Nesta gaveta poderão não estar, de início, as cartas temáticas, que mandei a figuras questionáveis/questionantes de Arte em geral. Encontram-se, neste caso, em Ensaios. ( Cartas: - Minha ao Pedro Xisto: v. revista japonesa “ASA”, vol. 6 – 6-1972.72. - Minha ao Osmar Pimentel, A SER USADA NO RELATO SOBRE O ROMANCE “OS SENTIMENTOS DIDÁTICOS”, onde ele será transcrito. Acho que está na Pasta do cap. III do romance, cf.
(As cartas supra já estão aqui)
- Minhas a: - Augusto de Campos. - Pedro-Juan Gutiérrez. TODAS ESSAS : PASTA 6.
- Carta do Barreira, relatando sua vida PASTA 3. )
**********
@ Para Paulo Bonfim, em 16-01-07, a ser enviada pelo correio.
Caro Poeta Paulo Bonfim. Há pouco falamos por telefone sobre o tributo que fizeram ao ilustre vate, onde, a par de curtir as merecidas homenagens, também procurava por um soneto de José Jorge Tannus. Estou tomando a liberdade de mandar-lhe, reproduzido em cartão-postal, meu poema-cartaz (se assim podemos chamá-lo) “O lago dos signos”. Determinada historiadora de literatura, Zina Bellodi, falou em intertextualidades. Por exemplo, a execução do poema, virado partitura (sua última parte, quando surgem as notas musicais, direcionadas todas para o tempo das semibreves) tem que ser, digamos, monitorada, pois a colocação de certas appoggiaturas é que possibilita uma semelhança, uma ressonância com os primeiros compassos d´"O lago dos cisnes" de Tchaikovsky. (Tenho uma gravação da leitura do poema ao piano, feita pelo renomado compositor Flo Menezes, que, não sei se você sabe, Paulo, é irmão do Philadelpho Menezes, morto em desastre de carro aos quarenta anos em 2000, no torque de sua carreira, teórico e instaurador, no Brasil, da Poesia Sonora, criador da Poesia Intersignos, titular da PUC e da S. Marcos em literatura intersemiótica. Ambos filhos meus... ... e grande admiradores do papel que você representa na poesia lírica e memorialística, além de emblemática da inspiração das Arcadas, já que todos aqui de casa, inclusive minha filha mais velha, cineasta e procuradora do Estado, passamos pelo Largo de São Francisco. De volta ao poema: a alusão aos sininhos da suíte “Quebra-nozes”, que está em meu texto-bula, é para melhor identificar o assunto com caixinhas de música, essas que dão surpresa. Aqui há um certo subjetivismo na exegese, mas pago pra ver no que dão tais associações... O poema foi muito ajudado pelo acaso: mais uma intertextualidade com o chamamento à autoria do coup de dés mallarmaico: un coup de dés (...) j´amais n´abolira le hasard etc. etc . Aquela clave central, mas que está logo abaixo de um registro neutro ( os AA. de uma antologia inteligentemente atribuiram quatro fases ao poema!...) está colocada em hexagrama, ao invés do natural pentagrama musical, para ser manipulado por consultas aos trigramas do I-Ching, o clássico livro chinês das Mutações. Consultando tais trigramas na exatitude, dão quase sempre no mito do desaparecimento do cisne, em seu corso ed ricorso da volatilização do amor atribuído pela lenda, e que Tchaikovsky comoventemente imortalizou. Como a versão circulante d´ “O lago dos signos” está em cartão-postal, suas dimensões dificultam muito a percepção de certos sinais que estão no protótipo original, de mais ou menos 1 metro por oitenta centímetros, tal como exibido na 1a.Mostra Internacional de Poesia Visual de São Paulo – BR, 1988 – Centro Cultural São Paulo. Lá se vê que as duas claves dos pentagramas são de sol, mas se se pegar uma lupa dá pra ver certinho também na versão do cartão-postal. O original estava em comodato nos salões principais de um café literário do Bixiga, aqui em São Paulo, quando foi vendido, por insistência pertinaz, quase tresloucada, e oferta pecuniária irrecusável, a um dos mais famosos (na época, 1990, 91 o mais famoso) bateristas de rock do então mais retumbante conjunto heavy metal do mundo, que visitava São Paulo durante uma folga do primeiro (ou segundo?) Rio Rock Festival. Razões óbvias me impedem de declinar o nome tanto do Café como do conjunto musical. Mas o poemão original, de parede, está em Los Angeles ou em Londres... Tempos depois foi feito um fotolito gigante que possibilitou a réplica hoje em poder do maior bibliófilo brasileiro de Modernismo, pré-modernismo e pós-modernismo brasileiros, que tem toda sua obra em primeiríssimas edições, Waldemar Naclério Torres, já há anos residente em Porto Alegre. E, last but not least, o poema muda um pouco o secular princípio de Hipócrates, Ars longa, vita brevis, demonstrando que signos largados ( = Arte. Ciência = signos amarrados), i-chingando a Natureza (atente para a homofonia do gerúndio), realmente em nada mudam que a Vida continua breve, mas a Arte é (pouco) menos breve (veja o “semi-breve!” que fecha o texto bula). Quer dizer, a transitoriedade impera em qualquer relação. E causticamente...em música a semibreve tem a metade do tempo da breve ...NÃO É DIABÓLICO?! Bem, ficando por aqui, deixo-lhe um fortíssimo abraço, na esperança de um dia ter um exemplar do “Tributo a Paulo Bonfim”, organizado pelo ilustre desembargador seu amigo, com quem não consegui ainda trocar palavra, por minha culpa exclusiva..
