|
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS
DEPOIMENTO, POR SOLICITAÇÃO DO AUTOR, PARA O LIVRO DO FERNANDO JORGE, NO PRELO . (2-10-98) : Uma academia nacional de letras, para semi-letrados, ou letrados sem qualquer pretensão de escritor, representa um verdadeiro Olimpo, onde se presume estejam os que detêm o segredo de deixar, pela escrita, as páginas bíblicas de sua história, seus fastos, suas crônicas e suas fábulas pessoais. Para a maioria dos letrados de eleição -- própria ou por aclamação popular -- quase sempre representa um logradouro onde se agregam os falsos valores da cultura de um país, principalmente se neste existam mais escritores do que leitores, como no Brasil atual, e onde se carrega a sina de que aqui ninguém nasce, todo mundo reencarna, o que presumivelmente um dia será provado, senão pelo kardecismo, pelo menos pelas leis da lógica. Raro é o acadêmico que mereça o reconhecimento de justiça. Para prováveis gênios de nossas letras, Bandeira, Cabral, é um sítio abstrato, repousante , conflitantemente edênico embora, pois se às vezes alguns acreditem que ladeiam com medíocres, é porque julgam o ego afagado também pelo diabo (caso do vesânico Guimarães Rosa, que com eles só teve reuniões pré-póstumas), e, assim, cumprimentam-se, sem mais explicações, naquela sala e ritmo de ambiente de espelhos prismáticos que endoideceu Carlitos na película "O circo", e que literalmente inspirou Orson Welles n' "A Dama de Shangai". Daí para o chá, é uma questão de hora de recreio. Mas isso tudo nada tem a ver com suas verdadeiras criações. A nossa Academia de Letras nasceu sem a pompa da Francesa, sua inspiradora, mas com as circunstâcias mais típicas de nosso jeitão brasileiro: instalou- se na redação da Revista Brasileira, numa de suas duas saletas, um acanhadíssimo cacifro escuro, no dizer de Coelho Neto; mudou-se logo para um salão do Pedagogium, só podendo reunir-se em vagas noturnas das sessões daquela instituição; transferiu-se para o Ginásio Nacional, de José Veríssimo, onde se entravou como labregos empoeirados, agourento prenúncio de seu histórico antagonismo entre forma e fundo; foi para as horas vagas do escritório de advogado carioca de renome, Rodrigo Octavio, que integraria o primeiro cartel da agremiação, pedindo, para reunir-se, cadeiras emprestadas a outros escritórios vizinhos; acabou voltando para sua primeira sede de reuniões preliminares e estatutárias; ficou dois anos sem reunir-se cabalmente, até o assentamento no prédio do Silogeu; enfim, de léu em léu, de bacharel a cacharel, irmanou-se, sob a placidez solapante do gênio de Machado, numa grei portentosa (era ela a família que lhe restava, na acurada notação de Josué Montello), na qual despontavam o próprio Coelho Neto, o de prosa de pedras semi-preciosas de vitrines exóticas ( dessas que os turistas compram em galeria da Barão, mas em escória com frequência mais apurada -- e como é gostoso saber uma língua como ele sabia!); o consequente e zinavrado estirão vulcânico da metempsicótica proesia de Euclides; um desbravador social como Lúcio de Mendonça; um jurista pessoal como Clóvis Beviláqua; a encarnação oficial da inteligência brasileira de Rui Barbosa; um crítico que teve a magia de transformar burrice em elegância - mas que emblema! que bondade num imortal! -, como José Veríssimo; um gênio do conto em versos, no nível internacional d' "O Gaiteiro de Hamelim", como Artur Azevedo; um poeta nato (poeta nato!!!, Castro Alves!, Carlos Pena Filho!) como Bilac, que Drummond desavergonhadamente lia com vergonha no fim da vida, junto, para compensar o pecadilho, com o abstrato poeta Maurice Scève , do "Délie"; um gigante historiador de idéias de arte como Sílvio Romero na monumental História da Literatura Brasileira (seu "Machado de Assis", errado na essência, erradica, embora com algum laivo pré-jdanovista, todas as alienações que, quase um século depois, realmente podem castrar uma literatura de virtude nacional); um sempre-jovem Graça Aranha; um pós-adolescente de gênio como Magalhães de Azeredo, que, em livro de poemas do começo do nosso século, prefigurou em nossa língua, nas escansões e estrutura, calcado no domínio absoluto do verso não-silábico, mas de jambices e ditirambices dos hexâmetros e pentâmetros latinos, os verdadeiros metros bárbaros carduccianos, afora seu cultismo sintático como no uso, talvez inconsciente, mas genialmente intuitivo, do gongórico acusativo grego, que teve na imensa sor Juana Inés de la Cruz seu maior