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Pois
ainda estou fabricando meus rabiscoxos de vida toda numa
Numa noite de 1990, revolvendo as pastas que abrigavam, por muitos anos, sueltos, ou mesmo peças integrais, do que viria a ser o “grande livro de minha vida”, eternamente prometido por mim a meus amigos e familiares de uma maneira quase mística, para eles um sortilégio, mas que às vezes soava a mim mesmo como uma mistificação, li, reli, meditei, e acabei anotando na capa de coisas das décadas de 50 e 60:
“Nada que preste Revejo, hoje, pela letra, que fui sincero e acho que chorei. E confesso, com toda sinceridade, que, embora tenha saído “odiar”, tal inveja jamais se apercebia como o que se pode chamar de complexo de Salieri: sinceramente não me julgava um fiel servo desprotegido que lamuriava um valdevinos bemsinado pelos deuses. Mas uma inveja até altaneira, que não se usa mais, como esse próprio adjetivo, inveja de coisas simples mas luminosas, de quem não bate no surrado, a simplicidade que pode estar à mão de qualquer um, entretanto reveladora, realmente epifânica, para mim sempre esdrúxula. Inveja de quem, no fundo, não quer competir e, no fundo-no fundo, tem o dom de apreciar, mas também a esperança de que, na hora que quiser, também fará igual. Elegante, mas puro jogo do inconsciente, pois essa a inveja que mata, e que naquela noite resolvi abolir, como uma salvação da alma. Dou nome aos bois, sem ordem cronológica: Por exemplo, ser o autor do ZEN, de Pedro Xisto, talvez o maior milagre da Poesia Concreta tipicamente falando, y compris toda carga de postulados da escola. Ter sido iluminado pela bíblica enunciação do (...) Bandeira, poeta menor, tão batido por tão má idéia-feita, e que se revela – e descobre - enorme à nossa maturidade(José Paulo Paes).[2]
Ter feito o poema sobre a baleia do Melville,
via Ródtchenko / Maliévitch, onde uma consoante mergulha, aflora,
remergulha e singra um mar de recônditos significados, como o fez
Augusto de Campos
[3],
exigindo, no barulho plástico do mar alto,um
olhar safado também do leitor, pra notar a
ardileza do animal fazendo a noite esconder o dia. Ser dono dos magistrais capítulos que vão / vêm das páginas [ 111 ] a [ 120 ] / 85 – [ 69 ] do “Panteros”, de Décio Pignatari [5] , ou do capítulo de páginas [ 109 ] a [ 110 ] , volta de 86 para a 96, que, numa noite de bebedeira, anotei, injusto por um lado, que “valia toda a trinca concreta”... Ou de seu incrível poema “Mayá”, de escrita sânscrita, que edifica um aprisionamento do ser, naquele eco das próprias paredes em que os vocábulos sânscritos literalmente se visualizam, tornando a manifestação “um grito mudo”( como anotei: Cri sans (é)crit ! -- Sanscrit ). Acontece que, para desgraça minha, a epígrafe desta introdução denota a reanimação de publicar uma grande obra, meu Livro mallarcaico, pois a aldeiazinha – antes fosse a de Tolstói ! – de Scribbledehobble convida a desvendar os caminhos de meu Ur-Workbook, as origens de minha luta, minhas pretensões e de minha única razão de existir, salve-me Deus. Desanimado por aquela esperança sempre adiada, que no fundo era impotência, em 15 de junho de 1986 ditei para minhas “Fitinhas”: “Precisamos criar um gênero novo, mais feliz, para a Humanidade: a do expectador sem nenhuma pretensão. Essa é uma teoria que eu quero desenvolver paralelamente àquela da “destituição da autoria”, que fará com que um texto como “A última jornada”, de Machado de Assis, seja considerado como “um texto do maior poeta da língua”, sem que o cidadão saiba que nosso maior gênio é um poeta mediano e que atingiu aquela grandeza poética somente naquele poema . Acabar com o “gênero estanque”, nem que seja por surripiação de conceito. Uma teoria que está ligada a outra, a do expectador sem nenhuma pretensão...Será uma maravilha... porque... acho que a felicidade do mundo vai residir nisso: quando for criada uma condição de fruir-se uma obra de arte sem que nenhum cara tenha ego pra querer fazer também. Quer dizer: o camarada que vai ler Dostoiévski acha que um dia vai escrever uma obra como Dostoiévski, o cara que vai ver Rembrandt acha que vai fazer uma obra como Rembrandt, tá ouvindo? Não! A Humanidade será feliz o dia em que houver expectador capaz de fruir, com uma puta duma tesão, um puta de um êxtase, a obra de arte sem que tenha ele a menor possibilidade de sequer pensar que também vai ser um artista. Aí então acho que se poderão resolver problemas até políticos. Porque o problema da competição artística, no fundo, é o que faz com que a Humanidade, o capitalista, sejam cada vez mais filhos da puta, queiram ganhar cada vez mais dinheiro, as concentrações de riquezas fiquem cada vez maiores... Porque, no fundo, bem no fundo, o que existe é uma frustração no plano espiritual. Quer dizer, o Ego do camarada é um câncer terrível, que o induz até a acumular riqueza para compensar a falta de aptidão artística. E ele vai competir. Hoje em dia, um burguês compra uma obra não só para acumular dinheiro, riqueza, não.Ele não sabe, mas é porque quer competir com Rembrandt, quer competir com Matisse, com o caralho a quatro. Quando ele usufruir -- quando a Humanidade usufruir -- uma obra de arte na sua real e desvinculada grandeza, sem que o cidadão pense – nem no inconsciente – em querer fazer também, estenderá essa sua grandeza, este seu estado de graça, essa felicidade , não ao plano das religiões, que são sempre fajutas [6], mas ao campo da igualdade social e da redistribição da riqueza também...” Algo dessa vagueza pervagou