@ - Divides o mar. De um lado há mar. De um lado amar. O mar: com seus verdes sulcos salvos de encurtar o abismo ao preamar. Pre-amar: com que sáfios saltos custa a só idéia de não te amar. Há mar.
Divides, embora, o mar. O mar, ora feito de um solar onde entre o mar sai o mar por seus alvos alvos de incrustar só o ar. Solar solar. Só mar.
Divides o mar. De um lado há mar. De um lado há mar. O mar: ora feito de um só lar onde entra o mar, sai. Amar por verdes salvas de casta. (idéia de ultramar)
Divides o mar.
S.P., 8 de setembro de 1966.
@ - O mel; da abelha sem o amargo vôo. Caule; no caule o encalhe desta espera. Pólem; no polo embalde d’haste: enjôo Pouso; na pausa do ar que desespera.
A abelha; a vala à luz do vácuo entoo Vale; do vaso a vólea cor quimera Falta; na foz da falha com que dou Falo; na fala aquém de quem se esmera.
Por se esperar no sol de pôr, a tarde perdida na escalão da vida inseta Vale, no vale, o olor da oferta; impura
Sou, forma de poema falta incerta Do mel da noite de asas
[ Interrompi aqui. Do segundo verso do primeiro terceto até a interrupção, está à mão. Há uma anotação para pôr no “allemongs”, naquelas partes cifradas, na maioria obcenas, na codificação de minha infância do aus, enter, ines, omber, ufter, cf. Tb. tem um” b) dístico final (14 sílabas, shakespeareno, em português: “CA-IN felicidade é um prato de cenouras vazio”. Há uma interrogação”déc. 50?”. DE PONTA-CABEÇA TEM UMA ANOTAÇÃO: “DESCOBRI “PARECIDO”, EM 11/1996, “TAÇA DE CORAL”(ALB. oLIV.) [ O IVAN TEIXEIRA ME DEU TAÇA DE CORAL COM ILUMINURAS DA DÉCADA DE 10, ÉPOCA DE SUA REPRODUÇÃO NUMA REVISTA, SE NÃO ME ENGANO, “A CARETA”]
***** @ - Soneto
Essa mulher que eu canto e que conheço Inspiradora de poetas mortos, Mulher que choro, sempre quando aceno <<<<<<<<<<substituir a linha, cf. nota ou pent. Ao pensamento que me deixa, -- e embora
Eu pense que é uma Hetera é abencerragem, Danaíde das vísceras efêmeras: Eliminando adúlteros espôsos, Hemoglobina, vasos e a pletora,
É sempre uma mulher que eu canto e encerro No fundo de meu ser, não sei bem onde, E mesmo duvidando que é uma hetera,
Eu a venero e a canto, venerando-me, Embora ela me diga entre soluços Que é inspiradora de poetas mortos.
( 2 horas da tarde de 31/10/51 )
***** @ - VOCAÇÃO DE AMOR Me deste uma rosa. Peguei. Tinha cheiro de musgo Molhado de lágrima rôxa. É a fase da fase Do musgo bem quisto. Da rosa não quista. Me deste mais tarde ( Na fase distante da fase da rosa - da rosa distante!) me deste Um musgo de quisto. Peguei Tinha cheiro de rosa Molhada do orvalho da bôca Que fala no perto. 4/5/52
***** @ - poema.
Um par de sapato andando Quebrando a noção de par Como borboleta iludindo pupilas Absortas nas asas de camêlo Eufórico, antidigressivo, mesmo bêbado. Tóc-tóc na calçada. Um par de sapato andando. Um na frente. Outro atrás. Sem oaristo. Grotêsco na solidão. Um par De sapato sem nada, andando Na calçada sem luar. ( Onde pode é [ riscadas as palavras ] Como pode um par de sapato Assim, idiotas, caprichosos, polarmente, Caminhar na calçada sem luar?)
Um par de sapato andando Sem gente sem ninguém martirizando O ritmo e nem porisso poéticos. Um par de sapato assim Monótono embora ninguém. Em cima nenhuma perna Nenhuma orientação de sonâmbulo. Mas, só o pêso do caminho percorrido. Só o chute reprimido, recalcado contra a janela [ palavra dereta] burguesa indignando A janela na madrugada convidando o chute. O baque. O pum. Depois tóc-tóc-toc, Fugindo. O grito, menos do sonho coincidido ( onde o incesto quase se comete Entre um gole de guaraná e uma pulga.) O grito mais da janela Na desincumbência aterradora Antes do cansaço do toque Tóc-tóc na calçada.
Que vale a visão O sedativo da pálpebra, Se a hora é absurda?
Um par, um Mundo no Tempo do silêncio, onde Um gato assusta o passo E o tropeço vale onze Quedas na pressa, mas Apenas dor, lamúria Vento ou antiespasmódico Quando o pensamento evita. Ah! Pegajôsa! Ah! Enorme, Irreal, frase fabulosa no ouvido! Escuta: é o imemorial do sexo. O gosado, o nexo mais o saxão no saxofône Da dança mas corpos parados.
A solução é abrir a janela. [ no cantinho a folha escrevi City of Santos [e desenhos retangulares ]] Mas solução contra-solucionada [ frase [Alguém não tem coragem] riscada] Falta ao alguém o afã O alcalóide ou a esperança mágica Que lhe suma as listras do pijama. Ah!, vagaroso! Depois, Na levitação da pausa No [ claror [?] ] [ chorar [?] ] da coloração do vago No ebúrneo, no susto, no grito cruzando o esôfago, No coração cariado já na boca, - Ninguém, ninguém, ninguém suporta o olhar amassado da rua Clamando chôro, festa, alergia. [escrevi alergia mas me parece alegria]
Um par de sapato andando Enormes, capricho, vulto De Chaplin que vem chorando Antigéstico, pés no asfalto. Sossôbro de rugas premeditando Aura do riso, a rosa solitária Vergando os postes no último tóque: E há um gesto soluçando fraterno, Mas nas ruas desertas predomina A repulsa, a eletricidade. [ Aqui no cantinho desenhei um casal conversando, plano americano]
Um par de sapato andando / Pálido não carregando/ Humano nenhum / Que importa o desamor, / a solidão se o [sozinho é híbrido / de noite e estrela sem manhã? / Aqui, na espera marital, As pálpebras operam, operam E só de leve descansam E só de leve descansam, pulando no caule interior. Antes até do abandono Total [ expressão pode unir riscada ], podemos unir dois santos Além de moleculares ótimos: E eles não se beijam: e eles não se beijam. E até uma hora deviam se matar: E êles não se matam: fingem brinquêdo
Na madrugada o sapato andando: Que vale a visão, E o sedativo da pálpebra, Se a hora é absurda? Se o pesar é de todos? Se o susto homogêneo fecunda desamor, Preguiça muito catástrofe? (12-7-51, faj)
***** @ - CRISTO VIRIL
O amor transpirou a Graça oclusa reclusa inconclusa. Foi como sangue abandonasse antipatia de pedras, eram duas, que barram a vista à história, e amigas.