**********
@ Para FLOREG. A presente carta foi dirigida ao Flo Menezes, na época para nós e os de seu convívio mais íntimo, simplesmente o Bebê. Estava na Alemanha com sua mulher, REG, artista plástica, Regina Johas, 1986. Acabara de ser agraciado com uma bolsa de Colônia ( Köln), após seleção de trabalho musical que o habilitou, e onde desenvolveu, até primórdios da déc. 90, todo seu percurso de compositor de música eletroacústica. Procurei traçar-lhes, chamando-os de FLOREG, um panorama desses anos, no conturbado Brasil de então. Tentei suavizar com chistes de natureza artística, músical e, principalmente, econômica e política.
Ora?!...só por causa desta puta senvergonhice que paira no sanguerido brasileiro! Não estou pessimista, não, mas é mesmo de arrepiar qualquer cristão esta mentalidade lúmpem do nosso povinho! Agora mesmo, às dezenove horas, no Almanara, segunda-feira, da Basílio da Gama, encontrado o Percy por acaso, sentamo-nos (eta lingüinha!☺) ao lado de uma petista muito teórica, vivida e sofrida, parece que pegou cana quando estudante, em 63 e 68, que deu um violento baile de doutrina em cima de nós dois sobre o Plano Chifrado, desculpa o “lapsus linguae”, quer dizer, o Plano Cruzado, mostrando ao Percy que ele (Plano Cruzado) veio em fins de Fevereiro justamente porque Março-Abril-Maio, por aí, haveria os maciços dissídios coletivos...então o Governo achatou de cara o salário do pobrão e acenou com o ilusório congelamento dos preços...e aí está ; falta tudo, carne (com a UDR fazendo leilões entre os fazendeiros/industriais/financiadores dos ontem obans-dói-codis...hoje dumpings acintosos de sonegação do produto...leiloando às escâncaras, pra o Governo ver, rezes valiosíssimos para angariar fundos para compra de armas, daqui e do Exterior, pra mostrar, alto e bom tom, que estão armados até os dentes para continuar a matar os “invasores” de suas santas terrinhas...(OBS. PRA VOCÊ QUE ESTÁ AÍ:UDR quer dizer União Democrática Ruralista, uma associação de magnatas fazendeiros do Brasil inteirinho unidos para impedir que os sem-terra usurpem alguns palmos de sacrossantos torrões ganhos com o suor...das heranças...então veja, FLOREG, falta carne, exportamos duzentas toneladas de uma vez...; falta carne outra vez, a UDR leiloa carnes e vacas para angariar fundo pra compra de armas que saem... daqui mesmo! Vocês sabem que produzimos as armas mais poderosas e modernas do mundo? Tanques com cérebro eletrônico capaz de fazer com que a energia do corpo inimigo e de seus pertences irradiem um expectro que desenham em relevo seus perfis na escuridão, de tal sorte que a própria camuflagem realce apetitosos alvos!!! Parece-me que se chama Ozório. Bazucas/bumerangues! Lança-napalms de trezentos metros de alcance!, anfíbios de oito rodas de nadadeiras atômicas, tudo, tudo, temos tudo, produzimos as melhores armas do mundo, tudo na mão de aguerridos, confessados e comungados rapazes orgulhosos da lupanar pátria lúmpem que reluz na lupa de sua cegueira; quando abrem os olhos é pra dirigir carros, ah, seus carros/feudos portáteis, autoritarismo ambulante, uma lesma empurra a outra como diz o Ronaldo Azeredo – Deus o tenha em boa vida -- ...e cada buzinada é um tiro, por isso buzinam tanto......leite (há longas filas de leite, sumiu o queijo fresco, o queijo prato, o queijo mussarela, o requeijão; açúcar...a burguesada saqueou os supermercados de medo da falta de açúcar! Gozado, se faltar água