algumas opiniões que dei numa entrevista à revista “Escrita” [7], onde subliminarmente tirava o corpo do sentido de destino, dom ou talento inato – coisas que, afora a primeira, acho que realmente existem, pois, na imensa maioria dos casos, os que fizeram obra imortal desde logo a fizeram, a idade somente burilando , por obras talvez melhores, aquela jóia que despontou no primeiro aparecimento. Quando naquela publicação falava nos pintores pré-rafaelitas do século dezenove, Millais, Burne-Jones, Dante Gabriel Rossetti, aludi à crença, dos presumidos criadores , “em algum tarado que os resgatasse no futuro, num momento de ociosidade. Verde, lilás, azul, violeta e púrpura – um decassílabo – [8] pertencem à métrica secreta dos megalomaníacos domésticos, como eu, que acreditam que um seu poema será eterno, se um dia o poeta for póstero!” [9]. Maneira de remediar o tempo que nos varre e de mascarar uma pretensão de ludismo filosófico , que me municiava para fazer, na brincadeira, qualquer obra de arte que almejasse, sem predestinação qualquer e a qualquer tempo... Linhas antes lá me classifiquei, por artifício de um sonho presumido, como um “semiota acadêmico”, alguém que assim me xingava aos gritos e que, por tropo de retórica, justifiquei como remordimento, meu, por ter mesclado, no livro de 72 [10] , poemas “avançados”, de acordo com a técnica vigente na Poesia “Concreta” ( com aspas no trecho original ) com figurações esotéricas, como o trabalho da TRAMPOLÍNGUA. Associei-me então com a postura dos pintores acadêmicos, que “viveram em todos os séculos ( como as pragas ou as graças! ) e que após a Renascença privilegiaram o conteúdo sobre a forma: a alegoria fácil, os símbolos ( cruz, lírios, caveiras ) predominando sobre os signos. A arte baseada em regras pré-fixadas. O ético valendo como estético: os maravilhosos santinhos do catecismo, iguais às minhas postulações que vinham a seguir e às que inspiraram os conceituais A BOA LUZ e TRAMPOLÍNGUA” [11]. Traçava a seguir os planos, melhor: o roteiro, de meu novo livro, enumerando algumas produções, a maioria publicada, que intermeavam a entrevista e o citado livro de 72, carregando na intenção de bulas, prospectos ou mero induzimento. Era patente a intenção de deixar nítidas, não só as direções do projeto, como a demonstração de que por todo aquele tempo andava eu de mãos dadas, quando não às turras, com os desígnios de uma vida toda, escondidos em minha caverna como um facho, ou um pisca, de perpétua e pretensiosa ambição da célebre “cosa mentale”. Que, por ser assim, teria de ser esperada com paciência. Isto, talvez para contrabalançar a indigesta memória da frase de Décio Pignatari, na noite do lançamento do livro em minha casa, meio que falando menos para mim do que para profetizar: “- Que pena, será mais um como outros... Daqui a alguns anos sumirá de circulação...” E mais me pesa o vaticínio – que infelizmente ainda pode acontecer – quando me lembro de uma conversa com ele, na presença da poeta Lenora de Barros, Antonio Risério e João Alexandre Barbosa, num fim de tarde no Cristal – bar dos concretos e acho que lá escrito de outra forma --, nos inícios da década de 80, em que me confessou : estava “limpando” sua biblioteca, na maior parte em seu sítio “Val de Vin” – esse o primeiro nome em sua cabeça, um valdevinos na grande Valvin [12] – e que um dos livros que ficava era o meu – contestei-lhe que não sei se Emílio de Menezes, Agrippino Grieco, Guimarães Passos ou mesmo o sisudo, e grande, Capistrano, achava que, para ser livro, tem que parar de pé! e o meu não parava! Contra-argumentou que o livro trouxera todo o approach da Conceptual Art que logo a seguir in-festou as Bienais da década. Tomei mais três ou quatro uísques e fui dormir na santa paz da farra. Demonstrei ainda na revista que parte daquela produção subsequente ao livro foi exposta numa polêmica mostra, no Centro Cultural São Paulo, em fins de 1985, “Poesia Intersignos”, reunindo minhas últimas tendências, bem como as de Décio Pignatari, Ronaldo Azeredo, Villari Herrmann, Philadelpho Menezes – seu organizador, assentador de pressupostos e que cunhou o nome da tendência -- , Ana Aly, Paulo Miranda e do decano Pedro Xisto. Nessa exposição foi apresentado, pela primeira vez, meu trabalho “O LAGO DOS SIGNOS”, cujas figuras, fotografadas da Natureza, conformam a melodia, transfundida, d’ “O LAGO DOS CISNES”, de Tchaikovsky [13].
Quando da reapresentação do poema na já aludida I Mostra Internacional de Poesia Visual, permito-me lembrar agora, não só por vaidade, mas por apreço à grande teórica Lúcia Santaella [14], que, ao passar pelo painel, surpreendi dizendo, enfática, tratar-se da maior obra da exposição, inclusive por seu texto-bula. Apresentei-me então a ela, ponderando que no acervo figuravam os de grande fama, como o próprio fundador Eugen Gomringer; John Furnival, Klaus Groh, Pedro Xisto, Wlademir Dias-Pino, Ruben Tani, Richard C., Enzo Minarelli, Sebastião Nunes; e Melo e Castro, Ana Hatherly, Marcelo Tápia, Júlio Mendonça, Antonio Lizárraga, Shoji Yoshizawa; e produtos de expressões teóricas internacionais do porte de Harry Polkinhorn, Matteo D’Ambrosio e Clemente Padín e que, portanto, sua apreciação jubilava meu ceticismo...
“O Lago dos Signos”, talvez também por suas
dimensões, imponência pictórica e destaque na parede, obscureceu o
trabalho que eu mais prezava, “Rimbaud / Rainbow”, por suas
implicações visuais, inter-referências fáticas do meu cotidiano e humor
na surpresa, também ensejada pelo acaso, como no poema supra.