Mas dessa fusão calcárea, (Sorrisos entrechocados de antagonias nervosas) talvez nascesse, como nasceu, a visão terna, açucarada, do gesto nascituro anunciando padrão de força ao Mundo, abolido das complacências sem noção de afeto ou intuição de rancor: irmãs, e abolindo a si, que desvanecido o era sem semente.
Somente um defeito revestiu tamanha beleza pureza: o de sim ou pseudo imperícia lírica que o dividiu entre severo e silencio. Contudo, outra feição mais límpida, não dele que o olhar opaco era redoma de um capricho sempre de uma hereditariedade gasosa, mas do proximo, e todo o proximo lhe incutiu o prazer de amar sem ciume.
Porisso ele medrou e a ele a Graça Lubrifica o aspecto vegetal de flor que nasce de humano prado não e de sim pedras simpaticas a rolar no despertar do amar ante pedras antipaticas. Florivaldo Menezes – Em 28/I/53.
***** @ - Meu “Círculo Vicioso”
Trêmulo, o rato tartamuda ao ver o gato: “- Pudesse eu ter a astúcia e o fôlego eminente Do vil felino; certo a fúria do insolente Se extinguiria.” E ao ver passar o cão, o gato:
“- Quisera ter do cão o instinto imediato; Verter-lhe-ia em cinza a cólera demente Que me lacera.” E o cão, ignoto quando sente A sombra do homem: “-Céus, que dom, que xis, que fato
Existe na transmutação do ser temido?!” O homem, filosofando em lúgubre gêmido Redime-se em duas simples sílabas: MULHER”.
Esta, na renitência excêntrica do Tudo, Reprime a voz por um barulho surdo, mudo, De um miserável rato, que nem vê sequer...
( Florivaldo Menezes, 1953? 4? )
( Alexandre: conforme prometido, minha paródia do soneto de Machado. Acho que é uma besteira bem “arrumada”... Enfim, vivemos ( verbo no passado ), vivemos ( verbo no presente )... Abraço na amizade de meio século virgula vinte! S.P., 28 de junho de 2004.
(FLORIVALDO)
( CÍRCULO VICIOSO
Bailando no ar, gemia inquieto vagalume: “ Quem me dera que fosse aquela loura estrela, Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!” Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
“Pudesse eu copiar o transparente lume, Que, da grega coluna à gótica janela, Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!” Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
“Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela Claridade imortal, que toda a luz resume!” Mas o sol, inclinando a rútila capela:
“Pesa-me esta brilhante auréola de nume... Enfara-me esta azul e desmedida umbela... Por que não nasci eu um simples vaga-lume?” (Machado de Assis, in “Ocidentais”) ) Colocado aqui nesta seção de meus poemas da déc. 50 por causa da paródia supra.
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@ - ELEGIA ESCURA
Todos os dias são importantes na vida dos enigmáticos, pois eles carregam o ramalhete ofertado para a festa dos encontros Não me intimido, nem vos intimideis, com seus crepúsculos mas com todos os jeitos: o aperto de mão calcáreo, a fala no trampolim, o amor dos olhos barulhos e essa mania de morrer encostados em todas as ternuras...
Todas as Vezes são rituadas no afago dos enigmáticos (afago desastre afago delícia), pois eles, ao invés de retalhar o coração, dançam, no périplo das cortantes estimas, uma pavana vã, o ar avantajado apenas pelo pizzicato das pausas.
Todas as Mortes são importantes na decoração dos quartos dos Enigmáticos. E o pior, o flagelo, o dilúvio de pedras insolúveis Imastigáveis inassimiláveis incrustáveis [ acho que quis escrever inincrustáveis ] é o coro de seus silêncios: pois quando todo mundo se descabela, eles, os Enigmáticos, se despedem miméticos e anti-eufônicos para a viagem de outras clarezas. S.Paulo, 18/8/53
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@ [ Soneto em endecassílabos]
Se acaso, Manselda, nascesse do fado Medievo castelo de sombras janelas, E o pulcro talher que, durando na tela ( da ceia cordiana ), engolisse o passado
E a casa, Manselda, que abriga os achados Felizes, que o vento encrustrou na lapela Das vozes quebradas, em onde favelas Assentam memória no espaço rezado
Deixassem agora, Manselda, as fazenças Ocultas e lerdas (mas não perdoassem Do olhar a atonia – e o ouvido o escorrega)
- Então cantaria essa roxa refrega De molas e mel de mansão que falassem De um canto de morte, de lesa-esperança.
