**********

 CARTAS

 

Nesta gaveta poderão não estar, de início, as cartas temáticas, que mandei a figuras questionáveis/questionantes de Arte em geral. Encontram-se, neste caso, em Ensaios.

( Cartas:         - Minha ao Pedro Xisto: v. revista japonesa “ASA”, vol. 6 – 6-1972.72.

- Minha ao Osmar Pimentel, A SER USADA NO RELATO SOBRE O ROMANCE “OS SENTIMENTOS DIDÁTICOS”, onde ele será transcrito. Acho que está na Pasta do cap. III do romance, cf. 

 

 

(As cartas supra já estão aqui)

 

 

         - Minhas a:

         - Augusto de Campos.

         - Pedro-Juan Gutiérrez.  TODAS ESSAS : PASTA 6.

                                                          

       -     Carta do Barreira, relatando sua vida PASTA 3. )

 

**********
                       

                     

@ Para Paulo Bonfim, em 16-01-07, a ser enviada pelo correio.

 

            Caro Poeta Paulo Bonfim.

            Há pouco falamos por telefone sobre o tributo que fizeram ao ilustre vate, onde, a par de curtir as merecidas homenagens, também procurava por um soneto de José Jorge Tannus.

            Estou tomando a liberdade de mandar-lhe, reproduzido em cartão-postal, meu poema-cartaz (se assim podemos chamá-lo)  “O lago dos signos”.

            Determinada historiadora de literatura, Zina Bellodi, falou em intertextualidades. Por exemplo, a execução do poema, virado partitura (sua última parte, quando surgem as notas musicais, direcionadas todas para o tempo das semibreves) tem que ser, digamos, monitorada, pois a colocação de certas appoggiaturas é que possibilita uma semelhança, uma ressonância com os primeiros compassos d´"O lago dos cisnes" de Tchaikovsky. (Tenho uma gravação da leitura do poema ao piano, feita pelo renomado compositor Flo Menezes, que, não sei se você sabe, Paulo, é irmão do Philadelpho Menezes, morto em desastre de carro aos quarenta anos em 2000, no torque de sua carreira, teórico e instaurador, no Brasil, da Poesia Sonora, criador da Poesia Intersignos, titular da PUC e da S. Marcos em literatura intersemiótica. Ambos filhos meus...

            ... e grande admiradores do papel que você representa na poesia lírica e memorialística, além de emblemática  da inspiração das Arcadas, já que todos aqui de casa, inclusive minha filha mais velha, cineasta e procuradora do Estado, passamos pelo Largo de São Francisco.

            De volta ao poema: a alusão aos sininhos da suíte “Quebra-nozes”, que está em meu texto-bula, é para melhor identificar o assunto com caixinhas de música, essas que dão surpresa. Aqui há um certo subjetivismo na exegese, mas pago pra ver no que dão tais associações...

            O poema foi muito ajudado pelo acaso: mais uma intertextualidade com o chamamento à autoria do coup de dés mallarmaico: un coup de dés (...) j´amais n´abolira le hasard  etc. etc .

            Aquela clave central, mas que está logo abaixo de um registro neutro ( os AA. de uma antologia inteligentemente atribuiram quatro fases ao poema!...) está colocada em hexagrama, ao invés do natural pentagrama musical, para ser manipulado por consultas aos trigramas do I-Ching, o clássico livro chinês das Mutações. Consultando tais trigramas na exatitude, dão quase sempre no mito do desaparecimento do cisne, em seu corso ed ricorso da volatilização do amor atribuído pela lenda, e que Tchaikovsky comoventemente imortalizou.

            Como a versão circulante d´ “O lago dos signos” está em cartão-postal, suas dimensões dificultam muito a percepção de certos sinais que estão no protótipo original, de mais ou menos 1 metro por oitenta centímetros, tal como exibido na 1a.Mostra Internacional de Poesia Visual de São Paulo – BR, 1988 – Centro Cultural São Paulo. Lá se vê que as duas claves dos pentagramas são de sol, mas se se pegar uma lupa dá pra ver certinho também na versão do cartão-postal.

            O original estava em comodato nos salões principais de um café literário do Bixiga, aqui em São Paulo, quando foi vendido, por insistência pertinaz, quase tresloucada, e oferta pecuniária irrecusável, a um dos mais famosos (na época, 1990, 91 o mais famoso) bateristas de rock do então mais retumbante conjunto heavy metal do mundo, que visitava São Paulo durante uma folga do primeiro (ou segundo?) Rio Rock Festival.

            Razões óbvias me impedem de declinar o nome tanto do Café como do conjunto musical.

            Mas o poemão original, de parede, está em Los Angeles ou em Londres...

            Tempos depois foi feito um fotolito gigante que possibilitou a réplica hoje em poder do maior bibliófilo brasileiro de Modernismo, pré-modernismo e pós-modernismo brasileiros, que tem toda sua obra em primeiríssimas edições, Waldemar Naclério Torres, já há anos residente em Porto Alegre.

            E, last but not least, o poema muda um pouco o secular princípio de Hipócrates, Ars longa, vita brevis, demonstrando que signos largados ( = Arte. Ciência = signos amarrados), i-chingando a Natureza (atente para a homofonia do gerúndio), realmente em nada mudam que a Vida continua breve, mas a Arte é (pouco) menos breve (veja o “semi-breve!” que fecha o texto bula). Quer dizer, a transitoriedade impera em qualquer relação. E causticamente...em música a semibreve tem a metade do tempo da breve ...NÃO É DIABÓLICO?!

            Bem, ficando por aqui, deixo-lhe um fortíssimo abraço, na esperança de um dia ter um exemplar do “Tributo a Paulo Bonfim”, organizado pelo ilustre desembargador seu amigo, com quem não consegui ainda trocar palavra, por minha culpa exclusiva..

 

**********
 

 

@ Para FLOREG.

A presente carta foi dirigida ao Flo Menezes, na época para nós e os de seu convívio mais íntimo, simplesmente o Bebê. Estava na Alemanha com sua mulher, REG, artista plástica, Regina Johas, 1986. Acabara de ser agraciado com uma bolsa de Colônia  ( Köln), após seleção de trabalho musical que o habilitou, e onde desenvolveu, até primórdios da déc. 90, todo seu percurso de compositor de música eletroacústica. Procurei traçar-lhes, chamando-os de FLOREG, um panorama desses anos, no conturbado Brasil de então. Tentei suavizar com chistes de natureza artística, músical e, principalmente, econômica e política.

 

 

Ora?!...só por causa desta puta senvergonhice que paira no sanguerido brasileiro! Não estou pessimista, não, mas é mesmo de arrepiar qualquer cristão esta mentalidade lúmpem do nosso povinho! Agora mesmo, às dezenove horas, no Almanara, segunda-feira, da Basílio da Gama, encontrado o Percy por acaso, sentamo-nos (eta lingüinha!☺) ao lado de uma petista muito teórica, vivida e sofrida, parece que pegou cana quando estudante, em 63 e 68, que deu um violento baile de doutrina em cima de nós dois sobre o Plano Chifrado, desculpa o “lapsus linguae”, quer dizer, o Plano Cruzado, mostrando ao Percy que ele (Plano Cruzado) veio em fins de Fevereiro justamente porque Março-Abril-Maio, por aí, haveria os maciços dissídios coletivos...então o Governo achatou de cara o salário do pobrão e acenou com o ilusório congelamento dos preços...e aí está ; falta tudo, carne (com a UDR fazendo leilões entre os fazendeiros/industriais/financiadores dos ontem obans-dói-codis...hoje dumpings acintosos de sonegação do produto...leiloando às escâncaras, pra o Governo ver, rezes valiosíssimos para angariar fundos para compra de armas, daqui e do Exterior, pra mostrar, alto e bom tom, que estão armados até os dentes para continuar a matar os “invasores” de suas santas terrinhas...(OBS. PRA VOCÊ QUE ESTÁ AÍ:UDR quer dizer União Democrática Ruralista, uma associação de magnatas fazendeiros do Brasil inteirinho unidos para impedir que os sem-terra usurpem alguns palmos de sacrossantos torrões ganhos com o suor...das heranças...então veja, FLOREG, falta carne, exportamos duzentas toneladas de uma vez...; falta carne outra vez, a UDR leiloa carnes e vacas para angariar fundo pra compra de armas que saem... daqui mesmo! Vocês sabem que produzimos as armas mais poderosas e modernas do mundo? Tanques com cérebro eletrônico capaz de fazer com que a energia do corpo inimigo e de seus pertences irradiem um expectro que desenham em relevo seus perfis na escuridão, de tal sorte que a própria camuflagem realce apetitosos alvos!!! Parece-me que se chama Ozório. Bazucas/bumerangues! Lança-napalms de trezentos metros de alcance!, anfíbios de oito rodas de nadadeiras atômicas, tudo, tudo, temos tudo, produzimos as melhores armas do mundo, tudo na mão de aguerridos, confessados e comungados rapazes orgulhosos da lupanar pátria lúmpem que reluz na lupa de sua cegueira; quando abrem os olhos é pra dirigir carros, ah, seus carros/feudos portáteis, autoritarismo ambulante, uma lesma empurra a outra como diz o Ronaldo Azeredo – Deus o tenha em boa vida -- ...e cada buzinada é um tiro, por isso buzinam tanto......leite (há longas filas de leite, sumiu o queijo fresco, o queijo prato, o queijo mussarela, o requeijão; açúcar...a burguesada saqueou os supermercados de medo da falta de açúcar! Gozado, se faltar água eles dão um jeito...mas açúcar não pode faltar, nem na visão mental do cidadão, não sei porquê, ele enlouquece com a idéia... A petista falou em luta de classes, disse que o Suplicy vai fazer a autofagia da contradição de ser filho de industrial e de enfrentar uma possibilidade de não continuar seu pai, algo assim. O Percy já começou a meter o pau em Cuba, Marx era um utópico, os serenos homens igualitários jamais existirão...mas ele era a favor de uma justiça social mais humana que esta, etc etc etc; a petista disse, parabólica-parafrásica-metafóricamente, que um revolucionário não pode ser um alvo para uma bala e...dizendo que não dava pro Percy, pq. a coisa custa e precisa ter retorno, deu pra mim 2 folhetos de programa de uns candidatos meio udigrudis do PT (isto na minha opinião): uma é mulher sofrida, tem um programa de base internacionalista, outro vai defender, como deputado estadual, coisas metalúrgicas. Na saída, na calçada, falei-lhe em Jacob Bittar; ela me respondeu meio rindo: O Bittar é advogado!... Achei a observação um pouco estalinista, posso estar enganado; o Percy, puto da vida pq. a mulher não lhe deu bola e achou-o de direita, azulou de raiva e me disse: Caralho, esses operários elitistas, autoritários...você viu?, só eles que falam, não dão a mínima, não respeitam o ser próximo... Ele tem um pouco de razão, são essas contradições de campanha política. Mas, veja, FLOREG, vocês não acham que tudo isso é gostoso? Não estou pessimista não nem louco nem dopado nem bebido nem meditado nem taroado (de tarô) nem i-chingado nem... Só, digamos...um pouco abendsçoado pelo fim do dia, que sempre me deixa um pouco estranho. Vim sozinho pra casa. Passei pelo Miguel, tomei uns choppinhos, o Orlando viajou hoje pra Europa, não fui no bota-fora, comi um steak ou poivre, mandei dois licores de uísque, agora, 11h50 de 15, entrando no 16, fiz uma pausa, falei com a Tabinha, a Cris está dormitando no sofá, mamãe na cama, é uma grande mulher, a Tabinha é uma grande cachorra, a Cris é uma grande pessoa, tenho muita pena dela por causa de sua insegurança, acho que ela nunca ouviu uma gargalhada da Vida, sabem? Os amigos...de sempre...o Wylly sumido, fissurado só nas kulas,  viciadíssimo, só anda com o Leonel & Gonzalo, dupla esquizo! se um morrer, o outro só vai perceber uns dias depois. Enfim, é uma falta de objetivo autêntico terrível! Não vá se sensibilizar nunca pela música desses versos:

 

“Glücklich allein

Ist die Seele, die liebt.

 

Freudvall

Und leidvalt                              ♫♪!

Gedankenvall sein,                                Goethe

Langen                                    ♪♪!

Und bangen

In schwebender Pein,

Himmelhoch jauchzend,

Zum Tode betrübt –

Glücklinch allein

Ist die Seele, die liebt.”

 

  Sabem, FLOREG, Seele (a escolha do sintagma See mais sua colocação na frase)...regendo dois verbos...esse segredo Goethe furou o véu da alegria...deu uma música interna muito forte, só sei o alemão da hora, isto é, do instante dos meus achados, dos meus estudos noturnos! Vi isso no Goethe supra, sozinho! mas quem não tem objetivo certo, fanatizado na vida, não enxerga mais nada. Bem, algo muda com a idade, uma pena que na maioria e no mais das vezes mude para pior...Tenho estado muito com o Fiaminghi, o Décio, o Zelão, são fanáticos, cada um à sua maneira...mas que bonito só se pensar, como maníacos internados, na Arte, na Beleza, o desligamento total do dinheiro e do automóvel, duas lepras.

Porque estou assim? : como disse, na primeira linha desta carta, por causa que estou vendo o mundo – e, em especial, o Brasil – de uma maneira muito exclusivamente política...e este lumpemzinato brasileiro de primeiro ao quarto graus (i.é: nas nossas classes sub-operária, sub-classe média, sub-classe alta e ecto-lumpem) é tudo produto de um fenômeno que só ocorre no Brasil, descoberta minha, conscientizada por mim somente aos cinquenta e cinco anos! :...de que, no Brasil nunca nasceu ninguém, aqui só se reencarna, é uma descoberta diabólica. Os seres já “nascem” com uma carga que vai gerar grandes contradições, um filho da puta de um pé-de-chinelo qualquer acaba esfaqueando grevista ou alguém que queira tirar-lhe a mãe, mulher e a filha da zona...se lhe acenar com um estado de coisas “dito” comunista...ou igualitário...ou algo parecido...Mas, em seguida vai dar a bunda pro patrão que o humilhará cada vez mais! Um senso de metempsicose (não confie Floreg, vá ao dicionário!) sempre acaba tomando o infeliz pobre diabo de espírito cacete o mais com todas as sanhas de feroz cão de guarda cinzento de burguês com guarita, ui...ui...ui... QUEM? CÃES CAÍNS.

                      Um maroto de um inglês (inglês, não é americano!) se não me falha a memória Guy Playfair, escreveu um livro sobre o reinado dos “phaenomena” paranormais, Brasil! com o título de (ah, achei o livro, a Biblioteca continua bagunçada, mas tenho ainda minha ordem, da memória) ”The flying cow: research into paranormal phenomena in the word´s most psychic country”, Souvenir Press, London, 1975; eu traduziria, li o livro, “PARAFERNÁLIA PARANORMÁLIA”; É o fim! Mas tem coisas intrigantes! Será que existem?!...Mas, politicamente, a “ficção” vira realidade...Se não se exorcizar, limpar tudo isso do Brasil, não haverá nunca luta de classes, a vida dos “karmas” e a ladainha das justificativas obnubilarão eternamente os juízos e os sentidos de justiça. Vejam lá o título “..... no país mais “psicado” do Universo”: aquele tal lugar onde ninguém nasce pela primeira vez, todo mundo se reencarna: imaginou, Floreg, se alguém quererá revolução?!

   Bem, queridos, de novidade: Cris está entrando numa ótima, de repensar a vida, firme no propósito de fazer cinema, isto dará a ela fé em si mesma e muita vontade de viver, tenho certeza. Ela bem que podia desenhar, tem um traço bonito, original. Falar nisso, estou felicíssimo em saber que você, Reg, está animada em descolar um ateliê ou coisa parecida pra praticar sua vocação. Vá em frente, mas não brigue com o Bebê, penso que ele ama muito você.

(2 meses depois): Não queria continuar, para não deixar, politicamente, vocês dois em fossa, mas, hoje, primeiro de Dezembro de 86, acontece no Brasil:

            - Falta sal: filas pra você pegar um pacotinho de um quilo;

- Ah, se o Lula tivesse se candidatado a deputado estadual, estaria eleito.. “É muito burro, querer ser governador logo de cara ( um amigo que você conhece), (1982);

- “Pô, que burro! Se se condidata a Senador, esta eleito”....(Orlando, 1986) (Mais de 100 mil votos, agora, para o deputado federal à “Constituinte”).

- Leite só amanhã, doutôire! Passa de leve, que arranjo-lhe um litrinho!...(o português da esquina, boteco, hoje, 1º Dez.);

- Você é um ignorante tanto quanto era há 15 anos, Fia! Fale, fale mais sobre essas reuniões anarquistas da década de 40...Pô, pô, quer fazer o favor de calar a boca, ME-NE-ZES! IN-TE-RE-SSA O DE-PO-I-MEN-TO DO FÍÍÍÍA...:(há um mês atrás, aqui em casa, eu, Décio e Fia, depois de um papo moralmente desgastante, que varou a tarde no João Sehn e terminou aqui, (DESCULPA OS ERROS CONSTANTES DA DATILOGRAFIA, ACHO QUE É ATO FALHADO POR EU DETESTAR ESCREVER, MAS SINTO QUE ESTOU EM FALTA COM VOCÊS!-------Continuem a escrever, mesmo que eu mande umas linhas somente a cada 3 ou 4 meses: adoro receber cartas, na direta proporção do ódio, digamos aversão, em vez de ódio, de escrever-----------,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, e depois das onze, quando ia colocar na vitrola o que lhes prometi:

             a) O CHOPIN QUE EU AMO, LP maravilhoso, onde Rubinstein, aos quase noventa anos,

toca umas dez obras de Chopin, um pai

de uma verdadeiramente deslumbrante,

onde é transcendente a leitura que faz

a Valsa n. 7, Op. 64, n. 2; da valsa do

minuto; e de uma Mazurca onde

acentua umas pulsões moçarábicas só

captáveis à luz (sic) de estetoscópio

ou de Jack Daniels na veia (ESTE

WHISKY BOURBON É O MELHOR

NECTAR QUE JÁ TOMEI! 

A Mazurca é a de nº 23, ré maior, op. 33, nº2!!!!!!!!!! Você verá, principalmente se a ouvir tomando esse inigualável, infalsificável bourbon, em cmpanhia da Reg; terei um neto na hora!
             b) mais o Dinu Lipatti, que ele Décio não conhecia, “pô, você é meu guru em música, Menezs”... De repente, começa a gritar, histérico, que não tinha tempo para ouvir “essa besta do Glenn Goud, veja, veja como mata Bach!” E ele estava ouvindo o Carl Phelippe, não o pai! Achou que o Glenn Gould servia apenas para tocar Gershwin e...”é a segunda vez, agora me lembro, que você quer fazer proselitismo...com esse picareta! Vou-me embora!” e, apanhando suas coisas e arrastando o Fia consigo, deixei-os sair pela porta, passei a chave, nem ouvi sumirem os passos no corredor, toquei volume no Glenn Gould, realimentando na memória a última frase do Fiaminghi, esta, sim, milagrosamente ressuscitada da ignorância pela in-ciência :

             - Esse piano afinado como cravo por essa besta, cravo é cravo, piano é piano!...

 

                        (DIGAM DE QUE PUBLICAÇÕES VOCÊS PRECISAM, PERIODICAMENTE, PARA SABEREM O QUE ACONTECE NO BRASIL)
 

Estou ouvindo agora, pela Cultura,

1º-12, 20 horas, gravações digitais
simplesmente fenomenais (técnica  digital) de Mengelberg, o velho e
imenso Mengelberg regendo, como nunca vi,  Richard Strauss, “Don Juan”,
antes foi uma maravilha de César Frank e imagino você com a Reg,
mulher firme na sua vontade, ambição, garra, vocês curtindo ao vivo um sonoro,
vitalmoso, derralmado, Richard Strauss! Ontem, com o Phila, ouvi a
psicodélica – ah, palmas na gravação o Don JUAN, op.2º, Strauss/
Mengelberg, de algum concerto na década de 30, que maravilha, a

tecnologia – versão do Webern da Ricercare (i?) da Oferenda Musical de Bach!!!!!!!!!!!!!!!!!! Nem Miles Davis, nem Eric Dolphi, (releve os erros de grafia, tb., não ligo mais pra isso, a vida é curta), ah, agora, 21  h, na Cultura, estou começando a ouvir, escrevendo esta, um programa novo com KOEULLREUTER ( é assim que escreve?), nem Ornette Coleman (tb. errada grafia, desculpem, não estou com saco, hoje, para ir conferir no disco) nenhum deles iguala a fenomenal versão de Webern sobre a Ricercari de Bach!! É um fenômeno novo em música, tanto quanto o foi, penso eu!, quando alguém ouviu pela primeira vez as Danças dos Companheiros de Davi, de Schumann: “algo novo para a escrita para o ouvido”, como eu já disse uma vez, num jornaleco, não: num jornalzinho, de uma companhia estatal...Sabe, há uma escritura para articulação, que pertence ao ramo da morfologia, e uma escritura para oralizar, que é do campo da gnosiologia, algo do universo pensamental, que, por sua vez, está ligado à heurística, algo como um catecismo do existir, o porquê se repete no dia-a-dia, um problema crucial da cobrança de vida... uma coisa muito funda: saudade do que a gente não sabe bem + dever ético de questionar + instinto de caminho vital finível !... Espero que você procure entender!... Acho que Schumann ENTENDEU ao ouvir sua própria DAVIDSBUNDLERDANZE (a grafia!) Reouça de vez em quando – só de vez em quando! – essa enormíssima obra inaugural, eu diria “finaugural”, só possível num romântico... e do porte de Schumann...Chopin, um gênio insubstituível, idioleto de Deus (ou da Natureza), seria despiciendo (veja que não falo desprezível), se não tivesse existido Schumann... O mesmo mistério que saber o que há de importantíssimo...antes de Deus (ou Natureza).

                                    REMETO AO PARÁGRAFO, atrás, onde digo que não estou drogado, nem taroado etc etc etc etc

                                    e a DESCONEXÃO é devida à ansia que tenho em dizer-lhes tantas coisas que transcenderiam o mero relato de fatos...embora:

             O PMDB ganhou as eleições em todos os Estados do Brasil, menos num (mostro pelo recorte de jornal);

             Uma semana depois, desce o cacete na população com o CRUZADO 2: aumento dos preços, na ordem de 80% globais, sobre bebidas, cigarros (2 coisas que o povão gosta – e precisa!!!), automóveis e combustíveis (SANTAS TIAS DE DEUS, irmãs da Santa Mãe de Deus, para os sub-burgueses; remeto ao parágrafo onde reclassifico as 4 sub-classes sub-sociais do sub-Brasil)    O KOEULLREUTER ESTÁ DIZENDO, NESTE MESMÍSSIMO MOMENTO, QUE A VIDA NÃO EXISTE, ALGUÉM TÁ SONHANDO!................o Borges parece que já manhou nisso.).

             O Governo, aumentando tudo, quer arrecadar dinheiro para saldar suas dívidas, externas (ATO MORAL INTERNACIONAL,  que não deixa de ser  pragmático) e i nternas, que é um  ATO

FISIOLÓGICO, mas que não

deixa de ser especulativamente
MORAL, como, digo, é todo ato,  ah!, chamado de IMPÉRIO,
isto é, o que se impõe a todos pelo exemplo...da LEI! Aí, ele
pune, como nunca, os burgueses, seus esteios: um governo sem
burguesia é como um cadáver adiado...que procria, como o disse,
noutro sentido – e genialmente – Fernando Pessoa;
(Num torpor como este, do Brasil, a ciência psico-social impõe a
mpõe a existência de uma conduta regular de grã-guiñol:
este falastrão de borrocôrte, exdrúxulos!, nosso Ministro da
Justiça...ah, acima eu ia dizendo que um governo é, por natureza,
burguês. A turma está comprando doidada estoques de papel-higiênico,

sal, açúcar, fósforos, se matando nas filas, durante o dia. À noite, infestam as casas de bolsas, cintos, sapatos, roupas, um conjuntinho de saia-e-blusa está na ordem dos 5 a 6 mil cruzados!

             Estão falando em descongelar os aluguéis.

             Você não compra nada que não esteja...não só descongelado...como só no câmbio-negro: ingresso de cinema, mas pasmem! Penicilina! Carne, só em restaurantes de alto luxo. Cerveja é motivo de esfaqueamento entre os bebuns. Tenho 55 anos e nunca vi algo igual em minha vida. E olhe que me lembro do final da 2ª grande guerra mundial...

Não há discos nas lojas.

As editoras – de porte- estão mandando imprimir seus livros no Exterior.

Um livro mais ou menos maçudo está custando na ordem de 250 mangos.

Quando a única coisa que nos poderia salvar seria a velha amizade das velhas rodas, o cara percebe que está doente e que precisa ir logo pra casa ou por causa de si, em si, ou porque se ele chegar um pouco fora de hora algum assaltante está esperando por ele...felizmente ainda não tive esse desprazer.

O Hermann, melhor grafando,

Herrmann, mandou-me uma
carta, há um mês, entre ressentida e carinhosa, onde
me diz várias verdades – e eu s aceitei! -, mas acaba dizendo
que minha obra (!, existe isso mim?!) acabou influenciando-o.
Depois de um mês, venci a preguiça e lhe respondi com 4
audas; o mais importante, penso eu, foi quando lhe disse:
VOCÊ ME AGRACIA, CORTEZMENTE, COM UMA
INFLUÊNCIA QUE TERIA TIDO SOBRE SUA PRODUÇÃO
ARTÍSTICA. SABE QUAL A COISA MAIS BONITA NESSE
PAPO DE INFLUÊNCIAS? : VEJA COMO HAYDN
INFLUENCIOU MOZART,  QUE INFLUENCIOU HAYDN,
QUE INFLUENCIOU  MOZART, QUE
   

INFLUENCIOU HAYDN, QUE NÃO INFLUENCIOU MAIS MOZART PORQUE ESTE MORREU ANTES QUE HAYDN PUDESSE INFLUENCIÁ-LO PARA QUE MOZART O INFLUENCIASSE!...”

         Aliás, um mês atrás, em Jacutinga, bebidos muito nós dois, o Dióginho disse-me que eu fui extremamente brutal com você na noite de aniversário da Cris, aqui em casa, ao gritar-lhe uns disparates a respeito do não respeito, por parte de um artista, pela obra do Caetano.

           A princípio, fiquei muito chocado por pensar que tinha ofendido uma das pessoas que mais amo em minha vida, que é você. Mas, passado algum tempo, pensei: o Bebê não é burro e deve ter entendido minha maneira de discutir : a única coisa que cobro nos meus próximos é uma absoluta semelhança com minha subjetividade! Quer dizer: como não me ofendo nunca, depois de um certo tempo, com o que me dizem, exijo que as pessoas também não se ofendam. CREIO EM VOCÊ ESCREVA-ME TAMBÉM  

TECNICAMENTE ENVIE NOTÍCIAS SOBRE SEUS PROJETOS. EM JANEIRO SAIRÁ SEU LIVRO. FAREMOS

 

 REVISÃO. MAS...O QUE VALE É ISSO AÍ: O AMOR É O CRESCIMENTO QUE NÃO MATA.

papi Florivaldo Menezes   1/12/86             

Obs.: A carta supra está entremeada com a figura da REG, recortada de um jornal (semelhança incrível),
e que progressivamente vai crescendo com o texto circundando-a.

 

**********

 

   @ ROTEIRO-GUIA PARA DIZER NUMA FITA À CRIS

 

Querida Cris:

 

         Você deve saber o sacrifício que é para mim escrever cartas!

         Se agora estou escrevendo uma, é porque ensaio aprender uma técnica para vencer esse obstáculo movido pela necessidade que sinto em trocar umas idéias com você.

         Você não pode imaginar a mudança de imagem operada em minha cabeça e, principalmente, em minha alma, que sua ausência me proporcionou. Vejo você, hoje, sob outro prisma, vejo novas faces, desfolho outras camadas, que estavam endurecidas pela proximidade, viciadas por pós-conceitos (permito-me o mau gosto da expressão) originários de uma falta de paciência, uma falta de mínima sabedoria de pai errado perante um ser humano tão complexo como você...Hoje vejo como você me faz uma falta difusa... e ao mesmo tempo simples como a falta de uma cinta ( e aqui não entra Freud)  [ desenhei uma carinha rindo, que parecia o Roberto Campos, toc,toc,toc!).Pensei sempre que você não teria coragem de separar-se de mim, e quando falo mim falo nós, de nossa casa, de seu habitat  original. E disso tiro uma lição belíssima: você tem uma força, Cris, um ânimo, um esplendor de vida difíceis, dificílimos, de serem encontrados em outra pessoa de sua natureza, idade, condição, condicionamento social, familiar, etc,etc, blá!(Escrevo do apê “Sylvia Beach” ( Sylvia Beach foi uma amiga de Joyce ai em Londres, tinha uma livraria onde Joyce passava algumas tardes, a Shakespeare & CO., acabou editando o ULYSSES.::::::: FICA EM PARIS! CORRIGI EM TEMPO: FICA EM PARIS.-.-.-.-.-.- começei a tomar whisky... mas não daria tempo para confundir minha memória excepcional...) (a megalomania começa a despontar).

         Quando você partiu, senti o mesmo alívio que deve ter animado seu espírito para alçar o primeiro vôo. Conheço você e tenho absoluta certeza do que estou falando.

         Suas primeiras cartas chegaram a me irritar um pouco pelas conceituações neblinosas sobre Londres, seu casario, seus transeuntes, sua atmosfera, enfim, era uma areia movediça puramente sensorial e precipitada a visão que você teve da cidade-berço de tudo que é verdadeiramente contemporâneo ( ou falsamente contemporário!). Aí esteve tudo...e ter estado é mais sólido do que estar, como em Nova York, por exemplo). Mas continuo, hoje em dia, a lhe dar o direito de não gostar de Londres. E como, desesperadamente (e às vezes em vão), procuro não soar dogmático, pode ser que voltando a ver Londres, não sofra  o impacto que sofri em 1981, quando aí estive.

         A partir de um certo tempo, começei a dimensionar certas verdades que você começou a falar. Foi porque fui-me distanciando emocionalmente de uma certa birra que viciava nossas relações, uma intransigência meio maluca minha de não respeitar você à altura do que você é ( e era!, hoje vejo)...

         Como se fosse um parêntese, reafirmo uma das poucas certezas que tenho em minha vida: a de que você é uma das inteligências mais portentosas que conheci. Seguramente, é a mulher mais inteligente que conheci ( que nenhuma outra mulher nos ouça!) Por incrível que pareça, o dia que você tiver ciência concreta disso ( e se ainda não teve, não diminui em nada tal inteligência!), você vai dar um vôo de condor, pode até ficar chata.

         Comecei a esperar certas mudanças de enfoque, que hoje noto, em sua visão, suas resignações, sua maturidade em transacionar com os seres daí, sua objetividade em ver o real, a labuta nos empregos, a porfia brava, mas nunca a desesperança, mesmo diante de ocorrências meramente passageiras, como a de que as pessoas se afastavam (será que se afastavam, ou nunca chegaram a estar realmente numa situação consciente?) por simples dificuldade de comunicação lingüística etc, etc. Veja como tudo já passou e como foi um grãozinho minúsculo que se perdeu!