Como enunciado no texto, a carinha do Rimbaud, bem semelhante à do único retrato fotográfico de seu período de intensa criação [15], talvez como atmosfera até mais próxima da sua postura no famoso quadro de Fantin Latour [16], exsurgia da secagem que o arco-íris, Rainbow – existia isso em São Paulo na época! – provocava nas poças de chuva em minha calçada. E, quando a fotografei, através das grades de meu portão, o acaso lhe deu o caráter de prisão a que se submeteu a vida toda. Olhando bem, guarda um parentesco com a fisionomia de Joyce, embora com o agravo ocasional de não ter nada que ver o u com a alça no contexto. Mas me fascinou a irmandade contígua dos dois inovadores da modernidade contemporânea. As quadras acima – duas redondilhas maiores – e que integram a representação caligrâmica da proteção que deriva do ideograma chinês do teto visual do poema, são : uma, fotografada da primeira edição do livro de Ricardo Gonçalves – cansadamente repetida por Lobato em sua correspondência d’ “A barca de Gleyre” como exemplo de redução eidética da simplicidade, e, como poema, uma aquarela verbal [17]– outra de minha autoria, onde interpreto a estranha vizinhança com uma casa com “BITS e BEDAMES” na fachada ( componentes de abajures ), vocábulos que fascinaram Augusto de Campos, em sua primeira visita à minha nova moradia, princípios da década de 70 [18]. Daí o poste giratório resultante da fusão das fotos, que loucamente colocava as duas residências numa espécie de carrossel / reco-reco...[19].
Retornando à revista, aludi também a algumas
aventuras em publicações undergrounds, como o jornal de número único e
de dimensões anormais, semelhantes às do CORRIERE DELLA SERA da época,
VIVA HÁ POESIA
[20],
que reuniu, em minha expressão da época, usando jargão técnico de
hidrelétricas como a em que trabalhava, os geradores Augusto,
Haroldo e Décio, os transformadores Ronaldo, Leminski, Herrmann,
Philadelpho, Plaza, e alguns transmissores, que a aldeia escura
do país jamais esqueceria, se é que os leria. Contribuí com “POEMA DOS
LESCENTES” e “CLÓVIS”, ambos visuais, além da exibição do “Poema sobre
um quadro de Orlando Marcucci”, dentro do texto teórico que Gilberto
Mendes, que musicara meu trabalho em 1976, publicou no mesmo jornal.
Empreguei no primeiro verso a palavra inicialização,
posteriormente e durante muito tempo constante da lexicografia das
aberturas de programas de computador; mas me lembro que fui muito
criticado pelo mau gosto do neologismo.
Este trabalho almejava a entropia da palavra oral ( um set cinematográfico ouvido ), na utilização do entrelaçamento da escrita horizontal com a vertical. Referida entropia visa transformar o machão “Clóvis no sedã” do faroeste (escrita horizontal) num Cu de Seda ( o resto é Loves ), pelo mero som que o enfoque visual determinaria ao se fazer a leitura vertical ( leste : chinês ). No referido jornal foi omitido o subtítulo BANG BANG DOS SENTIDOS : BANG, em chinês, que dizer OUTRO. Assim, OUTRO OUTRO DOS SENTIDOS... Ainda na entrevista da ESCRITA, aludia à publicação, na revista AMBIENTE / CETESB ( 1979 ), de parte de meus DESENHOS-PORTRAITS : um, bem antigo, da década de 50 ( 4 de fevereiro de 1955 ) , de Carlos Drummond de Andrade, que nessa data tanto me influenciava, e um de Ronaldo Azeredo, que fiz meio bêbado na casa do Volpi em 1972, e que mereceu, no verso do papel, um “Magnífico, Augusto de Campos, 25-5-72”, aquela assinatura linda num ovo galático:
Para ilustração do até hoje renitente zelo por aquelas minhas ambições de desenhista, ilustro com outro Drummond, de 1973, que considero bom mas sem o ímpeto da década biológica dos 20 anos , que teimo em dizer que é vital para o artista, ou para o virtual artista fanado: Dou ainda como exemplo da biologia dos 20 anos, o Jânio Quadros que encontrei eu meus papeizinhos de absintólogo ( será que é meu mesmo?...) e um Joyce que desenhei no livrinho “James Joyce par lui-même” em 1958, durante minha lua de mel no Rio de Janeiro:
E este Oswald de Andrade, que me parece de mesmo período: Agregavam-se a essas figuras de conhecimento público outras de meu convívio doméstico, mas que gozavam de certa reputação no campo da cultura, caso dos amigos Américo Bandeira e Nílton de Castro. O primeiro, já saudoso, irmão do poeta Antônio Bandeira, também já morto, primo-irmão de Manoel Bandeira, tradutor emérito do francês, arguto exegeta de Mallarmé e Verlaine, musicólogo profundo, pianista muito original (lembrava bastante aquele analfabetismo de empunhação e espetamento de digitalização do extraordinário Errol Garner), e compositor maravilhosamente démodé – tenho dele uma valsa gravada ao piano em minha casa, que faz chorar pela prisão de sentimentos-modulações em “rondós” sempre disfarçados por um tipo de antiguidade só de mortos, exatinho como nos vezos de Ernesto Nazaré, filho gêmeo mas inimigo de Chopin – e, vez por outra, uma estranha criança raivosa de cabelos brancos:
O outro, o poeta epistolar Nílton de Castro, autor de magistrais
encarnações, em poesias que só manda pelo correio, da prosa bíblica,
versicular, típica da versão King James, do entretanto medíocre poeta
Hemingway, chorado por Joyce nos ombros de Nora, em Paris, por não
conseguir, como era tão fácil naquele, fazer correr o sangue em sua
prosa.[21]
E que hodiernamente é objeto – apesar de sua seiva!... – até de
estudos estilísticos do porte de Harry Levin, que com justiça o leva à
condição de apanágio do Contexto do Criticismo, 1957 ,
ajustando-lhe tropos de paralipsis, entimema, paródia e outros que tias
(sic) da lingüística corrente.[22]
Mas, quando falar no “Palhaço holográfico – picadeiro e platéia ao
mesmo tempo na vida do americano médio”, que já anunciei na revista,
tentarei demonstrar que tal estilo é resultante não só da atenção à,
como da mão sobre a Bíblia, lá nos EUA tão fatal como o pescoço na
guilhotina francesa; e que Deus está com todos nós, Deus está em todos
os Egos -- e isto, por incrível que pareça, deixa de ser perigoso – nosSo
dinheiro in God we trust.