SP., 27-6-53. NOTA DE 29 DE JUNHO DE 2004, QUARENTA E UM ANOS APÓS HAVER ESCRITO O SONETO, QUE ESTÁ PUBLICADO EM UM DOS JORNAIS DA FACULDADE DE DIREITO DO LARGO DE S. FRANCISCO: é UM CASO DE INTUIÇÃO REINFLUENTE ( V. MEU POEMA DOS “TRÊS INSIGHTS NA VIDA GLAMOROSA (sic) DE EUSTÁQUIO PARREIRA” -, v. catálogo da segunda exposição nacional de Orlando Marcucci, junho de 1983) : um passado concebido antes, para justificar um presente bem depois, estranho... como naquele poema em que desenhei o casal Eustácio Barreira ( ele e a mulher, Dora, sem os conhecer!!!, v. o catálogo Exposição Marcucci ). INTUIÇÃO REINFLUENTE DOS MOVIMENTOS DE POSSE DE TERRA POR PARTE DOS “SEM TERRA”, POIS DESPONTAM: - Pulcro talher. - Engolir o Passado. - Casa abrigando os achados felizes. - Favelas. - Assentamentos ( “Assentam memória...” ). - Fazendas ( “... as fazenças / ocultas e lerdas (incl. Acresc.). - Roxa refrega, canto de morte, lesa-esperança etc.etc.etc. ALÉM DE UMA APARENTE – E TALVEZ VIÁVEL – ESCRITA AUTOMÁTICA, SUBJETIVISMO SEMI-MEDIÚNICO E O MAIS, EM UM EXERCÍCIO DE TÉCNICA MELOPAICA DENTRO DE MEUS VINTE ANOS, PODE, HODIERNAMENTE, SERVIR DE HINÁRIO PARA O M.S.T. ( 29-6-04 ) - Quando explorar esse fenômeno de intuição reinfluente ( e umparataxe de parataxe...) , não esquecer de evocar aquele genialíssimo e estranho fenômeno da crônica “ O AUTOR DE SI MESMO”, de Machado de Assis, publicada n’ “A Semana”, em 1895)
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CANTO DE ORFEU À ÚLTIMA BACANTE (Para Maurício Tragtenberg)
Em teu banho exterior (em que aproveitas a chuva de alcool) surpeendes o convite de Quem? De Quem o faz desconfiado.
Não se trata de forma êsse formato áspero de anuência. Em teu banho exterior aproveitas, vasilhame incalcável, o descuido do conteúdo claro e frio e ambíguo como um banho de alcool. É simples.
Em tua reação romantismo (em que procuras a espera) talvez nunca aceites o convite. Mas olha, Mulher Fímbria, apenas anti-órfica, ao escondido de suas dobras, como sanfonam os cantos de milésimos, as fósseis de elegia, que ressucitaram de Amor: Em teu banho de alcool mudas apenas a côr do afeto. E morrerias de gôso (inédito) se pudesses sorver, absoluta, essa chuva missionante.
Em teu banho exterior em que aproveitas a chuva de alcool Ah! Não aproveitas... Unificas (Sòmente) a temperatura. E o Amor, terno de ser tão terno, e poucamente esperado, mais agrava: e a chuva de alcool então se logra, e apenas, mas não chora a perda das sensações, a quente e a fria.
São Paulo, 21.9.53
[ Abaixo do papel, escrito à mão, falei o seguinte ]
A realidade das Bacantes é (e sempre será) um fenômeno sócio-histérico [sic] de reação à Poesia. Em nosso tempo, se tivesse o equivalente que sua natureza hermética abomina (o espacial), pois vem funcionando em sentido das “delegações forçáveis” (1) , que visa a eliminação ou a existência liberta do nexo subjetivo, isso se daria em têrmos de Indiferença. Há, simplesmente encontro de duas energias: a da mecânica do Poeta e da mecânica da Insensibilidade – essa resultante da inèrcia esotérica [ grifei triplamente a letra s ] que dá sempre (vire)
(1) V. meu estudo sobre a poesia dodecafônica de CANTOX DE TUMENIOS
(virado) em exoterismo [ grifei triplamente a letra x ]. O caminho da solução tem de se efetuar por processos exteriores: o banho. A reação, que vivifica [sic] a essência, tem de se efetuar por um elemento ainda daqules processos exteriores. Simples material poético, mas com função especulativa. Orfeu usa a chuva de alcool. A escolha de certa forma, é feliz pela independência [INTERROMPIDO. OU FALTOU UM PONTO (.)?]
*** FRAGMENTO DE ENLECLEUZA
A baleia morreu afogada na superfìcie do Mar. Enlecleuza morreu de gôsto na superfìcie do Amor.
Embora no fragmento, Enlecleuza mulher outra, Extinto (o mundo) resiste. Perdure no anseio como no semáforo: a sempre rosa pássara ligando o ponto, no oceano, à mais grave tentação.
Mulher sem tacto, Intacta no camafeu -- com toque , não lembra o afago, -- no afasto, reduz-se a torre.
A baleia morreu precipitação, iludível superfície! Enlecleuza morreu superflua mais inteira do que embora embora no fundo bela.
Depois, depois, Inominada, quando desperdiçares o gesto sem fisionomia, induza a lágrima à percepção menos a qual, oh, desgraçou a festa, as paredes e me. Abril - 53
POEMA EM RODA DO PEÃO (Docomento dadaista pressentindo o advento do surrealismo) Florivaldo Menezes
Do colo do jarro nascerá o poema quando do rompimento da paisagem que atrai a pedra através da janela pois a orelha é desenrolada como uma passadeira à frente da Casa por crianças arremessando crianças mais livres, inconstantes nessa pureza de fel das grades que só impedem a Voz, contorcida em cólica trincando mensagem agem agem. O papel branco terá impressões de dedos apoéticos. Iodo no peão a perna sem pêlos travestida na córnea, cone, pupila roda mãozinha dos prazeres, palma, o lapis inconstante a primeira frase envergonhada Mas dos meninos imorais germina o poema: Vêm dêsse cerebro O AVÔ E A AVE VOANDO Passa de mão, fatal lençol é raciocinar A CABEÇA DAQUELE CARREGA OS OLHOS PARA CIMA O lapis desenvolve no vento dois testículos inocentes NO AR MEU BALÃO QUEIMANDO A alma outra alma espreita podem braços cruzes do corpo desmedrar AI COMO É TRISTE A VIDA SEM TERRA Os três movimentos do amor são desarmonia, desastre e desenho ENTERRARAM MEU CACHORRO COMO SE ENTERRASSEM TERRA O poema se fortalece Ganhando anos nêsse minuto (jovem) E A FLOR QUE A TIA BONDOSA COLHEU ACABOU DE EXPLODIR SOLTEIRONA Por fim o último menino perfura os olhos da nuca com cotoveladas ESTÁ PÔDRE O CORAÇÃO DE MINHA MADRASTA MEU PAI LHE BEIJA A BOCA, E O VEJO ELE SE AFASTA COM ESSA MINHA CARA Mas não é não é desespero Essas mãos girassois amarelos com unhas cheias de azul pastoso Imantados para o ceu terreno de molas para o amante de mortes O poema cresceu mas não não é crueldade essa postura de garrafas que após a festa dissolvida pelo nojo, alongam o pescoço E as letras do rótulo formam frase para a alma. (Setembro de 1954) S. Paulo
***
O BEIJA-FLOR
Corola, segura de si mesma, prendeu o beija-flor: pólem depositado com o frêmito (galvanizado) de quem põe fora o fígado em forma de rosa delegada, e não rosa, mas rosa: - beija-flor nunca é algo! Quando para no ar Se apoia no suspense de uma consciência alheia que sustenta universo mas sucumbe Ao leve abano das asas do beija-flor : porisso ele vacila E, periódico no vácuo, se eleva, E enerva, e talvez entrega o pólem. S.Paulo, 6 / I / 53.