         Hoje, sinto que você já incorporou a couraça na própria pele, não se molesta mais com frustrações, está para o que der e vier, encara com sabedoria, até com certa sofisticação expressional, como quando descreveu magistralmente, como o melhor dos narradores de ficção, seu encontro com aquele cineasta que fez muitos filmes ai para as BBCs, um tal de Frears(sic?); pela sua descrição memorável ( mostrei pro Percy, pro Zelão, pro Nilton, meus estilistas de bares), repito: pela sua descrição justa, machadiana!, deve ser ( tenho certeza!) uma bichona tremenda ( não mostre pra nenhuma bicha, que ela vai pensar que sou um machista – e sou!- do cacete!). Se por acaso você resolveu mudar de Artes, tem um caminho aberto pra você na prosa de ficção, estou certíssimo disso.

         NÃO ENTRE EM FREARS(NÃO ENTRE EM FRIA)!Esse tipo de cinema não leva a nada, longe de BLADE RUNNER,longe de TERRA EM TRANSE, longe de APPOCALIPSE NOW, muito longe de um filme de seu querido(como homem) John Cassavettes ( morreu em Abril!) ( é assim que se escreve?) que acabei de ver aqui, pelo vídeo, chamado “AMANTES” (acho que o título original é STREAMSLOVER, ou LOVER´S STREAMS, veja aí) dirigido e interpretado, ambos por Cassavettes magnificamente, uma obra original, subliminar, roteiro sonoro, fotomóvel, montagem descolada, um Rimbaud domesticado, com hodiernidade (=hoje+ódio+idade), uma coisa muito parecida com os anseios de você, é incrível!...É a obra de arte (- e melhor exemplo por ser no Cinema) que mais se parece com você... Pode ser que haja algum exagero, ou deformação de minha parte...mas você entende, pode estar havendo uma idealização de minha parte nascida pela necessidade de reparar injustiças que cometi: se eu sumisse de repente, seria uma catástrofe humanística de Deus ou da Natureza eu perder eternamente a oportunidade de fazer você sentir o conceito que hoje tenho de você.

 

(parei pra tomar um gole. Estou ficando rebarbativo, sinto. Mas... seja o que Deus quiser.)

         Cris...mamãe está bem, Phila está bem, Natália é meu novo amor (a gente sempre tem um novo amor, legal ou ilegalmente, moral ou imoralmente), eu estou naquelas “neuras” de sempre, amando detestar a vida, vivendo a detestar o amor, detestando amar a vida, mudando as palavras por mudar, sabendo nada de nada, sabendo tudo de tudo, me achando – como sempre – um sábio-gênio imbecís...mas ainda sei distinguir o que está fora de mim, isso salva.

     Quanto à sua vida prática, espero que você curta o máximo que uma pessoa jovem, cheia de vida, pode tirar das visões de uma viagem como essa: veja museus, vá a TATE GALLERY, veja com calma TURNER, (pare meia hora na frente dos MONDRIAM que tem aí), observe os demais paisagistas ingleses do séc. XIX, XVIII, veja detalhes, esquadrinhe as cenas com religiosidade, vá sozinha, sozinha, ver esses museus (nunca vá a Museus acompanhada! : Você só acabará comendo sanduíches!) Tome alguns pileques acompanhada de pessoa do mesmo sexo (que não seja lésbica): elas ou cairão juntas...ou tentarão ajudar você, no fogo. Macho vai querer te ferrar, em todos os sentidos. Pense sempre nisso. Nunca pare de beber, você gosta. Manere na saúde e... let the ivory run (nota I). Apesar de você estar segura (disso que vem) pelas últimas cartas, não entre em drogas! Mesmo que você esteja firme, acabarão por deixá-la with the pants in the hands (nota II).

     Veja que escrevo with all the ff and rr (nota III). Assim sendo, quero que fique claro que seu mundo é aqui, embora você pense em não mais voltar.

     Preste bem atenção: você terá de voltar, um dia. Sua pátria é sua melhor mãe (não é civismo de Olavo Bilac). É a única mãe eterna. E,jogando Freud fora, por comodidade ou instinto de preservação...nunca jogue as mães pela janela, como no título dessa comédia que está nas telas do mundo todo. Pai é outro papo. É choque, luta, desafio, demonstração do viver, exemplo de coragem, não se tem culpa do que não se conhece bem. Honestamente, hoje assumo qualquer assomo de babárie moral que me acene com o Inferno! Quando você estiver a perigo, diante de um fantasma de solidão...cante, como aquele cubano gordo (não estou em casa, senão veria no disco) “La vida no vale nada...”

     Tirando de lado qualquer tipo de desabafo que você tenha feito, antes de viajar, com alguma amiga (o), sobre sua necessidade de independência (= distanciamento da figura do Pai), gostaria muito, amaria muito mesmo, que você um dia conhecesse algo, a sério, da teoria dos arquétipos junglianos, para se sentir aliviada sobre a eleição inconsciente dos modelos (ideais ou não), que cairam sobre mim. Se eu mesmo me invejo, por que uma filha, da mesma natureza, não me invejasse? Não me elegeria como flour of the same bag? (NOTA IV). É duro, depois de tempos inúteis, complaining with a full stomach (NOTA V).

     Você, como mulher inteligente, está vendo que aplico racionalizações freudianas...mas é claro que, de mim, jamais receberia uma carta formal, legalizada, na linha da corrente, isso é insípido e covarde, não seria honesto. Ademais, estou animado com um filme sério, embora chochinho, que vi ontem na Globo, do Otto Premminger, “BON JOUR TRISTESSE”, onde uma menina (17 anos), interpretada pela belíssima Jean Seberg (o filme é de 1958), tem um relacionamento com o pai muito sofrido, mas assumido como uma contingência que, entretanto, não a separa da vida comum. O fim do filme é muito instrutivo, gostaria tanto que você o visse! Aliviaria muito, tenho certeza, seus, nossos, até de sua mãe (que é muito mais inteligente que você pensa) os “complexos” de todos, é uma catarse divina, se você não puder ver o filme, leia o livro (“Bon Jour, tristesse!”, da genial “nati-morta” Fraçoise Sagan).

     Escrevo tudo isto, para deixar bem claro que você é, não direi nossa querida filhinha saudosa, babyzinha desprotegida nos fins do mundo, desamparada freelancer do futuro fugidio, heróica aventureira do amparo salvador, eslovena cariátide do flêmur mais andor, nada disso:

 

                   (São Paulo)   |            (Londres)

                                  |

     Seu quarto está sempre limpo |-> - Não se entregue fácil

                                  |

                                  |

                                  |

Seus discos querem te ouvir  |-> - O futuro a gente não

                             |                    [pega

                             |

                             |

Os verdadeiros amigos são -> |- Rua escura nem sempre é

                             |                 [poética

                             |

                             |

Pátria é sempre Pátria       | -> -Pai nem sempre é mãe

 

.-.-.-.-.

SOBRE A FITA: Respirei fundo, não vomitei, fiz um sursum corda 9 (NOTA VI), e – “quero dizer uma coisa a você” (cacoete do Ulysses Guimarães): nessa fita estão os noventa minutos que eu gostaria de tê-los antes de morrer, se, numa agonia tranquila, movida só a luz e som, pudesse ver sua mãe a meu lado, fazendo tricô, e ouvir, na ordem que está, toda essa fitinha maravilhosa que dipensa Mozart (Novos Baianos!), Bach (Tim Maia!), Beethoven (Gil!), Schumann (Marina!), Wagner (Cauby!), Stockhausen (João Gilberto!), Chopin (Jorge Ben!) etc etc, Caetano!!, João Bosco/Clementina!!, Noel Rosa com Violeta Cavalcante!!! ( Os três em um – não é goiabada, marmelada, pessegada, explique aos amigos ingleses – os três em um Cae-Gil-João em “Milagre”!!!!!!!!

(etcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetc)

 

Mostre aos amigos ingleses a ♪ BR!

 

 

NOTA I – “Deixa correr o marfim”

NOTA II -  “Com as calças na mão”              

NOTA III – “Com todos os efes e erres”

NOTA IV – “Farinha do mesmo saco”

NOTA V – “Reclamar de barriga cheia”

NOTA VI – “Elevação de coração”   (i.e. com espírito

altaneiro, etc).

 

 

  (falsas versões do Mllôr!)



**********

 

@ Para Aninha, em 12-02-06:

1. - Aninha, ontem ou anteontem o Lyra (tb. Aly em e-mail, o Alberto Lyra Filho, sobre quem lhe mandei um acesso a "blog" muito inteligente e rico, Letteri Café: http://www.letteri.blogger.com.br/index.html ), mandou-me esse apanhado maravilhoso de geração, que você está me enviando.!

    2. - Valeu!

    3. - Um dia desses também recebi uma foto sua com o Phila, fiquei muito emocionado, só não respondi por estar muito, extremamente desanimado com um terrivel estado gripal, sem febre !, tenho medo disso. Febre tem de vir junto!...

    4. - Bem..., por falar em Phila, gostaria de tratar com você da permissão hereditária de edição do Livro que deixou armado, cujo boneco o Marcos Bastos esboçou.

    5. - O Plínio, da Ateliê Editorial, se dispôs a editar, não sei ainda sob que condições financeiras, os Poemas do "boneco" que nós dois temos e que ele não viu ainda, ninguém viu ! Sugeri também os ensaios e micro-ensaios que deixou e, igualmente, alguns poemas verbais de grande força, enorme inventiviade sonora e originalidade.Também ele não viu. Estamos no puro jogo de intenções.

    6 - Precisaríamos encontrar um apresentador/prefaciador de grande expressão. Um nome que me parece bem credenciado, e acho que você também pensa igual, é o da Maria Lúcia Santaella, que, além de tudo, tem ibope.

    7 - O Medeiros, no Estadão,  abrirá para mim o espaço necessário, à época que eu quiser. Precisamos ver na Folha : está entrando lá um nome que espera por um artigo meu, mais informativo e sentimental, mas também técnico, onde explico um por um aqueles poemas que o Phila deixou, com a vantagem de ter anotado as gêneses das concepções, que ele me confidenciou de oitiva, com aquele jeitão reticente dele, mas provocando-me pequenas invejas ( "Rriso" ). Trata-se da vantagem da "interpretação autêntica", uma das normas da denominada "Hermenêutica Jurídica", isto é, aquela que promana do próprio autor da peça.

    8 - No ensaiete, que é mais um suelto de educação sentimental no sentido flaubertiano, procuro ligar-me a ele, sem que o leitor veja qualquer influência, mas sim o que denominei um caso de "intuição reinfluente" por tabela : lembra-se daquele meu texto que acompanha meu poema / "encarte" num dos catálogos de exposição do Orlando? : aquele poema cujos membros da família são os dedos da mão? ("Três insights na vida glamorosa de Eustáquio Parreira", veja aquele catálogo que tem na última capa o clássico poema do Ronaldo sobre os olhos da Greta Garbo se abrindo ao devaneio). Ali explico o fenômeno da intuição reinfluente que se deu do Phila para mim. O artigo se chama "Dum Pai, Dum Filho", e é uma alusão a Dumas Pai e Dumas Filho.

    9. - Finalmente, precisamos conversar :

    a - eu e você;

    b - você e Maria Lúcia.

    c - eu, você e Maria Lúcia.

    d - você e o editor.

    e - eu, você e o editor.

    10. - ATÉ ORDEM EM CONTRÁRIO, NÃO ENTRAREI EM CONTATO COM A MARIA LÚCIA, ASSIM COMO PEÇO QUE VOCÊ NÃO O FAÇA COM O EDITOR DA ATELIÊ.

        Aguardo resposta breve.

        Bgs Menezes.


**********
 



@ Carta a Villari-Herrmann


 

Caro Herrmann;

 

Primeiramente, espero que você perdoe a demora em responder sua emocionante carta; acho que no fundo eu não a merecia. Leve a demora à conta de uma maldita, e natural, preguiça que tenho em escrever...infelizmente não só  cartas como qualquer coisa. Nasci seco na escrita que envolva confidências. Você sabe que gosto muito de papear com os verdadeiros amigos, aí me abro, rompo nos exageros, mas pra cartas... mesmo para artigos, ensaietes, incursões pela prosa... só qd. a coisa me incita muito na criação, nas coisas abstrusas (perdoi-me), aí faço um esforço e depois que pega fogo fica incontrolável. Ou então quando estou bêbado ou meio bebido. Como não tenho bebido ultimamente, a ponto de aportar naquelas paragens onde qualquer bobagem vira lance de epifania, relutei, relutei, mas vá lá, você me merece o máximo de respeito como poeta e como homem de grande caráter... E sua alma não pervaga  nos círculos do rancor onde gravitam alguns espíritos de “glass menagerie” que conhecemos bem... Uma brincadeira a 4 mãos como nós dois fizemos em cima do augusto versor (cuidado! não veja “versor” aqui senão no exclusivo sentido de “tradutor”, pelo amor de Deus!), qual seja, a de que era o GUILHERME DE ALMEIDA DA LETRA SET, mais alguma farpinha moderada de delíquio de pubs perdizeiros custou-nos – a menos a mim – uma recolhida de fausta, longa e aprazível amizade também digna , deiscente, sempre um grande palco...mas, enfim, não se pode, impunemente, apagar as luzes do fundo do salão dos hip-campos, hip-campos, hurra-pignatari!...

Voltando a nós, mortais, e sem literatice, que já ia me tomando o ego – mas você sabe, Herrmann, quando começamos a abrir a boca, automaticamente, somos artistas! , começamos a parlapatar... a não ser quando a coisa é grave. E o que houve entre nós dois foi até uma coisa gosada; jamais quis menosprezar um amigo como você, quando, por telefone, aquela noite na casa do Phila, lhe disse que o sítio do Décio se chama Valdevinos, o de Mallarmé se chamava Valvins (cito de memória, é assim a grafia?) e que o seu deveria chamar-se Mal de Vinho. Foi, sim, pra fazer, como você critica em mim, umas firulas verbais... mas tudo na gratuidade... não tenho nem capacidade para articular nada na base da verdadeira ironia. Nunca a usei. Detesto-a fora dos livros. Não tenho amigos irônicos. Sentiria remorso em ferir alguém com esse tipo de vezo. Assim, também me explico – e retifico – a alusão à litografia famosa de Charles Munch, mas é fantástica a semelhança de sua fisionomia, Herrmann, com aquela figura expressionista que está lá! Sabe?, é o “ar” daquela alma atormentada, que encarna muito de seu olhar, de um grande poeta romântico que tem a plena obsessão de encarar de frente a Arte e a Vida, como você... dos poucos raros tipos maravilhosos que tiveram a grande coragem de renunciar à Vida, para melhor serví-la. Soturnamente. Te entendo, meu caro, nas angústias nobres de fim de noite, que sempre começa trêmula, mas que termina intrépida. Não estou fazendo demagogia verbal, mas admiro muito sua maneira de viver. Incrível, mas acho uma coisa de Dichens, você pelos “seus cantos” e... de repente: no sábado almoçando rodeado de pais e irmãos e cunhados ; de repente :domingo e você agitando a bandeira tricolor numa cadeira-cativa. Você é uma figura única! Se você não se ofender... vou te chamar... de... abencerragem...

Tentando, novamente; falar mais sério (embora tudo que disse acima tenha sido sincero – e não veja nisso, contraditoriamente, uma ironia retórica!), acho que você é dos poucos caras, que conheço bem, que não têm a mínima possibilidade de ficar louco. Isso que você chama, em sua carta de “ponto fraco do meu psiquismo”, i.e. , o temor que você tem pela desrazão, pela loucura, nada mais é que o pessimismo natural dos grandes infelizes (também estou nesse meio), que acham a vida tão sem sentido, que lançam mão de todas as artes para dar-lhe uma semântica...

Por isso admiro cada vez mais os tolos religiosos. Os grandes tolos religiosos. Não há tolo que não seja profundamente religioso, nem religioso que não seja profundamente tolo! E veja que a coisa é tão imbricada que, à medida que vão perdendo a fé em Deus, vão virando progressistas, acalentam, protegem mais o complexo social! O grande místico, o Iluminado, o Umbelicado, este rasqueia, abjura seu próximo. É estranho. Sabe – e não pense que vou desgarrar na meada deste filosofar -, sabe no que quando mais me identifiquei com o triste e ereto confrade numa fralda de madrugada? Foi quando, há uns quatro anos já passados, percebi que você ouviu comigo, e conseguiu entender, a frase que aquela infanta também ouvia naquele quarto de um castelo, de seu amado, fingindo-se de fantasma, cantando, em parceria com o músico Chopin: - “Eu já estive aqui! Eu já estive aqui!” Você precisava ver como seus olhos sorriam no escuro e seus dente perscrutavam a sequência, na meia luz de nossa sala!

Por esses esparsos – e aparentemente desatinados exemplos -, você vê, querido Herrmann, que estimo muito a você e à sua poesia, algumas delas sempre me causando inveja, o koito, a valsa do infinito, o grande poema pop da Miss Kodak (tenho uma análise meio longa dele, que vai sair num “ersatz” verbal de meu  próximo livro, (o Phila conhece), enfim, quase tudo que você faz.

Você me agracia , cortezmente , com uma influência que teria tido sobre sua produção artística. Sabe qual a coisa mais bonita nesse papo de influências? : veja como Haydn influenciou Mozart, que influenciou Haydn, que influenciou Mozart, que influenciou Haydn, que não influenciou mais Mozart porque este morreu antes que Haydn pudesse influenciá-lo para que Mozart o influenciasse!...

As palavras sobre a Cristina, aceito-as como muito sinceras, mas embora eu cometa alguma injustiça verbal com ela, saiba que é por um misto de ansiedade pelo futuro de sua realização como artista... e, consequentemente, por sua integridade pessoal, sua felicidade de ser que almeja, como todos, realizar alguma coisa de duradouro neste mundo passageiro. “As coisas que duram mais que a vida é que mostram que ela é tão efêmera” (Millor? Marquez de Maricá? Eu-bêbado?) Mas, mesmo em se sabendo desse triste aforisma , o homem almeja prolongar-se... “C e nymphes, je les veux perpetuer!...”

Quanto ao que você sente pela Maria Cristina, continuo respeitando, distantemente, como sempre me impôs meu ponto de vista a respeito.

Espero recebê-lo de novo em nosso convívio, boca-livre, embriaguês sem policiamento, livre-pensadores-verbais, orlandos das grandes salas, hipóteses de vida, arte só na cabeça (que importa! o bonito é ter projeto!), mitificações, mistificações toleráveis, festa de viver!... é isso nossa vida menos íntima e penosa. E que cada um lute pela obra, que pereniza, enfim, o amargo contra-peso da solidão. Pois muita alegria também mata.

            (ACHO QUE ESSA ÚLTIMA FRASE É UMA GRANDE BESTEIRA).

 

            Abraço

 

                (MENEZES)      5/11/86

 

 

 

- Salvador Dali é um gênio enorme!

 

 

 

 

- Você é um cara muito bom,  Herrmann!

                                               (Cézanne também é.)

 


**********
 

 

 

@ Para Janaína;                     (10-02-06)

 

                Gostaria de te passar uma alegria, que contraí quando conheci Cuba no Paraízo idealístico de minhas cerebrações.

                O  “Lasciate ogni speranza, voi ch´entrate”  tem de ser visto não como inscrição na porta do Inferno dantesco, mas na alfândega buliçosa e desesperadamente política e social dos homens de bem,

                É o preço.

                E que o burguês acha caro.

                Você, que acredita pouco nos homens de bem, ou do mal, tem de se concentrar na frescura genuína dessas canções de Silvio Rodriguez, pra ver como a irresponsabilidade guiada ( pode? : irresponsabilidade guiar-se?!?!) pelo mero lazer do som, do povo, da rua e do amor, tão presentes neste LP, até ressoar em suas (de você), sensações, como numa feérica mentira das coisas que rondam pela Realidade.

                Abra a porta do LP na faixa “Te doy una cancion”.

                : Cuba não é, não foi, não será real, nunca, mas o eco de seus socorros, para as coisas boas e más ( Cuba é a única coisa que pede socorro no bem!, prenúncio de que será até perdulária, veja o riso e a sandália de seu povo nos pedregulhos) e que sempre será, e é, até que o Homem mude, o hino da transperança! Ouça.

                Ouça.

                Ouça a voz – que seja a mera voz... – de Silvio Rodriguez e o desânimo jamais surgirá em seu horizonte.

                A Tristeza não prostitui, como o Medo.

                (O tratamento pronominal variável, 2a., 3a. pessoas, só é possível na verdadeira liberdade. E lá estamos, nela.)

                Abraço Menezes. S. Paulo, 10, fevereiro, 2006.

                ( E tome um Xarope São João!...)

 

**********

 

@ Para Paulo Fernando Araújo, via e-mail, que, diz ele, não chegou...

 

Paulo: 1 - Conforme lhe disse ontem por telefone, no agradabilíssimo papo que tivemos, onde muita coisa foi repassada, com vantagens para mim, que sempre aprendo algo com você, encontrei o CD que você me fez e que se chama "SOM BRASIL - 05.11.99, Coletânea CRIPTON, from LP".
2 - Em meus arquivos, classifica-se em ZZZ - Mus. Pop, Internac. e BR, letra C- CAIPIRA, som do Brasil "caipira" (country pra mim é outra coisa : Os 2 Irmãos em Voga - não é pouco-caso não, esqueci-me neste momento de seus nomes ; Chitãozinho Xororó et al.)
3 - A primeira faixa é justamente a de Alvarenga e Ranchinho, "O drama de Angélica", vasada exclusivamente em proparoxítonas, nos molde de uma famosa composição de Chico Buarque, bem posterior!
4 - Eu lhe havia dito, ao telefone, que, no livro que estou escrevendo, de biografias estéticas (ou estéticas biográficas), denominado "IMPROPRIEDADE PRIVADA", há uma passagem em que exploro essa ressonância fonética ligada a eventuais ligações semânticas, associando o fenômeno com as pausas da fala (e do canto) que podem dar outro sentido, uma espécie de "trocadilho sonoro", embora todo trocadilho, ao ser lido, seja de certa forma sonoro...
5 - Para que você deduza e elocubre, se tiver tempo, em cima destas minhas insinuações, passo-lhe, a seguir, a nota para o capítulo em que desenvolvo a coisa. Você, culto e inteligentíssimo, vai atinar com o que pretendo demonstrar :

"- Ouça a letra do "Coração Materno" , que exala a natureza árabe da lenda d´ "O CORAÇÃO MATERNO", que está no livro "Contos e Lendas Orientais", de Malba Tahan. V. tb . o livrinho na cx. "Caetano Veloso completo" :

Fx. "Coração materno" ....." [...] mattar [sobrenome árabe] ou morrer!", i.e., "mátar ou morrer", que é como Caetano canta !!!).

Também as duas tônicas frásicas de início, no CD da Globo, dado pelo Paulo Araújo, v. no ZZZ, letra C- Som do Brasil caipira : na música do Alvarenga Ranchinho ( cf. fx. 1, "O drama de Angélica", com Alvarenga Ranchinho) de finais de frases só com proparoxítonas de rimas ricas -- bem antes da do Chico Buarque -- uma proparoxítona rica, pois só tem três sílabas e a tônica cai na segunda, mas que, devido à prosódia / fonética, é mesmo uma proparoxítona ! : a palavra "perplexo" ...( = ...pléquisso ).

- Ouça a seguir "De quimeras mil / um castelo ergui" - ouça a Nana Caymmi na versão de "Fascinação".



                                                           **********************************



Para terminar, caro Paulo, noite destas darei um aviso pra você vir buscar a cópia do CD, que você mesmo me fez ! ("ironias do destino", isto até parece título de música...) e tomar um trago comigo, com álcool ou sem. A propósito, acabei de ouvir outra dubiedade prosódio-fonética, na FM 102.5 : uma música do Genival Lacerda, cujo título é: "Dá álcool pra mim !"

Abração do Menezes.

 


**********

@ - Para ALBERTO LYRA JÚNIOR ( O nosso inconfundível Ly-Ly, Albertinho Lira, aly), nov. 2005.


Letteri Café: www.letteri.blogger.com.br
BUCÓLICA II

Alvêntias tretanias balouçavam
nos girântios de almocriz.
Passavam géulas em bando
na busca dos drídeos.
As nuvens ernosas pesavam
de jutulas prestes a desabar.
A terra farpídia e túrpera
esfarelava-se sob
o inclemente trípio.

aly. Opera Minima: Fonografias (no preprelo)

Um fauno é um fauno é um fauno: e,
por aly . 10:37 AM . Comentários (11)

 

Tu és o quelso do pental ganírio

saltando as rimpas do fermim calério

carpindo as taipas do furor salírio

nos rúbios calos do pijom sidério.



És o bartólio do bocal empírio

que ruge e passa no festim sitério,

em ticoteios do pártamo estírio

rompendo as gambas do hortomogenério



Teus lindos olhos que têm barcalantes

são começúrias que carquejam lantes,

nas cavas chusmas de nival oblôneo.



São carmentórios de um carcê metálio,

mas duas pélias por que pulsa Obálio,

em vertimbráceas do pental Perôneo.

 

(Teus lindos olhos que têm barcalantes

 são começúrias que carquejam lantes : isso é belíssimo e como é verdadeiro!, Ly)




(HENRIQUE MINDLIN, irmão do ZÉ MINDLIN, pp.207/208 de "Uma vida entre livros", deste último):


Esparforismo glásteo de perfúlio pasmo

Castarcinando márgoras no pascorel

[ ..................................................]


Angucilando [...etc]



MAS, ESTE, É DE UM ÓTIMO MAU-GOSTO E INTERROMPO.



*************************

(No documentário póstumo que a TV Cultura dedicou ao Philadelpho (Menezes), tem uma hora lá em que ele aparece recitando um seu belíssimo poema sobre nomes de pessoas, que estão rodeando , gravitando no absconso da anormalidade ontológica, com seres que se estufam em sua boca e deformam seu rosto a cada vocativo que ele pronuncia!!!)



************************

(Drummmond tem um poema de velhice, nessa mesma linha, mas (também) em outra linha, como acho o teu, no outonal (talvez o melhor!...) "Discurso da Primavera", não me lembra o nome agora).
 

 

 

 

 

 




 

 

 

 

 


 


**********


 

@  Para Ivan Teixeira, madrugada de 13-12-05, por e-mail

:   Caríssimo Ivan.

    Li e gostei desmedidamente de seu artigo sobre o Manoel Botelho de Oliveira.
   O traçado inicial sobre as estéticas do poeta está colocado com muita precisão. Realmente, os três primeiros parágrafos do ensaio, chamêmo-lo assim, situam o grande vate nas regras da poética que adotou com muita sabedoria e engenho, com as precisões horacianas da época. Ou Horácio não havia ainda sido traduzido por aquele português genial? No entanto, lia-se o latim.  [Diga-me o nome e a data, estou no momento sem os dados] 

    Mas o foco estanto em você: é um traçado didático perfeito; você quando quer escreve qualquer coisa, este truismo, embora tautológico, é meu de longa data!

 Lembra-se ? :

                                    "Quando ainda não tinha intimidade com você, e li o 'Apresentação de Machado de Assis', anotei lá:

                                   “Mais uma vez digo: o A.  consegue ´expressar` o que quiser. Doravante, vai ser uma questão de idéias-teses!...”.

                                   Anotei isso em 1989, na p. 190 e referia-se à invejável passagem:

                                   “ O texto é um hino à liberdade de pensamento e contém uma censura ao mito da coerência. Mas o seu aspecto mais criativo resulta das imagens e do labirinto da sintaxe, que procuram imitar as surpresas do caráter de Artur de Oliveira.”

    Quem escreve assim é um verdadeiro mestre, você sabe! E tem de se vangloriar.

 

 **************

    Fico um pouco em dúvida sobre o rigorismo da apreciação sobre Antonio Candido no tocante a aspecto que seria restritivo de seu enfoque sobre uma eventual exclusividade: a poesia seiscentista seria a única [coisa] responsável pelo afastamento do leitor da ( sic:) realidade imediata dos fenômenos dignos de imitação artística, que, basicamente, seriam a emoção pessoal, os embates da vida em sociedade e a relação dos indivíduos com os valores responsáveis pela formação da nacionalidade?

    Indago mais: seria Manoel Botelho responsável consciente ( tipo porta-voz ) pela concepção que privilegia a função formadora da literatura, "vendo nela principalmente os aspectos utilitários, que acabam por se confundir com a noção de valor artístico", ou seu notável, humorístico e humoroso gosto e estro não derivam de seu prazer oswaldiano, ludismo cabralista e molecagem semeadora de Mário de Andrade?1?!

    Tudo isto vi quando li o genial poeta. Com olhos noltalgicamente regressivos. (Lembre-se que nostalgia, em si, é a saudade de alguma coisa que o cara não chegou a ter, ou a perder. Incrível como coincide com uma visão diacrônica!)

    E como era ele pessoalmente?!...Sua vida, sua pessoa, podem explicar sua concepção de arte e função artística..

    Por outro lado,  você admite uma desvinculação entre Arte e Política e tem tendência, por tal liberalismo, a encontrar nos escritos de Candido um certo jdanovismo, ou, pelo menos, um reducionismo semidemagógico (no sentido etimólogico do termo) na concepção marxista de resgate da História, para justificações políticas, quando não ideológicas. A sua concepção, Ivan, é esteticista, como a minha ( penso eu! ).

    Acho corajosa sua posição, e (contradição?!) incrivelmente materialista, mas de um materialismo histórico, por incrível que pareça, e, talvez no cerne, mais marxista que a do marxista Antonio Candido, este mais realista do que o Rei. Ele tem um tremendo patriotismo, está na cara, em suas feições, que justifica suas posições de retrovisão dos fatos, para moralizar as atualidades de quaisquer textos que considere sólidos.

    Tal antagonismo, seu e de Candido, fica evidente na passagem :

    “Botelho, ao contrário, dava prioridade ao prazer com as formas sutis de jogo intelectual, que, embora também visasse à educação da pessoa, não era concebido nos termos do século 20. O poeta não escreveu para a posteridade , e sim para os contemporâneos.” (grifos acrescentados)

    Mas onde vejo que a questão se levanta mais alta é no período que começa com a assertiva  de que “isso [tudo...] obriga a procurar em “Música do Parnaso” não apenas uma possível identidade com o nosso tempo mas (...)” , até a consequente (e muito bem consequente) “relatividade dos valores” [para cada época].

      Mas, ao erigir seu landmark de moralidade poética (vamos chamar assim), na tomada de posição de que se deve reafirmar o compromisso com a realidade imediata do dia-a-dia, Candido não pode lastimar a visão que você tem da realidade que cerca não só o grande poeta enfocado, mas que envolve e compromete também o próprio Candido. Isto fica magistralmene claro nos dois últimos períodos de seu ensaio (o penúltimo é de uma agudeza rara!), sem este possível arrevezamento de quem não é especificamente do ramo...

     Belo, durma com os anjinhos. Ou com os macaquinhos das ONGs tombadoras, eles que estão carinhosamente em seu redor. Porque não ligam pras ONGs.

     Abraço Florivaldo.

 

**********

@  Para Ivan Teixeira, madrugada de 10-12-05:

     Querido Ivan: não estou sabendo de celebração nenhuma da Editora, não sei em que dia vai acontecer, lógico que estarei lá onde for, para cumprimentar você e ao querido Plínio.

     (Não sei por onde anda o Castor, ele tem estado casado, de vez em quando ele faz isso, que mania!...)

     Mande 1 1/2 , forse 2, dando as coordenadas.