Note na poesia de Nílton de Castro o ar direto de cotidiano, estilo seco, límpido e nervoso da prosa de Hemingway, que ele tanto prezava e de quem era excepcional tradutor, cf. sua notável versão do conto “The killers”. Em sua solidão de poeta epistolar ( só mandava poesia pelo correio, como disse logo acima) usava às vezes do recurso da colagem, freqüentemente associada a desenhos e fotos, recurso esse que acabava desviando a anedota (sent. etim.) de sua cursividade. Lembre-se que Nílton encarnava aquela presumida superioridade do povo norteamericano, com alusões, muito irônicas, de assertivas de pastor, sempre torcendo pelo final feliz, ou ilusoriamente feliz. Em local oportuno, darei exemplos de tal superioridade – que alguns atribuem à democracia plena interna – especialmente ao transcrever o verbete John Cassavetes do CD-ROM Blockbuster Entertainment. Tenha-se em conta o aludido "estilo americano" (de dizer e de agir, Deus por eles, v. acima o “nosSo dinheiro in God we trust , complexo esse que assegura ironia insólita, até pecadora,!, V. o VERBETE ! e meu comentário sobre o “palhaço holográfico, picadeiro e platéia ao mesmo tempo...” cf.). Talvez valha a pena avocar a maneira de falar do norteamericano, exibindo recortes de jornais e revistas que exemplificam isso e aquele exemplo do "suicídio resgatado" no filme Dirty Harry, de Don Siegel, uma ação heróica que comove toda uma multidão, até mais que a existência de um “simples” genocídio...
Outro grande poeta de minhas relações, Percy Gartner Garnier, estimadíssimo amigo, já ido desta para a pior, versadíssimo em poesia de língua inglesa (também a de língua alemã, com grande precisão nas versões que fazia para o português, veja na gav. Poesia deste Site, o memorável: DOIS PARA UM É DEMAIS POR SORTE DOIS É O SUFICIENTE POR AZAR UM TEM O OUTRO POR SORTE síntese magnífica de Zwei sind einer zuviel zum glück Zwei sind genug für ein unglück har einer den anderen zum glück
síntese essa que expressava, em suas apuradíssimas poesias, muito raras e pundonorosamente escondidas e muita vez destruídas após infindas versões, um gosto lindíssimo e uma técnica soberba. Embora cultuasse religiosamente Drummond, suas produções ( principalmente as da década de 50) apontavam mais para uma vertente cabralina, como se pode ver por este três poemas, publicados no Estadão de 14-21959:
Era uma constante apuração de seu rigor, conforme se vê pelos títulos a seguir:
Ficou fiel ao seu rigor até o fim da vida, lutando estoicamente, com valentia e dignidade, contra um enfizema pulmonar, numa alternância de Cruzes, Souzas, Souzas, Cruzes...
E dessa fase inicial:
Mencionei, então – ainda na entrevista-prospecto da ESCRITA – o intuito de acrescer o capítulo DESENHOS-PORTRAITS – seria um capítulo... – de outros dos amigos e pintores Hermelindo Fiaminghi e Orlando Marcucci, “agora num processo de polaróide estourada com flash bem perto do rosto e depois xerocada em alto contraste”, rev. cit.
Tal capítulo traria também, sob a égide de TRADUÇÕES REPOLARÓIDES, refigurando ícones da realidade com a expectativa de um desbotamento semântico, o trabalho em que minha mulher vira uma gueixa e outro em que, por direção induzida de facies, foi ela fotografada com “persona” de Borges, cegueira e tudo. Posteriormente à menção disso na revista, e visando integrar tais “traduções”, ela mesma interpretou noutra foto minha o então presidente Collor, com idêntico rosto deste num jornal do dia aberto à sua nuca, naquilo que chamei teatro de rosto.
Também republiquei na entrevista o poema JESUS, como integrante do conjunto das “traduções repolaróides”, um trabalho já editado no catálogo da tormentosa exposição – sua segunda, em público... – de Orlando Marcucci em Campinas, 1983, a quem chamei, no texto de apresentação, de um propositado Saint-Saëns neo-contemporário da Pintura [23].
Trata-se de uma “in-per-feita” paronomásia icônica, ou de um falso trocadilho não verbal ( trocadilho visual perfeito, permito-me: “Relações Anteriores”, 1969, componente do livro de 72, onde um ex-ministro – Magalhães Pinto – é feito nas coxas-joelho de minha mulher, literal-visualmente...). JESUS, independente do som de sua língua original, usa da fisiognomia fonêmica ( labaredas-figuras: José / dragão / família / proteção ); criança / Maria / comer; serpente / ícone / serpente; S / ícone (O-u) / S ( socorro ). Pedia ao leitor que descobrisse uma saia de mulher no ícone, e, no que considerei de mero achado, a “exorcização de um mandamento pentelhocostal”: - Saia em nome de Jesus! Dando alguns exemplos de comerciais que viriam a usar do procedimento – Dia dos Pais, Banespa, Honda, Bosch etc. [24] – caudatários daquela concepção em minhas pretensões da época [25], dizia que o Ícone já nasce convencionalmente traduzido para qualquer língua. Mas, como é direcionado a um único módulo, resultante do achado, transforma-se em hipo-ícone verbal, logo desbotável, fácil acesso à forma artística pura. Chave!? Re-iconizado, por exemplo, em inglês: Chave em nome de Jesus (Key in name of Jesus!). Ou, chave / ícone: sapato : Shoe in name of Jesus. E assim por diante. As “traduções repolaróides”, com seus fáceis ícones, se retraduzem pelo texto realimentando o ícone. Signos de desbotada felicilidade, já admitia. Os trocadilhos visuais, dos quais acima dei exemplo com “Relações Anteriores” [26] , já são conhecidos, com esse expresso nome, desde a época de certas gags de Harold Lloyd [27], conforme se vê da coleção em vídeo-laser “Hollywood – a Celebration of the American Silent Films”, Thames Video Collection / Image Entertainment, LaserDisc, seven disc set, side 8. Afora terem sido pespegados, na literatura, em certos poemas de configuração caligrâmica até da poesia barroca e preciosa.