MOR GENEALÓGICA
[ Nota de 04-8-2004: “ligue” este poema, de12.2.54, a TEMA EXISTENCIAL FALIDO, de 20/1/53. Por outro lado, associe este último ao problema do RITMO, filosofado em “CANTOX DE TUMENIOS E A POESIA DODECAFÔNICA”, de 53, por aí, e evocado como princípio da geração da MELODIA (que desenvolvo nas bulas de várias poesias, procurando estudar a melodia árabe – veja aqueles VHSs da TVA, Canal árabe) ] Portanto:
MOR GENEALÓGICA
Sòmente depois de morto (apenas não para todos) vi através das pálpebras, fechadas, o mundo em todas as côres.
Interessante é que também não era nítido. Mas era em todas as côres.
De um lado a Catedral repleta por fora, mas dentro apenas a Grande Habitação de outros habitantes, e que habitantes! ai! cantigas de habitantes que me exoneravam dos ressentimentos: - e eu sepultava as Grandes Famílias.
Por outro, a Odiosa Casa dos Bons Sentimentos pesando plasmando o teto e o teto se transformava em chão, que humilde baixava aos meus pés que entremeiavam danças pulos à interdita maneira das mãos: ah! havia nos Pés um ânimo de aperto. (As mãos não podiam andar por causa dos Bons Sentimentos).
Interessante é que também não era nítido. Mas era em todas as côres.
Mas aquém das Casas e das Catedrais, antes do hálito e da ofensa, morei como todos moram, limitando-me à forma e ao som: sòmente não era nítido porque Alguém não se repetia, e a Vida se repetia e a Morte se repetia.
Mesmo depois de morto não entoei a grave cantiga ao ósseo limite. O mal foi esse. Ou talvez um Bem exagerado. Ai, cantiga exagerada: pensei que morrer era festa Sedentàriamente azul.
- No afago menor, transcende o tecido de úmida espera a pétrea afeição. Repete-se, embora, o respeito dos beijos O de Cima estende a face Comprime-se o plano das Casas as ruas não levam a Nada entorna-se o Chão contrito, ai limite! ai limite! só cantiga de limite menos nítido. Só mais cores. 12.2.54
***
A SEMENTE DA SEMÂNTICA GE- MINADA AO NÍVEL DA PA- LAVRA SEM ENTE.
a semente da semântica ge- minada ao nível da pa- lavra sem ente.
asementedasemânticageminada ao asementedasemânticageminadaaoniveldapalavrasemente. asementedasemânticageminadaaoniveldapalavrasementedoisbilical
umbilicaldoisbilicaltrêsbilical
umbilicaldoisbilicalmente.
umbilicaldoisbilicaltrêsbilicalmenteligados.
***
Anti-Clássico
Madona, amadureça o sorriso depois venha me dizer quem lhe avisou a beleza que existe atrás do sorriso
Verá então que eu lhe disse que é melhor a gente ficar pálido quando o sorriso é só risco desviado apenas curva.
Sorriso exige quatro olhos Eclipse abissal de distâncias Supressão absoluta de panorama oscilações criptogâmicas depois: sorriso: Dieta de supresas Andorinha pousando no fio Que pulveriza o gigante mais esperando
SOLUÇÃO ANTI-SOLIDÃO
Vivemos emprestados E a vida sempre nos cobra, Cantox. Segue Um, e Outro após, O Tempo não vale juntos, Cantox
Se acaso lábios de zinco, Cantox, Arrepiam-nos o ouvido Com promessas de um Elástico, - Receba o afeto, se lave, Depois suicide a memória, Cantox.
Vivemos emprestados E a vida sempre nos cobra, Cantox. Siga Um, peça por nós: O Tempo nos leva juntos, E morre minuto após, Cantox.
S.P. , 9/7/53
1ª face do PARALELEPÍPEDO DE ALGODÃO.
Penso insensivelmente nos barcos esquecidos na maré dos aflitos.
Durmo comoventemente nos leitos inclinados da mansão dos esquecidos.
Aflijo-me maquinalmente no baile silencioso das crianças eróticas.
Afundo-me instantaneamente nos sulcos deixados pelo andar dos eufóricos.
Perdôo remanescentemente as batidas de todos os corações que sinto num só peito.
Mas, só me esqueço de tudo, loucamente, quando me aproximo.
S.P. – 13/8/53
***
Sou um vago no Ressentimento do mundo. Sinto mas não ressinto: O espaço é fundo.
Sei que moro no Agora de um simples mundo. Se fujo, dizem que minto As formas de que me oriundo.
O segredo existe em ser Um polígono rotundo. Virei o mundo ao contrário,
E apenas sub-subindo ( o espaço é fundo) Mudei pro mundo da lua O altar de Mim Rei do Mundo.
23 / XI / 52 (NOTE O ESTIGMA DE FERNANDO PESSOA – NÃO DIGO INFLUÊNCIA DIRETA PQ NESSA ÉPOCA NÃO CONHECIA PESSOA)
***
Olha como padecem as crianças que nasceram sob o signo do ambíguo: Veja como morrem de rir, asfixiadas fazendo a barba já antes da gravata.
Olha como rolam no chão esses homens, outros de si, furando as bolhas de sabão, Ouça dizer o que elas, arrebentadas, abalam o veículo desse futuro tão garridíssimo.
Veja como o homem chega à esquina: equilibrado, pundonorosamente vertical. O remorso, ou essa porcaria de vida, ou alguma Matilde É que balança. E ele vomita a orquídea, depois chora, e maldiz o álcool, se abanando no ímã.
Olha, ou sinta, assenta o cinto, Mergulha no asfalto, mas de cabeça flutuante. Veja ou apenas perceba quando só restar o ouvido mudado em cogumelos venenosos, como irritam essas criança periódicas querendo morder as amantes só porque são monstras definidas e estão passando baton na reputação
25/3/53
***
Que mal há em caminhar ao lado das bruxas de lã, se elas, na esquina do Medo, podem nos agasalhar?