marchetador. Então, a simples idéia de um cenáculo é uma iluminação histórica, determinista, simplesmente patriótica. Instala-se como uma epifania, até mesmo visual, uma maravilha de efígies eponáticas, cinefrênicas, aquelas silhuetas negras em fundo negro, lindíssimas e miticamente ao desalcance de nossas mãos, como das vinhetas do filme "Fantasia", algo infantilmente onírico, não é assim nossa Academia, sem julgar quem lá esteja? O encanto daquele casarão: aquela figura alburnoturna do já ido Austregésilo de Athayde, de caráter maior que a carranca. Outros mitos hodiernos ou semi-hodiernos que já se foram, José Américo de Almeida, João Ribeiro, Raimundo Magalhães Jr., Aurélio Buarque de Holanda, Augusto de Lima ( varias poesias de "Contemporâneas", 1887, antecipam Augusto dos Anjos), Pontes de Miranda, Marques Rebelo, Sousa Bandeira, Augusto Meyer, Guilherme de Almeida, Álvaro Lins, um jornalista-empresário de gênio como Assis Chateaubriand; políticos que marcaram como Joaquim Nabuco e o Barão do Rio Branco; estadista inovador como Getúlio Vargas; um inventor internacional como Santos Dumont, que não consta do Petit Robert-2. Dos vivos, um empresário-jornalista de gênio como Roberto Marinho; um médico renovador como Ivo Pitanguy, um expoente do jornalismo político como Barbosa Lima Sobrinho, que vai fazer 102 anos; um lingüista, tradutor, bibliógrafo e crítico do porte de Antonio Houaiss; um Ariano Suassuna, repositório de arte popular, popularesca e humorística de altíssimo nivel; um grande líder e novelista que tem de ser recenseado, como Josué Montello; um romancista que é lido em todas as línguas, como Jorge Amado e que será sucedido por Paulo Coelho, mas que isso demore, pela saúde de Jorge Amado. Todos esses vultos não honrariam o Petit Trianon original? E o milagre das fardas, levíssimas quando vestidas! Há mulheres, mulheres!, por lá, não é fantástico?, é o balbucio dos vizinhos e dos passantes Agora, o que faz com que os SEAMAM quando não se amem, pelo menos nem se estraçalhem, mas se respeitem? Lá tem católico, protestante, evangélico, espírita, comunista, adepto de fascismo, americanófilo, pró-angolano, flamenguista, corintiano, louco, semi-louco, os de prosa mimosa, os de conversa aprumada. Só não tem raça negra, a não ser em algum CD do conjunto de pagode no bolso de algum acadêmico. Será porque acham que não existe, hoje, em nossas letras, alguém do porte de Luiz Gama, Gonçalves Crespo, Caldas Barbosa, pra não dizer de Gonçalves Dias, o trigueiro Basílio da Gama, o azinhavrado Gregório de Matos e do fulgurante, e nigérrimo, Cruz e Sousa, embora alguns desses tenham sido patronos das 40 cadeiras? A este último, em recente homenagem que a ABL lhe prestou, o silêncio lhe escamoteou a negritude, talvez pelo parentesco cromático com Machado de Assis... Mas, em qualquer circunstância, os SEAMAM, mesmo se odiando nas idéias, não se molestam, a cortezia impera com inquebrantável sinceridade, estando juntos se fraternizam do fundo do coração, o ambiente, dizem, é da mais reluzente alegria. Quando se reunem se adoram, sentem-se bem e sentam-se melhor ainda, demonstram que a Casa é pra se amarem, pra se amarem como catarse, mesmo que porventura não deixem obras perenes. Talvez isso tudo se explique pela idolatria que devem, consciente ou inconscientemente, devotar à obra mais familiar de Machado de Assis, o "Dom Casmurro", onde o amor e a admiração, também consciente ou inconsciente, que o casal nutria pelo talvez comborço Escobar fez gerar uma criança com sua identidade moral e semelhança física. Uma teoria psicogenética, caracteriológica ou malvadamente pós-lavateriana, mas na época chamada de teoria da impregnação fisiológica, uma teoria clínica que mais a fundo impregnou foi o naturalismo de Zola e o Thomas Hardy da fase do realismo experimental e, por aceitação tácita, nosso sodalício... Então não houve adultério e por consequência, traição. NESTA CASA NINGUÉM TRAI NINGUÉM, PODE HAVER ENGANO, MAS NUNCA TRAIÇÃO, AQUI TODOS SE AMAM SEM QUALQUER INDAGAÇÃO! É a herança-homenagem arquetípica que devotam a seu pai Machado pelas vias desse peculiar mistério que ronda a Academia, e que também pode decifrar a coincidência de algumas cadeiras abrigarem, é incrível!, figuras mais anódinas, incluindo o patrono ( o caso, perdoem-nos, das Cadeiras 19, 20 e 28), coincidência que não pode contar com a morte e com a candidatura, o que mais consolida o mistério. Feliz, misteriosa, única e maravilhosa Academia Brasileira de Letras!