O recurso de colocar óculos em partes do corpo, ou mesmo em coisas inanimadas , é para mim imemorial. No caso particular, a calva do político mineiro muito se assemelhava a um joelho; ou melhor, os joelhos exuberantes lembravam bastante a fisionomia do político muito influente e de longevas articulações. Talvez isso, e prováveis popularizações, estivessem em apropriações de arquétipos, ou de lembranças soterradas. Penso que fui feliz foi quando, ao fazer a foto, esperei muito por uma luz que refletisse a sombra dos aros dos óculos, de molde a configurar um cenho carregado; ou uma fisionomia agravada por aquelas mãos que seguram os óculos, como se auto-esmagando.
Quando, em razão do livro de 72, fui entrevistado pela Folha de S. Paulo de 2 de setembro de 1973, em matéria de página inteira de seu “Caderno de Domingo” – a “Ilustrada” de hoje – , aludi à chupada que havia recebido com a exibição do MAGALHÃES NO JOELHO num programa de TV no agosto passado, com o uso acintoso dos óculos, por parte da até hoje inigualável Elis Regina, nome que omiti na entrevista em respeito à fervorosa admiração que sempre lhe devotei. Anos após ao meu depoimento, Jô Soares também usou de idêntico recurso, como se vê:
Tinha eu uma forte razão para avocar a
autoria do achado, pois o poema, estampado com grande destaque em outra
página de rosto do Caderno de Domingo, Folha de S. Paulo de 14 de
janeiro de 1973, foi muito divulgado, até mais do que no próprio livro.
Nesse caderno, o saudoso poeta e preparado crítico José Geraldo
NOGUEIRA MOUTINHO resenhou meu livro, o “Colidouescapo”, de Augusto de
Campos, “Algo”, de Edgard Braga
[28]
e dois sintagmáticos poemas sem título ( um sobre a célula ) , de
Ronaldo Azeredo, na matéria intitulada “A poesia sem palavras da poesia
brasileira”. A meu respeito, disse Nogueira Moutinho que “ [...] o poeta
capta no diafragma as imagens com a mesma sensibilidade com que um
grande poeta do passado transfiguraria o real na retícula das palavras.”
E “ O que impressiona no poeta é a vertiginosa inventividade canalizada
por rigoroso poder de expressão que abomina qualquer barroquismo,
qualquer excesso, qualquer demasia.”
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[1] - “James Joyce’s Scribbledehobble – The Ur-Workbook for Finnegans Wake”, edited by Thomas Connolly, Northwestwern University Press, 1961. [2] - “ Bandeira poeta menor menor menor menor menor [= menormenormenormenormenor = enorme] um dos maiores achados da língua, onde a repetição acarreta a ilusão, no sentido formal, e a ilusão decorre da repetição na assertiva do conteúdo / verificação da verdade! Usando de procedimento escolástico e portanto absolutamente anti-gratuito ( de graça ) , Paes enuncia um dogma – porque oculto – profundamente condizente com a displicência de ego de nosso grande poeta pré-beat. ( o coloquial, no cotidiano, com extratos de lições de vida e de comportamento, sacadas de Irene, o porquinho da Índia etc. etc., com tristes deboches de poesia de solteirão, não a poesia solteira de Mário de Andrade) [3] - Campos, Augusto de - A pessoa mais fascinante como presença e charme artístico e cultural -- de uma limpidez calma e luminosa -- que já conheci . Mas absolutamente subterrânea , acho que cega, ou fanática, no rancor, felizmente raro. Subterrâneo, mas de grutas limpas, sem larvas. Haroldo de Campos, seu irmão, de quem passei, a duras penas mas agora fervorosamente, a invejar o invulgar CRISANTEMPO, é de uma “p.m.d.” talvez postiça, frio nos dois extremos da sigla e cruel em seu centro. Ambos têm caráter quando não são atacados. Pensando bem, sempre se defenderam, nas refregas ou alusões, e quase nunca agridem pessoalmente. Mas quando isso acontece, são capazes de pedir a cabeça profissional do contendor. Criticados por adotarem um sincronismo literário naquilo que elegem como paradigma de modernidade, seu paideuma, calcado até agora, por incrível que pareça, no gosto - modelado por seus ídolos de leituras inaugurais, mas quase sempre o infalível bom-gosto da tradição de primeiro mundo - acaba por se tornar oficial. E o tiro de seus detratores, quase sempre sem a base de sua plataforma, sai pela culatra, pois o que estes chamam de afunilamento, é bem o contrário dos afunilamentos tradicionais, que jogam o passado para o presente ( critério político ) : elegem, baseados no fundador critério poundiano, de verdadeira estilística do nunca visto ( i.e., instaurado como Invenção), um fino que passa por funil invertido, despejando numa vasta gama de interrelações, até mesmo de interações no sentido da Informática. Essa estética jovem, de mostrar o que estava oculto ou subentendido, malgré alguma alquimia de conceitos, acaba exercendo uma sedução de proselitismo, que se instala por apoio no contato particular e silêncio na estimulação pública. Seus mais dotados acólitos, os poetas Nélson Ascher e Régis Bonvicino chegaram a avoaçar, no limiar dos cinquenta anos, e só não desarvoraram devido a seus talentos naturais. Ascher passou então a ser um herdeiro de Cabral, mas – como disse numa carta que dirigi ao didascálico crítico Ivan Teixeira – , um herdeiro por representação, no sentido jurídico da expressão: “ reelaborado vitalmente, encarnado num jovem de hoje, Cabral falaria com aquele instrumental de "hodiernidade" de expressão usado por Ascher; expressão essa de feição cabralina, a despeito do hodierno mais perene da linguagem mais universal, embora idioletal, do poeta pernambucano” ( Carta de 2 de novembro de 1997 ). Bonvicino passou a adotar em sua aguda poesia o que se denomina texto-bula, implícito na poesia referencial de Pound e Eliot, embora neste mais adentrado no conteúdo. Arnaldo Antunes mantém-se fiel ao proselitismo, transportando, com talento, às vezes enorme talento, a Poesia Concreta de origem para as diabruras do