Que mal há em seguir viagem, surpreendendo-as sem parar, se na ascenção dos passeios elas fabricam vertigem?
Que mal há em desgostar os inocentes que as matam, se a intimidade é por causa de lã que afaga e arrepia?
Que mal há em dormir debaixo de castelos que não pesam, se as bruxas de lã só imprimem nuvens em meu sonhar?
Que mal há em se tornar em bruxa de lã ou seda, se no Baile atrás da esquina nossa pele envolverá outros bichos menos madrigais?
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COTIDIANO
E o homem que tinha cara De louco varrido, brigou C´o jornaleiro na esquina Falando e gesticulando.
E sem denunciar a tara, Que no esgoto ele jogou, Disse com voz muito fina: - O sr. sabe com quem o sr. não está falando?
dezembro 51.
Não é sempre que eu posso falar com Deus. É preciso ter um corpo bem maciço, apolíneo, cheio de nervos, bem protocolar. Antigamente eu chegava a procurar êle no piscapisca melífluo das beatas. Hoje é preciso ou ser maciço ou fino, ou liso, branco, absolutamente submisso como uma folha de papel. (ou então ser um versículo de Claudel: procurar êle na egolatria do despreendimento) Hoje é preciso ter radar no pavilhão do ouvido, ser político, acérrimo, amaríssimo, trocar o verde-azul do sangue da esperança por glóbulos vermelhos, estalinizados. (eu vou pedir pra ele virar tais glóbulos em foice. Não é isso que se quer?) É preciso ter ordem de um pope deputado, é preciso sofrer de escoliose na reverência aos grandes marechais, é preciso seguir revoluções, é preciso esquecer as ladainhas, ser compadre, dar pulos de galinha, é preciso saber mais de uma língua, chorar em sânscrito ou em japonês, ou fingir como a torre de Pisa. .................................................... Não é sempre que eu posso falar com Deus. Onde está êle? nos quintais, no céu, na terra? em Roma? no Brasil? em Portugal? Antigamente eu achava êle no piscapisca melífluo das beatas, ......................................................... Notícia de última hora: Um diabético achou êle.
São Paulo, 2 de dezembro de 1951
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SONETO MUITO DESUNIDO NA PRESENÇA
Adeus, morte fibrada, parto. O achêgo Sómente agrega, e a intimidade agora Longe de ser a fase das minoras, Não sói, permite o beijo subterrâneo.
E êste, morte, por ter de inoxidável O êxito, mais ajuda a que nós (claros No medo viatório) mais percamos Essa desatação que mais pedimos:
Não clamamos de ti senão a estada Nas posições forçáveis de objetos Para sempre morarmos quando viajas.
(Ao pleno passamento dêsse afago, Só vale desatar fibras do riso Menos urdir do riso a Pausa. E acórdica.)
S. Paulo, 08/9/53
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POEMA DO ADOLESCENTE
Ouvindo um tanto argentino Em ambiente de brônzea compostura, Tango nas horas tristes de amargura Por que passaram tristes donquixotes, Em que pesasse do ambiente o peregrino Olhar de afrodisíaco lampejo, Eu disse aquêle que a mim me parecia Ter n´alma a decadência atônica Dos que têm teias de aranha na garganta: “Como é triste recordar!” Depois eles me olharam surpreendidos Pela audácia de um perfeito robinsonismo Que eu trazia Na suscetibilidade de menino. -“Menino de alma grande e olhos pequenos De que vale o lamento dos apátridas Do espírito, se a vida é acolhedora E não deserta antes do tempo?” .................................................... Ouvindo o tango argentino, Anfractuoso como a própria vida, Me parecia ouvir: “É absolutismo de rapaz mimado.” Idéia que eu afugentei violinossuspirando, Parecendo sentir a estremeção atávica De um sustenido intruso que zombava Do menino que não se casaria E morreria viúvo
1951 - Tradução de um poema de juventude de Arnegão de Panariz.
*** BALADA DA ESTATUA VENERADA
O grito que eu vi saindo Dos lábios da estátua núa É o lamento da virtude Que a estátua traz no bolsinho Do vestido que teria, Se eu visse a estátua de dia.
Os lábios que eu vi cantando Absolutas monodias Baladas do rei perdido, Das rainhas dissolutas Cantadas na grã vigílias (Perfunctórias ladainhas Nos lábios da estátua núa) Hosanas sempre seriam, Se eu visse a estátua de dia.
As preces que eu vi fugindo Dos lábios da estátua nua, Da flébil sensaboria Na incerta peroração Correndo para o infinito Dos porquês transcendentais, Clamando aos deuses de barro Dos olhos sempre de cera, - Cantigas de amor seriam Da Messalina imortal As preces que eu vi fugindo, Se eu visse a estátua de dia. ............................................... E a mudez que eu vi parando Nos lábios da estátua núa, E a nudez que eu vi forçando O corpo da bela estátua, E o nada que eu vi cobrindo Os nenhuns da estátua núa, E a extática empernida Como a que vejo na lua, Enfim toda a proporção Da estátua que eu vi na estátua, Seriam grandes Verdades Reveladas e vizinhas Das caladas primitivas, - Se eu visse a estátua de dia, No tempo do iconoclasta Que no meu ser se escondia.
S. Paulo, 6/1/52
***
SONETO DE NATAL
Já fui pobre, fui rico, já fui sábio, parvo das Eras, rei dos reis já fui: medianeiro do Cronos, fui perversa cobaia entre o princípio e o fim de tudo.
E na incompatibilidade atávica, do riso fiz lamento e da risada o modo de um gritar incongruente; da lágrima um sorriso, e da lumúria
um meio de alegrar o que não fui... Mas no Natal não sei que fôrça diva análgica me torna a intemperança:
pois estou triste – choro, alegre – rio-me, se só, me multiplico e se êle nega-me suicido-me pensando em Carnaval. 1951
*** NOMENCLATURA Ambição ia passando, Vestida de transparente, Com sapatinhos de prata E o homem chamou: - Tereza! Ambição virou brinquedo, Pulou, deitou, se arrastou Virou sapato do homem.
