato andando / Pálido não carregando/ Humano nenhum / Que importa o desamor, / a solidão se o [sozinho é híbrido / de noite e estrela sem manhã? / Aqui, na espera marital, As pálpebras operam, operam E só de leve descansam E só de leve descansam, pulando no caule interior. Antes até do abandono Total [ expressão pode unir riscada ], podemos unir dois santos Além de moleculares ótimos: E eles não se beijam: e eles não se beijam. E até uma hora deviam se matar: E êles não se matam: fingem brinquêdo
Na madrugada o sapato andando: Que vale a visão, E o sedativo da pálpebra, Se a hora é absurda? Se o pesar é de todos? Se o susto homogêneo fecunda desamor, Preguiça muito catástrofe? (12-7-51, faj)
***** @ - CRISTO VIRIL
O amor transpirou a Graça oclusa reclusa inconclusa. Foi como sangue abandonasse antipatia de pedras, eram duas, que barram a vista à história, e amigas.
Mas dessa fusão calcárea, (Sorrisos entrechocados de antagonias nervosas) talvez nascesse, como nasceu, a visão terna, açucarada, do gesto nascituro anunciando padrão de força ao Mundo, abolido das complacências sem noção de afeto ou intuição de rancor: irmãs, e abolindo a si, que desvanecido o era sem semente.
Somente um defeito revestiu tamanha beleza pureza: o de sim ou pseudo imperícia lírica que o dividiu entre severo e silencio. Contudo, outra feição mais límpida, não dele que o olhar opaco era redoma de um capricho sempre de uma hereditariedade gasosa, mas do proximo, e todo o proximo lhe incutiu o prazer de amar sem ciume.
Porisso ele medrou e a ele a Graça Lubrifica o aspecto vegetal de flor que nasce de humano prado não e de sim pedras simpaticas a rolar no despertar do amar ante pedras antipaticas. Florivaldo Menezes – Em 28/I/53.
***** @ - Meu “Círculo Vicioso”
Trêmulo, o rato tartamuda ao ver o gato: “- Pudesse eu ter a astúcia e o fôlego eminente Do vil felino; certo a fúria do insolente Se extinguiria.” E ao ver passar o cão, o gato:
“- Quisera ter do cão o instinto imediato; Verter-lhe-ia em cinza a cólera demente Que me lacera.” E o cão, ignoto quando sente A sombra do homem: “-Céus, que dom, que xis, que fato
Existe na transmutação do ser temido?!” O homem, filosofando em lúgubre gêmido Redime-se em duas simples sílabas: MULHER”.
Esta, na renitência excêntrica do Tudo, Reprime a voz por um barulho surdo, mudo, De um miserável rato, que nem vê sequer...
( Florivaldo Menezes, 1953? 4? )
( Alexandre: conforme prometido, minha paródia do soneto de Machado. Acho que é uma besteira bem “arrumada”... Enfim, vivemos ( verbo no passado ), vivemos ( verbo no presente )... Abraço na amizade de meio século virgula vinte! S.P., 28 de junho de 2004.
(FLORIVALDO)
( CÍRCULO VICIOSO
Bailando no ar, gemia inquieto vagalume: “ Quem me dera que fosse aquela loura estrela, Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!” Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
“Pudesse eu copiar o transparente lume, Que, da grega coluna à gótica janela, Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!” Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
“Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela Claridade imortal, que toda a luz resume!” Mas o sol, inclinando a rútila capela:
“Pesa-me esta brilhante auréola de nume... Enfara-me esta azul e desmedida umbela... Por que não nasci eu um simples vaga-lume?” (Machado de Assis, in “Ocidentais”) ) Colocado aqui nesta seção de meus poemas da déc. 50 por causa da paródia supra.
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@ - ELEGIA ESCURA
Todos os dias são importantes na vida dos enigmáticos, pois eles carregam o ramalhete ofertado para a festa dos encontros Não me intimido, nem vos intimideis, com seus crepúsculos mas com todos os jeitos: o aperto de mão calcáreo, a fala no trampolim, o amor dos olhos barulhos e essa mania de morrer encostados em todas as ternuras...
Todas as Vezes são rituadas no afago dos enigmáticos (afago desastre afago delícia), pois eles, ao invés de retalhar o coração, dançam, no périplo das cortantes estimas, uma pavana vã, o ar avantajado apenas pelo pizzicato das pausas.
Todas as Mortes são importantes na decoração dos quartos dos Enigmáticos. E o pior, o flagelo, o dilúvio de pedras insolúveis Imastigáveis inassimiláveis incrustáveis [ acho que quis escrever inincrustáveis ] é o coro de seus silêncios: pois quando todo mundo se descabela, eles, os Enigmáticos, se despedem miméticos e anti-eufônicos para a viagem de outras clarezas. S.Paulo, 18/8/53
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@ [ Soneto em endecassílabos]
Se acaso, Manselda, nascesse do fado Medievo castelo de sombras janelas, E o pulcro talher que, durando na tela ( da ceia cordiana ), engolisse o passado
E a casa, Manselda, que abriga os achados Felizes, que o vento encrustrou na lapela Das vozes quebradas, em onde favelas Assentam memória no espaço rezado
Deixassem agora, Manselda, as fazenças Ocultas e lerdas (mas não perdoassem Do olhar a atonia – e o ouvido o escorrega)
- Então cantaria essa roxa refrega De molas e mel de mansão que falassem De um canto de morte, de lesa-esperança.