computador. Na Crítica e Tradução, Sebastião Uchoa Leite se destaca como fiel seguidor, elegendo Lewis e Villon como objeto de suas preferências. Nos moldes. [4] - Alguns aspectos-vertentes da Poesia Sonora podem ser talvez erroneamente colocados como ancilae, no sentido clássico, das Músicas Concreta, Eletrônica e mesmo Eletroacústica, bastando, para um bom/mal entendedor, ouvir-se por exemplo “ Visage” , de Bério – isto para ficar no repertório mais antigo . Mas isso se deve exclusivamente à escassês-- quase inexistência — de registros fonográficos dos poetas do Futurismo e Dadaísmo, mas que na época do surgimento de Bério e seus contemporâneos já existiam, pelo menos do Letrismo – , o que desarma a possibilidade de conferir, de duas ou três décadas anteriores, a “música” que seus aparelhos fonadores corporais – suas gargantas – produziam na mesma vertente sonora. Aliás, Glenn Gould, o maior de todos os pianistas ( por causa da técnica ) e um dos Pensadores com segundo código indisponível do século vinte – da família de John Cage, Marcel Duchamp e Boby Fischer – e sobre o qual me debruço neste livro na hora “desapropriada” , acreditava que seus documentários radiofônicos eram composições musicais, pois, “ chopping it up and splicing here and there and pulling on this phrase and accentuating that one, throwing some reverb in there and adding a compressor here and a filter there... it´s unrealistic to think of that as anything but a composition .... And ... it is the way of the future.... I think our whole notion of what music really is has forever berged with all the sounds around us, you know, everithing our environment makes available.” ( Otto Friedrich, “ Glenn Gould – A life and variation ”, Random House, 1989, p. 185 ). ( “Cortanto, e colando aqui e ali, retirando uma frase e acentuando outra, jogando algum eco ali e juntando um compressor aqui e um filtro lá (...) é irreal pensar nisso como algo que não seja uma composição. ( ... ) E é como vai ser no futuro. (...) acho que toda a nossa noção do que a música seja na realidade já se combinou para sempre com os sons à nossa volta, com tudo o que o nosso ambiente fornece.” ( Trad. De Ana Lagôa / Helena Londres ). Quanto ao problema , polêmico, da excludência em virtude de pressupostos estéticos e/ou doutrinários de cada arte, penso que o próprio Philadelpho, ao se defrontar com a época crítica do aparecimento das tecnologias que possibilitariam a definição, o desenho de uma ou de outra (inícios da década de 50, onde a Poesia Sonora se debateu, em virtude mesmo dessas próprias tecnologias, com o impasse da ressemantização e dessemantização da Poesia ) , admitiu que “ a poesia tecnológica produzida nos laboratórios nos anos sessenta, cinqüenta/sessenta, Henri Chopin, principalmente, na França, são poemas que na verdade são músicas eletroacústicas.” ( programa radiofônico “Índice Cultura – Editoria Especial – `Do Impresso ao Sonoro e ao Digital´ ” , Cultura FM, final da década de 90.) . Em minha opinião, usando, na maioria, dos mesmos meios, paro, tanto na Música Eletroacústica como na Poesia Sonora, para aferir o problema da qualidade. [5] - Pignatari, Décio – De um amoralismo que chega a obsceno, mas uma genial inteligência travessa, de um moleque sempre atento e solertemente dirigido a dar golpinhos – quando não golpes sediciosos – contra a Lógica. Esse empenho de seleção de espécies não raro assusta, nele, quando pega no alvo, no absconso desejo de brilho de todo ser humano. Tem, entretanto, perante os Irmãos Campos, um pesaroso complexo de Osasco. Mas me parece que sempre abriu ( os ) caminhos para sua geração de peso. Também sabe pescar em águas que poucos conhecem, às vezes sem identificar o peixe. Mas seu senso divinatório intui de modo empírico-exotérico (sic), como uma criança que chora ao sentir dor : não sabe – e não precisa! – explicar para acusar uma verdade. E é alegre, sem maldade. Muita coisa mais poderia ser dita sobre este fur(ac)ão de idéias... Por exemplo, a exegese louca que Dennis Hopper, o desvairado jornalista, fanático pelo desertor rebelde Brando (este não tão alucinado) , faz daquele IF que está no meio da Vida, da palavra LIFE , todo um resumo – não sei quem é discrônico de quem – do poema LIFE, do nosso poeta ... ( Cf. o filme“Apocalypse Now”, mas a versão “Redux”, de Francis Ford Coppola ). (NOTA A PENSAR, DE NOV. 2006: “É um metafísico futurível, naquele sentido que o Medina classifica os poemas de Oswald. / “_È muito inteligente, muito inteligente”, repetiu-me, grave, Haroldo, durante o velório do Edgar Braga, 2 e tantas da madrugada. RECOMENDO LEITURA DO VERBETE @ PIGNATARI, DÉCIO NA GAVETA PORTRAITS. [6] - O maior benefício da Religião – para mim o único – é disciplinar o medo. O medo indisciplinado é dos maiores flagelos do espírito. [7] - ESCRITA, n. 35, Ano XI, pp. 13-18. [8] - As cores enzimas daquele movimento. [9]- Pág. 13/14, publ. cit. ( Póstero, i.e., o póstumo por adução ( MacPherson para Ossian ), ou por adição (v.g., uma obra de Sousândrade, entre nós) . Uma obra de Castro Alves, escamoteada, seria póstuma por postumidade típica. [10]- Sem título, chamado de “In Verso” a partir do prefácio de Ronaldo Azeredo, Edições Invenção, 1972, o de faca de pão na capa. [11] Pág. 13, rev. cit., grifo acrescentado agora. [12] Sítio onde se recolhia Mallarmé. [13] Tenho gravada uma execução ao piano da parte inferior do poema – os cisnes transformados em notas – por Flo Menezes, o compositor e meu filho caçula: apercebendo-se o intérprete da curiosa coincidência entre o “perfil” configurado pelos cisnes e aquele que diz respeito à linha melódica d’ “O lago dos Cisnes”, de Tchaikovsky, tocou com algumas appoggiaturas – como justificativa da ousadia, lá estão alguns cisnes soltos em segundo plano... – modificando-se um pouco a altura de certas notas.