**************

    Sabe?, a respeito da "queda que as mulheres têm para os tolos", se for mesmo uma tradução, como quis, "recentemente", J.M. Massa ("A juventude de Machado de Assis"), é um caso, avant-la-lèttre, de make it new poundiano -- e, depois, de transcriação afinitiva dos Irmãos Brothers --, pois o texto é machadiano por excelência! (pensamento, e forma da maturidade, adaptada (Rriso!) aos 20 anos!).

    Seria, como você se recorda, "De l´amour des femmes pour les sots", sem autoria, 1859, Paris e Liège, obra de VICTOR HÉNAUX, que, por sua vez, se abeberou num texto do sec. XVIII.

    Está anotado por mim em 1990, no facsímile da primeira edição.

**************

                                           

[Das "contradições da semântica" : (veja, Ivan, estou com a cabeça desgastada, minha memória virou uma pedra-pomes... Ia lhe mandar uma do cacete, de minhas elocubrações e, enquanto me levantei pra dar uma mijada, sumiu completamente!!!(???)).] Do tipo:

    @ - Galinha de Angola – galinha, mas a que primeiro assumiu, primal, a indiferenciação de gênero sexual ( esta é uma notação humorística...) ao dizer, e sem ninguém perguntar “ – Tô fraco! Tô fraco! Tô fraco!

    São coisinhas de meu Livro, mas que só passo a você e à Cris, minha filha. Tenho medo de ser usurpado, são pezzi às vezes ao estilo Millôr, mas acho que estão bem mais à frente em sua mescla de humor e demonismo, este no sentido verdadeiramente teológico da presença no Mundo.

    Millôr não sofre, fica no humor, eu pulo pra furar a bolha, vivemos numa placenta de bolhas, um dia Deus vai me conceder razão.

    Se sua namorada atual vir isto, vai se arrepender de dizer-lhe que você precisa de psiquiatra...

    E se eu me lembrar da sacada dentro das "contradições semânticas", lhe mando em seguida.

    Abraço Menezes.

 

**********

@ - Para  WILSON PEDRO JANINI         

 

            - Querido primo Wilson: estou cada vez mais pasmado com sua capacidade de elocubrar sobre coisas às quais você reveste de uma referência, uma topicidade paradigmática, mas que pertencem ao cotidiano, às pequenas sensações que assolam o homem no dia-a-dia. Estou especialmente referindo-me a um texto seu de meados de setembro, onde você discorre sobre HORROR AO VÁCUO, O LAZER E O ÓCIO, a CLONAGEM DOS CARACTERES, a MEMÓRIA ORDENADA e A ILUSÃO DE QUE O PRESENTE É CAPTÁVEL.

            É coisa típica daquele grupo de filósofos sem sistema, e também dos grandes autodidatas, que não é o seu caso.

            Acho que estes últimos não têm noção de valor da real existência de uma Arte, Ciência, Filosofia ou Religião (o valor, na vida, é gradativo, a gente assimila de forma sistemática, com as somas e com o tempo; os autodidatas não têm tempo a perder, pela própria natureza deles...Eles me incomodam um pouco, por uma possível arrogância da não-competição...É meio nebuloso para mim).

            Os filósofos de sistema, “Filósofos filósofos”, assentam seus pilares na lógica mais abstrata, que vai rodopiar, de propósito, a mente do ser humano no torvelinho cada vez mais centrífugo, para que a essência do silogismo / apotegma fique cada vez mais distante, evitando o fim da Filosofia... No caso: a natureza das soluções que se explicam por si mesmas e o Deus de Aristóteles /a metafísica realista tentando impor-se ao contingente); o cartesianismo que “desumanizou”  os famosos homens da caverna de Platão; o monadismo de  Leibnitz  (uma nova teologia); o fulcro da Óptica de Newton (panteismo físico à espera do fadado panteismo estrito de Spinoza); o Juízo absoluto do racionalismo de Kant, que foi pai da Dialética (que hoje se pré-põe à colocação de qualquer raciocínio); a fenomenologia de Husserl, base dos dois filósofos do Humanitarismo (Metafísica Tática( risos...) de Heidegger e Existencialismo de Sartre, mas que, em minha quase insipiência no ramo, julgo que são mais Filosofia Política do que Filosofia pura). E, mais “hodiernamente”, o Logicismo de Wittgenstein, que conseguiu chegar, através dos números, i.e., das coisas que “todo mundo entende do que não entende”, à natureza de Deus, sobre quem todo mundo entende do que mais não entende..., como escrevi uma vez ao grande didascálico Ivan do Prado Teixeira, ao palpitar sobre o  “Tratactus...”.

            Mas você, Wilson, me surpreende com magníficas aberturas na base do pessimismo, pois só as negações possibilitam, em meu entender, a ereção de novas verdades. Pode ver que tudo o que existe é porque algo foi negado: estão aí as grandes lições e o rolamento dos fatos de Machado de Assis, Lucrécio, Leopardi, Swedenberg, Nietzsche e, para mim o Rei dos Drops=Schopenhauer, com seus Paraliponemas (Aforismos, que virou sinédoque tautológica, “Aforismo é um aforismo”, já disse alguém, magistralmente!). Realmente você me assusta em alguns escritos: um médicin de campagne, daqueles que não se fazem mais (que chegavam, curavam, não cobravam, tomavam do café zurrapa com bolinho de chuva e iam embora com dor no coração), mas agora, com mais de oitenta anos...com sua maletinha de poções espirituais!!!

            Isto tudo para mim é emocionante. Passei a te ver na distância. Gostei de mais dos cinco textos que mencionei acima.Mas precisamos conversar pessoalmente, explicar por quê gostei!! Venha logo e telefone, vamos tomar uns whisquinhos e jantar juntos.

            Abração a você e para a Lourdes, do Vadinho.

            (Desculpe o tratamento na segunda e na terceira pessoas...)

 

 ********** 

                

      

 @ - Ao Castor (Fernandez), aduzi no espaço Assunto um : mais uma surpresa.

    Tento explicar-me:

    1 - Você se enruste nas alusões a leituras. E fico sem saber o que você leu, quais suas preferências. Se você fosse um padre ou um bookmaker, não me despertaria interesse. Mas você faz coisas...e coisas. Me lembro de quando o conheci, você estava mostrando peças suas de teatro ao Plínio Marcos, ele um afetuoso amigo meu e seu amigo de infância. Depois você entrou numa fase de Xadrez, campo em que me espantaram algumas análises de partidas magistrais, e você sabe que tenho cancha para saber do jogo, conheço-o historicamene como poucos (modéstia à parte), embora seja um patureba, ou no máximo um bom, quase excelente jogador doméstico. Mas longe do doméstico de Duchamp! Aí vieram as fotografias, você com equipamentos de última geração, Canon, Nikon, só não vi a rainha (Leica), mas vi belíssimas fotos, as das raias do Jockey Clube com aquela ciranda toda de uma festa ou solenidade japonesa, uma profusão de cores que lembraram fotos de making of de RAN, com uma atmosfera de Kurosawa mas estática, você mostrando que aquela dinâmica genial de seus filmes pode ter atmosfera parada, congelada.Depois soube, no plano do Castor Engenheiro, de seus alertas sobre a tragédia do Viaduto dr. Frontin, no Rio. E de suas viagens pela Europa, Argentina, locais em que você dominou fatos e peripécias de futebol, próprias de um profissional da área. TIVE OPORTUNIDADE DE VER UM PAPO SEU NO REDONDO COM UM ARGENTINO FUTEBOLÍSTICO DE PROFISSÃO. Em seguida suas incursões internáuticas, a tonelagem de informações, pô!, às vezes grilo que isso tudo só pode ser mediúnico.

E, PELA AMIZADE, GENEROSIDADE E ABDICAÇÃO, você me dá o direito de expor estas franquezas...É que nunca o vi sentado, concentrado, você corta a exposição do interlocutor, parece jogar tudo pela janela, como quem está garantido pela informação de última hora...ou da frase que vem logo a seguir.

Chegou a me irritar muitas vezes, quando me deixava falando sozinho no meio de uma frase e saía do ambiente como que correndo. E não havia nele um terceiro interlocutor. Dava-me impressãoa de vesânia, ou no mínimo de maluquice.

Tenho ainda que entrar por outra, neste arrazoado, bem a molde de seu comportamento cultural:  tenho pra mim que, sem leitura, não é possível ordenar idéias, mas sei que posso estar errado, veja o caso do Lula, que ordena muito bem, ele só não coordena...Mas acho que continuo certo e que o Lula é caso de genialidade (= talento congênito. Ou ingênito, melhor.)

            Volta e meia você aparece com uma de sua lavra que exige, digamos, uma certa especialização. É o caso do Poema "Amor", para mim simplesmente genial, e um caso, esse sim!, do tão academicamene decantado isomorfismo: [ GOSTARIA DE MANDAR  ESTA MENSAGEM COM CÓPIAS, PORQUE SERIAM PARA PESSOAS DE ALTÍSSIMO NÍVEL, QUE TERIAM – DEVERIAM! – EM MEU ENTENDER, DE TOMAR CONHECIMENTO DAQUELA PÉROLA ] : veja(m) que o poema aproxima entidades (os amorosos) que não suportam a companhia, pois, ao se tocarem, desviam-se de novo como resultado de verdadeira colisão, que é a rota do Amor, para mim. Como se chama aquele ímã ao contrário, cuja insistência de grudá-lo com outro provoca uma repulsão violenta? Explique-me, você que também conhece eletrônica, !,   por quê aquilo acontece...

            Agora o mais importante e não sei se involuntário ( mas para mim o ato involuntário é da essência e valor de quem o pratica, isto é um truismo tradicionalmente português, perdoi-me a Nova Cartilha das nomenclaturas e chamamentos oficiais, cartilha essa recolhida pelo Governo superior da  república ) mas só por essa via é que se chega ao alvo das criações; por exemplo, não é possível arcabouçar humanamente, a não ser com o auxílio de um “Deep Blue”, um artifício metalingüístico mais perfeito que o do ato de operar seu poema do Amor.

            Pode-se argumentar que o ato involuntário teve como típico fio condutor ( e aqui no melhor, ou único,  sentido técnico ) um dos milhares (ou milhões, ou bilhões) de arquétipos que pudessem ter aflorado ao Inconsciente Coletivo, neste caso ao Autor, a você. Mas eles se acumulam pelo evento da Ancestralidade. E a Ancestralidade não é um buraco negro e sim um repositório memorável de fatos e coisas à mão...(e onde possa entrar a analogia!)

            Pra catá-los é preciso uma especialização, um ato de vontade (portanto voluntário) sob pena de se pegar a coisa errada, aí sim vira acaso, azar (não o azar na acepção mallarmeana).        

            Você me disse por e-mail  que o poema foi herança, algo nesse sentido, da Poesia Concreta. Mas é realmente estranho o modo displicente com que você chega ao resultado do balanço das duas linhas verticais. E não posso acreditar que por acaso se chegue à manipulação do acaso do poema, a não ser por intuição suprema, que talvez seja seu caso: tem um achado lá que é um primor de invenção, não mais digo involuntária, mas escondida, como quem malandramente brinca, debocha, sem pensar na responsabilidade poética.

Ou de quem acha que a Obra de Arte, ou o exercício de sua fatura é mera brincadeira. Tese que expus ao saudoso Nilton de Castro, para dessacralizar a inveja(diria mais elegante e humanamente :disputa) do Percy por um confronto de nostalgia de criação, senão ele morreria...

Como levo muito a sério as brincadeiras, comovi-me com a aproximação e afastamento das linhas (os amorosos) resultado da manipulação da ruela desses mouses modernos. Quando recebi seu poema Amor, fiquei muito entusiasmado e lhe escrevi:

Muito bom!!! Realmente, o Amor só volta (retribui), como no seu poema,
quando "bate" no outro(a). Se você eliminar o final onde se desenha o
coração com a palavra no meio, fica perfeito. Porque com aquele final o
poema sai da espacialização para cair no pictograma, recurso tipicamente caligramático que, no caso, "estraga"...
Desculpe-me, mas se não fosse muito bom mesmo eu não me atreveria a
palpitar. Ezra Pound rabiscou e trebiscou todo o longo poema de Eliot, TheWasteLand, marco da Contemporaneidade poética, 1922  (a ModernidadecomeçoucomLesfleurs du Mal, 1856). Eliot acatou e deu naquele pilar!Mesmo não sendo eu
nenhum Pound,  DESCULPE-ME A "INVASÃO", MAS É QUE GOSTEI MESMO DO POEMA.
Outra coisa: você reparou que, para o Amor funcionar é preciso que o dedo médio, ou o indicador (respeitem-se  as preferências dos dedos!)acionandoa roda, fique  cricoteando um clitóris?!!!
Toda obra de arte é uma obra aberta...
Abraços, Menezes.”

            E hoje mandei um e-mail para o Ivan, de seguinte teor:

  Ivan:em complemento ao e-mail que contém as apreciações que fiz sobre o talento do Castor (xadrez, engenharia, política, religião, poesia; e ele é tão agitado, pessoalmente, não pára um segundo quieto, não se senta numa cadeira pra dar uma sossegada, não se concentra um instante, só pode ser mediúnico!), e-mail aquele onde quase autoritariamente determino que você e todos "os CC" (*)  vejam com carinho seu poema móvel "Amor"(das maiores obras-primas que conheço da arte cinética e do isomorfismo científico, confiram), em complemento, repito, vejam a síntese desse artigo dele, "O útero de Deus"! É um exemplo raro do gênero Sub Alegoria, parece-me que ultimamente muito falado em Retórica, mas pouco exemplificado.

    Ah, estou meio confuso hoje, pulando com ansiedade pra afugentar uma bruta ressaca, nesta madrugada enxuguei com um amigo um litro de whisky JB, meus neurônios estão in UTI s (pôrra, mas esta está ótima, acho que está, Deo gratias, nasceu agoríssima), então, neste embaralhamento todo descobri mais uma alusão, sutil, maravilhosa, no poema Amor, do Castor: além daquela atração e repulsão, da divisão do ser na aderência do amor, do ímã ao contrário, da massagenzinha no clitóris do mouse (como já disse, o dedinho roçando a ruela do mouse para o poema se mover), acabei de ver mais uma: aquelas duas linhas (que tenho chamado de amorosos no curso dessas análises), estão em dois balanços,  desses de parques de periferia, os primórdios do amor, balançando puros...no poema há pureza, maldade e crueldade, três etapas do Amor quando não vinga ( aí ele se vinga).

                                    ************

    O Castor está dando o que falar (esta frase ainda vai dar samba, esperem).

                                    ************

    Disse a ele uma vez que o verdadeiro zen-budista tem de pregar a bunda na cadeira. Meditar. Pra atingir o nirvânico. Bunda pregada no assento. Todo zen-budista verdadeiro é um verdadeiro zé-bundista. Palavra atrai palavra, atinge-se a essência através do mot-juste.Não existe coincidência: sabe por quê Buda tem esse nome? Porque passou a vida inteira sentado. Não é incrìvel? (Explico aos ex-seminaristas, filhos de Maria e congregados marianos, se os existem ainda (sic): o n acabou se desmilingüindo fiofó adentro. É fraca. Mas verdadeira. Justifica-se a posteriori (cuidado, a expressão é no único! sentido, o "Houaiss" explica muito bem) E daí você pode rebus-cala com auxílio da Glossolalia, do Mistifório, das Algaravias, do Silabário Aleatório e até mesmo da Mixórdia...

    ÔÔÔ, como é gostosa a Internet, os e-mails, você pode cagar cultura, mas cagar com fé, não é como no livro que a gente está escrevendo, que não promete seja haurido por ninguèm... No e-mail não, você manda e o cara lê. Mesmo que te mande em seguida à puta que tiôs pariu!

    Mas a gente exerce a Comunicação.

    E a pessoa fica sem-vergonha (sic) de sacar umas e outras...

    Mandei uma pro Zé Simão, não tenho medo de usurpação de autoria, pois esta já está publicada, num ensaio sobre o Orlando (Marcucci): - O pior da bebida é que, com o tempo, a família acaba ficando perigosa. 

 (*) ("os CC = com copia para, então = os que receberam cópia, vamos adotar assim).
 

**********


@ - Ao Castor (Fernandez)

"(...) ... Reitero, Fat Garoot : é uma questão de luta de classes = o preconceito de classe. Só isto faz o burro ficar por instantes inteligente. Não deixa de ter coisas agudas , e corretas, na ladaínha da Torloni. Ela tomava porrada diária do marido, o falecido psicanalista Eduardo Mascarenhas, outro imbecil, mas com a qualidade pelo menos de admirar o Brizola . E, toda de olho roxo, não reclamava, não tinha a menor dignidade feminista. No entanto, quando entra a luta de classes, percebe que tem cérebro e até que articula verdades inteligentes, mas que têm de ser toleradas, procrastinadas em função de uma teleologia social de país em formação ( só agora, em meu entender, o país está se formando, virando o ápice da pirâmide para a raiz, para o assentamento da nacionalidade e da cidadania). Em todo caso, como se preza a democracia, o individualismo... "chacun sa verité"... e abração do Menezes, sempre stalando."
 

AGORA O MAIS IMPORTANTE: O BRASIL, ELIMINADO NAS QUARTAS, OU TALVEZ NAS OITAVAS DE FINAL, NA PRÓXIMA COPA DO MUNDO, POR ACERTO GLOBAL, FARÁ COM QUE O POVÃO, BESTIAL, IMBECIL, ZARAFRÚNDIO COMO TODO POVÃO, DESCARREGUE A VOTAÇÃO NA OPOSIÇÃO, SEJA ELA A MÉRDA QUE FOR... E BYE-BYE REELEIÇÃO!!!

    É O PROCESSO INVERSO DA JOGADA DO BAGGIO NA DERROTA DA OPOSIÇÃO (LULA, QUE ERA BARBADA), CONTRA A SITUAÇÃO FHC (1994)...

(Se você, ou quem quiser, quiser ver o Baggio olhando pras nuvens e jogando pra elas, nuvens, descaradamene, a bola que decidiria o campeonato em favor dos italianos... e o povo descarregaria em Lula, bye bye FHS. TENHO AQUI EM MINHA CASA, TUDO GRAVADO!!!)

 

        E você acha que sou ingênuo, que não estou enxergando?!?!?!

       E QUANDO LHE DIGO QUE O LULA AINDA NÃO FOI ELEITO, AQUELA MINHA PARÁBOLA  QUE DIVULGUEI AOS AMIGOS?...

        ESPERE A COPA... OU O IMPEACHMENT.
 

----- Original Message -----

From: Castor Fernandez

To: flomen@giro.com.br

Sent: Sunday, May 07, 2006 11:20 PM

Subject: SPAM: RE: Fw: Fw: Não deixe de ver o vídeo !!! Uma triste verdade !!!/ FM em 06-5-06, 22h48/ C.Torloni.

 

Pára com isso Menezes

A "menina" é burra de pedra. Burra e mau caráter. Você dá muita credibilidade p'ressa gente da Globo. As reginas duartes, marilias peras, ana marias bregas, limas duartes, verezas, jôs soares "et caterva" estão apenas fazendo propaganda política ILEGAL a mando e com consentimento da Globo. Será que você não percebeu que o Lula "traiu" e ainda está "traindo" os interesses da Vênus Platinada no assunto da TV digital? É muita ingenuidade sua pensar que essas pessoas são capazes de pensar sozinhas. Essa gente só pode "pensar" se houver um "script" e um autor "extra corpóreo". A "coisa" vai ficar pior ainda. Soube de fonte fidedigna que o sistema da HDTV a ser adotado no Brasil NÃO vai ser o japonês. O que foi assinado pelo ministro Celso Amorim em Tókio foi um protocolo de INTENÇÃO  e não um CONTRATO. A Globo, caso não seja adotado o padrão japonês, deverá ter sua participação no mercado publicitário brasileiro reduzido de¨60% para 15% em apenas 2 anos. Isto se chama FALÊNCIA. Todas as empresas de telefonia poderão distribuir sinais digitais e/ou HDTV com CONTEÚDO PRÓPRIO. Isto quer dizer que ela (Globo) tem que colocar em Brasília alguém da sua inteira CONFIANÇA. O Lula não está no rol dos CONFIÁVEIS (pelo menos para a Globo) face suas últimas decisões. Ista que está acontecendo chama-se VINGANÇA PELO DEBATE EDITADO COM O COLLOR.

Você, como sempre, superestima e "tolera" pessoas com mau caráter como essa turma vendida da Globo.

Chego em SP 3ª feira a tarde. Apareça.

Abraço

Castor
 

**********

   

@ - Para Castor Fernandez, 11-4-2006:

“(...) Adendo: Há pouco, quando recebi a malfadada entrevista do Carlos Merdão : Verezas no programa do Jô, mandei ao remetente o seguinte texto :


Fat Garoot: há muitos, muitos, muitos anos, escrevi o seguinte sobre o Jô Soares:
"@ - JO SOARES Num país de invertidos progressivos como o nosso, um desinvertido público como Jo Soares dá uma impressão de paz douradora (sic)."

###

É meio naquela minha base, de que falamos hoje (ontem, 09-5-06) em sua casa ao comentar minhas cifrações, que lhe defini como anárquicas, propositais, fragmentárias, como a maneira reconditamente cínica de ver o Mundo (NÃO SE ESQUEÇA DE QUE SEMPRE FALEI QUE O HOMEM É UM ANIMAL FADADO À DANAÇÃO. NÃO CONFUNDIR COM ANIMAL FARDADO DA NAÇÃO).

"Vendo o fragmento de vereza do programa que mencionei e fiquei de lhe mandar (acabo de fazê-lo agora), dá pra sentir aquilo ali de cima : a voz, por distorção benfazeja dos deuses, denuncia a chibice do cidadão, e a alho/nação de seu seleto aurrotório. Também a lestipência do lápucra, cagando filosofias de tilho da fupa, excita uma sem-família kojac rosa a sanear pelos ares a cagalhice toda, a começar pelos câmeras, terminando pelo não término.Como sempre diz o Zé Simão: Pompa! Pompa! Voou lá, mas eles vão também!

Com a bênção de um Deus justo.

(A justiça farda mas não talha!!!, como dizíamos em priscas eras)

[ Ao caro QUIXADÁ, que está recebendo junto:  PEÇO-LHE QUE GUARDE ESSE TEXTO SOBRE O VEREZA COM RESERVA, POIS FAZ PARTE DE MEU LIVRO EM ELABORAÇÃO.

ABRAÇÃO DO Blumenbosque Menezes.


Blumenbosque [ Eu !, Florivaldo Menezes ] ( Uma versão : FLOR = BLUMEN juntada a uma tradução : WALD = BOSQUE. Então...Flor wald = Blumenbosque ) Presto, assim, homenagem a uma grande, enorme, maravilhosa e, malheureusement, já saudosa pessoa, que foi Jacó Leiner, e que assim me chamava...)
 

 

 

 

 

 **********

 @ - Para Fábio Lucas.

 

Querido Fábio Lucas:

Como você é uma criatura rara, de imenso saber e proporcional paciência, ( nosso amigo comum Zé Olympio diz que você sempre teve saco de filó), generosidade e afeição,  vou abusar desses atributos todos ao lhe presentear com  a “ANTOLOGIA”, de Adília Lopes, de quem lhe tenho falado muito.

O presente era para ser entregue naquela noite em que você me visitou, mas o whisky m´o impediu. E digo que vou abusar, porque resolvi escrever-lhe todo um trololó, óbvio para sua experiência, mas necessário para meu ego diante de uma figura como você, e também por meu entusiasmo.

.           Tenho curtido toda uma existência de Poesia, de Pessoa a Drummond, de Rilke a Cabral, de Haroldo de Campos a Carlos Pena Filho (!), Cummings, Américo Facó a Cesário Verde, as mulheres do Parnaso, Emily Dickinson e Marianne Moore ( estas sem dúvida as top-line, com perdão da prosápia). Estou nesta vida a ler ( e a malfazer ) poesia nas horas e desoras, vagas e invagas, bem sentado, escondido e fora de lugar, enfim, tenho visto de tudo... mas confesso que há pouco mais de um ano descobri uma poetisa portuguesa, atualmente com quarenta e quatro anos, que me trouxe realmente, agora sim, parece que renovadas, as verdadeiras epifanias ( = "linguagem de reis", como você sabe, i.e., linguagem/revelação dos Reis ( aqueles três magos que seguiram, pelo Céu, a rota pra manjedoura, a ver se chegavam na horinha da chegada da Redenção...e repare que a cadência já era o início da decadência, arre!)

                        Note, Fábio, que as epifanias da poetisa Adília Lopes são revelações inéditas, mas tiradas das anedotas ( no sentido grego de coisa do cotidiano, que acontece todo dia ), ela tece tramas possíveis se de fato acontecerem ( parece coisa de português!, RRiso), verdadeiras abstrações concretas, pois, apesar de operar mudanças de entidades na própria palavra, na própria escrita, funcionam, como observou Flora Süssekind no posfácio à "Antologia", como estratégias simultaneamente contra-ficcionais ( porque se expõe o seu mecanismo de fabricação de enredos ) e antilíricas ( porque o eu lírico se transfere do plano da enunciação para o da ficção) indícios capazes de auto-evidenciar o território misto, instável, entre a figuração poética e a narração, o lírico e o épico, entre forma enunciativa e estrutura ficcional, em que se move sua escrita poética. Por exemplo,  da personagem chamada Arima, da novela “Menina e Moça”,de Bernardim Ribeiro, de seu próprio nome a poetisa passa, ontologicamente, a uma consideração sobre "a rima" como recurso poético. E do recurso rítmico ( rima ) se volta a um processo figurativo ( a rima vira outra vez uma senhora, como acentua o posfácio), de um som que se repete se passa a uma personagem contorcionista, retomando-se o trabalho de ficcionalização.

            [ NESTAS ALTURAS DO POSFÁCIO, ANOTEI:

            " V. meus processos da década de 50! e que continuo a aplicar: v. a passagem do Gustavo Kürten no meu poema ´Heavenly Creatures´ " (2001).]

            Se você tiver ainda mais paciência, gostaria que você relesse o poema supra, que lhe mandei, ou deixei em sua casa.

            No livro que estou escrevendo, “Impropriedade Privada”, na parte dos ensainhos, falo uma hora que a Fotografia foi um dom ( = possibilidade) que a tecnologia deu ao homem de não apodrecer no nihilismo da solidão e de nunca perder seu corpo. É a vida suspensa: ou a morte parada. Qualquer um pode ser milhões, como – e embora – naquele poema de Vinicius de Moraes, o da   "Nova York, oito milhões de solitários" (1962).

            Mas solitário solidário.

******

        E, voltando ao problema do divinatório das Fotografias, reproduzo esta jóia, condizente, de Adília Lopes, que definitivamente devia  encerrar, selar e lacrar minhas leituras de poesia.

Tinha de acreditar nessa verdadeira devoção e dizer, alto e bom tom: basta, por esta encarnação tudo para mim já está justificado em termos de Poesia:

 

                        UM FIGO

                              

                               Deixou cair a fotografia

                               um desconhecido correu atrás dela

                               para lha entregar

                               ela recusou-se a pegar na fotografia

                               mas a senhora deixou cair isto

                               eu não posso ter deixado cair isto

                               porque isto não é meu

                               não queria que ningúem

                               e sobretudo um desconhecido

                               suspeitasse que havia um relação

                               entre ela e a fotografia

                               era como se tivesse deixado cair

                               um lenço cheio de sangue

                               porque era ela quem estava na fotografia

                               e nada nos pertence tanto como o sangue

                               por isso quando uma pessoa se pica num dedo

                               leva logo o dedo à boca pra chupar o sangue

                               o desconhecido apercebeu-se disso

                               é um retrato da senhora

                               pode ser o retato de alguém muito parecido comigo

                               mas não sou eu

                               o desconhecido por ser muito bondoso

                               não insistiu

                               e como sabia que os mendigos

                               não têm dinheiro para tirar fotografias

                               deu a fotografia a um mendigo

                               que lhe chamou um figo

 

                                                                                              (Chamar um figo (Port.): levantar as mãos pro céu, para o bem...ou para o mal, o que se há de fazer...)

                              

                               É que o livro todo é feito dessas coisas.

                        Curta-o. Gostaria de ter sua opinião.

                        Abraço de quem o respeita e estima muito,

                                          

(Florivaldo Menezes),

 

**********        

02-5-05.

@ - Para o Castor Fernandes, fev. 2005, por e-mail.

Você votou no PT?!?!...

Mas que falta de juízo, baby!...E no meio da estrada (meio de mandato da prefeita) você elogiando a Marta daquela maneira? Pô, baby!...

Ih!... eu não falava que Internet ia me dar problemas?
Fairy: telefonemas eu tinha preguiça; e-mail a gente se anima, está com a mão na massa, dá uma de sincerity, a gente pega e desanda a falar bobagens, como estas, sorry/sorry, amigo-amigo é pra essas coisas, tem de se lixar... abração do Menez ( oriundo de Menes, Espanha, sabia que sou judeu espanhol? Tenho no meu sobrenome escamoteados pela certidão de nascimento os seguintes: Marino Machado de Oliveira. (Florivaldo Augusto Marino Machado de Oliveira Menezes).Só não sou nobre porque o Picasso se chamava PABLO Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno Maria de los Remedios Cipriano de la Santissima Trinidad Ruiz y y PICASSO.

Mas Blasco Ibañes conta o caso daquele prelado espanhol que tinha um nome ainda maior: Juan Thiago Ignazio Agostin Ambrosio Ciriaco de Alexandria José Maria Bartolomeu Cristiano de Las Dores y Toros de Villas y Puertos Titina y Barrios.

                                             ***

O dono de um restaurante na Tailândia, onde se comem baratas à milanesa enfeitadas com grinaldas azeitadas de olhos de gambá se chama U. E seu sobrenome: I.

Seguramente é o nome mais curto do Mundo. Embora numa competição de rádio em Valladolid tenha acontecido aquela maravilha dos caras que conheciam o nome mais curto do Mundo: Um falou Ó (da família da Marquesa de Ó). Quando lhe iam adjudicar o prêmio, levantou-se no auditório um baixinho e disse : yo conozco un más corto: Casio! E quando ia arrebatar o prêmio, levantou-se um gaiato e disse: No!, el prémio és mio: Yo conozco Nicásio!

Mas isto é pura semântica estruturaaalll...  

 

 **********

 

@ - PARA BEATRIZ PORTELLA.

            Querida Beatriz, segue, como combinamos, meu textinho sobre o Clemente. Será que não está longo?

 

 

                                                           I – MEU

 

            Um jeito mais gostoso de explicar as coisas. Calmo, o anti-caga-regras.

            Explicadas por ele, no entanto, elas adquirem a força das sentenças bíblicas ou de outras bíblias.

            Custei anos pra notar isso, mas sentia sua eficácia pelo pachorrento timbre de sua voz (não era sedução, era um mistério)uma voz belíssima, perdida, perdida, perdida pelos melhores Teatros, que pena. E o pior é que vinham encimadas por um olhar de belos olhos verdes (que não eram verdes!), marcáspico, ondulante, um verdemusgo perigoso nos braços de um azul mais amigo...

            Afinal, de que cor são os olhos do Clemente?

 

                                                                           II – SEU

 

            Desde que o conheci, toda vez que dele me aproximo, saúdo-o alternando o “Que-le-men” de época (era a fase dos alumbramentos por Guimarães Rosa) com o “Ó Clemente, ó Piedosa (...)”, completando, depois de um silêncio prolongado, o verso da mais eternamente bela das orações católicas.