Egoísmo ia passeando, Cismador entre dois sexos, Com uma armadura no peito E uma saia de veludo, E o homem chamou: - Antonia! Egoísmo virou chumbo, Pulou num bolso do homem E o homem anda inclinado.
Quando a verdade passou, (num dia de Carnaval), Nua, bela e sem receio do transeunte proibido, O homem chamou: - Joana! E lhe deu uma fantasia. Brincaram que se gostaram E ela não tirou a roupa No dia de Carnaval!
A paixão ia dançando Com cara de onze mil virgens, Se deitando na sargeta Se estirando para o céu, E o homem chamou: - Maria! Paixão virou bicicleta, Subiram por uma nuvem Foram ver cantar corujas Nas praias do Paraíso.
E numa tarde amarela De um dezembro amarelado Hilcreflência era a virtude Que o homem na rua achou Numa caixinha amarela.
(1951)
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Linda CAXUMBA:
Que artrose mais malvada, Espondilite! Parênquima de Sade? ou Glucasâmide? Pensei que até que fosse ter derrame de bílis em cima da colecistite.
Que histolesividade mais de elite! -bilirrubina! ó coisa mais infame! De haver que hauri-me de Elixir de Inhame custou-me sangue, suor e cefalite...
Parotidite é o nome da Caxumba com que te alcunhas ( anamnese infensa desse álveo colo à fímbria de um sorriso).
Sei quem tu és, mas levarei pra tumba se homeopatizares tua presença curando-me e perdendo-me o juízo!
(HIPOCÔNDRIO MALATESTA)
(data:?)
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A importância de não ser Deus
FINGI COMO A TORRE DE PIZA ROMPENDO A VIDA DO SEXO: ACONTECI SÓZINHO, MAS É QUE SÓ FINGINDO QUE A GENTE SUBLIMIZA
A ATROZ VONTADE DE VER-SE CONTEMPLADO, SEM SE PERDER EM FÔRÇAS CENTRÍFUGAS. E, UNILATERAL, SENTI FUGAS DO ESPÍRITO CORRENDO APAVORADO
DE UM SER QUE JÁ PERCEBO QUE É VULGÍVAGO: SE TEM A NATUREZA DAS VESTAIS, ME DEVORAM SEUS OLHOS SIBARITAS,
CATEQUISANDO-ME A ESPERAR, QUANDO SENTÍ VAGO ESPLENDOR ME SEGREGANDO NAS MALDITAS EVOLUÇÕES DAS FUGAS ANORMAIS.
Campos de Jordão Março de 1952 ***
LIMITE
Os limites da ação não comportam dissimulação.
O que transcende a face torturada, perene no arlequim da outra.
Os limites da ação odeiam dissimulação.
O homem, em si, termina no convite a outro investimento.
Os limites da ação enxotam dissimulação.
Badalada fúnebre na torre pode ser festa no ouvido.
Os limites da ação assassinam dissimulação.
mas no péssimo da fôrça paralizante e ousada o Absurdo não tem vergonha: o protético, duro, alcance, atormentado, carregar uma gargalhada no bolso.
S. Paulo 29/2/53
*** Entre chaves: pensamento mais recente
O trenzinho apitou: piuiiiiiiiiiiiii! (É o trenzinho que partiu) Menina carrancuda, chora, chora, chora (soluço-soluço-chora-chora -soluço-chora) menina carrancuda chora-chora, chora, chora Soluço. Soluço. Bota fogo, maquinista; bota-fogo seu foguista Bota fogo maquinista, bota fogo seu foguista. Pra lá e pra cá – soluço-soluço. Pra lá e pra cá Pra lá e pra cá: vai balançando pra lá e pra cá balançando Pra lá e pra cá: vai balançando o coração da menininha Vai balançando o coração pra lá e pra cá. Êle partiu. Fui pra Belém. Belém, belém, Ele partiiiiiuuuuuu!
*** CANTOX DE TUMENIOS e a Poesia Dodecafônica (fragmento de uma estética sem pés mas com cabeça. – 1953) FLORIVALDO MENEZES
Quando, nos começos de setembro, conheci no Rio de Janeiro Cantox de Tumenios, um negro asiático (sic), percebi, naquela apresentação que me fazia de sua poesia dodecafônica, um fenômeno que bem poderia denominar de inversão atávica. Um negro, asiático, que escreve poesia em bom português (pois ignora sua língua, que por sinal me foi velada) e que funciona sua emotividade numa expressão arrítmica, escolhendo sua maneira de dizer como quem sucumbe privilegiado, tudo me fez levar dele uma impressão dêsse avêsso de herança poética: estava efetivamente diante daquela “sonoridade futura”, de que fala Valéry, que é o eco de sua grandeza interior e que prescinde de tôda ancestralidade emocional – tendo-se esta também em sua expressão de ligação cultural. É a condição amarga da cisterna de roldana contínua, sem pausa, e que talvez não tenha em sua profundeza o fluir natural das águas, nêste caso material acomodativo, ou seja, a parede suplementar do Recipiente. Excesso de conteúdo funcional, escassês de conteúdo arbitrário, tradicional. Melhor será ouvir as palavras do próprio poeta, nessa carta, que recebi ontem (datada de 17 de setembro de 1953), em que me vinha ter às mãos o prometido naquêle encontro tão acidental quanto significativo. Preliminarmente, aqui lhe deixo minhas escusas por considerar obscura essa peça que me é caríssima e onde reconheço que a clareza seria uma estupidez imperdoável. “ – Sou negro mas não tenho ritmo. Tenho sòmente temperatura cerebral, pois o coração ( a válvula que me acusa exclusivamente o sentimento inédito ) sempre me foi atérmico. Ainda questão de voluntariedade. Já o ritmo é balança, respiração, escadaria, perna atrás de perna ( v. o NÚ DESCENDO A ESCADA, do Marcel Duchamp ), dinâmica assetinada das saias ( saias naquêle NÚ ), barulho dos calcanhares. Talvez no inconciente inveje o ritmo bodum, gordurento, o ritmo-suór. Questão de ancestralidade. Mas, bondoso e paciente amigo, no campo da ancestralidade não tenho parente de qualquer espécie senão meu pequeno tótem asiático, já decomposto em seu colorido que lhe dá à forma o sêlo de origem: agora, incolor, sublimado ( melhor diria: asseado ) êle me provoca a sugestão de que, despido de tôdas as cores, se torna mais hermético naquele canto aberto no meio da estante. Às vezes dança, silencioso. Não que não tenha ritmo por ser tótem, tabú. Não tem ritmo porque não tem mais côr. Porque deixou de ter camisa amarela, turbante amarelo. Porque desprezou o barulho visual de sua herança. O meu amigo tótem me gritou um dia dêsses que só usava o coração quando pudesse pintá-lo de sua côr natal. Pediu que notasse bem isso. E nessa poesia que modestamente me proponho inaugurar a côr tem uma significação impressionante. Despreza a psicologia do cromatismo, pois o instinto passional dêste