************
ALLEN, WOODY (Essencial) " (...) Mas foi
no cinema que se destacou. Compôs um personagem que entrou para a
mitologia hollywoodiana. Fisicamente um homenzinho de óculos e narigudo,
detestavelmente desajeitado e extremamente tímido. Socialmente um
intelectual que vive em um universo, a sociedade americana, que não é
feita para ele, ainda mais quando se é judeu. Não se trata absolutamente
de um imbecil, ele é lúcido. Também não é um bobo inocente, pois gosta
de mulheres e agrada a elas. Não é, enfim, um vagabundo como Carlitos,
pois tem uma profissão, apartamento e amigos; muito menos um marginal.
Há um certo amargor nele ("Se tivesse nascido na Polônia, daria um belo
abajur"), mas nada lembra a agressividade de Grouxo Marx. Com o
personagem assim esboçado, basta lançá-lo em uma seqüência desopilante
de sketches de cabaré ("Bananas"), transformá-lo em um gângster azarado
( o episódio do revólver esculpido em sabão que derrete na chuva em "Um
assaltante bem trapalhão"), mostrá-lo como um espermatozóide tímido
("Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de
perguntar") e fazê-lo aparecer em uma irresistível paródia de "Gerra e
Paz" de Tolstói ("A última noite de Bóris Gruschenko") . Diálogos
engraçados e situações extravagantes mal permitem ao expectador tomar
fôlego. O tom torna-se mais grave em "Noivo neurótico, noiva nervosa". E
aí vem a ruína de "Interiores". O palhaço toma-se por Bergman. O drama
não faz o estilo de Woody Allen. Recobra-se e, após uma admirável
sinfonia em preto e branco sobre Manhattan, apresenta sua auto-crítica
em "Stardust Memories", e volta ao cômico do começo. "Zelig" é o filme
mais extravagante feito por Allen: nesse filme o herói toma a forma
daqueles de quem ele se aproxima: obeso, com um obeso; escritor com O'
Neil, etc. Em "Broadway Danny Rose", Allen envoca um empresário de
atores fracassados, reencontrando o mesmo humor melancólico e o mesmo
sucesso. Filme pirandelliano, "A rosa púrpura do Cairo", sobre os amores
de um personagem do filme e de uma expectadora, alcança enorme êxito.
Nostalgia das antigas estrelas da rádio ( "A era do Rádio"), logo a
seguir portas fechadas para seis personagens à deriva ("Setembro") e
finalmente uma sátira da psicanálise ("A outra") comprovam uma arte que
não deixa de se refinar. Demais, talvez. A introspecção se torna
invasora, mas esse tom continua seduzindo. "Alice"é um sucesso que
permite a Allen conservar sua independência diante da máquina
hollywoodiana. A despeito das dificuldades da produtora Orion, não
hesita em filmar em preto e branco "Neblina e Sombras", mistura sutil de
Kafka e expressionismo alemão, com uma inevitável referência a Bergman.-
BIBLIO. "Woody Allen, uma biografia", de Eric Lax, Companhia das Letras,
1991."
************
P L
***
> Meu poema, inspirado no
concretismo dos Campos ***
Muito bom!!! Realmente, o Amor só volta (retribui), como no seu poema, quando "bate" no outro(a). Se você eliminar o final onde se desenha o coração com a palavra no meio, fica perfeito. Porque com aquele final o poema sai da espacialização para cair no pictograma, recurso tipicamente caligramático que, no caso, "estraga"...