            E o trocadilho da prece, também dentro de um trocadilho conceitual, caía-lhe bem, pois não me lembro de um reproche, (como é de seu irônico agrado, tal palavra...) um só reproche , por pessoa, fato ou causo, discordes de seu pensamento límpido, mas que ele, cientificamente, deixava para uma gargalhada abortada e de imediato esmaecida numa pergunta elegante... Sabia – afinal, sabe!!!, ele me parece mais feliz, e feliz sabe mais das coisas, hoje acho isso – sabe de tudo, é o cara mais informado que conheço. Por exemplo, e num só campo: sabe do próprio nome de um filme que ainda poderá ser feito por Scorsese ou Antonioni.

 

                                                                              III – FATOS, SÓ ALGUNS POUCOS

 

            Uma tarde apareceu em casa (sabia que os vagabundos são encontrados em casa à tarde). Pus-lhe uma faixa do CD que acabara de sair do Cauby, acho que “A tua presença”. Ele ficou mudo, mais vermelho e abalou-se. Abalou-se. Senti que lhe causei uma felicidade, sinto muito, na época.

            Como dava festas! Também, com a mulher que tem (ou é ela que tem o marido que tem?) e com a filharada esvoaçante mas em ninho sempre arrumado e respeitado, aquele ambiente rupestre refinadíssimo, a sempre música saindo por todo canto sem barulho, tinham mesmo que abrir pros amigos, era muita comilança, bebedança e faiança, o Willy, o Orlando (que não nasceu mesmo para casal de varizes felizes, como previ em um de seus approachs), o genial cuco Nélson Lerner, os JotaJotas por tabela, o pessoal da Publicidade, da Psicanálise ( hoje a turba-multa da Psilacânise estragou tudo, aboliu a fantasia, as mentiras, ficou mais insosso!) ... e haja festa, a cozinha sob seu comando, sempre foi o gourmet mais criativo. Comi um cateto assado por ele, que até hoje é meu maior prenúncio do Paraíso, eu que nunca achei que os catetos fossem comíveis, aquele corpo cheio de espinhos...

                Mas os principais fatos foram os que não aconteceram: seu imenso faro para as artes miméticas em geral, principalmente o Cinema, abafados por um vergonhoso, exasperado, raivoso senso de ridículo e auto-crítica, mas cujos resultados de sua genuina poesia puderam ser vistas nas inúmeras vezes em que dirigiu espetáculos teatrais por mera intenção benemerente, humanitária, onde a originalidade e o ludismo soltaram-se pela criançada dos colégios.

            No fundo, soa como um descrente. Mas que não lhe tira a boa companhia, a beleza, a simpatia e a generosidade.

                                   São Paulo, dezembro de 2004.

 

                                               (MENEZES)

 

 **********

 

Ufa! Help me! Helpem me !

                                                         

 

 

 

      

@ - Para Willy Corrêa de Oliveira (27-8-04)                 

                 Willy: na semana passada você pediu-me algum (alguns) poema(s) para musicar, nessa fase de inspirado mergulho pela natureza do LIED. Acho mesmo: ouvi os três do Celan, um deles absoluto, para meu gosto.

                                                        *

                 Keats dispôs que o epitáfio Here lies one whose name was writ in water (Aqui jaz alguém cujo nome foi escrito na água) ficasse gravado no seu sepulcro.  (Apud Borges, "Introdução à Literatura Inglesa")       

                   O som é de algo que, sorvido pela água, borgulha (borbulha no mergulho, ou mergulha no borbulho), sumindo tristemente: pode ser vertido -- no conceito borgesiano do virtualmente (in)traduzível:

                   a) Na lápide plúmbea meu nome, de plúvia, se espuma.

                   b) Eis quem não sobra nada além.

                   c) Ávida vida de vidro à vista.

                   d) Eis cujo, cujo nome (só não) é sujo.

 

                   NOTAS:

                   a) Dá uma idéia (sonora) de algo jogado nágua.

                   b) Versão puramente parassemântica. Pessimismo só.

                   c) Isto é : existência clara mas errônea (a do próprio K.)

                   d) Os dois  cujo : o cúmulo do anonimato, condizente com a função da frase do epitáfio.

 

                   Mas, onde quer que tenha eu conseguido a maior similitude, fui traído, malheureusement, pelo som fechado, quando, no original, o objeto que parece cair nágua é algo de claramente aberto, isto é, eclatant (claro!... sem trocadilho) (Uma observação escrita num livro, no João Sehn, 9-6-1996)

 

                                                        ***

 

                   Bem, a água, levando o epitáfio embora, desmanchando-o, pode muito bem ter marolado e justificado uma expansão de frases pessimistas que o piano pode acentuar, emendando uma na outra. Nesse caso, as minhas quatro versões também justificam uma repetição insidiosa do mesmo tema... e uma como complemento da outra, desenvolvendo um poema com sua semântica própria.

Vai lá, então, o

 

 

                                                        Um kit para Keats

 

                                      Here lies one whose name was writ in water

                                      Na lápide plúmbea meu nome, de plúvia, se espuma: eis quem não sobra nada além!

                                      Ávida vida de vidro à vista:

                                      eis cujo, cujo nome (só não) é sujo!                

                                                                                                            Florivaldo Menezes

 

                                                    

**********

@ - Agnes Kilzer:

                       - Para preenchimento da `régua e compasso´, o contorno é do cérebro, mas o miolo, do coração. Veja Sacilotto x Fiaminghi, Braque x Juan Gris, embora o primeiro desta dupla seja o grande artista maior do movimento cubista. Agora já está na hora de sua (grande!, acho) pintura "se mexer" um pouco: talvez uns desenhos. O figurativo (que “se mexe” melhor), e nestas alturas da Vida, acho que só aceita o desenho como gênero, não sei...

                        Botei aspas no dito para demonstrar que a opinião é de mais de um ano, antes de você começar a desenhar. Algum sentimento de perigo me fez vacilar, e não a mandei.

                        Quando você voltar ao caminho do abstrato, ou extravagar por ele, dedique algum tempo, se possível bem largo, para ver, fronte a fronte , Braque e Gris, Gris e Braque.

                        Espero demais por você.

                                    ( Menezes )

                        SP., março de 2004.

                       

**********

@ - CLÜVER, CLAUS:      Claus: Estou passando-lhe às mãos:

                                               1 - Livro do Phila, da Editora Ática, sobre  Poesia Concreta, antecedentes / conseqüências, conforme você  muito atenciosamente me solicitou.

                                               2 - Uma fita de vídeo, contendo cópia:

                                                           a - do programa / homenagem póstuma ao Phila, que a TV Cultura levou ao ao ar em 2001.

                                                           b- algumas coisas de meu Livro (desculpe-me a maíuscula, que parece uma pretensão mallarmaica) /  ( mas aqui pessoalmente, muito entre nós... é! Enfim: o relato de toda minha vida : entram nele relatos de estética pessoal e geral; vai ter só uma Introdução de aproximadamente 800 páginas e... acaba. Não há capítulos; e as notas de rodapé às vezes avançam pela(s) página(s) seguinte(s), tomam todo o corpo da página e, quando determinada nota de rodapé termina, já estamos em outro assunto, para que o leitor se esqueça afinal... onde é que estamos? sobre que falávamos? etc. etc. ) . Entram muitas imagens gráficas ( portraits, caricaturas, teatro de rosto/face com a Elza atuando em dramatis personae de Borges, de Fernando Collor etc). Entram també remissões à fita de vídeo que acompanha o Livro, mais etc. etc. O Livro, você sabe, chama-se "Impropriedade Privada", é projeto surrado em minha vida, já dei até um resumo dele numa entrevista na revista  "Escrita"  do final da década de 70.

                                                           b.1. - Gostaria que você visse esse vídeo com calma e mantivesse sobre ele a maior reserva possível...desculpe recomendar isso, perdão mesmo, mas você entenderá o zelo nessa fase de gestação: você e Maria são as primeiras e únicas pessoas a verem a fita. (Preste atenção no poema Rainbow / Rimbaud – este título, da exposição de 1985, ficou na memória ran do Augusto até 1996, quando ele publicou seu “Rimbaud / Rainbow”... ele tem talento pra não precisar plagiar nada... o inconsciente é um traidor amoroso.

                                               3 - Um ensaio meu sobre a Academia Brasileira de Letras, escrito há uns três anos e publicado no livro de Fernando Jorge sobre o sodalício. PERDOANDO-ME A IMODÉSTIA, CONFESSO A VOCÊ QUE O CONY, NUMA CARTA, PÔS O TEXTO NO ÁPICE DOS INSIGHTS SOBRE A ACADEMIA E NO DOS ACHADOS ESTILÍSTICOS E VERNACULARES DA LÍNGUA. ELE IA PUBLICAR ESSES ELOGIOS EM SUA COLUNA DA "FOLHA DE S.PAULO", MAS, LOGO EM SEGUIDA... ELEGEU-SE PARA A ACADEMIA E ACABOU, LÓGICO, NÃO PUBLICANDO.

                                               4 - Parte do subcapítulo ( sic : lembre-se que o Livro só vai ter uma Introdução ) de passagens sobre o Cinema, uma escolha pessoal que esteve ( está ainda? não tenho "inernet", como v v. pronunciam ) no ar por uns três meses, no site da melhor locadora do país, a "Locadora 2001". GOSTARIA, TAMBÉM  IMENSAMENTE, QUE VOCÊS DOIS LESSEM E TAMBÉM TRANSMITISSEM AO            

 

[ NÃO SEI SE CHEGUEI A LHE MANDAR ISTO. NA DÚVIDA, SEGUE OUTRA VEZ, COMO ADENDO Á XEROX DO TEXTO DO MASSAUD MOISÉS SOBRE O JOSÉ DE ALENCAR . Nota de 01 de janeiro de 2004]

 

**********

Ivan:

                                  Sei que você, por longo tempo de sua vida, sentiu a nostalgia da criação, no sentido de escritor objetivo (a clássica distinção objetivo / poeta / ficcionista x adjetivo / crítico / ensaísta) Isso você me confessou pessoalmente, quando abordei aquele seu livrinho, para mim delicioso, de morfemas poéticos e me disse que tinha abdicado da intenção, lembra-se?

                                   Você sabe que a nostalgia é diferente da saudade: é um sentimento de falta de algo que pode nem ter existido.

                                   Porisso, acho que você se subestimou muito; e foi uma pena; poderia ter sido um perigo maior...

                                   E sabe melhor do que eu que suas coisas, no campo da ensaística e história – diria mesmo da historiografia, onde se enquadra seu grande livro sobre o mecenato pombalino, hoje, honestamente falando, um clássico – às vezes mantêm o laivo daqueles lances, não sei se subjetivos, que fazem de Mário de Andrade dez vezes mais criador que nosso maior crítico atual,  Antonio Candido, que, aliás, reconhece, literalmente, o que estou asseverando.Isto está em várias abordagens de Antonio Candido de Mário de Andrade e, de modo mais expresso, se não escorrego na (ladeira da) memória, naquele escrito em que analisa o convite que fez ao Mário para dar um curso, ou um programa, ou workshop, ou algo que o valha, numa das faculdades de São Paulo, se não me engano, na USP; estou citando de memória e com pressa de consultar. Mário chegou a fazer um esboço de roteiro, mas nunca aceitou a proposta. Tal roteiro e as razões da recusa de pô-lo em prática estão num alentado volume sobre Antonio Candido de uns quatro, cinco anos.

                                   E tais lances fazem parte de sua loucura, permita-me Ivan: uma loucura um pouco pessoal, um pouco de mineiro, que todo mineiro é maravilhosamente um louco de alcova. Zelão, um mineiro, dizia de nosso amigo Zé Olympio, outro mineiro ( não é o editor), que, a hora que desse dois minutinhos de distração ( e ele às vezes ficava distraído, mas distraído de propósito, como bom mineiro), sairia matando por aí um mundo de desocupados e distraídos...

                                                           ***

                                   Quando ainda não tinha intimidade com você, e li o "Apresentação de Machado de Assis", anotei lá:

                                   “Mais uma vez digo: o A.  consegue ´expressar` o que quiser. Doravante, vai ser uma questão de idéias-teses!...”.

                                   Anotei isso em 1989, na p. 190 e referia-se à invejável passagem:

                                   “ O texto é um hino à liberdade de pensamento e contém uma censura ao mito da coerência. Mas o seu aspecto mais criativo resulta das imagens e do labirinto da sintaxe, que procuram imitar as surpresas do caráter de Artur de Oliveira.”

                                    Já na mesma página fiquei muito impressionado com a concisão de:

                                   “ E a paisagem não passa da boa aparência de uma má entidade.” (!!!)

                                   Pegar uma coisa dessa, assim, é de dar inveja! .

                                   Na análise das Falenas, você tb. atingiu um fulgor de linguagem já naquela época das mais claras. E eu adoro a clareza, a maior das virtudes do estilo, quando este não esteja dirigido para  as diatribes do engenho (sentido barroco da palavra), no próprio Machado erigido em genialidade em “Um cão de lata ao rabo”, ou mesmo no embora conceitual “O cônego ou a metafísica do estilo”.

                                   Você deve estar rindo por ver no altar da clareza um cara de  constante nebulosidade, mas é que uso do recurso quase orgânico, biotípico, lúdico / idiopatico, do grito, ou aparição de quem sai de trás da porta: intuo, chuto e espero pelo gol de placa, confio muito em minhas intuições, não acretido em destinação, ou tarefa programática, sempre achei a Arte uma brincadeira...

                                   Quando você transcreve a anotação do Conselheiro , do dia 4 de fevereiro de 1888, de que:

                                   “[...] Este era feliz, e para sossegar das inquietações e tédios de fora, não achava melhor repiro que a conversação da esposa, nem mais doce lição que a de seus olhos. Era dela a arte fina que podia restituí-lo ao equilíbrio e à paz...” (grifo acrescentado),

                                   tem de ver-se aquele tédio no plural , e ainda mais “de fora” !, não só como recurso estilístico, em Machado, de grande estilo, senão como clareza, clareza, clareza, mas clareza de outra ordem, de ordem idiossincrática, pois arrisco a dizer, quanto a esse período, que o demonismo da prosa dostoievskiana  faz falta no imenso adro que une a mente ao coração.

                                   Isto estava anotado por mim naquela leitura de 1989, de seu livro, para sublinhar a maneira de Machado encarar.

                                                           ***

                            Todas essas digressões – mas digressões do que? não tinha assunto definido! – me acudiram à mente após a leitura que fiz em sua casa em 25 de novembro de parte do Memorial de sua tese, um talento enorme para a memorialística, que trás o anedótico, o romanesco, e que me encorajou a, pediodicamente, mostrar-lhe coisas por escrito: não escrevo para jornais, é a angústia da comunicação, do exercício do ego...

                                                          

***

 

           Tenho estudado bastante, mas não o suficiente, Retórica e Lógica; e, neste último campo, fui levado a ler Wittgenstein, que sempre me intrigou com sua fama, com o ressonar de seu simples nome. É, por enquanto para mim, talvez devido a minha incipiência, o maior gênio doméstico, o gênio do lar, no sentido grego. Conseguiu chegar, através dos números, i.e., das coisas que “todo mundo entende do que não entende”, à natureza de Deus, sobre quem todo mundo entende do que mais não entende. Dentro das abstrações a que ele conduz, mesmo para quem não saiba a fundo das Lógicas e da Matemática, sinto-me compensado quando me surpreendo, por raiva ou por medo, esmurrando, insanamente, os objetos da casa: assim, livro-me de uma tristíssima desolação, a sensação de que não existem os seres, um começo da vida sem mais começos, início da velhice...

                        O “TRATACTUS” me ilumina com uma cegante luz apagada, sensação de que não estamos vivendo, mas simplesmente entrados numa reservada área de promessa para quem ainda não vive! É tão estranho, uma dádiva do Pensamento Absoluto, algo como o jogo de xadrez, um micro-universo no qual você constrói, você destrói, você reconstrói, está tudo errado, vai dar tudo certo, essas coisas me animam e aterrorizam. Creia.

                        Uma noite destas, tive uma epifania, mas estritamente religiosa, diria mais: hagiógrafa e portanto etimológica, despontada de modo wittgensteiniano:

                        “O imbecil é o idiota burro. O idiota é o idiota inteligente.”

                        (Formule isso com os olhos fechados, mântricamente, e verá muitos amigos e parentes desfilarem em sua nuca)

                        Se eu, na segunda assertiva, dissesse que o idiota é o imbecil inteligente – o que logicamente era o aguardado – , teria que definir ambos, para não cair na “tautologia da Lógica”, embora as duas assertivas configurem “tautologia da Retórica”.

                        Outro assunto: dia destes, você, ao telefone, demonstrando ter admirado meu Heaveling Creatures (heavenly creatures) (que agora lhe mando com o nome do Aigulfo escrito corretamente), aparentou-o com o poema das flores, de Drummond e com o dos tecidos, do Décio Pignatari. Em que pese a honrosa companhia, insisto em que você o veja como um nominalismo, no sentido estrito e formal da Filosofia. Acho que é mais surpreendente.

            Abraço do  Florivaldo.

( ACHO QUE EM 06-12-2001 )

 **********

@ - a Gilberto Mendes.

  

                                                               Gilberto:                    

                                               Conforme prometido no papo por telefone da semana passada, estou remetendo-lhe:

                                               1. cópia VHS, sistema Pal-M, do programa da TV Cultura, canal 2, de 25 de agosto último, que homenageou meu pranteado filho Philadelpho;

                                               2. cópia, em seguida ao  documentário,  de  um  vídeoclip, “Metamorfoses, amor, Phila”, de autoria da Maria Christina , minha filha ,no qual faz uma homenagem ao irmão numa toada de réquiem (a música-trilha,como no documentário da TV, é do Flo), um réquiem visual-sonoro  muito  interessante, em meu entender.  Peço-lhe  a  gentileza  de não deixar nas mãos de terceiros(você pode exibí-lo em sua casa),pois está concorrendo num festival da Itália, já que foi ´"seleção de juri" em Montecatini. Neste mesmo ano,  a Chris já fora premiada também na Itália, com outro trabalho, um pouco mais longo.

                                                               3. meu mais recente trabalho, um poema  nominalista, na acepção  técnica de Filosofia, "Heaveling Creatures"... lembrando a você que nenhum dos nomes dali é inventado. Todos existem, a  maioria viva, os locais existem...Na abstração, no conceito dado ao ente, as coisas e pessoas não se dão bem sem ligação, você sabe; precisam estar relacionados. No nominalismo , a existência do ser ou coisa é livre, só depende do cogito,  as portas se  abrem, tudo é mais solto, mais feliz, as criaturas ficam celestiais... A  Evelyn Critchard, a quem dedico o poema, é uma derivação sonora  (fonética)  do título do poema, tem, na minha cabeça, uma virtude nominal soberba, passa a existir, como todo o poema, com uma função independente dos "universais". São criaturas celestiais, mesmo...

                                               4. um ensaiozinho em que abordo as academias de letras em geral e, em especial, a Academia Brasileira de Letras, como depoimento, a convite de Fernando Jorge, em seu livro sobre a ABL, "A Academia do Fardão e da Confusão", Geração Editorial, 1999, 586 pp.

                                               Sem mais, o abraço afetuoso a você e Eliane.

                                               São Paulo, 15-10-01.                                                                                                          

                                                               ( MENEZES)

 

********** 

@ - Roberto Brasil, irmão do Ben-Hur  e autor do CD “Enluarando”.

 

Roberto:

                        Admirei muito o gosto da seleção de teu CD.

                        Mas, forçando-me, instintivamente e não por espírito de porco, a  bancar o advogado do Diabo, indago-te – em off, pelo amor de Deus ! – se os arranjos não soam, à primeira escuta, muito comportados, monocordicamente  tímidos, parece que sempre esperando o cantor entrar, escritos dentro daquela espécie de caderno de caligrafia, com pautas forçadas, que quase expuseram tua bela voz, intimista, sincera, tão interiorana, diamantina mesmo (MG!) e tua interpretação sui generis, a uma exibição escolar, como o aluno chamado na frente para dizer algo na vista do Inspetor. Parece que por um trís, mas é pura ilusão, e, se for ilusão propositada, é genial, pois por milagre isso desaparece progressivamente! A sinceridade da interpretração e o timbre bondoso de tua voz parecem vir em teu socorro, e o prazer cresce durante a escuta. Aí você vê que o arranjo é cordura pura.

                        Estarei eu certo ou exagero? Poderia omitir-me? Precisaríamos aprender a encarar Arte objetivamente, sem subjetivismos; mas poderia ficar árido, sem a graça das bobagens e das idéias erradas...

                        Assim, se estou sendo um pouco chato, é que me envolvi demais com a presumível sinceridade de tua encarada no empreendimento. A gente sente nela uma verdade vital, antes de artística...Foi um ato religioso de tua parte, permite-me!

                        Mas tua voz merece uma reedição, talvez com outra entourage menos acadêmica, apesar de se sentir que são músicos exímios (as cordas!, são naturais ou eletrônicas?). Ou talvez a mesma turma, mas com um “pouco de alcool demais na cabeça”!

                        E acho que a pérola de "Deixa Rolar", de inspiradíssima concepção melódica e encadeamento harmônico tão natural que parece nem existir, uma belíssima balada rústica, digna de um Taiguara dos primeiros tempos , ou do saudoso e genial Jessé, não consegue se contaminar por aquela minha impressão – QUE PODE ESTAR TOTALMENTE ERRADA ! , friso.

                        O mesmo ocorre com a bela toada sertânica ( vejo que não digo sertaneja ), "Enluarando", digna de estar naquele histórico Festival ao lado do "Disparada" . Tem algo daquela natureza, não é só a congeneridade da melodia, é o tom  de desafio do "Disparada"... só que na tua música um desafio sentimental e não épico como naquela :  seria só acelerar o arranjo dessa tua faixa, que penso que daria uma irmã daquela música do Theo de Barros / Geraldo Vandré. Tudo tendo a ver com música, sem pensar nas letras, claro. Sinto isto de modo muito inexplicável, sentimento em estado puro, sem pesquisar as afinidades intervalares e de tonalidade que podem até existir nas duas partituras. Mas aqui, é pura sinceridade intuitiva.                                              

No geral, fiquei imensamente surpreendido com a unidade da concepção, a realização, teu amor ao romantismo. E extremamente gratificado por conhecer, nestas alturas de minha vida, uma pessoa como tu, tão feliz, tão bem cercado...Também, permite-me, um irmão como o Ben-Hur, valha-te Deus para sempre! (fora a família, que deu pra conhecer naquele pequeno flash auditivo de tua filha dizendo lindamente que se arrepiou e quase chorou...).

                        Um grande abraço, sincero, do                                  

     ( Florivaldo MENEZES )

                                São Paulo, 27 de agosto de 2001

 

.**********

@ - Waldemar [Naclério Torres], (31-7-2001): >>>>>>>>>>>> V. Nota de 16-10-01, ao final da carta.

                                  Waldemar:

                                   Como não tinha até recentemente condições de controle emocional para  falar ao telefone – e, em grande parte das vezes, até pessoalmente – sem que desandasse em choro, num pranto, num verdadeiro pranto, que aumentou  terrivelmente no curso do dia-a-dia, não pude até hoje ter o prazer de um papo com a Maria Helena, quando ela fala com a Elza, nem a iniciativa de falar com você, motivado por uma  grande saudade de nossos tempos tão felizes.              

                                   Com a morte – e  principalmente – com  a falta do Phila, perdi a dimensão da tristeza em sua genuinidade, você não sabe mais o que realmente é triste sem associações, aquela tristeza sem referencial das grandes obras de arte, uma obra de câmera de Schubert ou Beethoven, um piano de Schumann, um concerto de Corelli... Não, de uma hora pra outra tudo para mim ficou triste, leva ao choro, sinto um aperto na garganta e no coração por qualquer merda de melodiazinha de churrascaria, desculpe-me a chulice...E isto diminui minha grandeza, o sentimento do meu ser e de ser, parece que nunca mais vou poder ouvir música, uma das minhas maiores, senão a maior, das paixões.

                                   A tragédia daquela perda, a de perder o Phila, foi uma dor que eu, em minha experiência humana e literária, ficcional etc. etc., jamais imaginei que pudesse existir igual, um sentimento sub-humano, indescritível, lá de baixo da existência, parece que uma sensação reservada, lá das origens de nossa ante-vida, aos grandes desgraçados, muito infra, muito terrível, talvez infernal, perdoi-me você que é tão religioso!

                                   E nossa dimensão, de todos os pais que  perdem filhos,  supera todas as descrições de trevas, inferno, exílios e o mais, que os grandes gênios criaram. Sabemos que é a ligação direta com o ser desaparecido é que exacerba a dimensão de um evento dessa natureza, que sempre existiu e existirá...mas é horrível, Waldemar!

                                   Eu, Elza, Cris e Flo, seus filhos maiorzinhos, os parentes próximos, minha irmã, os irmãos da Elza, realmente ficamos desolados, passamos a pensar só nele, que, para mim – posso falar em nome de minha alma está  presente em tudo, na desgraça de desaparecer sem aviso,com tanto presente pela frente – nem precisa falar em  futuro – dando aulas, formando novos cursos ( permita-me divagar sobre fugases glórias e detalhes humanos...), convidado especial periódico da Califórnia, de Barcelona, Dublin, onde tinha acabado de dar uma conferência, em inglês, no Trinity College, muito elegiada pelo embaixador brasileiro na Irlanda...

Ele era reconhecido mundialmente como fundador da Poesia Intersignos, 1985; como o introdutor, no Brasil, da Poesia Sonora nos começos da década de 90, ainda muito jovem, e seu principal teórico; era o pioneiro da Polipoesia, ou poesia hipermídia interativa, hoje começando a virar onda – ESTOU MANDANDO-LHE, COM ESTA, UM CD-ROM COM A POLIPOESIA –, enfim, era um trabalhador e um desbravador, todo mundo sabe que não exagero, a quantidade de matéria  que saiu em jornais e revistas importantes do país e do exterior bem o atesta.

                                               E, como chefe de família, era um exemplo fantástico. Peço-lhe alguma reserva, mas deixou ,a duras penas pelo preço, um seguro de vida de R$370.000,00 ( R$150.000,00 para a Aninha, R$75.000, para cada uma das filhas e R$70.000 para as três ), pois sabia que, se morresse insopitavelmente, como morreu !, a viúva cairia nos míseros 70% do INAMPS  sobre os não menos míseros dez ou pouco mais de salários mínimos...imagine, ele que trabalhava as 24 horas do dia para proporcionar o melhor para suas filhas e mulher!

                                   Procuro fazer tudo como uma forma de esquecê-lo, fingindo que estou escrevendo para atender seus pedidos / estímulos: eu estava, desde  outubro do ano retrasado, empenhado em escrever “ o grande livro de minha vida”, pôr no papel todas as experiências artísticas pelas quais passei, teatro, com 21 anos, meu romance inacabado, dos 22 aos 26 anos, tinha guardado tudo em sacolas, gavetas, meus poemas da década de 50, alguns publicados em jornais da época e da Faculdade de Direito, os desenhos que sempre fiz, enfim, o Phila chegou pra mim, para ultimar um roteiro que me sugerira há uns 7 ou 8 anos numas férias em Jacutinga, ajudando-me na concepção de um livro/conglomerado, e deu-me um ultimato:

                                   - Pai, o senhor ( era assim que me chamava, apesar de nossa liberdade e liberalidade, desde pequenino ) já tem tudo separado e organizado nos vários arquivos do Word de seu computador, agora está na hora de juntar, costurar tudo, é só ir contando como tudo aconteceu na sua cabeça, vai sair coisa boa, coisas fantásticas!, seu senso de humor e originalidade, mais os projetos inéditos – e são bem antigos, pai! – tudo vai dar num grande livro, concentre-se, pai, duas horinhas por dia, vai ver que sai logo e tudo estará pronto...

                                   Comecei a trabalhar animado com sua esperança, também com a torcida e o apoio do Flo, da Cris, da Elza, o livro começou a engrossar, mas não tinha como coordenar, ou ligar coerente e logicamente os 17 capítulos que esboçara, Ensaios, Cartas, Música, Glenn Gould, Fitinhas (ditados em micro-cassete de idéias durante o trânsito), Traduções, Poesia das décadas de 50 e 60, Poesias Visuais, Romance, Portraits ( desenhos meus, que transpus para o computador através de scanner ( o Phila me fez comprar um scanner, pois meus trabalhos gráficos estavam ficando numa fortuna, na Gráfica Xerox aqui do bairro ),  enfim, tinha até trabalho de projeção cinemática que seria objeto de um VHS apenso ao livro : meu  poema da luz do abajur, um mapa da ilha de Cuba que  projeta na parede, quando se liga referido abajur, a fisionomia do Ché Guevara.É um trabalho antigo meu, que os dois brasilianistas norteamericanos que traduziram Oswald de Andrade para o inglês, Albert Bork e David Jackson Kenneth, conheceram aqui em minha casa nos meados da década de 70 e muito admiraram.   Denomina-se Abat ( j ) Our ( Nosso  Abade, o Ché, mentor
das juventudes e, o que é mais importante, guru das jovialidades até hoje-em-dia) onde o J do abat
j our cai e vira o castiçal / pegador do abajur. Acho que você conhece o projeto.

Me lembro do dia em que, por volta de janeiro ou fevereiro do ano passado,  disse ao Phila que o livro não mais teria capítulos, só teria uma Introdução, de 700, 800, 900 páginas, cheias de notas de rodapé, notas de rodapé que às vezes viram páginas seguidas, tornam-se o texto principal; os assuntos a seguir, com a tipografia maior do texto em si, voltam a se emendar, como numa confissão, feita em confessionário mesmo, sem ordem nem medo; e, acabada a Introdução, acabava o livro, ué! diria o leitor, introdução a que?!, não introduzia  nada, cadê os capítulos? e assim  também se justificava o título do livro, "Impropriedade Privada".

                                   Ele sorriu largo e vermelho – era sua forma predominante de gargalhar – e disse:

                                   "- Ótimo, pai, é isso, estamos na época das bulas, o senhor sempre gostou de colocar bulas em seus poemas, veja os bilíngües títulos-bulas dos poemas do primeiro livro, de 1972, veja "O lago dos Signos" : a idéia complementa a fatura, o senhor não se diz um amante da arte conceitual? E mesmo que não complemente nada, a simples enunciação dos projetos mentais que o senhor almejava pôr em livro ou imprimir individualmente já é o poema, já é a obra, sua semente, puxa !, acho que vai ficar muito original."

                                               Mas vai daí, Waldemar – e isso justifica também eu não escrever a você, não responder a seus catálogos, cartinhas emocionantes, nossa expectativa por sua nova vida  em Porto Alegre–, estava eu muito imbuído de uma tarefa vital, era meu tudo ou nada, beirava os setenta anos, boêmio, dilapidador de tempos preciosos, jogador inveterado de conversa fora, botequinando a torto e a direita pelos torresminhos das gratuidades anônimas – vai daí que também adveio uma apagada geral na memória de meu computador, que me assustou muito, tive que embrenhar-me num empreendimento custoso de recuperação de arquivos por firmas especializadas nisso e, finalmente... o câncer na próstata, a peregrinação a médicos, hospitais, Oswaldo Cruz, Hospital do Câncer – neste queriam me tocar a faca, deixar-me impotente e usando fraldas, pela incontinência urinária; cintilografia óssea para ver se não havia metástase, uma apreensão terrível, suavisada pelo apoio dos três filhos e com total arregaçamento de mangas por parte do Phila, que transacionou com a PUC e a UNIMED o tratamento radio-braquiterápico ( essas sementes radiativas de um tratamento caríssimo ). Acabei fazendo radioterapia conformacional (tridimensional). Após sua morte.