lhe tira a função mais genuína. Mas, desde que adquiri meu amigo tótem, adquiri, como atributo irrecusável, a conciência dessas “delegações forçáveis” que são a medula da nova poética, e de que falarei mais adiante. Por ora, devo dizer que talvez tenha tido, de forma inconciente, como ponto de partida para a nova forma ( e que jamais tenha um único adepto ) a visão daquêle casal que supreendi num ônibus e resolvi “auscultar”. Conversavam centripetamente, dentro das aproximações aniquiladoras, detestáveis: as aproximações da Lírica milenar, expansiva, que contraria o platonismo mais bem intencionado e que nunca chegou a ser mais que o “ sublime rancor” do siracusa. Não havia contemplação: necessariamente, havia afeto barulhento, desproporção de esperas, engulimento dos objetos mesmo os mais sardentos – fornecedores do tédio afetivo. Em conseqüência: amantes tradicionais, históricos, líricos... (Você) (riscado)... o bondoso amigo vê que isso tudo é uma volta que nada mais possibilita poesia. É preciso ser enérgico e delegar-se aos animais, que nos fornecerão o campo de amores onde uma nova religião de castas nos tire a vergonha: homem animal religioso de castas, que se desavergonha – futuro pôdre ( único meio de eu não ser teológico ) como única forma de evitar o presente dos homens. Por hoje, basta; veja se compreende melhor pela “adoração” : tôdo movimento novo é adoração:
Nº 1, de minhas “ESCANSÕES RENOVADAS” :
Ó meupo vosemsé semsombra ja nomeiodaca sadosommenoso ritmoeternoemboraeu sucumbapausaondeofo legolegatristeliricáos quindapensamnoafetoemmovimen tovémparaaplaniciedorimanta dodadeusadiuturnadoanimalsubli me- doda deusa diutur nado animal subli-mé Me ébem nossamú sicaempresta dàcabrapoissó doandonossocan to aosseresbichosquesim sãosóbichosquesónãoné gamavidatodasónãoné... etc etc (serve como amostra)
Decompondo a estrofe, dela resultaria essa composição tradicional do verso moderno:
Ó meu povo sem Sé, sem sombra Já no meio da Casa do Som menos o ritmo Eterno, embora eu sucumba À pausa onde o fôlego lega a triste lírica Aos que ainda pensam no afeto em movimento, - Vem para a planície do ar imantado, Da deusa diuturna, do animal sublime (“Mé” é bem nossa música emprestada à cabra, pois só doando nosso canto Aos seres bichos que sim são A vida toda só não negam...
etc etc; versos que não encerram o valor poético em linguagem digna, digamos, em nossa terra de um Drummond, ou dêsse mais apropriado, caudaloso e elegíaco Vinicius de Moraes. Mas, como lhe disse acima, é essa poesia o alento dos poetas mais do nosso tempo, que preferem dizer sem ser percebidos senão por si mesmos e por quem se digne retalhar-lhes a intenção seccionando os sons representativos de sua querença: em suma, posição ontológica, sêr que se coloca fóra dos outros homens, para permanecerem eternamente incólumes em seu querer natural, até que outras amantes-vontades venham anavalhar-lhe o regaço, para também morrer bebendo de seu húmus mais fogoso de ser vivido do que de viver. Se o homem falasse emendado, jamais se compreenderia. É o silêncio ( pausa ) o cansaço da vontade – que nos transcende – que algo tem de ser nítido em nós, mas jamais uma idéia nossa de que precisamos parar para que o próximo nos compreenda. Não. Penso que as coisas valem por si e jamais seriam maleducadas a ponto de interferirem em nossos gritos, mesmo que se ache estúpida e gratuita a noção de que às coisas se possam atribuir tais qualidades. Entretanto, tudo se trata de uma questão de posição: se o homem se põe existencialista, começa a se estabanar ( falo ainda em “falas” ) como indivíduo negador de tudo que não interfira em sua vida – porque êle tem nojo do fenômeno da extensão e odeia tudo que não existe: daí o seu “cantar que é existir” ( como queria Rilke naquêle soneto rancoroso ), cantar amplo, pretensioso mas inseguro porque tôdos o compreendem ao mesmo tempo; se êle se põe essencialista porém, êle tem que pedir com vergonha e sem vergonha concomitantemente; êle tece, em seu mais fundo, uma vingança que independe do vingado, porque é uma invenção retalhada em sua essência, i.é. , não há mundo capaz de suportar seus acontecimentos sem que passe pelas criaturas dêsse mundo um frêmito que é como se fossem viver tão só pela paixão do cérebro que os concebe. Se você mediatar bem, verá que
(Interrompi a “invenção” desse tipo de poesia em set. mesmo, por achar inautêntica) F.M.
- Seguem notas de pesquisas da época, 1953, sobre a aplicabilidade das teorias da música dodecafônica, apud René Leibowitz, à pretensa poesia dodecafônica. Mas: (...) "Se não for dificuldade laica de minha parte, [ ISTO ]está me parecendo com aquela minha proposta de poesia dodecafônica, de um poema meu de 1953, "CANTOX DE TUMENIUS E A POESIA DODECAFÔNICA" , engenhosa mas fantasiosa, interessante apenas e por aquela época como possibilidade teórica, uma esquemática falsidade na transposição dos gêneros (música >>>>>literatura),que eu havia pespegado do livro/plataforma do René Leibowitz sobre música dodecafônica. Aquilo tudo para desmilingüir a melodia, uma decupagem da sintaxe para, na cesura autoritária (diria arbitrária, ce(n)sura) dos versos, "confundir" o sentido, através de um espaçamento desfigurativo, que era o dos intervalos das alturas ( no meu poema uma cesura desfigurativa que jogava pedaço da palavra para junção com outra. O meu ouvinte ficava atônito, escutando grego (sem trocadilho conceitual ! : há lá frases ilusoriamente gregas... sucumbàpausaondeofo(...) tovemparaplaníciedoarimanta), mas que era um didatismo do princípio de que uma nota só podia ser re-tocada (e, às, vezes retocada mesmo!) após o uso, nas frases musicais, das 12 alturas. Mas meu leitor, lendo e desprezando o som, pegava todo o sendido, a sintaxe se reaglutinava após o VERSO DE UMA SÍLABA - VERSO DE DUAS SÍLABAS - VERSO DE TRÊS SÍLABAS [...] REDONDILHA MENOR (5) [...] - REDONDILHA MAIOR(7) [...]-DECASSÍLABO- ENDECASSÍLABO - O DODECASSÍLABO (o ALEXANDRINO) ... (VOLTA PRA UM, DOIS ETC. ETC.).