***********
Eu havia traçado uma carta-ensaio, com vistas ao Ivan Teixeira, a qual, de certa forma, repete os conceitos supra, com apenas uma novidade:
“Ah, estou meio confuso hoje, pulando com ansiedade pra afugentar uma bruta ressaca, nesta madrugada enxuguei com um amigo um litro de whisky JB, meus neurônios estão in UTI s (pôrra, mas esta está ótima, acho que está, Deo gratias, nasceu agoríssima), então, neste embaralhamento todo descobri mais uma alusão, sutil, maravilhosa, no poema Amor, do Castor: além daquela atração e repulsão, da divisão do ser na aderência do amor, do ímã ao contrário, da massagenzinha no clitóris do mouse (como já disse, o dedinho roçando a ruela do mouse para o poema se mover), acabei de ver mais uma: aquelas duas linhas (que tenho chamado de amorosos no curso dessas análises), estão em dois balanços, desses de parques de periferia, os primórdios do amor, balançando puros...no poema há pureza, maldade e crueldade, três etapas do Amor quando não vinga ( aí ele se vinga).”
************ @ Ref.: “Um copo de cólera”.
Consultado, Raduan Nassar não fez objeção à publicação da presente carta, em bilhete de 25-8-1986. Preâmbulo
Quadro I: a chegada Num fim de tarde, o personagem narrador volta para sua casa num disperso loteamento fora da cidade e sua parceira de encontros amorosos já o aguarda quando ele chega. Depois de uma evasiva troca de palavras no terraço e uma ligeira incursão pela cozinha, os dois vão para o quarto. Quadro II: Na cama No quarto, ele se demora em pequenas encenações, procurando exibir disfarçadamente os pés nus para sua parceira, deitando-se depois e repassando na cabeça, enquanto ela vai ao banheiro, os expedientes eróticos a que recorria de costume para levá-la a uma alta tensão sexual. O quadro termina por onde sempre começavam os jogos amorosos: ela, prostrada ao pé da cama, cobrindo de beijos os pés do parceiro. (Com alguma ênfase nos pés do personagem, implanta-se uma das premissas da trama). Quadro III: O levantar O andamento da narrativa neste quadro é de uma leveza que lembra jogos infantis, onde só se insere – com a abertura da janela do quarto para uma densa neblina – a sugestão de um momento de confusa turbulência mental do personagem, já detectada por sinal pela parceira por ocasião da chegada. Quadro IV: O banho Maroto no início, ritualístico depois, remetendo à purificação pela água, o banho dos dois propicia, a partir de certo momento, a entrega filial dele a ela, ao mesmo tempo em que ele recupera na lembrança as mãos rústicas que o banhavam quando criança, em contraposição com as mãos cuidadas da parceira. Quadro V: O café da manhã O dejejum é feito no terraço com louças de requintada simplicidade, propiciando o aparecimento de nova personagem, Mariana, caseira mulata que se desloca coberta de pudor. Depois da cama e da mesa do café, a parceira, refeita no seu equilíbrio orgânico, mostra uma quase ausência de tensão, só perturbada pelo que se passa eventualmente na cabeça do parceiro, entregue então a uma imperscrutável contemplação / introversão, enquanto alisa o Bingo, seu vira-lata. Quadro VI: O esporro Do terraço, o personagem dá conta por acaso do rombo causado pelas saúvas na cerca viva do seu terreno, um fato aparentemente banalíssimo, mas capaz de desencadear novo ritmo narrativo. A suposta exorbitância emocional do personagem contra as saúvas leva sua parceira a contrapor sarcasticamente sua própria racionalidade à cega passionalidade dele. Os dois, depois de provocações recíprocas, acabam por se atracar num rude bate-boca em que ele, se fazendo ator, equaciona um pensamento com transparência quase cartesiana. Com recorrência a uma multiplicidade de temas convergentes, a intriga novelesca passa a se construir também em cima de idéias. O personagem, passo a passo, num crescendo que culmina com a violência física, consegue a façanha de inverter radicalmente a situação, fazendo sua parceira perder-se num obsessivo passionalismo, acabando mesmo por sujeitá-la literalmente a seus pés, quando então a escorraça impiedosamente da casa. A convulsão da cena corresponderia, no andamento da narrativa, a um clímax orgástico, a que sobrevem um súbito relaxamento. O personagem rememora então uma fotografia antiga e, com a foto, o estrito código de ética da sua infância. Nessa altura, a neblina acaba por diluir-se de vez, dando ligar a um “sol glorioso”: o personagem tomba sacudido por soluços e o quadro termina com a tentativa dos caseiros em soerguê-lo do chão pelos braços, “como se erguessem um menino”. Quadro VII: A chegada A narrativa sofre aqui uma mudança de foco com o relato da volta da parceira feito por ela mesma. A casa e o entorno, já quase noitinha, se apresentam com a gravidade de um monastério, como se a narrativa do Quadro I se repetisse, mas numa outra volta espiral. Pensativa de início, cheia de ternura depois, ela procura e reencontra o parceiro num quarto à luz de vela, deitado na postura caprichosa de um feto.