                                   Quando o ví pela última vez, na véspera de seu embarque para as férias com a família, uma sexta-feira, 13 ou 14 de julho do ano passado, almoçamos juntos no Almanara do Shopping Paulista, ele fez questão de pagar o almoço – jamais deixara um filho pagar qualquer despesa – mas ele insistiu que era pra dar sorte no meu tratamento, na volta.

                                   Quatro dias antes de morrer, telefonou-me do Grande Hotel de Ouro Preto e me disse, como se ele fosse o pai:

                                   - Olha lá, fica pronto aí, que na quarta-feira estarei em São Paulo e vamos direto para o Instituto da Radioterapia.

                                   Dia 25 de julho, na véspera da tal quarta-feira, eu estava  desesperado, alienado, não acreditando ao ver seu caixão baixar à tumba, coisa horrível, parece que tudo , tudo, minha vida toda ia indo junto por terra abaixo...E não me libertei dessa sensação até agora, Waldemar...e o sentimento de sua falta me parece um estigma vitalício, eterno, choro à-toa no só pensar em seus sorrisos, suas gozações, tinha uma ironia atilada, rápida mas sempre ética, sei e sinto que me amava muito. 

                                   Sabe, Waldemar, como falei num depoimento ao M.I.S, numa homenagem que lhe prestaram há uns seis meses, o Phila me dava a impressão de que iria partir logo.Ou melhor, vinha me dando essa impressão , porque não era ela costumeira, mas de uns bons tempos para cá. E tal impressão era difusa, imprecisa, não sei se em parte neurose de meu lado, mas sinto que aí entram razões até... místicas.

                                   Disse então que ele era altaneiro, às vezes até orgulhoso, e eu lhe tinha pena. Não a pena da comiseração, mas aquele sentimento de que a pessoa vai perder algo que tanto ama e que a faz agir apressadamente; pode ser sentimento só meu, mas ele vivia com pressa, agitado, e tal pressa e agitação poderiam ser creditadas, por um incauto, ao excesso de cursos que ministrava, à multitude de convites para viagens de bancas examinadoras, cursos e conferências, Belo Horizonte, Curitiba, Nordeste, Dublin, Califórnia, Barcelona e por aí ia ele, rápido e completo, pensando em tudo, centralizando, projetando, criando idéias para novas obras – aí então sorria largo e exultava, embora na discreção de seu temperamento reservado, quase inglês.

                                   E quem não o conhecesse a fundo julgaria que ele, um triste filosófico, estava sempre de bem com o ânimo e com a animação;  mas isso lhe derivava do imenso, extraordinário, límpido e originalíssimo senso de humor, que beirava o non sense genial, uma insuperável capacidade de enxergar figuras, feições  e relações insólitas, incongruentes até, mas  que fazia as pessoas, atingidas aturdidamente pela lógica, arrebentar de rir e, logo a seguir, catar seus próprios pedaços na tristeza decorrente...

                                   Quando disse acima que nestes insights entrariam razões até místicas, me lembram três fatos curiosos, dois provenientes dele mesmo, um bem juvenil, e o terceiro ligado ao meu subjetivismo – excessivo em sua opinião? –,  mas que sempre achei que honrosamene herdara de Mário de Andrade. Tal subjetivismo, na opinião do Phila – e isso ele expôs num programa de rádio de quase vinte anos, acho que o Poucas Palavras – prejudicava, ou melhor, relativisava alguns de meus poemas que, apesar de tudo, ele teve a generosidade e a coragem, por ser eu seu pai, de classificar como pioneiros de certas constantes ou vertentes da Poesia Visual e da Poesia Intersignos. ( você se lembra, Waldemar, primeiramente de seu texto sobre mim no catálogo da exposição Poesia Intersignos, São Paulo, 1985, Centro Cultural SP, e de seu basilar "Poética e Visualidade", Editora da Unicamp, além do  didático e correto,  embora transgressor,  "Poesia Concreta e Visual"- Roteiro de Leitura - Ed. Ática).

                                   A razão mística aludida  proveniente de mim eu a expus um mês de sua morte, em uma carta a um amigo íntimo do Ceará, que você conheceu em um almoço na API, comigo e com o Flávio, lembra-se? o Quixadá, já há quase três anos morando de novo em Fortaleza):

                                    " O Phila parece que tinha alguma idéia de que iria muito cedo? Ele era apressado, um pouco agitado,  sem nenhum egoísmo ( que pode preservar a vida, prolongá-la ), distribuia, dividia a  fama e o prestígio com seus colaboradores...Sabe, Quixadá, eu sempre tive uma espécie de medo difuso quando ouvia as “ Danças Polovetsianas” , da ópera “Príncipe Ígor” , de Borodine, porque não conseguia conter as lágrimas, ninguém percebia, mas era só ouvir aquela melodia e me vinha a imagem do Phila, como se ele gostasse muito daquela música e já fosse uma pessoa ida deste mundo! Isto sempre me aterrorizou e eu evitava ao máximo ouvir aquela melodia. Acho que eu sentia que ele partiria logo..."

                                   A segunda, de sua fase bem juvenil, proveniente dele e não do meu subjetivismo, reporta-se a um papo que tivemos, por volta de 1974, 75, em que ele, vendo meu eterno tormento perante a idéia da morte, me disse com ares dele pai e eu de filho:

                                   - E antes de nascer? O senhor sentia alguma coisa, percebia alguma coisa antes de nascer, se lembra de alguma coisa ?( Apesar de toda liberdade com que foi criado, me chamava de senhor, repito) Pois então, pela lógica, e por justiça do criador ou do incriado ( formulava isto de outra forma) depois da morte será a mesma coisa!

Achei aquilo fantástico e me confortou durante quase todo o tempo em que pensei na morte...

                                   Depois de quase duas décadas, Paulo Francis, recenseado por Daniel Piza  em um livro de seus aforismos, sacadas e chutes freqüentemente geniais, o " O Dicionário da Corte de Paulo Francis", cita Kingsley Amis para Philip Larken:" Morrer é como antes de nascermos".

                                   E a terceira mística retiro do dístico ( final ) do Soneto IX de Fernando Pessoa, que o Phila já traduzira com maior semântica da inexorabilidade que o próprio original, se se pensar naquele seu modo todavia elegante de virar a página de cada dia:

                                   " E eu vivo a vida morta dada a nós,

                                   reposto pro repor de um dia após".

                                   Acho que me lembro que comentei com ele, quando colocou em meu criado-mudo um exemplar da primeira edição ( foi o criado-mudo que me falou que o Phila traduzira os "35 Sonnets", ele só me apresentava o produto final de suas coisas, não comentava nunca as coisas por fazer ):

                                   - Phila, nesse dístico do Soneto IX parece que o inglês é que está traduzindo você, você formulou o pensamento de modo mais enigmático, mais sentido, preocupante...

                                   "E eu vivo a vida morta dada a nós,

                                   reposto pro repor de um dia após."

                                   Parece que fiquei perdido, sempre quis dizer de viva voz  isto tudo a você, à Maria Helena, Tuti, Tatiana, ser consolado pelo Fafão, mas não tive estrutura nem pra escrever estas desgraçadas linhas sem que se abatam sobre mim o choro e a desolação, uma profunda, profundíssima desolação, confesso que nunca senti nada tão pesado...

                                   E, embora eu me apoie na religiosidade da Elza, não tenho – espero que ela não sinta isto em mim – a mínima esperança na frase clássica de que o tempo tudo vence: sinto a sensação de que não tenho mais tempo pra ter tempo.

                                   Mas, como sempre senti apoio de você, nos meus e maus momentos de cismas, hipocondrias, andanças a médicos, tristezas verdadeiras, dúvidas existenciais, senti também agora a necessidade deste desabafo, que ficou longo, mas que espero que vocês entendam e perdoem.

                                   Saudades, muitas saudades, do                                     

                                   (Florivaldo), 31 de julho de 2001. 

                                   “Arrependo-me profundamente de ter aberto minha alma em demasia. Dessculpe-me a franqueza. Seguindo meu fado e tradição, mais uma vez não ouvi o ensinamento de Mateus, 7:6.
 

 

 **********

@ - QUIXADÁ - 1-4-1997, reproduzindo peça de 1992.

.          

                        Prezado Quixadá :

                       

                        Como você é uma pessoa extremamente lúdica (talvez o mais forte componente de seu lado bom, permita-me), de um ludismo por natureza, mas preponderantemente por contágio, ( o que é uma forma de generosidade) ,  tomo a liberdade de levar-lhe mais um campo de bactérias espirituais -- que muitos consideram gratuitas... -- que é a xerox de um livrinho esquecido, ou talvez nem sabido de existência.

                        Mas que é muito de nossa natureza.

                        Trata-se de uma muito apropriadamente denominada “MINIATURA DE HISTÓRIA DA MÚSICA”, de Guilherme Figueiredo. (grifo nosso)

                        Você terá sensibilidade para ele, como o destinatário da carta abaixo -  que ora faço sua - teve.

                        Tomo a liberdade de abrir para você o conteúdo da carta, que acompanhou o livro em questão, quando presenteei àquele que hoje é um crítico conceituadíssimo, com obras publicadas, e titular de uma cadeira de letras das Universidades Federais de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro:

                         @ - Murilo Marcondes de Moura - 30-3-1992.

                        Murilo:

                        No Rio de Janeiro lhe falei sobre este “livrinho”, se não me engano no bar do hotel, ou nas poltronas, enquanto esperávamos o Waldemar descer. Citei-lhe de memória, a princípio, coisinhas pitorescas, tais como “A ópera é uma briga cantada”, pág. 189, apud Fernando Mendes de Almeida; ou um conceito de mulher   ligada ao “feeling” para Chopin (confiro agora: “As mulheres, que não possuem imaginação criadora, sobretudo em música, tornam-se, entretanto, intérpretes.”) (pág. 151).

                        Etc etc etc.

                        Agora veja:   

                       “O ritmo foi a primeira qualidade musical do homem. Porque trazia consigo mesmo o ritmo de suas pulsações, o ritmo do andar, a respiração, sentir-se-ia desde logo preso a eles, e tentado a reproduzí-los. A respiração, sobretudo, limitando a duração do som transmitido, circunscreveu o fonema, fixou-o no tempo e foi o ritmo inicial da linguagem falada, por mais primária e monossilábica que ela fosse. Ao mesmo tempo, modulou essa linguagem, dando-lhe alturas de sons [altura, permita-me lembrar, não se ofenda ! = espaço entre um tom e outro] que eram imitados, sequência de sua iniciação, e portanto embrião melódico.” (pág. 16; grifos acrescentados; o que está entre colchetes é nosso).                     

                        Parece coisa meio marioandradesca, pignatariana, gol de placa que coroa o chute bem dado, mas, partindo desses espíritos criativos, bem-elocubradores, é sempre instigante, não acha?

                        O conceito de menino-prodígio, aplicado a fatos reais da triste vida alegre de Mozart, é fundamental (pág. 104). O homem respeita, forçado, a biologia, mas a Humanidade a achincalha, transformando-a em espetáculo... :

                        “Data daí, precisamente, o início das amarguras do jovem músico. Não era tão bem recebido, como outrora,  nem tão festejado. É que a adolescência tem a desvantagem de apagar o prestígio da criança genial, colocando-a num outro plano, onde a sua arte parece estar nivelada à idade.” (grif. acresc.)

                        Parecendo o óvio, é coisa de observador muito inteligente, não lhe parece? Mal dos Figueiredo! Seu irmão Presidente foi, sem dúvida, o observador mais agudo que o Brasil político ja teve...

                        Enfim, fiquei contente de achar este exemplar para você, que é um rapaz sensibilíssimo e de muita cultura, principalmente na aptidão para o que está passando e por vir.

                        “Manchando”, mais uma vez, a pureza da recepção que você dará a sua leitura, não posso me furtar à transcrição de uma nota que apús no rodapé da pag. 143:

                        “Talvez à época deste sensibilíssimo - e muito original! - “musicologista” (sic), não houvesse registro fonográfico  das monumentais, e marcantes, “Canções sem palavras” (para piano) de Mendelssohn : para quem nunca ouviu, tudo bem, mas, para quem as ouviu, passam a ser indispensáveis para a História Prazerosa da Música (e Música é, antes de tudo, prazer. S.P., F.M., 21-6-91)”.

                        Livro preciosíssimo - e original - como conceito. Lacunoso no âmbito dos artistas menores. Pleno, e sábio!, no “sense of humour”. Junte-se à “Pequena História da Música”, de Mário de Andrade e à  “Uma Nova História da Música”, do Carpeaux, e temos, no Brasil, o  “- conversa encerrada!”.

                        O abraço e o desejo de remozart-se a cada ano!

                                               FLORIVALDO. São Paulo, 30 de Março de 1992.

                       

                        ADUZO AGORA, QUIXADÁ, que há no livro o tipo da abordagem que a cada ano mais se ajusta à minha visão das coisas: o humor desencantado ( pergunto: não é o humor sempre uma visão conformada ?...) o jeitão de bate-papo, as sínteses destemidas, com ar de quem fala a última palavra.Mas seguras, de quem viveu a coisa, a arte, no cerne e na carne da sensibilidade, do sensorial. Abrindo não só os ouvidos, mas os poros também.

                         E UM CERTO DEBOCHE ENGAJADO... não sei te explicar o que seja bem isso.Mas você entenderá à sua maneira.

                        ALIÁS,  É ISSO O QUE HOJE CADA VEZ MAIS ME INTERESSA : A CRÍTICA SUBJETIVA, CHAMADA ANTIGAMENTE DE IMPRESSIONISTA. PRATICADA, POR EXEMPLO, POR  MÁRIO DE ANDRADE.  MARIO, QUE UNGARETTI DISSE SER O RECONHECÍVEL MAIOR ENSAISTA DO SÉCULO! (OU DOS MAIORES, NÃO ME LEMBRO) .CRÍTICA ESSA  QUE É A RAIZ DA PRÓPRIA FILOSOFIA.

                        Salteando o livro, veja, por exemplo:

                        @ - MOZART / SALZBURGO -

                        “... e onde se encontravam todos os estilos, o que lhe facilitou aliar a sobriedade germânica à cristalinidade melódica dos italianos.” (pág. 103)

                        @ - MOZART / INFLUÊNCIA DE CONSTÂNCIA, SUA MULHER-

                        “Constância, entretanto, era uma esposa mesmo e não um besouro em volta da cabeça que trabalha.” (pág. 105)                

                        @ - BEETHOVEN -

                        “... não escutava de bom grado as composições de outros para não perder a originalidade.”(pág. 107)

                        @ - MOZART ABRINDO PICADA PARA O BEETHOVEN QUE ABRE PICADA PARA O ROMANTISMO:

                        “... além de todo o estilo que mais tarde seria retomado pelo gênio de Bonn.”(pág. 106, sobre os aspectos precursores da Fantasia K. 475, posteriormente ligada à Sonata K. 457. Grifos acrescentados).

                        Veja, Quixadá, isso aí acima só ficou muito falado de uns anos para cá. É logico que no âmbito de Brasil.

                        @ - RECONHECIMENTO DO POETA  MURILO MENDES COMO UM MELÔMANO “OFICIAL” (v. pág. 114. Observo que o Murilo Marcondes de Moura, destinatário da carta que lhe passei acima , é o introdutor crítico da DISCOTECA DE MURILO MENDES, (não é esse o nome correto, cito de memória, o livro está em meu escritório, editado pela Ed. Giordano).

                        @ - VEJA O RESUMO HISTÓRICO DA CONJUGAÇÃO DOS CAPÍTULOS  “AS VOZES DENTRO DA NAVE”  e  “AS VOZES DENTRO DA PRAÇA”.  É gostoso e claro. Tem algo de abordagem pessoal, poética.

                        @ - B A C H  /  MÁS INTERPRETAÇÕES / COISAS DE ALUNOS:

                        “Bach mal tocado é o pior dos músicos. Nenhum outro tem como ele a propriedade especial de entregar-se inteiramente ao intérprete, ou não se entregar nunca.” (pág. 72).

                        ISTO É EPIFÂNICO. OU UM OVO DE COLOMBO.

                        Quase nada de altamente técnico. Observações, revelações sábias, como uma conversa com alguém agradável, que ama a Música,que procura indagar as raízes da criação, um livrinho deveras precioso.

                        PEGUE-O COMO UM PRAYER BOOK. OU, COM OU SEM TROCADILHO, COMO UM  MAIDEN’S PRAYERS, AQUELAS CÉLEBRES E NOSTÁLGICAS PECINHAS -- OU PEÇONAS/ PEÇONHAS --QUE AS MOCINHAS TOCAVAM ANTIGAMENTE, QUE SAUDADES!

                        @ - BACH - SENTIMENTO RELIGIOSO -

                        “O seu sentimento não fere paixões terrenas. Sua grandeza não torna os ouvintes pequenos nem vís.” (pág. 79)

                        @ - BRASILEIROS (nome de um capítulo, pág. 217)

                        “ (........)...os acentos espanhois, mouriscos, italianos, germânicos, e até mesmo escandinavos, russos, possivelmente puramente casuais, que se encontram na nossa música, e teremos compreendido por que motivo o brasileiro sintoniza tão imediatamente com qualquer trecho que ouve.”(pág. 217)

                        @ - DEBUSSY -  UMA REVELAÇÃO !

                        (Sobre  “O Martírio de São Sebastião”)  - “Hoje consideram-na uma das mais espantosas mensagens do além que já foram dadas ao ouvido humano”, citando VUILERMOZ.

                        @ - AS PÁGINAS SOBRE VERDI CONTÊM, EM MEU ENTENDER, VERDADES INAUDITAS.  Leia o que ele diz, nas págs. 188/9, p. exemplo, sobre  argumentos, melodia, funções dos instrumentos. Desce ao plano da gozação, ou sobe ao plano do humor, quando diz :

                         “Em oitenta por cento da obra de Giuseppe Fortunino Francesco Verdi a orquestra se limita a fazer pa-pa- pum, pa-pa-pum. Mas (etc. etc., cf. grifo acrescentado)”

                        E QUANTO ÀS VOZES, QUE É O QUE MAIS INTERESSA, NO CASO:

                                               “Quase infalivelmente, a ópera verdiana apanha cada tipo de voz e coloca num papel imutável. Entre um  tenor e um soprano acontece sempre um amor, onde tanto pode haver pureza como pode haver mau procedimento de um para com o outro. O bandido é o barítono e trata de fazer força para impedir um desenlace feliz: e o  pai da mocinha, o rei, o inimigo político; o baixo faz as vezes do pai, mas, na maioria dos casos, fica fora do centro de ação, como criado, embaixador, personagem importante e intangível, mero instrumento de vingança. A eliminação do barítono permitiria o enlace do tenor e o soprano, sem maiores complicações; o desaparecimento do baixo não afetaria a estrutura central da ação.Tudo consiste, portanto, numa luta entre o simpático tenor e o intolerável  barítono, o que será de igual modo em todo o verismo   italiano.” (pág. 189, grifos acescentados)

                        Bem, não vou te furtar ao prazer de atacar direto o livrinho.

                        Fico por aqui, na esperança de que gostes, ok?

                        Desculpe a variação no tratamento gramatical.(RISOS...)

                        Grande abraço do MENEZES. S. P., 1 de Abril de 1997.

 

**********

@ - AO QUIXADÁ, 14-9-00:                      

                                   Querido amigo Quixadá, que sinto cada vez mais   próximo,    à medida que a distância, não a geográfica, mas a do tempo, parece que mais aumenta entre nós.

                                   Hoje, 13 de setembro, agora de manhã, não sei por que,  deu-me uma irresistível necessidade de bater um papinho com você, mas não tenho ainda condições de controle emocional de falar ao telefone – e em grande parte das vezes, até pessoalmente sem que desande num choro, num pranto, num verdadeiro pranto, meu amigo... que eu pensei que fosse diminuindo, mas que aumenta terrivelmente no curso do dia-a-dia.

                                   Sabe como é?, algo que lhe faz perder a dimensão da tristeza em sua genuinidade, você não sabe mais o que realmente é triste sem associações, aquela tristeza sem referencial das grandes obras de arte, uma obra de câmera de Schubert ou Beethoven, um piano de Schumann... Não, agora tudo para mim é triste, leva ao choro, vejo aperto na garganta e no coração em qualquer merda de melodiazinha de churrascaria, desculpe-me a chulice...E isto diminui minha grandeza, o sentimento do meu ser e de ser, parece que nunca mais vou poder ouvir música, uma das minhas maiores, senão a maior, das paixões.

                                   Fora a tragédia de perder o Phila, uma dor que eu, em minha experiência humana e literária, ficcional etc. etc., jamais imaginei que pudesse existir igual, um sentimento sub-humano, indescritível, lá de baixo da existência, parece que uma sensação reservada, lá das origens de nossa ante-vida, aos grandes desgraçados, é muito infra, muito terrível, talvez infernal! E nossa dimensão, de todos os pais que  perdem filhos,  supera todas as descrições de trevas, inferno, exílios e o mais, que os grandes gênios criaram. Sabemos que é a ligação direta com o ser desaparecido é que exacerba a dimensão de um evento dessa natureza, que sempre existiu e existirá...mas é horrível, Quixadá!

                                   Eu, Elza, Cris e Flo, seus filhos maiorzinhos, os parentes próximos, minha irmã, os irmãos da Elza, realmente estamos desolados, só pensamos nele, que, para mim –  só posso falar em nome de minha alma – está  presente em tudo, na desgraça de desaparecer sem aviso,com tanto presente pela frente – nem precisa falar em  futuro – dando aulas, formando novos cursos, convidado especial periódico da Califórnia, de Barcelona, Dublin, onde acabou de dar uma conferência em inglês no Trinity College, muito elegiada pelo embaixador brasileiro na Irlanda; era reconhecido mundialmente como fundador da Poesia Intersignos- 1985, como o introdutor, no Brasil, da Poesia Sonora nos começos da década de 90, ainda muito jovem; era o pioneiro da Polipoesia, ou poesia hipermídia interativa, hoje começando a virar onda –  VOU MANDAR-LHE OPORTUNAMENTE UM CD-ROM COM A POLIPOESIA, PRECISO PEDIR PRA ANINHA OU NA P.U.C – , enfim, era um trabalhador e um desbravador, todo mundo sabe que não exagero, a quantidade de matéria  que saiu em jornais e revistas importantes do país bem o atesta.

                                   Uma de suas últimas alegrias era de ter reformulado o ensino das artes lingüísticas e criado um departamento, para o qual contratou sumidades, na Universidade São Marcos, a universidade particular mais promissora do Brasil, propriedade de uma famíla milionária aqui do Ipiranga e  que tinha o Philadelpho nas alturas: recentemente o Ministério da Educação homologou, nessa Uiversidade,  o primeiro empreendimento de MESTRADO PROFISSIONALIZANTE, uma idéia sua e que vai revolucionar uma modalidade de ensino e profissionalização no Brasil.

                                   E na PUC criou o Estúdio / Laboratório de Poéticas da Voz, para onde convocava os grandes expoentes da Poesia Sonora do mundo todo, além de ter sido o mais profícuo – com as edições mais avançadas no ramo – presidente da EDUC ( a editora da PUC 0) , com vinte e poucos anos.

                                   Ele acumulava essas duas universidades e, nas sextas-feiras,  pegava seu carrinho, deixava aqui em casa, apanhava um taxi, ia pra Congonhas, entrava num avião e ia dar um curso de sábados ou fazer parte de alguma banca de doutorado em Belo Horizonte ou Porto Alegre, alternava essas duas capitais. 

                                   Poucos minutos antes de seu sepultamento, aproximou-se de mim o dono da referida  Universidade São Marcos e, entregando-me, chorando, um documento, disse-me ao ouvido que o Phila já tinha sido homologado pela congregação como o novo Reitor do estabelecimento, e que o destino fora cruel – essas frases-feitas, mas tão humanas! – ceifando-o daquela maneira tão abrupta.

                                   O documento que o dono da Universidade me entregou no velório era um seu poema, feito na véspera do desastre, com o pensamento voltado para o Phila, que – disse-me naquela hora o diretor da Universidade – dava  uns palpites sobre suas pretensões de poeta.

                                   Mas, o que é incrível, arrepiante, é que todo o poema do administrador, que se chama dr. Ernani Bicudo de Paula, versou, na véspera da morte do Philadelpho!, sobre alma, corpo, transitoriedade deste, tempo para existir etc. etc. , muito estranho, comovido e comovente. A Elza, quando o leu, chorou muito e mandou pô-lo num quadrinho, tirou xerox dele e distribuiu para amigos e parentes, para verem a impressionante premonição do cidadão!

                                   O Phila parece que tinha alguma idéia de que iria muito cedo? Ele era apressado, um pouco agitado,  sem nenhum egoísmo ( que pode preservar a vida, prolongá-la ), distribuia, dividia a  fama e o prestígio com seus colaboradores...Sabe, Quixadá, eu sempre tive uma espécie de medo difuso quando ouvia as “ Danças Polovetsianas” , da ópera “Príncipe Ígor” , de Borodine, porque não conseguia conter as lágrimas, ninguém percebia, mas era só ouvir aquela melodia e me vinha a imagem do Phila, como se ele gostasse muito daquela música e já fosse uma pessoa ida deste mundo! Isto sempre me aterrorizou e eu evitava ao máximo ouvir aquela melodia. Acho que eu sentia que ele partiria logo...

E, como chefe de família, era um exemplo fantástico. Deixou ,a

duras penas pelo preço, um seguro de vida de R$300.000,00 ( R$150.000,00 para a Aninha, R$75.000, para cada uma das filhas ), pois sabia que, se morresse insopitavelmente, como morreu, a viúva cairia em  70%, do INAMPS,  sobre dez ou pouco mais de salários mínimos, imagine, ele que trabalhava as 24 horas do dia para proporcionar o melhor para suas filhas e mulher.

                                   Procuro fazer tudo como uma forma de esquecê-lo, fingindo que estou escrevendo para atender seus pedidos/estímulos: eu estava, desde de outubro do ano passado, empenhado em escrever “ o grande livro de minha vida” , pôr no papel todas as experiências artísticas pelas quais passei, teatro, com 21 anos, meu romance inacabado, dos 22 aos 26 anos, tinha guardado tudo em sacolas, gavetas, meus poemas da década de 50, alguns publicados em jornais da época e da Faculdade de Direito, os desenhos que sempre fiz, enfim, o Phila chegou pra mim e, para ultimar traçados que me fizera há uns 7 ou 8 anos numas férias em Jacutinga, ajudando-me na concepção de um livro/conglomerado, e deu-me um ultimato:

                                   - Pai, o senhor ( era assim que me chamava ) já tem tudo organizado nos vários arquivos de seu Word, agora está na hora de juntar, costurar tudo, é só ir contando como tudo aconteceu na sua cabeça, vai sair coisa boa, coisas fantásticas!, seu senso de humor e originalidade, mais os projetos inéditos – e são bem antigos, pai! – tudo vai dar num grande livro, concentre-se, pai, duas horinhas por dia, vai ver que sai logo e tudo estará pronto...

                                   Comecei a trabalhar animado com sua esperança, também com a torcida e o apoio do Flo, da Cris, da Elza, o livro começou a engrossar, mas não tinha como coordenar, ou ligar coerente e logicamente os 17 capítulos que esboçara, Ensaios, Cartas, Música, Glenn Gould, Traduções, Poesia das décadas de 50 e 60, Romance, Portraits ( desenhos meus, que transpús para o computador através de scanner , o Phila me fez comprar um scanner, pois meus trabalhos gráficos estavam ficando numa fortuna, na Gráfica Xerox aqui do bairro ) enfim, tinha até trabalho de projeção que seria objeto de um VHS apenso ao livro – meu  poema da luz do abajur, um mapa da ilha de Cuba que projeta na parede, quando se liga referido abajur, a fisionomia do Ché Guevara, um trabalho antigo meu que os dois brasilianistas norteamericanos que traduziram Oswald de Andrade para o inglês, Albert Bork e David Jackson Kenneth, conheceram aqui em São Paulo nos meados da década de 70 e muito admiraram. Denomina-se Abat Our ( Nosso  Abade, o Ché, mentor das juventudes e, o que é mais importante, das jovialidades até hoje-em-dia) e o J do abat j our cai e vira o castiçal / pegador do abajur.

                                   Me lembro do dia em que, por volta de janeiro ou fevereiro deste ano,  lhe disse que o livro não mais teria capítulos, só teria uma Introdução, de 700, 800, 900 páginas, cheias de notas de rodapé, que às vezes viram páginas e páginas, tornam-se o principal, os assuntos iam-se emendando , como numa confissão, em confessionário mesmo, sem ordem nem medo, e, acabada a Introdução, acabava o livro, ué! dirá o leitor, introdução a que? não intruduzia a nada, e assim  justificava o título do livro, "Impropriedade privada".

                                   Ele sorriu largo e vermelho – era sua forma predominante de gargalhar – e  disse:

                                   - Ótimo, pai, é isso, estamos na época das bulas, o senhor sempre gostou de colocar bulas em seus poemas, veja o primeiro livro, de 1972, veja "O lago dos Signos" , a idéia complementa a fatura, o senhor não se diz um amante da arte conceitual? E mesmo que não complemente nada, a simples enunciação dos projetos mentais que o senhor almejava pôr em livro ou imprimir individualmente já é o poema, já é a obra, sua semente, puxa !, acho que vai ficar muito original.

                                   Mas vai daí, Quixadá – e isso justifica também eu não escrever a você, estava muito imbuído de uma tarefa vital, era meu tudo ou nada, beirava os setenta anos, boêmio, dilapidador de tempos preciosos, jogador inveterado de conversa fora, botequinando a torto e a direita pelos torresminhos das gratuidades anônimas – vai daí que também adveio uma apagada geral na memória de meu computador, que me assustou muito, tive que embrenhar-me num empreendimento custoso de recuperação de arquivos por firmas especializadas nisso e, finalmente... um câncer na próstata, a peregrinação a médicos, hospitais, Oswaldo Cruz, Hospital do Câncer – onde queriam me tocar a faca, deixar-me impotente e usando fraldas, pela incontinência urinária – ,cintilografia óssea para ver se não havia metástase, uma apreensão terrível, suavisada pelo apoio dos três filhos e com total arregaçamento de mangas por parte do Phila, que transacionou com a PUC e a UNIMED o tratamento radio-braquiterápico ( essas sementes radiativas de um tratamento caríssimo ).

                                   Quando o ví pela última vez, na véspera de seu embarque para as férias com a família, uma sexta-feira, 13 ou 14 de julho, almoçamos juntos no Almanara do Shopping Paulista, ele fez questão de pagar o almoço – jamais deixei um filho pagar qualquer despesa – mas ele insistiu que era pra dar sorte no meu tratamento na volta.

                                   Quatro dias antes de morrer, telefonou-me do Grande Hotel de Ouro Preto e me disse, como se ele fosse o pai:

                                   - Olha lá, fica pronto aí, que na quarta-feira estarei em São Paulo e vamos direto para o Instituto da Radioterapia.

                                   Dia 25 de julho, na véspera da tal quarta-feira, estava eu desesperado, alienado, não acreditando ao ver seu caixão baixar à tumba, coisa horrível, parece que tudo , tudo, minha vida toda ia indo junto por terra abaixo...

                                   E não me libertei dessa sensação até agora...e o sentimento de sua falta me parece um estigma vitalício, eterno, choro à-toa no só pensar em seus sorrisos, suas gozações, tinha uma ironia atilada, rápida mas sempre ética, sei e sinto que me amava muito.