SP., 27-6-53. NOTA DE 29 DE JUNHO DE 2004, QUARENTA E UM ANOS APÓS HAVER ESCRITO O SONETO, QUE ESTÁ PUBLICADO EM UM DOS JORNAIS DA FACULDADE DE DIREITO DO LARGO DE S. FRANCISCO: é UM CASO DE INTUIÇÃO REINFLUENTE ( V. MEU POEMA DOS “TRÊS INSIGHTS NA VIDA GLAMOROSA (sic) DE EUSTÁQUIO PARREIRA” -, v. catálogo da segunda exposição nacional de Orlando Marcucci, junho de 1983) : um passado concebido antes, para justificar um presente bem depois, estranho... como naquele poema em que desenhei o casal Eustácio Barreira ( ele e a mulher, Dora, sem os conhecer!!!, v. o catálogo Exposição Marcucci ). INTUIÇÃO REINFLUENTE DOS MOVIMENTOS DE POSSE DE TERRA POR PARTE DOS “SEM TERRA”, POIS DESPONTAM: - Pulcro talher. - Engolir o Passado. - Casa abrigando os achados felizes. - Favelas. - Assentamentos ( “Assentam memória...” ). - Fazendas ( “... as fazenças / ocultas e lerdas (incl. Acresc.). - Roxa refrega, canto de morte, lesa-esperança etc.etc.etc. ALÉM DE UMA APARENTE – E TALVEZ VIÁVEL – ESCRITA AUTOMÁTICA, SUBJETIVISMO SEMI-MEDIÚNICO E O MAIS, EM UM EXERCÍCIO DE TÉCNICA MELOPAICA DENTRO DE MEUS VINTE ANOS, PODE, HODIERNAMENTE, SERVIR DE HINÁRIO PARA O M.S.T. ( 29-6-04 ) - Quando explorar esse fenômeno de intuição reinfluente ( e umparataxe de parataxe...) , não esquecer de evocar aquele genialíssimo e estranho fenômeno da crônica “ O AUTOR DE SI MESMO”, de Machado de Assis, publicada n’ “A Semana”, em 1895)
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CANTO DE ORFEU À ÚLTIMA BACANTE (Para Maurício Tragtenberg)
Em teu banho exterior (em que aproveitas a chuva de alcool) surpeendes o convite de Quem? De Quem o faz desconfiado.
Não se trata de forma êsse formato áspero de anuência. Em teu banho exterior aproveitas, vasilhame incalcável, o descuido do conteúdo claro e frio e ambíguo como um banho de alcool. É simples.
Em tua reação romantismo (em que procuras a espera) talvez nunca aceites o convite. Mas olha, Mulher Fímbria, apenas anti-órfica, ao escondido de suas dobras, como sanfonam os cantos de milésimos, as fósseis de elegia, que ressucitaram de Amor: Em teu banho de alcool mudas apenas a côr do afeto. E morrerias de gôso (inédito) se pudesses sorver, absoluta, essa chuva missionante.
Em teu banho exterior em que aproveitas a chuva de alcool Ah! Não aproveitas... Unificas (Sòmente) a temperatura. E o Amor, terno de ser tão terno, e poucamente esperado, mais agrava: e a chuva de alcool então se logra, e apenas, mas não chora a perda das sensações, a quente e a fria.
São Paulo, 21.9.53
[ Abaixo do papel, escrito à mão, falei o seguinte ]
A realidade das Bacantes é (e sempre será) um fenômeno sócio-histérico [sic] de reação à Poesia. Em nosso tempo, se tivesse o equivalente que sua natureza hermética abomina (o espacial), pois vem funcionando em sentido das “delegações forçáveis” (1) , que visa a eliminação ou a existência liberta do nexo subjetivo, isso se daria em têrmos de Indiferença. Há, simplesmente encontro de duas energias: a da mecânica do Poeta e da mecânica da Insensibilidade – essa resultante da inèrcia esotérica [ grifei triplamente a letra s ] que dá sempre (vire)
(1) V. meu estudo sobre a poesia dodecafônica de CANTOX DE TUMENIOS
(virado) em exoterismo [ grifei triplamente a letra x ]. O caminho da solução tem de se efetuar por processos exteriores: o banho. A reação, que vivifica [sic] a essência, tem de se efetuar por um elemento ainda daqules processos exteriores. Simples material poético, mas com função especulativa. Orfeu usa a chuva de alcool. A escolha de certa forma, é feliz pela independência [INTERROMPIDO. OU FALTOU UM PONTO (.)?]
*** FRAGMENTO DE ENLECLEUZA
A baleia morreu afogada na superfìcie do Mar. Enlecleuza morreu de gôsto na superfìcie do Amor.
Embora no fragmento, Enlecleuza mulher outra, Extinto (o mundo) resiste. Perdure no anseio como no semáforo: a sempre rosa pássara ligando o ponto, no oceano, à mais grave tentação.
Mulher sem tacto, Intacta no camafeu -- com toque , não lembra o afago, -- no afasto, reduz-se a torre.
A baleia morreu precipitação, iludível superfície! Enlecleuza morreu superflua mais inteira do que embora embora no fundo bela.
Depois, depois, Inominada, quando desperdiçares o gesto sem fisionomia, induza a lágrima à percepção menos a qual, oh, desgraçou a festa, as paredes e me. Abril - 53
POEMA EM RODA DO PEÃO (Docomento dadaista pressentindo o advento do surrealismo) Florivaldo Menezes
Do colo do jarro nascerá o poema quando do rompimento da paisagem que atrai a pedra através da janela pois a orelha é desenrolada como uma passadeira à frente da Casa por crianças arremessando crianças mais livres, inconstantes nessa pureza de fel das grades que só impedem a Voz, contorcida em cólica trincando mensagem agem agem. O papel branco terá impressões de dedos apoéticos. Iodo no peão
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