**************
Raduan Recebi seu livro ontem e ontem mesmo acabei de lê-lo. Por ora, não tenho palavra para dizer tudo que senti. Só sei que fiquei tomado pelo fluxo da narrativa, de um poder riquíssimo de expressão que não tenho visto na ficção em língua portuguesa, a não ser nos idioletos geniais tipo Guimarães Rosa. Mas o seu negócio é muito outro! Logo de cara aquela primeira epígrafe, que, partindo de você – que eu conhecia de papo circunstancial, mas cuja ideologia nunca pus em dúvida e que é das melhores, permita-me – partindo de você, aquela epígrafe pespegou no rosto do livro, pôxa, fiquei cabreiro ué! o cara pensa assim?!, mas que no correr da ação vi que era pensamento do Narrador, aliás, personagem dúbia e de uma alma peripeciosa, sujeito magnífico no desespero de viver na contrapaz da sua insciência, ao mesmo tempo buleversado pelo contato seminal com seu duplo/mãe/fêmea (espírito), ele incubo & súcubo num só ato, ela: ele & ela no desato, tudo instintivamente filosofal, nunca vi narrativa/tema parecida, onde estava a ação??? Foi maravilhoso o contato com aquela estória sem história (na aparência!), que de repente me sacode na palmada violenta que estala também fora do livro e me justifica uma epifania que fiz quando estive, há um mês e meio, exilado de minha mulher por meio mês:
“E derrepente: É isso que ele & ela foram, em termos ficcionais, durante toda a Novela! Compreendi o que havia feito na iluminação (foi epifania, Deo gratias!...), pois só com sua ajuda tipos racionais demais como eu, você e Joyce (Mallarmé na poesia) conseguem perfurar a vida, tão óbvia no emocional mas tão cerrada no vislumbre, pra darmos de cara no chão em que todo mundo pisa... Tive um “frisson”, quando, na pág. 72 (até mais ou menos essa altura do livro fiquei pregado, tenso, contrito, rezando de medo – sua obra é uma reza perpétua, você entenderá isso qualquer hora, você que vê o Interior tão bem, os lugares não-Capital tão bem, sabe que a reza não é sua prima-rica/missa), no meio das porradas* surge aquele edema fantástico: “quantas vezes não disse a ela que a prosternação piedosa correspondia à erecção do santo?” Aí parei pra mijar e olhando o jato pensei com meus barulhos: pôxa, é mesmo a coroação da epifania, à la Joyce, que vem vindo desde a página 70/71, na prosa mais linda que vi nos últimos 24 anos!: amor sim” e se eu também dissesse “que quanto você insiste em me ensinar?” ela haveria de dizer “esquece amor esquece” e se eu lhe dissesse “já é dia, faz tempo que o teu bom-senso se espreguiçou, por que caminhos anda ele agora?”ela haveria de dizer “não sei amor não sei” e vendo o calor, sacro e obsceno, fervilhando em sua carne eu poderia dizer “mais cuidado nos teus julgamentos, ponha também neles um pouco desta matéria ardente” e ela sem demora concordaria “claro amor claro” e me lembrando do escárneo com que ela me desabou eu, sempre canalha, poderia dizer como arremate “e quem é o macho do teu barro?” e ela fidelíssima responderia “você amor você” e eu poderia ainda meter a língua no buraco da sua orelha, até lhe alcançar o uterozinho lá no fundo do crânio, dizendo fogosamente num certeiro escarro de sangue “só usa a razão quem nela incorpora suas paixões”, tingindo intensamente de vermelho a hortênsia cinza protegida ali, enlouquecendo de vez aquela flor anêmica, fazendo germinar com meu esperma grosso uma nova espécie, essa espécia nova que pouco me importava existisse ou não, era na verdade pra salvar alguns instantes que me rebelava à revelia Isto é bíblico! Um responsório de altíssima poesia. Epifania à la Joyce...