                                   Parece que estou perdido, queria dizer isto tudo a você, dona Carmen e Marisa pessoalmente, mas não tenho estrutura nem pra escrever estas desgraçadas linhas sem que se abatam sobre mim o choro e a desolação, uma profunda, profundíssima desolação, confesso que nunca senti nada tão pesado...

                                   E não tenho a mínima esperança na frase clássica de que o tempo tudo vence: sinto a sensação de que não tenho mais tempro pra ter tempo.

                                   ***

                                   Passadas umas horas, volto a escrever e agora queria que você soubesse, sinceramente, com convição, que,  embora saudoso, estou muito feliz por saber que você se integrou firmemente nessas associações culturais do Banco aí em Fortaleza: provam-no seus textos sobre as programações e eventos musicais, que todos li com muito interesse e atenção; e invejo sua clareza na exposição dos fatos que rondam as obras e os compositores, os folhetos sobre as semanas de Mahler estão magníficos, o referente ao "Das lied von der erde" é lapidar, didático, grande sem pretensão!, que beleza, caro amigo!

                                   E, por último, mas não em importância, seu problema de saúde: pelo que você nos disse no último relato, talvez fosse o caso de você não cogitar em fazer mesmo, a curto prazo e talvez nunca,  aquele tipo de intervenção: seu organismo já fez, por automatismo instintivo de conservação, aquele tipo de " by pass". Pense, Quixadá: você nasceu com aquele tipo de trânsito cerebral que nunca te afetou em setenta anos, não vai ser perigoso agora, penso eu. Depois, existem drogas modernas que se aperfeiçoam diariamente, aliás você fala na cartinha que toma uma porrada de remédios. Mas, felizmente, não te tiram a oportunidade de, de vez em quando, tomar um drinquinho mais forte, um whisky, que é bom pra circulação, um dry martini à la Buñuel: meia quantidade de gim inglês – ele cita o Gordon – , para meia de vermouth francês – ele cita o Noilly-Pratt – ,  abençoados com 7 a 10 gotas de angostura... uma pedrinha de gelo, nada de limão, azeitona, essas coisas que acaipiramos nos nossos martinis secos. ( cf. as memórias de Buñuel, “ Meu último suspiro”) .

Mas, em qualquer hipótese de você ter de fazer algum tipo de intervenção, penso que você deveria vir pra São Paulo, sem demérito de seus  médicos conterrâneos, é claro. E penso que você será sempre beneficiado por sua infantil, no bom sentido, alegria de viver, como já lhe disse uma vez numa carta, lembra-se? :" (...) você é uma pessoa extremamente lúdica (talvez o mais forte componente de seu lado bom, permita-me), de um ludismo por natureza, mas preponderantemente por contágio, o que é uma forma de generosidade" ( 01-4-1997) . E também não se esqueça da velha frase de Thomas Mann, "não morre quem não consente em morrer".

                                   Vou ficando por aqui.

                                   Façam preces para que eu possa enfrentar um telefone sem me decompor emocionalmente e logo-logo voltaremos aos bons papos.

                                   Beijos à sempre lembrada  e gentil dona Carmen, à Marisinha e, por que não? , em beijão tambem a você.

                                    ( FLORIVALDO MENEZES )

                                   Em 13 e 14 de setembro de 2000.                                 

 

 **********

@ - Ao Quixadá, 20-10-05: 

 

Caro Quixadá, que beleza! Que saudades me deu de Viena, 1981!
    Naquela praça do Teatro Municipal, vi uma belíssima loura circundando-o
de bicicleta. Na segunda volta, ela percebeu, por me ver no mesmíssimo
lugar, que eu a estava paquerando. Na terceira volta, sorriu, meio maliciosa
e arfante (era a bicicleta?...). Passou rente por mim, eu fui ficando com
salduro, uma alergia pra disfarçar pra quem eventualmente lê e-mails...
    Lógico que não deu em nada.


                                ***************


    Você se lembrou de meu furto famélico, praticado, à uma da madruga, num
corredor do hotel onde eu vagava de fome, desesperado...Havíamos chegado de
Amsterdam e não havia nada pra se comer, Viena toda já dormindo, eu não
conhecia os macetes, é claro. Foi a melhor ceia de minha vida! Acho que
tinha até lagosta naquela prataria e faianças de nababos, no carrinho à
porta de um apartamento, no andar de baixo. Os detalhes você conhece.
    Está aí, nas imagens belíssimas do Edison de Piracicaba, o palácio de
Schönbrunn, cuja ala de hóspedes da época se transformou no referido hotel.
    E naquela praça (confronte) , onde tem um tocador de realejo, alí,
naquela cantinho à esquerda, vi um conjunto tocando um Mozart numa
glasharmonika, aquele "instrumento" inventado por Benjamin Franklin e que
Mozart descobriu em Praga : vários copos e vasilhames cortados, em alturas
diferentes, com as bordas umidecidas e sobre as quais os músicos deslizam
seus dedos, emitindo sons em  timbres inusitados e evanescentes. É onírico!
Você pode ver essa geringonça no filme "E la nave và", do Fellini.Tenho tb.
um LP com música de Mozart para glasharmonika
e orquestra.
    Tchau. Abraços a todos, Menezes.
 

**********


 

 CARO AMIGO HÉLDER :

                        HÁ TEMPO ESTOU CURIOSO POR SABER COMO VOCÊ, UM EXPERT TAMBÉM EM MÚSICA POPULAR, PRINCIPALMENTE A BRASILEIRA, VERIA MEU ENFOQUE DE 1989 SOBRE UMA SELEÇÃO DE NOSSAS JÓIAS DO SETOR.

                        NÃO PRECISO DIZER A VOCÊ QUE É UMA SELEÇÃO DE UM MOMENTO, DENTRO DE UM LIMITE PARA DEMONSTRAÇÃO A INGLESES : VEJA QUANDO MANDEI A CARTINHA COM A PRIMEIRA FITA (FITA ESSA CUJA REPRODUÇÃO ESTOU LHE DANDO AGORA) PARA A CRISTINA, QUE ESTAVA MORANDO EM LONDRES. MAS INSISTO QUE NÃO É,  PERMITA-ME UM TROCADILHO, UMA ESCOLHA  “PARA INGLÊS VER”...

                        SE NA FITINHA HOUVESSE ESPAÇO PARA MAIS OITENTA POR CENTO DE NOSSA MÚSICA POPULAR... OITENTA POR CENTO SERIA DE OUTRAS ESCOLHAS. ( NÃO É PIADA DE PORTUGUÊS )

                        ESTA, COMO EM CERTAS ANTOLOGIAS ENXADRÍSTICAS, É  UM FLORILÉGIO TALVEZ DE CARÁTER SAZONAL DO ESPÍRITO; MAS ACREDITO EU QUE -- TAMBÉM COMO NO XADREZ -- VALE O APELO PARA AQUELAS PARTIDAS QUE, NÃO SENDO AS MAIS PERFEITAS, INSTIGAM UM QUÊ DE MAJESTOSA INVENÇÃO, ÀS VEZES ATÉ DE ERRO CONSOLIDADOR DE AUDÁCIA, DE EXPECTATIVA, DE MISTÉRIO FALHO, ENFIM, DO SUBJETIVISMO QUE ME ENVOLVE ULTIMAMENTE E QUE INVOCO EM MÁRIO DE ANDRADE NUMA EVOCAÇÃO QUE DELE FAZ UNGARETTI, RELATADA NO ANEXO. RESUMINDO, UMA DERROTA DE ALEKHINE MUITA VEZ É MAIS BELA QUE UMA VITÓRIA DE PETROSSIAN (E, SE FOSSE POSSÍVEL, NUMA MESMA PARTIDA, PARA NÃO DESMERECER PETROSSIAN). PORRA, EU NÃO PODERIA DIZER QUE, NO MATCH DA DÉCADA DE 20, EM ALGUMAS PARTIDAS QUE ALEKHINE PERDEU, ELE JOGOU MAIS BONITO, FEZ MAIS BELEZA QUE CAPABLANCA?? VEJA QUE NOSSA SIMPLICIDADE PROGRESSIVA VAI FICANDO COMPLICADA... VOCÊ COMO POUCOS ENTENDE MELHOR DESSAS DIFERENÇAS.

                        MAS, PELO AMOR DE DEUS!, NÃO ESTOU PONDO O CONTEÚDO DA MISSIVA  NO NÍVEL DOS  EXEMPLOS SUPRA: É SÓ MAIS UM EXEMPLO.

                        NESTA CARTA ESTÃO EMBUTIDAS OUTRAS, POR RAZÕES LOGO EVIDENTES.

 

 **********

CARO AMIGO  QUIXADÁ.

                        

                        Estou passando-lhe às mãos uma cópia da fitinha onde, em 1989, depositei o objeto de minhas paixões musicais brasileiras populares.

                        Ela vai acompanhada de uma carta embutida nesta a você; e aquela carta trás embutida outra. Ao invés de ser um caso de transferência comodista de conversas entre amigos, variados e variáveis, é mais uma espécie de cascata de janelas de computador, uma coisa se ligando a outra de acordo, não só com as tendências particulares dos destinatários, mas principalmente com a afinidade de gostos de cada um para com o outro. O que vale dizer, paradoxalmente, que é como se estivesse falando com os três ao mesmo tempo. Cris, Enzo, Claus e você são de mesma estirpe intelectual e, principalmente, afetiva, e tudo redunda como se estivéssemos ao mesmo tempo na mesma sala, ouvindo a mesma fita.

                        Isto me conforta.
 

**********


@ - CARTA AO CLAUS
CLÜVER, DEZEMBRO DE 1996.

                      

                        Claus:

                        Como parece que todos sabem, nossa música popular é, junto com a de mesmo cunho dos Estados Unidos, a mais profusa em formas, ritmos, capacidade de absorção congenial de timbres e de estruturas de outros locais e raças, não só harmônicas como -- o que é estranho -- também melódicas.

                        Então, além do samba clássico, do samba-canção, do samba-exaltação, do samba de fossa, do samba de bossa (malandragem vocabular e o “breque” matreiro), o Brasil tem, de umas quatro ou três décadas pra cá, também o samba balada, o samba de bossa-nova, o samba-rock, o rock-balada, o blue maxixizado, enfim, de Pixinguinha a Marina, de Noel a Djavan, de Ismael a Tim Maia, o que se procurar!...

                        Em 1989, quando a Christina morou em Londres, fiz-lhe uma seleção do que eu considerava de mais belo na multiplicidade de formas musicais brasileiras e mandei-lhe uma fita cassete. No final da fita tentei explicar-lhe oralmente minhas escolhas, e que eram o meu paideuma, de modo muito resumido, eis que ela tivera muito convívio com o assunto aqui em casa, e saberia demonstrar a variedade a seus colegas de Londres.

                        A fita fez um bruta sucesso; ela teve de fazer várias cópias pro pessoal! Acabei dispensando a explicação, como v v. ouvirão no finalzinho da fita.

                        Acrescento que muita coisa ficou de fora, como as antológicas leituras de Noel Rosa feitas por Aracy de Almeida ou Marília Batista; as interpretações do “velho malando” Morangueira (Moreira da Silva, hoje com 94 anos e que ainda vem a público, intocável na personalização, embora com a voz devastada - no sentido mesmo da palavra  waste -) interpretações essas da década de 30 e mesmo antes, e que demonstram que sua voz teria que esperar, para ser igualada ou talvez superada, o timbre prateado, e translúcido!, de ORLANDO SILVA em sua fase de ouro, isto é, de seus 20 aos 26 anos de idade! Algo similar a Sinatra, até nas fases.                 

                        E muitas outras jóias desbordaram deste paideuma, talvez por mim eleito num momento de decisão etílica. Mas isto é outra conversa, que fica para se apurar em futuros papos... e com muito álcool!...

                        Mais recentemente, em fins de 1993, esteve em São Paulo o poeta italiano ENZO MINARELLI, que você deve conhecer, e que praticava  o que o Philadelpho vinha fazendo como uma de suas experiências literárias, isto é, POESIA SONORA; fez várias conferências e performances muito concorridas pela PUC e outros auditórios, transferiu a paixão pelo seu time de futebol lá da Itália para as mesmas cores do uniforme corintiano, enfim um grande praça, cobrasileiro, alegre, insinuante, um belo tipo, você o conhece?

                        Quando partiu de volta, ENZO levou uma cópia daquela mesma fitinha que remeti para a Cris, só que, dessa vez, acompanhada de um resumo crítico que lhe fiz por escrito e manuscrito (ele domina muito bem o português), mas tudo de memória e bebendo eu whisky em meu escritório na cidade. Sem dados para consultar.

                        TOMO A LIBERDADE DE TRANSCREVER PARA VOCÊ, CLAUS, LITERALMENTE, SEM NENHUMA MODIFICAÇÃO, TAL CARTINHA-CRÍTICA DAS MÚSICAS QUE ESTÃO NO CASSETE.

                        Espero que você releve o fato de eu não colocar o nome exato das faixas, pois, à época em que pela primeira vez selecionei as músicas (1989), fui embaralhando os discos e agora -- como em 1993, quando dei cópia da fitinha ao ENZO -- daria uma tremenda mão-de-obra conferir tudo. Mas dá para você ir identificando cada tópico de minhas análises -- bem resumidas, repito -- ouvindo com atenção as musicas, uma por uma.

                       

                        [ EIS O TEOR DA CARTINHA AO ENZO: - O  QUE COLOCO ENTRE COLCHETES FOI ADUZIDO NESTA CARTA AO CLAUS CLÜVER  &  MARIA ]

 

 LADO  B  

                        @  -  NOVOS BAIANOS:

                        1 - De seu primeiro LP, produção déc. 60/70 : “Brasil Pandeiro” [, de Assís Valente, RECORDISTA EM TENTATIVAS DE SUICÍDIO, QUATRO!,  E QUE ACABOU... SE MATANDO ] 

                        Solistas em destaque (vozes):

                        Baby Consuelo, hoje uma dona de casa e cantora esporádica. [ hoje Baby do Brasil ]

                        Moraes Moreira. [ atualmente em grande forma “single”]

                        O grupo pertencia a uma “família” de 12 ou mais pessoas. Habitavam uma chácara, no Rio, levando, com os filhos, vida comunitária, “primitiva”, naturalista e naturista, sem fronteiras demarcadas, a não ser, talvez, as do sexo.

                        2 - Música do mesmo LP.

                        Guitarrista em destaque : Pepeu Gomes, então marido de Baby Consuelo (supra).

                        NOTE OS CONTRA-TEMPOS NO CANTO DE BABY CONSUELO !

                          @ - CARTOLA e:

                        1 - um samba-canção de sua autoria, gravação déc. 70, produção déc. 50.

                        Genuíno nas concepções, inspirado, com melodia de cunho muito pessoal. Era também mestre no samba rápido (tipo “batucada”).

                        2 - outro samba-canção, mesma época.

                        3 - Note, na terceira musica de Cartola, O SOLO  DE TROMBONE, instrumento em que o músico brasileiro de cabaré e boate é imbatível. Dizem que o GLOBOKAR ia, quando no Brasil, “assuntar” em nossos “inferninhos”. Não sei se é verdade, nem se o VINCO GLOBOKAR esteve no Brasil...

                        4 - ib., ib., veja o trombone! [ O uso que o instrumentista faz de um insinuado ruflo (frullato) numa passagem do  “ACONTECEU” é antológico! ]

                        OBSERVAÇÃO : CARTOLA descende das duas vertentes mais significativas e fundantes da Música Popular Brasileira não-eruditizável, isto é, não

popularesca,no sentido marioandradino, tendente ao folclore :

                        a) NOEL ROSA - o maior gênio de nossa música de extrato popular no sentido lato (samba urbano) e

                        b) ISMAEL SILVA, seu “pendant” idioletal, de riqueza melódica... divina (isto é, como você nunca vê, nunca sabe também como surge uma solução melódica ... que não é harmônica!).

                        (Ismael = idioleto, assim como CHOPIN era um idioleto para o próprio SCHUMANN, criador da linguagem pianística do Romantismo ou, como já disse uma vez, da "linguagem pianística para o ouvido"...)

                         @ - CAETANO VELOSO in  “ALFÔMEGA”,  “dele” & de Gilberto Gil.

                        Belíssima - e genial - escatologia de tendência pré-tarkowskiana. Déc. 60/70. Grande achado. Acabamento, no arranjo, de grande mestre.

 

                        [ INTERROMPO A CARTA AO ENZO, PARA DIZER QUE ACHO A COMPOSIÇÃO SUPRA, COMO OS FILMES DA FASE FINAL DE TARKOWSKY, UMA REPRESENTAÇÃO DO ABSURDO METAFÍSICO-PESSIMISTA, COM INTERFERÊNCIAS DE ACASOS ESCATOLOGICAMENTE PROGRAMADOS, COMO, NA MÚSICA QUE CAETANO CANTA, AQUELE ESTRIBILHO BEM ESPAÇADO DO BÊBADO QUE FALA “- JUSTAMENTE!...” ]

                        [ VOLTO À REDAÇÃO DA CARTINHA AO ENZO E VOU CONFERIR DIREITO A AUTORIA, POIS ACHO QUE TEM O TORQUATO NETO TAMBÉM COMO DONO DA COISA ]

                        @ - CAETANO VELOSO  e uma rumba de sua autoria (s/ Cuba), déc. 80.

                        Um script sonoro de musical hollywoodiano, com “direção de câmera vocal” caribenha. Virtuosismo vocal e suporte melódico e rítmico puramente isomórficos, o que é quase uma exibição/demonstração técnicas. Amoralismo político brejeiro, o mesmo rosto amoralista do Caetano, na vida. Deboche a uma espécie de pré-politicamente correto e, ao mesmo tempo, alusão, velada mas positiva, à grande causa fidelista! (CUBA É A ETERNA NAMORADA DOS SOCIALISTAS DE BEM)

                        @ - MARINA LIMA - um rock-bolero típico de sua personalidade quente, ao mesmo tempo intimista. Pegou a juventude feminina brasileira da década de 80 muito carente... e cativou!

                        @ - (VOLTA À DÉCADA DE 30):

                        Samba de NOEL ROSA, “Cansei de Pedir”, com Violeta Cavalcanti cantando em 1984, ou 85. Um clássico. Letra (lyric) tipo Ira Gershwin, Cole Porter! E um domínio total da natureza do SAMBA.

                        @ - TomZé , “Namorinho de Portão”.

                        TomZé é o membro-gauche do Tropicalismo (Caetano & Gilberto Gil). Arranjo “erudito” de DAMIANO COZZELA. Letra (lyric) de inocência rubra e antecipando as identificações dos comerciais de TV, aquele vovô cantando rápido no fim de uma frase! De seu primeiro LP, déc. 60. A melodia da balada -- verdadeira balada!-- tem uma natureza saudosística ingênua, algo como um futuro já na época saudoso, que envolve, recapeia  a voz do TomZé, em vez de ser envolvida por ele... por causa, penso eu, da tonalidade menor.

                         @ - ( OUTRA VOLTA, À DÉC. 40/50) : ISMAEL SILVA(!) em “Tristezas  não pagam dívidas”. O próprio autor, já setentão (déc. 70), canta. Logo a seguir, “Novo Amor”, também de Ismael. OBSERVE A RIQUEZA, “DIVINA”, DA MELODIA.

                        [ DESCULPE USAR, MAIS UMA VEZ, A PALAVRA “DIVINA”, MAS É SÓ COMO POSSO, NO CONVENCIONAL, ADMITIR O MISTÉRIO DE UNS CORTES DE DIREÇÃO MELÓDICA , QUE SÃO PRÓPRIOS DO ISMAEL. ALGO COMO QUANDO, EM HAYDN, DE REPENTE, NUM ATAQUE DE FRASE NOVA, VOCÊ INDAGA : MAS DE ONDE É QUE VEIO ISTO ?! ]

 

                        @ - Década de 70 : CHICO BUARQUE DE HOLANDA, “Folhetim”.

                        Gal Costa canta essa estória de disponibilidade amorosa de uma mulher livre ( livre inclusive de sentimentos ! ). Bolero propositado. A letra (lyric) é imensa poesia. Chico Buarque foi, com Caetano,  o que melhor encarnava a mulher “na primeira pessoa”.

                          @ - TIM MAIA  (déc. 80), “Me dê motivo”. “Rock-fats” explorando a voz roufenha, e o empenho amorável de enfrentar adversidades... Tim Maia transpõe seu jeito de encarar a vida (ou, pelo menos os outros) para o gesto da interpretação. Me parece muito interessante esse tisne stanislawskiano.

                        @ - RITA LEE ,  a criadora, na déc. 60, com o revolucionário conjunto “OS MUTANTES”, do rock brasileiro. Aqui (“Mania de Você”, já da déc. 80”), veste um  bolerão de roupa insólita : voz, solmizações etc.

 

 LADO  B

 

                        @ - CAETANO VELOSO, dele, “LÍNGUA”, talvez sua obra-prima absoluta. Utiliza ELZA SOARES, cantora marginal, de caráter e modulações  “debochadas”, exímia ritmista, aqui usando e abusando dos vocalises e ornamentos bêbados, que se transformam em  “scats” mais gostosos que os de ELLA FITZGERALD; porque em ELLA  os “scats” estão sempre revestidos de solmizações. A obra (déc. 80) é plena de jogos de palavras e sacadas filosófico-etno-culturais, balançando entre o exotérico e o esotérico, fazendo uma sinopse das culturas eruditas se intercalar com uma sabedoria existencialista tardia. Nas frases entra sempre  um absolutismo conceptualista de aparentes “non-sense”. Repare na comparação entre  amizade / amor   x   prosa / poesia. Ou na passagem em que dogmatiza sobre fazer uma canção / filosofar / língua alemã (!!!). AQUI É POETA MAIOR. E o tônus é de quem vai caminhando, revoltado mas com razão, para o patíbulo!

                        @ - GILBERTO GIL e “Pessoa nefasta”, maravilha de interpretação e utilização de sua voz afro, em rock-balada rápida, numa composição de profundidade religiosa (candomblê-zen !), exorcismo pela reza! Domínio de timbre vocal e de ritmo, como poucas vezes se atingiu no Brasil. Déc. 80. O dia em que você dominar mesmo a língua portuguesa, ENZO, você vai desmaiar com isso. [ ISTO NÃO VALE PARA VOCÊ, CLAUS ! ]

                        @ - CLEMENTINA DE JESUS & JOÃO BOSCO, em samba de João Bosco, uma das expressões mais individuais da Mús. Pop. Brasileira. O canto de CLEMENTINA é africano típico. O ASSUNTO É DIFÍCIL PARA UM ESTRANGEIRO.   [ MESMO PARA VOCÊ, CLAUS, MAS A MARIA O AJUDARÁ A DECIFRAR O COLOQUIALIMO ] É um caso de praga rogada, macumba, traição matrimonial, com muita gíria. Melodia e “acompanhamento” sem dúvida magistrais (Déc. 70/80).

                        @ - TETÊ ESPÍNDOLA e sua voz característica e não suscetível de ser utilizada no corriqueiro do dia-a-dia. Como apelo isolado e não constante, é uma maravilha! O assunto (lyric), casado à melodia riquíssima, com a passagem do recurso da duplicação da voz por meio do “play back”, destaca a obra na galeria das obras-primas do Brasil moderno. Também é de uma tristeza dignificante. (PERDÃO PELO SUBJETIVISMO).

                        @ - “BEBETE VAM ‘ MBORA” (algo como “Bebete, lets go !”),  JORGE BEN (déc. 70), hoje JORGE BENJOR. Criou o ritmo quase  5/4 (tempo sincopado). Digo quase  5/4  porque é meio diferente do nosso jequibau (MÁRIO ALBANESE e CIRO PEREIRA, um dia lhe falo sobre estes), que deriva, talvez incientemente, da espécie de movimento interlúdico da Quinta Sinfonia de TCHAIKOVSKY. Há aqui também um tipo de assunto (lyric) malandro e sincero ao mesmo tempo. É uma delícia... mesmo não se entendendo completamente a letra na hora.

                        @ - “CAMISA LISTADA”, de ASSIS VALENTE, déc. 30, gravação da déc. 70. Com ISAURINHA GARCIA, cantora  (predominantemente de boates e cabarés) de acento “cantado”, resquício do italianismo dos bairros típicos de seu país “de origem” em São Paulo. A seguir, “CARA DE PALHAÇO” (acho que não é esse o nome correto), auto-gozação de um fracassado cínico -- ou talvez dono de um imenso “fair play”! Atente para o acompanhamento verdadeiramente genial do piano, nessas duas faixas da ISAURINHA : seu então marido, ou companheiro, WALTER WANDERLEY, precocemente desaparecido.

                                   AMIGO QUIXADÁ, [ Claus & Maria, este vocativo QUIXADÁ  é porque encaixei as cartas ENZO/CLAUSS em outra para um outro amigo melômano ] CORRIJO PARA VOCÊ O QUE  NÃO TIVE OPORTUNIDADE DE FAZER NEM PARA O ENZO NEM PARA O  CLAUS  :  O ACOMPANHAMENTO GENIAL  DO PIANO É DO AMÍLSON GODOY, QUE FEZ A TRILHA DE UM FILME DE MINHA FILHA CHRISTINA, E QUE É IRMÃO DO FAMOSO AMÍLTON GODOY, DO “ZIMBO TRIO”. APROVEITO A OPORTUNIDADE PARA CORRIGIR TAMBÉM QUE O WALTER WANDERLEY CONTINUA VIVO E É  CONSIDERADO UM DOS MELHORES ORGANISTAS NOS ESTADOS UNIDOS.

                        @ - OUTRA VOLTA: (à déc. 30) -  “A RAZÃO DÁ-SE A QUEM TEM”. Outra obra-prima de ISMAEL SILVA. A dupla que se alterna na primeira e na secunda partes: FRANCISCO ALVES e MÁRIO REIS, este o verdadeiro precursor de JOÃO GILBERTO pela falta de solenidade, desimpostação da voz, e canto-falado (sprach-gesang) !

                        @ - CAETANO VELOSO  e seu talento também para a marcha carnavalesca. “CHIQUITA BACANA”, ou  “A FILHA DA CHIQUITA BACANA” (ESTOU ESCREVENDO, ENZO,   ESTAS NOTAS NO MEU ESCRITÓRIO, SEM OS DADOS TÉCNICOS, CONFIANDO NA MEMÓRIA, 24-8-93).

                        @ - Do LP  “BRAZIL” (sic) , de JOÃO GILBERTO, déc. 80. Música do clássico DORIVAL CAYMI, dos sambas praieiros, alma da Bahia. Há uma riqueza poética notável nas assonâncias dos nomes dos pescadores ( “Maurino, Dadá e Zeca ô/ Embarcaram de manhã...”) e da narrativa ( “anedota”- ficção ). Os dois cantores que contracenam com João Gilberto ( Caetano Veloso & Gilberto Gil )  fazem “dramatis personae” do gesto vocal de João. Timbre encarnado deste. NOTE TAMBÉM O DESCOMPASSO DA FRASE VOCAL COM A BATIDA DO VIOLÃO. JOÃO GILBERTO  (como GLENN GOULD)  tinha um sistema calmo pegado a seu sistema nervoso... [ Aqui desenhei para o ENZO uma carinha rindo e uma exclamação ]

                        @ - De novo ISMAEL (!!) , “ME DIGA TEU NOME”, déc. 30. Melodia originalíssima, milagrosa, mais uma vez insisto no mistério!  [ MAS HÁ UM LIVRO ESTRANHÍSSIMO, EMBORA ASSEGUREM SER CIENTÍFICO, QUE ABORDA TAMBÉM O ASPECTO  DESENHO MELÓDICO / TONALIDADES /  TRISTEZA E ALEGRIA DECORRENTES DISSO!, DE ALOIS GREITHER, TÍTULO :  “MOZART”,  TENHO EM ITALIANO, ED. EINAUDI ].  A seguir, “BOA VIAGEM” (déc. 30), no mesmo diapasão inconfundível. Re-gravação da déc. 70. O autor canta. Era um gênio, como já disse, mas uma pessoa tremendamente ignorante, quase um boçal completo, com vontade de ter senso de humor...

                        @ - “A TUA PRESENÇA”, CAUBY PEIXOTO, a voz mais sonora, dotada, natural (tipo SINATRA nesse particular) e melodiosa do Brasil. Além de tudo, um pleno domínio técnico nas inflexões e exploração das particularidades do “fato cantado” (v., na primeira estrofe, a pronúncia da palavra  “DISTÂNCIA” !!! Na repetição, ele tira a “an-an-an ” do perfil montanhoso da lonjura). Mas... é considerado pela “maioria crítica” um cantor “depassé”, amaneirado, old fashioned, e , como brasileiros já dissemos em  passado não muito distante, bôco-môco...

                        @ -      “SOY LOCO POR TI,  AMÉRICA”, de GIL & TORQUATO NETO, na voz de CAETANO. É uma rumba que talvez não se encontre melhor no gênero.

                        Eis, ENZO, um “pot pourri” de coeur & tête.

                        [  Bem, CLAUS E MARIA, vou ficando por aqui, esperando um breve reencontro.

                        S. P., 24 de Dezembro de 1996, FLORIVALDO MENEZES. ] 

 

                                   Amigo QUIXADÁ, DESTINATÁRIO E DEPOSITÁRIO AFETIVO DE MINHAS CARTAS ( VÃO TAMBÉM SAIR NO LIVRO ), também fico por aqui.

                                  E amigo HÉLDER, um grande abraço e uma despedida talvez num molde de “1: P4CR” (será o meu?!); ou, modernizando-me  fenomenologicamente  :  “1 : g2 - g4”.

                                    [ CLAUS &  MARIA, AÍ EM CIMA FOI O FECHO DE UMA CARTA PARA O HÉLDER CÂMARA, MESTRE INTERNACIONAL DE XADREZ, MEU PARTICULAR AMIGO E TAMBÉM POETA / MELÔMANO, NÉO PARNASIANISTA TARDIO (SIC; SÓ NO BRASIL ESSAS COISAS INCRÍVEIS) E HOMÔNIMO DE SEU TIO, O BISPO PROGRESSISTA QUASE NOVENTÃO; JÁ  OUVIRAM FALAR DE DOM HÉLDER CÂMARA? ]        

                        São  Paulo, 1997 para 1996 para 1993 para 1997.

                                   FLORIVALDO MENEZES

 

**********  

     

@ - PARA IVAN TEIXEIRA :

                        Como tenho por você uma estima especial, que dia a dia mais  se fortifica, tive vontade  -- embora possa parecer um atrevimento -- de ir mandando-lhe por escrito tudo o que penso ou venha a pensar do caro amigo, em virtude de suas manifestações públicas, i.e., o que você expuser em jornais, revistas ou livros. Assim de chofre, pode parecer  neurose, coisa freudiana, que direito tem esse cara?... Mas  não deve nos preocupar, fica como exercício de ego ou de viver.Ou como uma marca, uma variação na nossa amizade. E certamente se exercerá dentro de uma periodicidade que ficará afeita, claro, a minha disposição, ânimo,  estados de espírito trôpegos etc. etc. : em última análise, não será insidiosa a encheção de saco, penso que você me conhece.