[14]
Atualmente, e já há algum tempo, reconhecida como dos maiores
semioticistas – talvez a mais “aparelhada” – do país. [16] Como se vê: [17] O mundo das aquarelas em que se exercia, nas pretensões secundárias, o grande visionário político e da Infância: “A casa onde mora aquela / Menina cor de açucena / É uma casinha pequena / Casa de porta e janela.” [18] “ A casa onde mora aquela / gente de Bits e Bedames / não tem porta nem janela, / só alçacéu, pão e manes”. [19] “Rimbaud-Rainbow”, de 1988, colocava, numa relação intersígnica – pois a carinha do Rimbaud na calçada é um dado-consequëncia do arco-íris, como acima se percebe – a concepção aparentemente trocadilhesca da posterior obra homógrafa de Augusto de Campos ( 1992 ), em seu poema-paráfrase-homenagem ao poeta francês, embora seja também – salve a memória arquetípica ! – e afora a tradução, um belo approach sobre a relação do arco-íris com a variação fono-colorística das vogais, estritamente timbrística, muito semântica e, penso eu, no espírito da Poesia Sonora, usada e apregoada pioneiramente no Brasil por Philadelpho Menezes, cf. Nota 4. [20] VIVA HÁ POESIA, edição única de.1979, concepção e criação de Júlio Plaza e Villari Herrmann. Sobre este estranhíssimo poeta, que eu diria uma reencarnação de Augusto dos Anjos: “O Herrmann, eu conheci-o ( era triste, altivo e arredio (*) na casa do Augusto de Campos, 1967?, 1968?, procurando a melhor posição para o K8. Consultava o mestre de toda uma geração de artistas especulativos, “il miglior fabbro”, depois abandonado, e depois invejado. Herrmann trazia uma bagagem verbal de pouco volume mas grande peso, o soneto “rebus ( et pour cause, digo eu:) sic stantibus”, de melo-logopéias incríveis para sua pouca idade. Vejam depois seu primeiro opúsculo, “4 Poemas”, 1971, Edições Strip [ conferir ]. Mas “K8” reinaugurou uma semântica , embora fisiognômica e caligramática, sem chaves léxicas e rouparias da ribalta transcriativa, e que serviu de modelo para muitos, e para ele próprio. Criou-se com esse poema e mais “Oxigênesis” (!), que já vinha de uma tímida mas tresloucada alunissagem quase intersígnica ( a Desoxigênesis [ conferir isto ] , o vezo – dígito de Herrmann – das cáusticas decantações de atmosferas subcutâneas da alma: esse Augusto dos Anjos da Poesia Concreta, ou Visual, ou Intersemiótica, ou Intersígnica, ou ETC. Que grande autarquia espiritual é seu “SomBRas” [ traço em cima do BR] , poema do porão político, algo negro escondido no negrume! O “Poder / Podre / Depor” ( veja, leitor, o grafismo indicativo, original do poema, esse sim, necessário), que uma visão glaucomattosa ( “O que é Poesia”, de Glauco Mattoso, Ed. Brasiliense, 1983) repetiu e acabou “inspirando” nosso maior menestrel (cf. LP “Velo”, faixa “Podres Poderes”, do Caetano...) Criador de coisas que podemos chamar de poemas-animados ( Ronaldo Azeredo é nosso maior “coisador”, eu já o disse em 1979, jornal “O Ambiente” da CETESB), Herrman brindou-nos num Natal com um poema-cartão ( no sentido mesmo de cartão de Natal) do Conde Drácula, a síntese amor-humor-tumor ( “Tu, só tu, puro amor”, lembram-se, camonianos?) ao fotografar-se, carne-e-osso, com a Miss Kodak de eucatex, tamanho natural, um “retrato de casamento” disfarçofálico e moralmente invertido: a amada imortal (esposa!) não lhe cederá o sangue necessário; mas ambos desejarão – e o fazem – às “excelentíssimas famílias brasileiras um feliz Natal e felicidade na década de oitenta” [ !?!, RRiso] . Só ele!... desejar felicidade por uma década!!! Otimismo de um solitário, não solteirão!, maior namorado da Humanidade que já existiu: “Papapá – papapá – papapá .../ ...”és noiva do Porvir”, lindo Castro Alves), e que, num lance pré-figurativo visual, transformou genialmente a Valsa do Minuto de Chopin numa Partitura do Infinito! Na esfera-homem, desse grande homem, tambem só sobra o poeta: tenho sempre medo daquele corpo do outro mundo ( querem ter uma idéia?: vejam-no em primeiro plano no quadro “ O grito” [ conferir nome daquele quadro] , do expressionista Charles Munch). Insólito, arrogante, dono absoluto de suas derróvitas. - Tive vontade de sair na metade, disse-me cansadíssimo, após o documentário, de 14 minutos, de Glauber sobre o velório de Di Cavalcanti, que assistimos juntos em sua até hoje única exibição em São Paulo. - Que título belíssimo, Menezes!... ( : “Vês, ninguem assistiu ao formidável / enterro de tua última quimera. / Somente a ingratidão, esta pantera / foi tua companheira inseparável!”, o primeiro quarteto inteiro do famoso soneto de Augusto dos Anjos!)
E lá pelas três e meia da madruga, numa mesinha de calçada de um botequim da Av. Rio Branco, aterrorizado: - Vamos tomar mais uma, a última, Menezes! amanhã eu trabalho!!! Eis o seu rigor.
(NOTA: O ASTERISCO DA PRIMEIRA FRASE DEVE SUMIR NO TEXTO DO LIVRO – É UM LEMBRETE DE QUE A FRASE É PARODÍSTICA – QUANDO NÃO PARAFRÁSICA! – DO PRIMEIRO VERSO D´ ”O MELRO”, DE GUERRA JUNQUEIRO.)