Gonçalves
Dias já havia feito um´longo poema com estrofes de todas as
estruturas de sílabas, muito engenhoso, compatível com o tema, vou
localizar. Mas não "desfigurava" o sentido imediato do entendimento.
Voltando ao meu caso, havia um humor anarquista ( gozado, acho que
não há uma linha ou desenho, ou figura, ou que quer que seja que eu
tenha feito, que não tenha esse senso de humor cético, quase uma
declaração de princípio de que Arte é uma brincadeira...MAS TALVEZ
OS GRANDES ARTISTAS MESMO, UM BEETHOVEN, UM RAVEL, UM HITCHCOCK
TERIAM CUSPIDO NESTA MINHA AFIRMATIVA... DE IMPOTÊNCIA, TALVEZ... E o Alban Berg com a ópera Lulu, que atribuiu a cada personagem, de acordo com o timbre, cada uma das séries da escala dodecafônica, apenas para uma convencionalização, mais ou menos similar ao meu falso “ Ó meupo vosemsé semsombrajá...” ?***
TEMA EXISTENCIAL FALIDO
Me suicidaram domingo descanso dos homens. Morri morte do ritmo, embora adrede morressem por mim visões de vida de ritmo na anamorfose não visual mas da ceramica do coração. (Segunda feira ressucitaria no ventre da mulher do polo. E o lamento dos velhos é sempre consagração.) Deles nasce o embalador estrabismo sublinhando a normalidade do mediterraneo prazer da inspiração que mata. E reside na haste da flor – esôfago onde o beija-flor é um soluço persistente como a memória que o percoço da Rainha do Sabá guardou da bela tiroide. E eu que sendo flor, a beijo, e eu que sendo haste, percebo na oscilação da Morte o favor de todos. Porisso sou o que nasce e favorece a ideia das vindas. Parando, fruo, mas defunto me gasto. E suicidam (porque morrem com ele) ao homem que é sugestão vertical de um ornamento que decora a propria morte, e eu a sou. Porisso me bebem, saudando quem sucumbe ao ritmo, pois ritmando se embriagam. E a vida é ritmo, ritmo, ritmo. 20/I/53 (Florivaldo Menezes) [ Nota de 04 de agosto de 2004: acho simplesmente horroroso isso aí, sem noção de ritmo do verso livre – coisa que eu de certa forma dominava, v. em outros poemas – com idéias fortes, temas inusitados, mas esdruxulamente desenvolvidos, muito parecidos com a estapafurdeza dos poemas que o grande pintor Orlando Marcucci perpetrou na última década de sua existência. Eles estão comigo, para que eu os coloque no personagem do poeta .Arthur de Oliveira, precocemente morto, um estimadíssimo, amadíssimo ser de Machado de Assis: Orlando será um “drammatis personae” de Arthur de Oliveira, no meu conto sobre o incesto de Machado de Assis, onde vou desenvolver aqueles temas do incesto mediante ódio à filha, que traz o alheiamento, a desfamiliarização etc. etc. Mais: aquele problema do cafuné na vagina, um lulaby manipulado, digitalizado sonhadoramente ( com linguagem imitada de Machado, para dar ibope, como diz o didascálico crítico Ivan Teixeira; somado à tese “da garganta por onde passa a cerveja passa o vinho” , ou algo parecido, confronte as anotações que fiz à lapis no livrinho do Mário da Silva Brito sobre Oswald – ou está no de Heitor Martins?...) OUTRO ASPECTO: tais insensatezas poéticas – não confundir com o às vezes notável “non sense” – no meu caso, em meus vinte e poucos anos, eram fruto de uma imaturidade formal de assimilação de Drummond como se esse fosse um surrealista, um mautréamont de subúrbio de grande urbes. Ao passo que as degenerações poéticas de Orlando – e em tais degenerações, que tomo no sentido etimológico, em acusar o gênero saindo dele, há inúmeros casos de concepções de imagens nunca vistas, de um outro mundo, causando medo, um medo metafísico de não se saber de onde vêm, como uma alma nascendo ou se extinguindo de sussuros de Lautréamont!, é muito pavoroso! – são típicos de Pintor ( ou qualquer outro artista, mas principalmente Pintor, quando fala, explicita, doutrina sobre Poesia, ou fá-la (sic), enfim daquele que sai de seu código natural (Pintura)... Veja, no Brasil, os casos (similares aos de Orlando) dos enormes Sacilotto, quando falava sobre Música, e do Fiaminghi, quando falava sobre Poesia... embora aqui... não sei não... QUANDO EU DESENVOLVER ISSO NO TEXTO TRONCO DO LIVRO ( ÉSTE É , NÃO SE ESQUEÇA, SOMENTE UMA INTRODUÇÃO, SEM CAPÍTULOS, QUANDO TERMINA A INTRODUÇÃO, TERMINA O LIVRO, TENHA ELE 800 PÁGINAS), NÃO DEVO ESQUECER A TEORIA DO ORLANDO, QUE BATIA COM A MINHA, DE QUE A LINGUAGEM DO PAINTBRUSH ( V. MEUS OITENTA E TANTOS DESENHOS) É INERENTE A PAUSAS E CORREÇÕES, COMO UMA PINTURA ESCRITA A LÁPIS E BORRACHA, PORTANTO NADA A HAVER COM A PINTURA...
Veja, como disse logo acima, os casos, no Brasil, similares
aos de Orlando Marcucci, dos enormes Luiz Sacilotto,
to be continued
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