                        Assim sendo, julgo que desde já estarei perdoado pela  intromissão, eis que você frequentemente me intriga e muita vez sou impedido, por pudor, de exercer minha costumeira sinceridade em relação a um ser humano, principalmente quando a ele me pareço ligado há muito, muito,  tempo.Talvez para essa sensação contribua muito o apreço que tenho por sua família,  que me trata com tanto carinho! E um carinho que sinto objeto de júbilo de sua parte.Enfim, já está sendo um costume verdadeiramente espiritual a hora e a vez em que nos encontramos, por mais espaçadas que às vezes sejam.

                        Sinto em você um verdadeiro companheiro, como o Percy, o Nílton, infelizmente o já ido Zelão,  naquilo que para mim significa dos raros momentos de felicitar a Vida: a paixão constante, diuturna mesmo, pela arte, a literatura principalmente,  e pelas demais coisas do Espírito:  quaisquer que as consideremos, mas desde que fanaticamente. Fanaticamente, para mim, saiba- se,   para o  Bem maior, ou seja o de nossa alma, façamos de conta que esta exista e que o egoísmo não seja pecado.

                        Você pode começar a  receber estes aportes/palpites dentro daquelas suas  não insinceras sacadas  (vejaque não disse " daquelas sinceras" sacadas...) de que é o paizão que está falando, meu “quarto filho” ouvindo com carinho, quando não com um respeito só de leve acoimado pelo comodismo de não retrucação.Se esta palavra não existe, vale pelo som de batida na mesa. E ficou solene como uma personagem de Rosa falando bonito. (NÃO ESTOU BEBENDO...PORTANTO, DESCULPE AS VULGARIDADES !)

                        Os óbvios se assemelham aos "não querendo te interromper", que em sí já interrompem. Assim sendo, não precisaria dizer mais que seus textos continuam primando, desde logo, por uma estrutura  verdadeiramente   estelar quase insuperável, escopo e magnitude  didáticos, encadeamentos sempre lógicos e objetivos, bem acudidos e  pertinentes paralelismos  -- como evocar Bandeira no problema que você levantou do cosmopolitismo mental e cultural de Pound no artigo de sábado.

                        O leitor vê, de cara,   uma chave sinóptica em seus preâmbulos. E como são boas as chaves sinópticas numa era de apreensão das coisas pela via dos video-clipes!

                        No artigo de sábado, você dá ao leitor, principalmente ao não muito familiarizado com Pound, uma visão esquemática acabada do grande mentor, perdoi-me chamá-lo assim. Mas - e aqui vai a primeira sinceridade/desabafo - acudiu-me que o interesse do autor pelo artigo, afora a solicitação de jornal ligada ao evento comemorativo (os 25 anos da morte do poeta), por seu teor mais recôndito, subterrâneo, poderia estar mais intimamente ligado,como bom mineiro que você é, a algum problema de desavença, ou desencontro,  com o Haroldo de Campos. Ou a uma necessidade de “rearrumação” de algo com o Hansen, se bem que as duas hipóteses estejam naturalmente ligadas. Outra coisa a considerar, e aqui entra mais uma vez meu mau vezo de criptografar, é que o Haroldo é uma pessoa muito agendada.

                        Há muito tempo lhe falei, até professoralmente, e disso  já me perdoei, do perigo que seria para sua carreira de scholar, visando USP, seus (pelo amor de Deus, não se ofenda!) namoros um pouco exagerados com o Haroldo e, por conseqüência, com o "grupo concreto".

                        Estes, em minha opinião, são e continuam muito invejados pela maioria, imensa maioria, não criativa e nem de leve criadora, da intelectualidade brasileira de mesma geração! Às vezes até por vingança a um complexo de desprezo megalomaníaco por parte da grei.

                        É claro que, sistematicamente atacados, dão a volta por cima, dançam e rolam soberanos por conta de seu preparo e inventividade, mas poderiam ter prejudicado, por via indireta dessa inveja,  uma figura como você, que despontava com força na mídia, disputava cargos e posições, e que corretamente lhes devotava admiração e justiça.

                        Houve ti-ti-tís e fuxiquinhos, você sabe;  mas você também  soube, no devido tempo, superar isso tudo, por força de sua cultura,  capacidade  de trabalho, apuro técnico  e por algumas posições de autonomia, nem sempre explícitas, contudo. Mas não sei se no íntimo-no íntimo não sobrou algum ressaibo nas plagas dos grupos ou do pessoal que se opunha a eles, tais como, com todo o respeito, os  Hansens, os  Arriguccis, aquele inquisidor... o  magriça rebelde... de sua banca de doutorado, talvez até nosso próprio amigo de roda, o Fábio Lucas. E  congêneres...pra não dizer "et caterva".

                        Fazendo um corte abrupto na cena e aclaradas todas as dúvidas através da diplomacia ( -- não se ofenda, senão não escrevo mais, beicinhos...---) mineiro-mineiradora de sua parte, apesar do peso de dedicar longas páginas a poetas ligados a eles e  que ainda não estão credenciados, em meu entender, nem digo a herdar, mas a se habilitar na herança do patrimônio de Cabral, tais como Régis, aquele cara do Rio, o filho do João Alexandre e  Nélson Ascher ( este,sim, seria um herdeiro dele, mas herdeiro por representação, no sentido jurídico da expressão, se você tivesse demonstrado que, reelaborado vitalmente, encarnado num jovem de hoje, Cabral falaria com aquele instrumental de "hodiernidade" de expressão usado pelo Ascher; expressão essa que é toda cabralina,  a despeito do hodierno mais perene da linguagem mais universal, embora idioletal, do poeta pernambucano), aclaradas todas as dúvidas, repito, acrescidas da natural generosidade que você tem  para com os valores emergentes, agora me acode mais uma, em função do artigo de sábado:

                        Você não sente alegria, nem digo o êxtase, de aceitar uma invenção genial, mesmo falaciosa, quando não mentirosa, mas bela, insopitável, como o melro, que era preto, belo, luzidio, entregando-se ao prazer da constatação, ou mesmo da mera assertiva? A unanimidade é sempre burra?! O vago, o impreciso, partidos de um grande poeta, não são dignos de que fechemos os olhos e demos desculpas de que ouvimos mal?...

                        Desculpe-me a petulância de um aparente repto, mas também me intriga essa postura contrária a qualquer tipo de subjetivismo mario-de-andradiano numa pessoa, na intimidade, extremamente sensível e lúdica como você. Ou você  estrategicamente adota de público a posição historicista, sincronicista, que quase sempre desautoriza as epifanias de prever o passado, já que o futuro a Deus pertence? Se assim não fosse, caro Ivan,  não teria criticado o critério poundiano de definição de literatura como novidade que permanece novidade. Nem pespegaria de noção engenhosa a aferição de Pound dos exemplos, não citados no seu texto, dos reais valores literários, embora  a eles --conheço-os bem -- se possam aplicar os signos enxadrísticos de "duvidoso para melhor", ou de "exclama, podendo ser duvidoso".

                        E é claro que Pound se supunha em "lugar privilegiado de observação e juízo". É óbvio, dentro de um desígnio de"insight" poético como  ao que se propôs durante a vida toda !

                        Mas isso deve ter agradado ao Hansen, arranhado um pouco o Haroldo, desculpe-me cair em planos aparentemente baixos desses antagonismos, mas se não fosse pela franqueza nada disto teria sentido...

                        Também mais livre de esquemas acadêmicos, talvez pudesse ser evitado o não menos  subjetivo juízo de que um  "hipotético bom gosto perene, infalível e trans-histórico" (grifo acrescentado) tenha embasado os critérios de classificações de Pound, eis que no período imediatamente anterior você admite que houve "implicações idealistas" (grifo mais uma vez acrescentado).

                        E por que falar em "suposta excelência eufônica" (grifo tb. acrescentado) da melopéia, quando a melopéia  "é como se esse som nascesse do ar",  tão simples?!...

                        Acho que, em prol de sua sempre fundamentada justificativa de negações -- quando você pertinentemente as levanta, é claro -- você bem que poderia dar exemplos nominais e comparativos, quando você diz, ao criticar o genial truismo de que existem artistas inventores, mestres e diluidores (no "etc." de seu texto poderia entrar o Gullar do caldinho pra famintos da panela onde ferveram as vanguardas esquecidas) quando você diz, repito, que a "história tem demonstrado a falácia de tal classificação, transformando em escritores irrelevantes alguns inventores ou mestres de determinado momento". UNS EXEMPLOS, NESSE TRECHO, SERIAM, EM MEU ENTENDER, ABSOLUTAMENTE INDISPENSÁVEIS E REFORÇARIAM OS PONTOS ALTOS DE SUA POSIÇÃO.

                        Os dois períodos que abordam o conceito de "paideuma" devem ficar para os esquemas simétricos do pensamento crítico sócio-historicista, "ab initio" hansenianos (em todos os sentidos!...) e que, "pour cause", melecam a simetria,  permita-me o mau gosto do trocadilho conceitual. MAS, POR FAVOR, APAGUE ISTO : É UMA BIRRA ( IRRACIONAL ?!...)  DE MINHA PESSOA.

                        Desculpando-me pela crueza, não posso terminar sem aguardar com ansiedade novos temas polêmicos como tais. E, admitindo, no caso de Pound, e sem qualquer desejo de ferí-lo,  um inimigo estratégico, ou um medo de ser feliz (na Literatura, é claro,  o que também é o caso do Percy, a quem igualmente amo tanto) ;  uma ânsia de questionar existencialmente alguns achados humanitários -- o que não deixa de ser meio triste, permita-me --, ou uma não sei se justificável necessidade de ser arauto de eventuais desmistificações/demitificações, você está,  de certa forma  e apesar de tudo, salvando a patria de certo  periódico até então  anódino.

                        VOLTAREI, SE NÃO TIVER VERGONHA DE ENCARÁ-LO DENTRO DAS GARGALHADAS, DOS ALMOÇOS E DOS WHISKIES!

                        A bênção!

                        (Agora quem pede sou eu)

                        FLORIVALDO, 2 DE NOVEMBRO DE 1997.( V. MAIS ABAIXO )

 

                                  

@ - PARA IVAN TEIXEIRA: ( ESTA DEVE SER DESPREZADA)

                        Como tenho por você uma estima especial, que dia a dia mais  se fortifica, tive vontade  -- embora possa parecer um atrevimento -- de ir mandando-lhe por escrito tudo o que penso ou venha a pensar do caro amigo, em virtude de suas manifestações públicas, i.e., o que você expuser em jornais, revistas ou livros. Assim de chofre, pode parecer  neurose, coisa freudiana, que direito tem esse cara?... Mas  não deve nos preocupar, fica como exercício de ego ou de viver.Ou como uma marca, uma variação na nossa amizade. E certamente se exercerá dentro de uma periodicidade que ficará afeita, claro, a minha disposição, ânimo,  estados de espírito trôpegos etc. etc. : em última análise, não será insidiosa a encheção de saco, penso que você me conhece.

                        Assim sendo, julgo que desde já estarei perdoado pela  intromissão, eis que você frequentemente me intriga e muita vez sou impedido, por pudor, de exercer minha costumeira sinceridade em relação a um ser humano, principalmente quando a ele me pareço ligado há muito, muito,  tempo.Talvez para essa sensação contribua muito o apreço que tenho por sua família,  que me trata com tanto carinho! E um carinho que sinto objeto de júbilo de sua parte.Enfim, já está sendo um costume verdadeiramente espiritual a hora e a vez em que nos encontramos, por mais espaçadas que às vezes sejam.

                        Sinto em você um verdadeiro companheiro, como o Percy, o Nílton, infelizmente o já ido Zelão,  naquilo que para mim significa dos raros momentos de felicitar a Vida: a paixão constante, diuturna mesmo, pela arte, a literatura principalmente,  e pelas demais coisas do Espírito:  quaisquer que as consideremos, mas desde que fanaticamente. Fanaticamente, para mim, saiba-se,   para o  Bem maior, ou seja o de nossa alma, façamos de conta que esta exista e que o egoísmo não seja pecado.

                        Você pode começar a  receber estes aportes/palpites dentro daquelas suas  não insinceras sacadas  (vejaque não disse " daquelas sinceras" sacadas...) de que é o paizão que está falando, meu “quarto filho” ouvindo com carinho, quando não com um respeito só de leve acoimado pelo comodismo de não retrucação.Se esta palavra não existe, vale pelo som de batida na mesa. E ficou solene como uma personagem de Rosa falando bonito. (NÃO ESTOU BEBENDO...PORTANTO, DESCULPE AS VULGARIDADES !)

                        Os óbvios se assemelham aos "não querendo te interromper", que em sí já interrompem. Assim sendo, não precisaria dizer mais que seus textos continuam primando, desde logo, por uma estrutura verdadeiramente   estelar quase insuperável, escopo e magnitude  didáticos, encadeamentos sempre lógicos e objetivos, bem acudidos e  pertinentes paralelismos  -- como evocar Bandeira no problema que você levantou do cosmopolitismo mental e cultural de Pound no artigo de sábado.

                        O leitor vê, de cara,   uma chave sinóptica em seus preâmbulos. E como são boas as chaves sinópticas numa era de apreensão das coisas pela via dos video-clipes!

                        No artigo de sábado, você dá ao leitor, principalmente ao não muito familiarizado com Pound, uma visão esquemática acabada do grande mentor, perdoi-me chamá-lo assim. Mas - e aqui vai a primeira sinceridade/desabafo - acudiu-me que o interesse do autor pelo artigo, afora a solicitação de jornal ligada ao evento comemorativo (os 25 anos da morte do poeta), por seu teor mais recôndito, subterrâneo, poderia estar mais intimamente ligado,como bom mineiro que você é, a algum problema de desavença, ou desencontro,  com o  Haroldo de Campos. Ou a uma necessidade de “rearrumação” de algo com o Hansen, se bem que as duas hipóteses estejam naturalmente ligadas. Outra coisa a considerar, e aqui entra mais uma vez meu mau vezo de criptografar, é que o Haroldo é uma pessoa muito agendada.

                        Há muito tempo lhe falei, até professoralmente, e disso  já me perdoei, do perigo que seria para sua carreira de scholar, visando USP, seus  (pelo amor de Deus, não se ofenda!) namoros um pouco exagerados com o Haroldo e, por conseqüência, com o "grupo concreto".

                        Estes, em minha opinião, são e continuam muito invejados pela maioria, imensa maioria, não criativa e nem de leve criadora, da intelectualidade brasileira de mesma geração! Às vezes até por vingança a um complexo de desprezo megalomaníaco por parte da grei.

                        É claro que, sistematicamente atacados,   dão a volta por cima, dançam e rolam soberanos por conta de seu preparo e inventividade, mas poderiam ter prejudicado, por via indireta dessa inveja,  uma figura como você, que despontava com força na mídia, disputava cargos e posições, e que corretamente lhes devotava admiração e justiça.

                        Houve ti-ti-tís e fuxiquinhos, você sabe;  mas você também  soube, no devido tempo, superar isso tudo, por força de sua cultura,  capacidade  de trabalho, apuro técnico  e por algumas posições de autonomia, nem sempre explícitas, contudo. Mas não sei se no íntimo-no íntimo não sobrou algum ressaibo nas plagas dos grupos ou do pessoal que se opunha a eles, tais como, com todo o respeito, os  Hansens, os  Arriguccis, aquele inquisidor magriça de sua banca de doutorado, talvez até nosso próprio amigo de roda, o Fábio Lucas. E  congêneres...pra não dizer "et caterva".

                        Fazendo um corte abrupto na cena e aclaradas todas as dúvidas através da diplomacia ( -- não se ofenda, senão não escrevo mais,  beicinhos...---) mineiro-mineiradora de sua parte, apesar do peso de dedicar longas páginas a poetas ligados a eles e  que ainda não estão credenciados, em meu entender, nem digo a herdar, mas a se habilitar na herança do patrimônio de Cabral, tais como Régis, aquele cara do Rio, o filho do João Alexandre e  Nélson Ascher ( este,sim, seria um herdeiro dele, mas herdeiro por representação, no sentido jurídico da expressão, se você tivesse demonstrado que, reelaborado vitalmente, encarnado num jovem de hoje, Cabral falaria com aquele instrumental de "hodiernidade" de expressão usado pelo Ascher; expressão essa que é toda cabralina,  a despeito do hodierno mais perene da linguagem mais universal, embora ideoletal, do poeta pernambucano), aclaradas todas as dúvidas, repito, acrescidas da natural generosidade que você tem  para com os valores emergentes, agora me acode mais uma, em função do artigo de sábado:

                        Você não sente alegria, nem digo o êxtase, de aceitar uma invenção genial, mesmo falaciosa, quando não mentirosa, mas bela, insopitável, como o melro, que era preto, belo, luzidio, entregando-se ao prazer da constatação, ou mesmo da mera assertiva? A unanimidade é sempre burra?! O vago, o impreciso, partidos de um grande poeta, não são dignos de que fechemos os olhos e demos desculpas de que ouvimos mal?...

                        Desculpe-me a petulância de um aparente repto, mas também me intriga essa postura contrária a qualquer tipo de subjetivismo mario-de-andradiano numa pessoa, na intimidade, extremamente sensível e lúdica como você. Ou você estrategicamente adota de público a posição historicista, sincronicista, que quase sempre desautoriza as epifanias de prever o passado, já que o futuro a Deus pertence? Se assim não fosse, caro Ivan,  não teria criticado o critério poundiano  de definição de literatura como novidade que permanece novidade. Nem pespegaria de noção engenhosa a aferição de Pound dos exemplos, não citados no seu texto, dos reais valores literários, embora  a eles --conheço-os bem -- se possam aplicar os signos enxadrísticos de "duvidoso para melhor", ou de  "exclama, podendo ser duvidoso".

                        E é claro que Pound se supunha em "lugar privilegiado de observação e juízo". É óbvio, dentro de um desígnio de"insight" poético como  ao  que se propôs durante a vida toda !

                        Mas isso deve ter agradado ao Hansen, arranhado um pouco o Haroldo, desculpe-me cair em planos aparentemente baixos desses antagonismos, mas se não fosse pela franqueza nada disto teria sentido...

                        Também mais livre de esquemas acadêmicos, talvez pudesse ser evitado o não menos  subjetivo juízo de que um  "hipotético bom gosto perene, infalível e trans-histórico" (grifo a crescentado) tenha embasado os critérios de classificações de Pound, eis que no período imediatamente anterior você admite que houve "implicações idealistas" (grifo mais uma vez acrescentado).

                        E por que falar em "suposta excelência eufônica" (grifo tb. acrescentado) da melopéia, quando a melopéia  "é como se esse som nascesse do ar",  tão simples?!...

                        Acho que, em prol de sua sempre fundamentada justificativa de negações -- quando você pertinentemente as levanta, é claro -- você bem que  poderia dar exemplos nominais e comparativos, quando você diz, ao criticar o genial truismo de que existem artistas inventores, mestres e diluidores (no "etc." de seu texto poderia entrar o Gullar do caldinho pra famintos da panela onde ferveram as vanguardas esquecidas) quando você diz, repito, que a "história tem demonstrado a falácia de tal classificação, transformando em escritores irrelevantes alguns inventores ou mestres de determinado momento". UNS EXEMPLOS, NESSE TRECHO, SERIAM, EM MEU ENTENDER, ABSOLUTAMENTE INDISPENSÁVEIS E REFORÇARIAM OS PONTOS ALTOS DE SUA POSIÇÃO.

                        Os dois períodos que abordam o conceito de "paideuma" devem ficar para os esquemas simétricos do pensamento crítico sócio-historicista, "ab initio" hansenianos (em todos os sentidos!...) e que, "pour cause", melecam a simetria,  permita-me o mau gosto do trocadilho conceitual. MAS, POR FAVOR, APAGUE ISTO : É UMA BIRRA ( IRRACIONAL ?!...)  DE MINHA PESSOA.

                        Desculpando-me pela crueza, não posso terminar sem aguardar com ansiedade novos temas polêmicos como tais. E, admitindo, no caso de Pound, e sem qualquer desejo de ferí-lo,  um inimigo estratégico, ou um medo de ser feliz (na Literatura, é claro,  o que também é o caso do Percy, a quem igualmente amo tanto) ;  uma ânsia de questionar existencialmente alguns achados humanitários -- o que não deixa de ser meio triste, permita-me --, ou uma não sei se justificável necessidade de ser arauto de eventuais  desmistificações/demitificações, você está,  de certa forma  e apesar de tudo,  salvando a patria de certo  periódico até então  anódino.

                        VOLTAREI, SE NÃO TIVER VERGONHA DE ENCARÁ-LO DENTRO DAS GARGALHADAS, DOS ALMOÇOS E DOS WHISKIES!

                        A bênção!

                        (Agora quem pede sou eu)

                        FLORIVALDO, 2 DE NOVEMBRO DE 1997.

 

**********

@ PARA PERCY GARNIER -  em 22-11-84:[ não mandada ]                                               

            [ ESCREVI DE LÁ PRA CÁ MAIS UMAS DUAS OU TRÊS CARTAS AO PERCY, MAIS ESTENDIDAS, MAS NUNCA MANDEI NENHUMA . 3-3-98 ]

@ - PERCY              26-5-98:                    VERSÃO “DEFINITIVA”, ATÉ AGORA AINDA NÃO MANDADA (9-7-98)

                        Percy:

                        Esta carta começa para você mas termina, desde o começo, para mim. E em quase 90% é carregada de um “feel bad facto”. E poderia ter como epígrafe - desculpe a pretensão - :

 

Uma lesma empurra a outra. Ou o andar do mandorová:  um fogo que se carrega, esperando
o  próprio fogo, sem o alívio do passo dado. Ai !, felizes somos nós, os humanos!                      
 (Dramatis personae de Cornélio Pires)                                                                                            
 

 *

                        Até pra me livrar de um provável complexo de culpa ( perdoe-me a impropriedade, a nomenclatura é técnica, especificamente freudiana, esqueci-me de que estou escrevendo a você...), livrar-me de um eventual sentimento de culpa, tentarei justificar alguns possíveis impropérios de ontem quando chegávamos ao  shopping. E torço, preliminarmente, para que tudo seja mesmo  grátis quando suceda no reles do momento, como lindamente disse Guimarães Rosa no “Grande Sertão: Veredas”.

                        Primeiramente, sublinho que tenho pelo velho, querido amigo e companheiro uma verdadeira, sincera estima. Acostumei-me, há mais de quarenta anos ( penso que isto também pesa muito ), a conviver, ora com mais freqüência, às vezes renitentemente de minha parte e por razões neuróticas, com uma das pessoas mais raras que conheci: um grande caráter, uma seriedade quase excessiva, tanto no sentido moral quanto no intelectual, além de afetivo ( embora à la mode ) e, sobretudo, muito, extremamente sincero, corajosamente sincero!

                        Não precisaria dizer que o respeito que tenho pelo que você conhece  jamais poderia  ser arranhado por qualquer brincadeira, mesmo que abusiva de meu temperamento / às vezes comportamento. Mais: você sabe que penso que você sabe muito das coisas do espírito, mormente das artes, além das resultantes de uma grande  experiência da vida.

                        Em suma, você sempre foi para mim uma grande figura humana.

                        Mas, às vezes, até as grandes figuras humanas se desgastam a mercê de pequenas fraquezas, a idade passando, as esperanças se distanciando,  o ego se debatendo por uma tábua de salvação, uma impaciência diante do curso natural mas implacável, cruel, do dia- a-dia etc. etc.

                        Não despreze o fato de que tal análise pode ser ( e acho que, em certa medida, é ) uma projeção de minhas próprias preocupações. Mas penso que vale para você também, os seres numa curva se parecem muito, observe qualquer tipo de corrida.

                        E, se projeção houve, justifica em parte  minha exasperação de ontem, por cujo excesso peço sinceramente desculpas.

                        Dito isso, vamos a como o vejo ultimamente.

                        ( Se a você pouco se lhe der minha visão do amigo, penso que não me ofenderia se soubesse que rasgou a carta neste ponto. )

                        Preocupa-me muito a intolerância cada vez mais acentuada  que vem tomando conta de você, ou talvez uma necessidade de afirmação, que pode, no fundo, confundir-se com intolerância, eis que você, nas coisas mais sérias, não abdicou nunca da humildade...

                        Embora você sempre tenha sido tolerante nas coisas que podem fazer chorar, você quase sempre foi extremamente intolerante nas que fazem rir. Arte é brincadeira, você nunca entendeu isso, permita-me o dogmatismo.

                        No correr da carta,  acho que essa concepção, na aparência gratuita, se explicitará, até por virtude de uma racionalização por presumível fracasso meu, e  que é uma das minhas tábuas de salvação, sei lá...

                        Parece-me óbvio que ninguém é dono de verdade absoluta  alguma em matéria de teoria artística, ou literária. Poderia invocar de novo Guimarães Rosa na entretanto extrema complacência de que “pão ou pães é questão de opiniães” ( op. cit. ).

                         O que diferencia os espíritos criadores ( perdão pelo aristocratismo de considerar a existência de espíritos não criadores )  é a natural, inconsciente e por vezes abusiva coragem de romper com certas estruturas assentes como ortodoxas, ora, você volta e meia se arrostava disso! Fique claro, entretanto, que cada vez questiono menos a unanimidade, mormente se particularizada nos devidos termos, mas isto é assunto “metafísico” e vai um dia incorporar o meu bloco de dogmas mentais, se eu pudesse explicar a natureza do gosto. Mas é algo que venho sentindo e que  não consigo ainda explicar totalmente.

                        Ultimamente ( pensando bem, quase a vida toda, mas agora com dose de raiva), você não admite que ser humano nenhum discorde de suas colocações cada vez mais professorais, diria até arrogantes, quase ( permita-me, pelo amor de Deus, não se ofenda! ) delirantes!

                        Você precisava reparar: ai de quem ousar discordar de um ponto de vista seu, ou de uma assertiva avulsa ! Você, embora sempre de modo polido, quando de chofre não desconsidera, desprezando-as, as razões do interlocutor, tranca-se  num mutismo abrupto, com aparente dose de rancor, encoberto certamente  por auto-avaliações quase vesânicas, de um gozo de sabedoria que paire sobre as águas... Dá essa impressão.  Esse absolutismo faz que os circunstantes quase sempre  se desconfortem, se inibam, percam enfim o prazer da conversa ou fiquem tolhidos por uma obrigacão de reverência que, posta à prova, aí fatalmente provocará ofensas. Cansei de ver isso em rodas de amigos comuns. É  presunção de desinformado pra cá, até de burro pra lá, nos reptos pra demonstração de fontes, ou no categórico  desprezo pela informação do interlocutor, você nunca reparou, mas houve casos de até  explicitações daqueles juízos. Comigo  mesmo  já conteceu.

                        Você fica chato.

                        E você soleniza muito o trivial, Percy.

                        [ Peço-lhe desculpas, mas preciso dizer tudo o que penso, mesmo que esteja redondamente enganado. É necessário para minha saúde mental e -- o que talvez seja mais importante -- para meu conforto espiritual. ]

                        Realmente, fico apreensivo, embora não tenha diretamente nada com isso, [ e permitindo-me uma mesquinharia, uma quase repelente fofoca ] com o futuro de seu relacionamento com o casal Alfredo. Você já lhes ditou até regras para comer...

                        [ A propósito, você se lembra que,  bem recentemente, em sua casa, você, enrubecendo, mas com um sorriso puxado, os dentes com ar de superioridade -- aquela visão, desculpe-me,  me chocou, quase me assustou ! -- chamou-me a atenção, à mesa, porque empurrei com a mão um restinho de doce para a colher?  Eu lhe disse: pô, estamos sozinhos, tarde da noite, não tem ninguém vendo... Você retrucou, sério, não querendo sorrir : é, mas fica desagradável, não é não sei lá -   não sei lá -  não é não sei lá... você se recorda ?]

                        Acho muito triste esse rigor todo. Se você intercalasse um “em minha opinião é assim”, ou um “acho que é por que”, a coisa se desanuviaria e até você se sentiria melhor. Teria melhores condições de ensinar ao próximo aquilo que você domina melhor.

                        Parece-me  que tal intolerância progressiva é um sinal de desânimo, que se alimenta do não querer saber, um certo descaso pelas coisas comuns, que você cada vez mais vem encarando como vulgares.

                        E estou chegando à conclusão [ nós temos que ser sinceros, absolutamente francos, sem desgastes recíprocos, pois senão a amizade ou o convívio ficam ácidos, desagradáveis, isso você e o Zezé no fundo não souberam diagnosticar ] que você sempre foi meio desanimado, e  que se safou do nihilismo   pela eleição de um projeto de ilusões no qual você levava fé, bastante fé, excessiva -- mas justifícada -- fé, de pastor. Mas...certo que teria sido um horror sair pela racionalização de que a Arte é, de fato, uma brincadeira, como tentei fazer a vida toda, e de forma um tanto irracional. Sou meio abaianado, você é germano nato. E, por isso tudo, só teria que dar na impressão de blasé que deu. Você foi ficando cada vez mais chato, perdoi-me a franqueza. Mas ainda assim indispensável. Pelo menos para mim, pois num certo plano você me impede de engolir tudo.

                        E continuando no plano da miudeza, quando não da mesquinharia,  mas é o que estou sentindo, você não deixou de ser um vencedor, em todos os sentidos, principalmente no familiar, o que é sinal de certa superioridade. O que não teria acontecido, para infelicidade de muita gente, se você também admitisse que Arte é brincadeira, como insinuei no parágrafo anterior. Poderia até ter sido trágico, embora mais confortante. É um paradoxo, mas um autêntico “paradoxo de Bertrand Russell”, que no fundo é, no plano da lógica mais absoluta, um “Deus escreve certo por linhas tortas” !

                        Questão de natureza humana, tipo, até de biótipo.

                        Segundo tempo da INTOLERÂNCIA e sua conseqüência natural, o RANCOR : Não tolero não fazer igual ( a Dante, Shakespeare, Joyce, Machado de Assis, Cabral ). [ Se é que você não poderia fazer igual, ou ainda não possa fazer parecido. É preciso uma certa dose de ilusão.Ou uma fortificação daquela fé! ]

                        Mas eles têm os seus erros, por que não haveriam de ter?  Onde é que posso pegá-los, eles são humanos como eu, como é que não posso detetar imperfeições em seres humanos iguais, que só se chamam Dante, Shakespeare, Joyce, Machado, Cabral ?! Aí está o sofrimento, você não deita pra brincar com eles. Você quer destrinchar o fenômeno da inspiração, que pode, tristemente, confundir-se com o da eleição, já que não lhe falta o aparato, o instrumental técnico, ora, eu não analiso tão bem?, não sou capaz de pôr nas devidas gramáticas e semânticas tudo o que eles disseram?!

                        [ Tal análise do fenômeno da inspiração, que o temor emparelha com o  denominado Complexo de Salieri, além de não ser desprezível, é extremamente necessário, sei disso também. Mas aquele entrelaçamento de virtudes veio para eles naturalmente, eles não estavam competindo com ninguém, não sofriam, enfim, por aquela razão de existir, mas se ALEGRAVAM por ser donos daqueles dons. Isso você nota em qualquer obra de arte, até de um Van Gogh, até de um Ensor, até de um Munch, até de um Francis Bacon, o pintor, até de um Augusto dos Anjos, até de uma Suzana Flag, de qualquer autor de “arte feia”, ou “arte triste”, ou “arte degenerada”, como dizia o Nazismo. ]

                        Além de tudo ( e isso você pode ver pela correspondência de alguns desses artistas ) nunca houve rancor pelo que outro fizera, quando muito mágua pelo que deixou de ser feito por cada um. E tal tipo de sentimento, ou de apenas ressentimento, com todas as conseqüências, seria legítimo e normal de nossa parte, da parte de nós dois, caso não estivéssemos  entre os eleitos, vulgarmente chamados inspirados, ou vice-versa..