***
( NOTA DE 15-3-03: Este
approach, fi-lo na década de 80 (ele se parecia
muito, não o vejo mais há longo tempo, com Jânio Quadros ; junto
uma foto dele e uma do Jânio em outro local no livro) Em local
apropriado do livro, transcrevo trechos de uma linda e tremente
carta dele para mim, com a resposta onde teorizo sobre
influências reinfluentes, rebatendo-o num lance de humildade e
generosidade ( Haydn / Mozart / Haydn / Mozart / Haydn / Mozart
/ morte de Mozart).Tb. por acaso o rascunho estava grampeado num
recorte do jornal FOLHA DE S.PAULO de 1º de fevereiro
de 1981 ( ou 1984?, está meio apagado)) onde há uma chamada: “Se
você já está cansado dessa história de ficarem mandando ver
isso, aquilo, aquele outro, fique em casa hoje. Afinal a família
ainda pode ser um bom programa.” [21] É o que se deduz do papo de Joyce com Hemingway, ambos bêbados em Paris, onde aquele, talvez pensando na pletora da escrita corporal de Hemingway, lhe confessou que tinha medo de que seu texto fosse suburbano demais. Chegou a afirmar que “gigantes de seu tipo são verdadeiramente modestos; há muito mais por trás da forma de Hemingway do que as pessoas imaginam”. ( Cf. “James Joyce” de Richard Ellman, Cap. XXXVI, 1936-1939, grifo acrescentado ). [22] “Observações sobre o estilo de Ernest Hemingway”, in Ensaios de Crítica Literária, selecionados por Harold Beaver, trad. ª J.Silva, ed. Lidador. [23] Era um meio elogio, pois acho esse músico uma verdadeira súmula da Música até um certo tempo. [24] Cf. pág. 15 da revista cit. [25] Questões de ego? Talvez congêneres às de Mário Chamie – meu querido ex-amigo íntimo, a maior inteligência de improvisação, escrita ou principalmente oral, que vi em minha vida, muito bom poeta e talvez histórico quando não apela para o tatibitati teórico e para a versaria—, ao exultar em sua casa que Nara Leão cantou, em “Mamãe Coragem”, faixa do LP-bandeira TROPICALIA: “ ( ... ) leia o grande ‘Indústria’ ”, seu belo livro, sem se dar conta que ela exortava a ler “O grande industrial”, romance de Georges Ohnet (1848-1918) , escritor hoje esquecido, cujo “folhetim”, muito lido em seu tempo, era ainda palavra de ordem de toda burguesia “ilustrada”do Brasil. A confusão era plausível, talvez pela cadência melódica da frase, em fim de compasso, pois a tônica musical obrigava a transformar a palavra industrial em proparoxítona. Era a época que antecedeu a disputa, velada, ou entre amigos, Augusto de Campos / Caetano Veloso x Mário Chamie / Chico Buarque, e que sobrou prum TomZé acabrunhado ( antes: recalcado ) num oblívio que durou até seu resgate, recente, pelo algo decadente mas esquisito David Byrne e pelo consequente recenseamento do livro-chave dos pop-marginais importantes ( v.g. Linton Kwesi Johnson ! Ib. Morrissey ! do “Smiths” ): “SPIN Alternative Record Guide”, A Vintage Original, october 1995, First Edition, pp. 414-415. Ou, um giro pelos diferenciados, pré-cults.
[26]
Magalhães Pinto já não era Ministro das Relações Exteriores (
Foreign Affairs ) quando editei o poema no livro de 72.
“Relações Anteriores” – no livro, “Beforeign Affairs” – era
então resultante dessa condição, um Brasil negro emoldurando o
medalhão do retrato, e que também nascia, no processo de
elaboração do poema, do que vem antes do joelho... À época
deixei com um filho seu, executivo do Banco Nacional, agência
Edifício Itália, a seguinte carta com um exemplar do livro:
Prezado Senador Magalhães Pinto: [27] Em um de seus filmes mais famosos, pedala uma bicicleta ao lado de um automóvel, dando a impressão de estar dentro deste. [ NOTA POSTERIOR, A SER PONDERADA: “...Quando o automóvel acelera, desvinculando-se da figura paralela, o frajola mostra-se o pé-rapado da realidade” – algo assim...] [ Será o Long Pants (Pinto Calçudo) , de 1927? [28] Ao grande amigo e companheiro de uisque e confidências praticamente até a sua morte, quase nonagenário, mandei a respeito de “Algo”a seguinte carta: “Braga, recebi teu algo ( alga? ) com emoção, carinho e algor. deu-me realmente um frio estatelar. não consegui sair dele durante todo-o. esperava o carinho da dedicatória, mas nunca a algozaria de sua imagem – ação – algar. penetrei na noite ilumënado pelas figuras que se antespelhavam, sós, e me fizeram, mal. cheguei a ver um cara de Cristo ( não Rouault ) nas estrelas que você refletiu com distância que nem elas só a noite da direita do poema até hoje me revelou. beleza linda. só a lúcita luz também me ajudou a escalar os alg [ u – a ] res daquele algo indefinido e lúzcito. desculpe a prosápia, mas não se pode fazer outra coisa. ( não ) gostei tanto da lua, embora tenha me fixado, ainda uma vez no espelho da noite, durante muito tempo numa impressão de que aquele tropeceiro cio do silêncio invertido me falava ócio, ociano, ócio ( lá, naquele lugar! ) . cortei a parte de cima do poema e adorei. tive esse direito de usar tesoura. sua obra dá qualquer direito; puxa, como você fez aquela noite daquele solsois! nem olhando uma vez ao telescópio vi tanta luz e falta de barulho. o poema me faz uma falta, falta! tenho um título em inglês pra ele, mas “especulando” e com anagrama (n)egativo daquele soeis: é um contra-senso, mas me roeu: Lumen Noises. sua Eva é uma criança pura. é pintura. parece um edgard braga. todo o POEMA foi uma noite, para mim. um abraço todo-poderoso meu. F. MENEZES
noite de 6, véspera de 6 de julho
de 1971. (Pág. 22,
Seção 1, 22/23, Em.....Lin.... Col. 96) clique na nota 28, aqui no rodapé, para não perder o final desta primeira parte da Introdução to be continued... |
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