*Penso que a convenção de leitura que impõe a aceitação daquele discurso dialógico (no sentido que lhe empresta BAKHTINE, “La poétique de Dostoievski”) deve ser levado em conta para fruir que aquilo, que foi narrado “a posteriori”, não estava acontecendo no agora, não uma câmera, penso, mas um “camera man”. Satisfação meramente pessoal dessas que alimentam o ego da gente, foi o que tive, pois, após a observação lateral, supra, de que essa página é um responsório, bíblica, ao mesmo tempo o recurso literário que passaram a ser as epifanias joyceanas, quando li a NOTA DO AUTOR, no fim do livro, sobre a paráfrase que você fez haurida no “Retrato do artista quando jovem”, onde se encontram mascaradas e emasculadas, as célebres epifanias joyceanas concebidas para e/ou a partir da versão original “STEPHEN HERO”. Se você der uma olhada no “Epiphanies” (James Joyce), ed O.A. Silverman, Bufalo University, 1956, vai ficar basbaque de como você raciocina epifanicamente, Raduan. E a maturidade da narrativa!! Não é possível ver saí-la de sua postura colegial, se alguém não te perscrutar bem! Aquela “densidade da casa quieta, “minha cela”, segundo o comentário seco que ele fez um dia, misturando nesse estoicismo coisas monásticas e mundanas” ( ! ) (pág. 81) Algo dionisíaco perpassa esse seu rol de prosas na aparência valéryanas (“MONSIEUR TESTE” é uma grande obra, pálida às vezes perto de seu copo de cólera, se levarmos em conta que você, na alimentação cartesiana, não dispôs, em bom vernáculo, de Voltaire, nem de Choderlos de Laclos) dionisíaco como aquele “equacionando uma álgebra tropical, ardente como nas origens (sangue e areia)” (pág 58), esotérico – tinha eu anotado naquela passagem – por distensão do fio do pensamento tenso. Relaxamento dá esoterismo.
Por outro lado, vi Villon naquele
(pondo em dístico):
E o belíssimo tropo de retórica que há naquele trecho do ventríloquo “denunciando inclusive trapaças com sua arte, ainda que trapaceando ele mesmo ao esconder a própria voz, ” (!, loc. cit.) Eu disse uma vez, numa entrevista às FOLHAS (1973) que, em Dostoiévski todo, você não encontra uma só metáfora, uma comparação, e isso constitui um milagre num narrador tão “poético”. Hoje em dia de você se poderá dizer o mesmo após a assimilação dos conceitos poundianos de imagem em função da tríplice divisão logopéia, melopéia e fanopéia, (o fenômeno “nostalgia” e a reassimilação da simplicidade prediluviana da Crítica Inundadora (imagem esotérica de Deus!) nos conclama à gonopéia!...(Et pour cause, mas viva a gonopéia!) É que você faz, às vezes, uma espécie de translinguagem verbal, onde o conceito é metafórico mas o veículo é prosaico; e dá nisso: “...mas que não faz da fome do povo o disfarce do próprio apetite”, pág 62 (metáfora logopaica); “não queria balidos de platéia”, pág 40 (metáfora melopaica = a música sobre as palavras)... “só queria meu berro tresmalhado”, loc. cit. (metáfora preponderantemente fanopaica, com riscos de logopéia); “não era mais o caso de bocejar em cima de um sono mal-dormido” (logopéia & fanopéia), eis que o tédio (a dança do pensamento sobre a imagem = logopéia) é justaposto à imagem visual do sono mal-dormido, com aquela visão dilucular de um corpo, com “gosto de amanhecido”, aquele travo na boca, sendo soprado por outra boca (a dança do visual sobre as palavras). E aquela metonímia fantástica: “e no terraço a gente só ouvia o ruído alegre do alumínio das panelas” (!!) (pág. 25) Uma das grandes surpresas/tropeços que a gente tem é que, num livro com tendência ao psicologismo (no bom sentido, porque as “Idéias” são as personagens principais e as pessoas figurantes, mas não meros figurantes) é a sua fortaleza na descrição de exteriores, que não fica devendo nada a Melville (Balzac & Tolstoi & Zola não fazem “descrição” impressionista, não precisam da óptica para armar o visual). Nas duas únicas vezes em que a narrativa saiu pra fora deu nisso (!): “...vi que o dia lá fora mal se espreguiçava sob o peso de uma cerração fechada, e, só esboçadas, também notei que as zínias do jardim embaixo brotavam com dificuldade dos borrões de fumaça, e estava assim na janela, de olhos agora voltados pro alto da colina em frente, no lugar onde o Seminário estava todo confuso no meio de tanta neblina,” (pág.17, grif |