                        Sabemos  que a vida não é muito bonita para seres invulgares; e essa  sua paixão incessante pela arte, essa exclusividade vital, é uma virtude rara, uma coisa realmente linda, poderia  até ser uma brecha para que você entrasse no mundo do lúdico, embora julgue eu que o fanatismo da dedicação ( que eu também  julgo ter ) no fundo é uma válvula de escape para quem não tem fé naquele sentido mais profundo, religioso, que faz a beatitude dos simples, talvez os verdadeiramente eleitos mesmo. E quando invoco aqui religião não o faço na concepção, certamente infeliz, de que o maior benefício dela  - para mim o único - é disciplinar o medo, eis que para mim o  medo indisciplinado é dos maiores flagelos do espírito.

                        Cada vez mais acredito que você seja mesmo um pessimista “condenado”, que não se cansou de perguntar a mim se eu me considerava um sujeito feliz, lembra-se?  Sempre lhe respondi que sim, embora não pare muito para fazer balanços e tenha roçado medidas extremas que me custaram caro, você sabe do que falo.

                        Acontece que sou vitalmente mais alienado que você, por incrível que pareça. Mas [ veja que não digo “e porisso” ] iludo-me acreditando ser um gênio. Um gênio,  se não fracassado, pelo menos com “un gran avvenire dietro le espale” ( com um grande futuro pelas costas! ) como vi num filme com o Mastroianni, não me lembra qual. E gênio não tem rival, tem iguais, tipos diferentes.

                        Acredito que se você também pusesse isso na cabeça, armasse um arcabouço gigantesco de um grande projeto, uma grande obra, também deixasse de lado as gramáticas ( outro canal de fuga inconsciente...), escrevesse seus poemas ( alguns entre os melhores que li, honestamente ) e/ou ensaios, sem reescrevê-los infinitamente [ cansei de ver ou ouvir terceiras ou quartas versões suas bem inferiores que a primeira, porque você quer pegar erro ou fraqueza em si mesmo, um infrutífero desafio face à insegurança ! ],  não perdesse tempo em não ver que o Modesto Carone é um bom tradutor de Kafka ( porque ele “reescreveu”  Kafka dentro de sua alma de Carone. Algum eventual erro é humano! ),  entendesse que o Marques Rebelo é um cara que escreve daquele jeito porque é o jeito que ele sabe, dentro de seu dígito, seu jeito de falar , que é um grande prosador menor; enfim, afugentasse o ciúme,  a inveja que todos temos de ver uma casa ( mal feita mas completada, habitável, por esforço de um suor natural ), sem indagações, penso que isso tudo iria fazer de você um indivíduo feliz. E a felicidade às vezes faz bem pra encarar a infelicidade.

                        Você, nestas alturas, deve estar julgando-me um idiota, no bom sentido, mas absolutamente isso não me afeta em nada. Você teria até o direito de dizer-me, na cara, que isto é, senão burrice, uma insensatez empolada, pretensiosa, tudo em alto e bom tom, garanto-lhe que iríamos discutir em bom nível, ou pelo menos tolerável,  simplesmente porque não seria gratuito, nasceria de umas colocações, nada teria de competitivo.

                        Acho que a coisa ficou clara.

                        A propósito da clareza, usando uma parábola meio obscura, fui levado a ler Wittgenstein, sempre me intriguei com sua fama, o ressonar de seu simples nome. É, por enquanto para mim, o maior gênio doméstico, o gênio do lar, no sentido grego. Conseguiu chegar, através dos números, i.e., das coisas que “todo mundo entende do que não entende”, à natureza de Deus, sobre quem todo mundo entende do que mais não entende. Dentro das abstrações a que ele conduz, mesmo pra quem não saiba a fundo das Lógicas e da Matemática, sinto-me compensado quando me surpreendo, por raiva ou por medo, esmurrando, insanamente, os objetos da casa: livro-me da tristíssima desolação, sensação de que não existem os seres, parece-me um começo da vida sem mais começos, início da velhice...

                        O “TRATACTUS” me ilumina com uma cegante luz apagada, sensação de que não estamos vivendo, mas simplesmente entrados numa reservada área de  promessa para quem ainda não vive! É tão estranho, uma dádiva do Pensamento Absoluto, algo como o jogo de xadrez, um micro-universo no qual você constroi, você destroi, você reconstroi, está tudo errado, vai dar tudo certo, essas coisas me animam e aterrorizam. Creia.

                        Não estou fazendo  literatura, juro-lhe, e penso que esse temor, ou  vontade!, de cair na loucura é que me deixa mais agressivo. Sofro na intimidade principalmente por tal agressividade, acho que você  sempre se apercebeu. Mas ninguém tem culpa , e isso é outro horror!

                        É que disfarço, tenho muito medo de cair na fossa, já tenho meus tormentos de hipocondria e a consciência de alguns males reais da saúde. Estou começando a ter a triste sensação de bola-sete. Mas não quero jamais contagiar você com tais sentimentos.

                        Por tudo isso, nunca achei grave contrariar o velho amigo em algumas coisas, ser gratuito, dar umas de vida bêbada, passar por superficial, como você sempre me teve até uns quinze anos atrás. Mas não se agaste com esta indelicadeza. Só esteja certo de que, de vida,  sempre fui mestre.

                        Por todas estas razões, acho que poderíamos prosseguir nos papos com a liberdade das negativas, liberdade de contraditar sem ter às vezes que provar. De falar bobagens, de “ofender” e ser “ofendido”. Melhor que dar murros em coisas inanimadas. A  vida é curta ( - A vida foi curta, sempre falava o Zelão ).

                        Espero que você perdoi todo o arrazoado, esse ar de doutrinação e o desabafo.

                        Creia que relutei muito para mandar-lhe esta carta.

 *

                        P.S. : Não se esqueça de ler o prefácio que o próprio Nélson Ascher faz ao seu livro de tradução de vários poetas, alguns realmente magníficos, outros somente traduzidos por seus dele Nélson interesses políticos ou empenho de empertigado sionismo. Mas tem algumas sacadas bem originais, umas coisas bem engenhosas no plano dos gêneros, uma visão muito inteligente de dispersão de autoria, da humildade no relativizar uma provável impossibilidade de tradução perfeita embora correta, mas que acho que é racionalização de impotências episódicas  face a determinados textos. Diante dos quais, para mim, a falta de rapidez e a insistência têm que dar certo, têm que operar o milagre. Não há texto intraduzível. Até o som do sentido pode ser transposto, do sânscrito para o chinês, só uma questão de paciência e fanática dedicação. Você sabe.

                                   Um abraço.

                                   ( FLORIVALDO )

 

**********

 @ PARA LUCIANA REDE (Veja "Duas borgeanas", in CONTOS e/ou ENSAIOS) 



 
**********

@ Para Raduan Nassar ( bilhete ), 05-8-2002. 

Raduan:

                        ... não que seu passado não negue, mas, escrevendo isto, Raduan sentirá aquilo. Referia-me ao arrazoado 7 do relato O VENTRE SECO, que me revelou um agente da nova ordem – está lá, junto com o final do arrazoado 7! – e logo pensei: será um de meus happy fews, do intróito das Memórias Póstumas de Brás Cubas, para entendimento de meu poema , e um surto de megalomania me fez julgar – “você merece, Raduan.

                        É o que eu tinha escrito na dedicatória de uma cópia daquilo, que só não lhe deixei à porta, sábado, porque me esquecera do nome da rua e do número de sua casa.

                        Mas vai lá outra cópia daquilo, um poema não muito antigo, com uma ou outra palavra em grifo 7, coisa acrescentada agora. Meu Heavenly Creatures. Fará parte de meu livro, “Impropriedade Privada”, in progress ( estou ficando, mesmo – mais – megalomaníaco). O livro é uma mexida em toda minha vida, coisa feita, coisa desfeita, anseios, frustrações, mas tento fazer drammatis personae de todo mundo que conheci, com quem me relacionei, até de meus fantasmas. Pode não passar dos célebres casos de autobiografia de cara sem biografia...

                                                                                                 ***

                     Gostaria também que você lesse o que escrevi sobre a Academia Brasileira de Letras, a pedido do Fernando Jorge, que o publicou em seu livro “Academia do Fardão e da Confusão”, 1999. Acho meu texto sinfônico. Veja lá – não é das passagens mais importantes... – que pintei o Paulo Coelho como sucessor de Jorge Amado. E o foi, porque a intersecção da Zélai Gatai foi um retrato afetuoso colado num álbum de famíla.

                        Abraço do

                                                   (FLORIVALDO)  VERSÃO DESPREZADA.
 

**********

 @ Para Raduan Nassar.

                         Raduan:

                               O poema estava morto desde que nasceu, lá no fundo de um arquivo de meu livro em tropeço, “Impropriedade Privada”. Pra ser honesto acho que só tenho impropriedades na porra da vida: toda uma existência voltada pra uma idéia fixa, uma só idéia fixa...que pode nos matar...e descobrir que Arte é uma brincadeira! Mas de onde vem Beethoven, que significa um Dostoiévsky? E uma vida calma deslumbrante na arte milagrosa de um Machado, dentro de sua prosa aqueles versículos perpétuos se enrolando e desenrolando, a mim  me terrifica, pois tudo já foi visto e você vê aquelas coisinhas como se ele catasse com a mãozinha assim de um lado e pusesse de outro, nada mais... e você aprende a viver a cada palavra! Enfrentar isso dá muita infelicidade, apenas menor que o diabólico prazer!

                        O poema não tem sintaxe, e assim as coisas não concordam, tampouco discordam entre si; resolvi achar que era nominalista, tecnicamente falando, na função da Filosofia pura.

                        Mas acho que foi um desespero, confesso a você, somente a você, Raduan, que tem uma arte muito especial, de grandes abstrações, abstrações de quem não leva fé em nada, brinca com as relações, e com as relações, e com as relações, e com as relações humanas. Nomes, nomes de pessoas, pessoas só com nomes, sem eventos, pessoas que existem de fato pelo Brasil afora – d. Olívia Cavalcanti / Evelyn Critchard me avaliza a existência real da maioria – pessoas estas que podem de repente se ver unidas numa folha de papel que diz ter um poema... não são verdadeiramente criaturas celestiais, mas com o garbo estrangeiro de “Heavenly Creatures” ?!

                        Jamais eu soltaria essa peça,  a não ser na emaranhada diluição do livro, mas eis que, relendo após tanto tempo seu O VENTRE SECO,  reeditado na edição dos Oitenta Anos de Folha de S. Paulo, me deparei com aquele arrazoado n. 7 , que me animou a mostrar o poema a você, pois aquela ordem citada por você só existe no céu. Gostaria que você tb. lesse meu depoimento sobre a Academia Brasileira de Letras, pedido pelo Fernando Jorge para seu livro de 1999, “A Academia do Fardão e da Confusão”. Vai por xerox. Veja lá ( não é das passagens mais importantes, mas foi profética, modéstia à parte ) que pintei o Paulo Coelho como sucessor de Jorge Amado. E o foi, porque a intersecção da Zélia Gatai foi um retrato afetuoso colado num álbum de família.

                        Um grande abraço do velho amigo que muitíssimo o admira e mais o estima,       

                                                               ( FLORIVALDO )

 

 **********

@ Para Moacir Amâncio ( bilhete com anexos, a ser entregue hoje, 16-9-02 ):

            Moacir:

            Sempre tive umas coisas para mandar pra você, aliás uma delas  a pedido – “Glenn Gould”, lembra-se, na casa do Orlando e em outros raros mas felizes encontros nossos? – mas sempre fui relutando, relutando, para guardar um ineditismo neurótico para meu próximo livro “Impropriedade Privada”.

            Mas, agora, com o centenário de Drummond ( data exata: fim deste mês de setembro, fim de outubro?, tive preguiça de conferir, aí no jornal  a tecnologia imediata manda vir de cara ), no dia do evento gostaria muito de ver publicado um portrait que fiz dele quando eu tinha 24 anos e que acho – permita-me o cabotinismo, permita-me mesmo!) o melhor Drummond que vi desenhado em toda a vida do poeta, inclusive seus auto-retratos. Acho, realmente, que de tudo que produzi  este é meu verdadeiro opus magnum... ( se é que posso ter dessas coisas).

            Só tem sentido publicá-lo no esquema que lhe estou enviando, sem suprimir aquele rascunho-assinatura do dia em que foi feito, no meu desenho de letra, ou seja sem substituição por carateres de imprensa, por favor.

            Outro assunto, este de seu interesse imediato: não sei se você tomou conhecimento de uma resenha que Nelson de Oliveira fez, no JORNAL DO BRASIL de 07 de setembro último (2002), da antologia organizada por Cláudio Daniel e Frederico Barbosa, “Na virada do século: Poesia de Invenção No Brasil”, onde há um (“olho”?, “janela”? , não me ocorre o nome técnico de editoração), mas um “buraco / destaque” entre duas colunas: “ O nome de Moacir Amâncio é uma ausência inexplicável”. E lá pelas tantas, diz o articulista: “Falta inexplicável, ao menos do ponto de vista estético, é a de Moacir Amâncio, inventor por excelência.” ( o grifo sublinhado é meu).

            Está seguindo por xerox, pois acho que o tempo é inimigo dos jornalistas, que não podem estar lendo todos os periódicos.

            Abração ao poeta e amigo de sempre

                                                                                  (Florivaldo MENEZES)

s.p., 16 de setembro de 2002.

 

**********

@ - Para o GILBERTO TINETTI (Em 16-01-2003)

Gilberto:

            Quando um pianista consegue transformar uma sonata para violino & piano em sonata para piano & violino, não pratica uma maldade, mas exerce a estratégia do filho pródigo da parábola bíblica, que, no fundo, vai beneficiar o ato, e não quem o pratica, ou quem o põe à prova.

            Veja, Gilberto, se entende esta elocubração... na qual o compositor não está nem aí...

            Nesse caso, se a ênfase que avulta do piano ( e que parece oferecer as deixas para as entradas do violino ) , desvia o foco das importâncias, instala-se algo como uma humildade contraditória, que não é falsa-modéstia do pianista..

E a tendência irreprimível do piano a se agigantar acaba vingando a generosidade (complacência?) da súcuba posição do instrumento, posição essa histórica (clássica!), própria do gênero.       

            A atmosfera fica no plano dos evanescentes “concerto a duo”, ou dos “duo concertante”, e a gente sente que se opera o milagre  das presenças no mesmo “range”, apesar das iniciativas temáticas, que historicamente classificam o dueto (gênero) como sonata para violino e piano...

            Óbvio que ocorre também com as sonatas para cello & piano.

            Mas iniciativa temática é apanágio de músicos mesmo (partiturais), muitas vezes não apreendida por músicos de paixão ( isto é, amadores, veja que a etimologia os justifica), mesmo que tenham bom ouvido e larga experiência.

Conheço, assim de plano, três pianistas que, milagrosamente, ( é a dinâmica? a malandragem das appoggiaturas?, o descompasso milimétrico? o que é? o que é?! ) transformam as execuções, para mim, em quase divertissements , quando ouço, com eles, sonatas para xis e piano, ou vários lieder , que mais parecem sonatas para piano e xis, e peças para piano e voce obbligata : um deles é você – é voz corrente, esse atributo seu, você sabe disso. Outra foi Hephzibah Menuhin, nas sonatas de Beethoven com seu irmão Yehudi, e,  “recentemente”, o para mim excepcional Robert McDonald, ao "acompanhar" a violinista Midori no Carnegie Hall em 1990.

            Tomei a liberdade de fazer uma cópia em VHS do Video Laser que tenho daquele evento, pois não sei se você, embora conhecendo-o, o tem em seus arquivos. SEGUE COM A DEVOLUÇÃO DO ÁLBUM DUPLO ( LPs) DO LUÍS THOMASZECK, comigo há mais de um mês.

            Fico-lhe mais uma fez devedor de sua costumeira gentileza, com a velha amizade e profunda estima.

                                                (florivaldo)

SP, 16-01-2003.

ESTA PASSAGEM FAZ PARTE DA “GAVETA” IP-MÚSICA, DE MEU WORD (PC), DENOMINADA “MICRO HISTÓRIA DA MÚSICA AO PÉ-DO-OUVIDO”, DO LIVRO EM ELABORAÇÃO “IMPROPRIEDADE PRIVADA”.       ( Florivaldo Menezes )

 

 

**********

@ Para Hélder Câmara:

Em 1998, Agosto, 05, mandei-lhe a seguinte cartinha:

            “Em 4 último, pelo Chess 4000, depois de um longo "abandono" do Xadrez (pois estou trabalhando em meu novo livro) , ensaiei uma partida, como que "armando uma cilada" para mim mesmo, jogando incorretamente, em meu entender, um lance na abertura eleita, a ver se o programa "descia a pua", i.e., se tomava iniciativa para o ataque arrasador.

            Este realmente se efetivou, demonstrando, para mim,  que a máquina tem aquela "vontade relativa" de ganhar. Digo "relativa" porque nasce da exploração matemática/algorítmica das virtualidades que os erros propiciam...

            Não sei se os deeps mais profundos -- desculpe-me o pleonasmo --, esses que jogam com os kaspárovi e os kárpovi, têm iniciativa especificamente volitiva, a saber, a que não nasce somente dos erros dos contendores ou de alguma opção, também volitiva, de ciladas ou outras trampas. RESUMINDO : A NATUREZA DO JOGO DARIA, EM SI, UMA " INÉRCIA " DE SALVAÇÃO ENTRÓPICA QUE SE ASSEMELHASSE À SAÍDA DE UMA SITUAÇÃO COM SEMELHANÇA A UMA SITUAÇÃO NOVA?! E SERIA POSSÍVEL FALAR EM "NATUREZA DO JOGO DE XADREZ" ? ; O XADREZ TERIA ALGUMA LEI NATURAL ( NO SENTIDO DE "NATUREZA"), COMO A PRÓPRIA NATUREZA? ISTO ÚLTIMO É POUCO PROVÁVEL, MAS, PELO MENOS, É POSSÍVEL?... SE FOR SÓ POSSÍVEL, MAS IMPROVÁVEL, TUDO QUE FALEI ACIMA VIRA SÓ UMA FANTASIA MODORRENTA!

                 MAS...ISTO TUDO  É PURA ESPECULAÇÃO, EMBORA DE CUNHO FILOSÓFICO, TALVEZ INFLUÊNCIA DE MINHAS INCURSÕES RECENTES POR WITTGENSTEIN...MAS GOSTARIA QUE VOCÊ, UM ESPÍRITO IMENSAMENTE CHEIO DE CURIOSIDADE, MEDITASSE E, SE POSSÍVEL, ME DESSE UMA RESPOSTA.

                SOMENTE GOSTARIA MUITO QUE VOCÊ ABORDASSE AQUELAS MÁQUINAS MAIS PROFUNDAS, ALUDIDAS ACIMA, PORQUE TENHO QUASE CERTEZA QUE, NO CASO DE MINHA PARTIDA -- QUE SERVIU APENAS DE "STARTING"  --, A HIPÓTESE DAS BRECHAS QUE SE ABRIRAM JÁ ESTAVAM NAS COGITAÇÕES DO PROGRAMADOR.

                                               Abraço do Menezes, 5-8-98.

 

                Eis a partida:

                                               Brancas: eu, Florivaldo Menezes

                                               Pretas  : Chess 4000, nível "Expert".

                                               1 - e2-e4        c7-c5

                                   2 - g1-f3         e7-e6

                                   3 - d2-d4       c5 x d4

                                   4 - f3 x d4      b8-c6

                                   5 - b1-c3        a7-a6

                                   6 - f1-e2         d8-c7

                                   7 - O-O           f8-d6

                                   8 - d4-f3         g8-f6

                                   9 - f1-e1         O-O

                                   10- e2-f1        f6-g4

                                   11- h2-h3      d6-h2 +

                                   12 - g1-h1     g4 x f2 ++

  

                P. S. Usei acima os nomes kaspárovi e kárpovi metonímicamente,  porisso  em minúscula, e no caso nominativo plural latino, onde, em russo, se usa a desinência "vi" :

                                               O Karamazoff (ou Karamazov, Dmitri Karamazov),

                                               Os Karamázovi ( a família, os irmãos ).

                                               DESCULPE A EXPLICAÇÃO, MAS NÃO GOSTO DE ERRAR, AFINAL ESTUDEI A VIDA TODA, SOU MEIO BESTAMENTE ORGULHOSO, DIFERENTE DO SÁBIO E  NOSSO SAUDOSO ZELÃO QUINTILIANO.”   

                                                               Espero que você dê uma craneada agora, como me prometeu em nosso último – e fortuito – encontro na Don José de Barros em 08-5-03.

                                               Abração do amigo e admirador

                                                (MENEZES, Florivaldo, antigo MeneZIAN,  lembra-se do saudoso CAPo  Orlando?... Você nos cognominou assim no final da déc.60...)
 

 

********** 

@ Para o Marcelo Tapia & Pérola:                               (07-7-03)

                         Quando lhes agradeci por rápido telefonema o envio dos 2 livros sobre o Joyce e os dois CDs com coisas da Irlanda e ligadas a ele ( nominalmente a fxa. 13 do segundo CD) , não havia ainda ouvido as obras que vocês levaram no primeiro e tampouco a performance ao vivo no auditório do Crowne Palace.

                        Acabei de fazê-lo neste domingo.

                        Lastimei, lastimei mesmo, o número pequeno de ouvintes, pela densidade das palmas, embora intensas. Coisas do mercado, infelizmente... Ou pode ter sido deficiência auditiva minha. Mas, em qq. caso, fiquei muito emocionado com o teor de tristeza das canções, especialmente a segunda faixa do primeiro CD.

                        Aqueles cunhos nostálgicos das músicas todas – ou quase todas – bem que me pediram um uísque, mas estava ontem de ressaca, bebi muito no sábado e não tenho mais idade para “fogo de encontro”.

                        E o pior é que tenho sempre em minha casa o Jameson ( o uísque preferido do Joyce, parece que é muito popular no país ) desde que o Phila uma vez me trouxe de lá a bebida ( ele tem (teve...) um amigo e grande teórico em Dublin, titular de Literatura comparada, ou de língua francesa, no Trinity College; e por lá esteve várias vezes). Hoje o Jameson é facilmente encontrável em S. Paulo.

                        Mas, Marcelo, preciso ir ao ponto principal, que é o seu enorme talento para o canto, a afinação sem qualquer raspa de romanticismo (Nélson Gonçalves, que desafinava no timbre!, sic mesmo!), dentro daquela simplicidade “country” mesclada com a plangência do Bob Dylan, muito ajudada pela natureza do cancioneiro irlandês, que não tem nada, nada, nada a ver com aquela grandiloqüência que tanto encantava o Joyce, a vida toda babado pelos dós de peito do Mc Cormack, cantor lírico, como você sabe, mas extremamente contido nas tremulares extensões de sua voz.

                        Incrível como Joyce e João Cabral eram cegos para música!...

                        Conheciam música literariamente, como às vezes acho que acontece com o Augusto, mas isto já é recalque meu, acho que não consigo esconder a inveja que tenho pelo Augusto poeta, sorry...”nobody is perfect!”...

                        Vocês estão merecendo uma maior divulgação do trabalho musical dos dois CDs, algo como um programa na Cultura, sei lá. Acredite, Marcelo,  surpreendeu-me muito a irmanação de sua voz com a tristeza das músicas, mas daquelas anônimas, do inconsciente coletivo das “-Nênia nenê”, entretanto chanceladas pela etimologia.

                        Precisamos um dia marcar um encontro para ouvirmos algo.

 

                                                        ******

             No meu “Impropriedade Privada”, in corso, um apanhado de tudo ou quase tudo que pensei sobre arte e minhas entradas e tentativas, tem um poema recente ( “Heavenly Creatures” ) que eu gostaria de passar para você, por mero prazer egocêntrico... É um grilo da sintaxe pensar uma semântica, ligada a um tópico importantíssimo da Filosofia, que é o Nominalismo.

                        Na minha obra, perdoi-me!, tal peça é um dos hiatos na poesia visual – ainda a exploro, por incrível que pareça – e quando a mostrei, sem maiores, ao Raduan, ele, por telefone, com aquelas gargalhadas catártico-apocalípticas ( você já o ouviu gargalhar?! Esteja preparado espiritualmente!) me disse que é o melhor exemplo que ele viu sobre a inutilidade da Arte!...

                        Gozado que o Raduan vive falando sobre inutilidade da Arte e vez por outra saca um inédito genial, como o “arrazoado número 7 d´O Ventre Seco”, não sei se você conhece.

                        Eis meu poema:

                         

(91,42em06-7-03)

 

**********

@ Carta a Gabriella Pace

Gabriella:

    1 - Como você diz que "aguarda notícias", lá vão algumas ( não se esqueça de que já lhe falei que tenho pavor de ser advertido das facilidades de papo que a Internet propicia).

    2-   Não quis me referir a analogias entre compositores, no sentido do famoso jargão "nada se cria, tudo se copia" ( Chacrinha e quejandos), que você cita, mas o de verdadeira pré-munição/premonição  de formas de um gênio para outro: quando você vier a minha casa, como você respondeu que terá o máximo prazer de [me dar o máximo prazer!] vir, vou mostrar-lhe (não me julgue arrogante, é pura paixão de raciocinar!) uns fenômenos de antecipação de formas, verdadeiros casos de "plágio em retrocesso" , LEMBRE-ME DISSO, DESSA EXPRESSÃO, POR FAVOR, LEMBRE-ME DISSO!

    3 - Para diferenciar, vou mostrar a você um disquinho de 7´´ de uma revista francesa, onde há um sem-vergonha mas exato "Ils ont tout copié", de(monstrando) plágios de Beethoven, Mozart et al.

( o que te mencionei de Stravinsky e Mozart etc., cf. e-mail anterior, é o "stravinsky"  já concebido por Mozart!... O "berlioz" que te citei é a inaugural invenção do Puccini!!! - ( QUANDO VOCÊ ME CONHECER MELHOR, VAI VER QUE NÃO SOU LOUCO, ou, como diz meu, meu, meu,  Glenn Gould...  "JE NE SUIS PAS DE TOUT UN EXCENTRIQUE" ( título de um de seus livros editados postumamente, coisas de telefonemas gravados, papos rememorados etc...).

    4 - Fiquei muito feliz de saber pelo Flo que você fez um Mahler magnífico. E a Violeta Urmana, que te citei enquanto escrevia o e-mail, ouvindo o Mahler que "analisei", que você me disse que viu pessoalmente no Scalla!..., puxa, isto é um privilégio...

    5 - Quanto à quarta de Mahler ( você se diz vítima, vítima para mim maravilhosa, de quartas sinfonias ) , permita-me aduzir sobre a de Mahler:

    Nos começos da déc. 80, dei uma entrevista no jornal AMBIENTE, da Cetesb, onde aponto, entre as melhores músicas da Humanidade, justamente a 4a. sinfonia de Mahler.

    Não  me lembro se dei razões, nem qual a versão que indiquei.[ Hoje para mim só pode ser de Haitink, Bernstein ou Boulez ]  Mas comentei "em off" que é uma síntese da alma musical de Viena, que era o berço da modernidade, assim como a Alemanha  havia sido, imediatamente antes, o da contemporaneidade.

    Há, nessa sinfonia, vozes em seus ruídos, assim como ruídos (aí já no sentido de McLuhan) em suas vozes (humanas).

    E pra temperar tudo, aquele picadinho das frases tenebrosas, típicas do Autor.

    Não é, para mim, a mais bela (quinta), nem a mais profunda(nona), nem a mais transcendental (oitava), nem a mais matriz e inspiradora (segunda). MAS É SIMPLESMENTE... A QUARTA!!!, que tem a cara de Mahler, do casal Mahler, das infidelidades Mahler..., do perdão, da sublimação, enfim, me parece a mais pessoal.  E já abre o caminho para o mais maduro Richard Strauss, na corporificação das valsas da triste decadência, esta num sentido até nobre, histórico, político, como quis D´Annunzio.

    6 - Bem, Gabriella, não vamos exgotar nossas vidas num só átimo. Temos muito que conversar. Traga sua mãe e seu pai, chamarei o Flo para o encontro, vamos marcar: logo após seu Villa-Lobos na Osesp, que dia mesmo?

    Abraço ffff  do Menezes.

 

 

**********

 

 @ Carta a Gabriella Pace


                                              “(...)Quanto ao espetáculo em si, achei a mini-ópera uma obra-prima absolutamente de gênio (eu não a coinhecia...) : entrosamento perfeito de música e libreto (do próprio Donizetti), acabamento melódico primoroso, invenção no jogo de palavras, indispensável para o enredo e próprio desenvolvimento frásico do entrecho, enfoque paródico das óperas bufas ou cômicas de Mozart e Rossini, com maior domínio do tempo curto ; uma tremenda surpresa na fabulação (enredo) e uma extensão infinita de tessituras vocais, com timbres e registros realmente originais e praticamente nunca vistos , em tal entrelaçamento.

                                                Você teve oportunidade de expor suas qualidades ímpares na ceneggiatura brasileira ( Que Celines Imberts coisas nunhumas!, ela é simpática, chistosa nas entrevistas, humana e humanitária...mas voz como a de você... (?!) EU PARECIA OUVIR/VER, PRINCIPALMENTE NO  PRIMEIRO “DUETO”  COM O TAMBÉM MAGISTRAL TENOR SEU PRETENDENTE, ONDE SE CONTRAPÕE UM ARREVEZADO JUIZO DE ACUSAÇÕES E JUSTIFICATIVAS, UMA VISÃO DA RENATA TEBALDI, NO SEU DESENHO CORPORAL E EMISSÃO VOCAL!!!)

                                                Não se ofenda: você vai ser melhor que a Tebaldi !

                                                Por favor, não me responda a isso. Quero surtir a sacada sem que nada ou ninguém me aborde ou raspe. Nas passagens tristes, como por exemplo na que você demonstra o amor pelo tenor, com aquelas extensões ou prolongamentos de voz  para encadeamento da escuta próxima ( que é a surpresa que o ouvido espera, o ouvido é que é humano e triste!), acho que você não tem rival. É que nenhum crítico oficial tem coragem de pôr a cabeça em risco para admitir isso, em você!

                                                Repito: suas frases atingiram o coração, nenhuma balançou !!!, mesmo as mais longas, seu domínio de ar é incrível e seu timbre á mais liso, sem aspereza, haendeliano, mais “sonoro” que o da genialíssima Callas!!! ACHO ISSO DO FUNDO DO CORAÇÃO E NEM DISCUTO COM NINGUÉM./ AMÉM.

                                                Menezes, Florivaldo.

 

   

 

**********

 

 @ Carta a Gabriella Pace

 

Caríssima Gabriella :

    Antes de tudo, um abraço por você, que continua deslumbrante em cena.

    Relutando, mais uma vez, pelo enfrentamento de um espetáculo ao vivo, que lhe disse ser penoso, fui vê-la no sábado. Cruzei com seu pai, estacionamos o carro no mesmo local; ao final deixei um bilhetinho no parabrisa.

    Valeu, e muito, pela constatação de que você vai galgando a posição de maior cantora lírica do país.

    Ainda não me adaptei ( e vai ficando cada vez mais tarde, nos meus setenta e cinco anos, embora pense que penso com dezessete ) à expectativa das palmas que sempre coroam os quase repulsivos ápices do “fenômeno diva & bel canto", que é o "panem et circenses" da platéia operística...

    Cá, lá e acolá.