eles dão um jeito...mas açúcar não pode faltar, nem na visão mental do cidadão, não sei porquê, ele enlouquece com a idéia... A petista falou em luta de classes, disse que o Suplicy vai fazer a autofagia da contradição de ser filho de industrial e de enfrentar uma possibilidade de não continuar seu pai, algo assim. O Percy já começou a meter o pau em Cuba, Marx era um utópico, os serenos homens igualitários jamais existirão...mas ele era a favor de uma justiça social mais humana que esta, etc etc etc; a petista disse, parabólica-parafrásica-metafóricamente, que um revolucionário não pode ser um alvo para uma bala e...dizendo que não dava pro Percy, pq. a coisa custa e precisa ter retorno, deu pra mim 2 folhetos de programa de uns candidatos meio udigrudis do PT (isto na minha opinião): uma é mulher sofrida, tem um programa de base internacionalista, outro vai defender, como deputado estadual, coisas metalúrgicas. Na saída, na calçada, falei-lhe em Jacob Bittar; ela me respondeu meio rindo: O Bittar é advogado!... Achei a observação um pouco estalinista, posso estar enganado; o Percy, puto da vida pq. a mulher não lhe deu bola e achou-o de direita, azulou de raiva e me disse: Caralho, esses operários elitistas, autoritários...você viu?, só eles que falam, não dão a mínima, não respeitam o ser próximo... Ele tem um pouco de razão, são essas contradições de campanha política. Mas, veja, FLOREG, vocês não acham que tudo isso é gostoso? Não estou pessimista não nem louco nem dopado nem bebido nem meditado nem taroado (de tarô) nem i-chingado nem... Só, digamos...um pouco abendsçoado pelo fim do dia, que sempre me deixa um pouco estranho. Vim sozinho pra casa. Passei pelo Miguel, tomei uns choppinhos, o Orlando viajou hoje pra Europa, não fui no bota-fora, comi um steak ou poivre, mandei dois licores de uísque, agora, 11h50 de 15, entrando no 16, fiz uma pausa, falei com a Tabinha, a Cris está dormitando no sofá, mamãe na cama, é uma grande mulher, a Tabinha é uma grande cachorra, a Cris é uma grande pessoa, tenho muita pena dela por causa de sua insegurança, acho que ela nunca ouviu uma gargalhada da Vida, sabem? Os amigos...de sempre...o Wylly sumido, fissurado só nas kulas, viciadíssimo, só anda com o Leonel & Gonzalo, dupla esquizo! se um morrer, o outro só vai perceber uns dias depois. Enfim, é uma falta de objetivo autêntico terrível! Não vá se sensibilizar nunca pela música desses versos:
“Glücklich allein Ist die Seele, die liebt.
Freudvall Und leidvalt ♫♪! Gedankenvall sein, Goethe Langen ♪♪! Und bangen In schwebender Pein, Himmelhoch jauchzend, Zum Tode betrübt – Glücklinch allein Ist die Seele, die liebt.”
Sabem, FLOREG, Seele (a escolha do sintagma See mais sua colocação na frase)...regendo dois verbos...esse segredo Goethe furou o véu da alegria...deu uma música interna muito forte, só sei o alemão da hora, isto é, do instante dos meus achados, dos meus estudos noturnos! Vi isso no Goethe supra, sozinho! mas quem não tem objetivo certo, fanatizado na vida, não enxerga mais nada. Bem, algo muda com a idade, uma pena que na maioria e no mais das vezes mude para pior...Tenho estado muito com o Fiaminghi, o Décio, o Zelão, são fanáticos, cada um à sua maneira...mas que bonito só se pensar, como maníacos internados, na Arte, na Beleza, o desligamento total do dinheiro e do automóvel, duas lepras. Porque estou assim? : como disse, na primeira linha desta carta, por causa que estou vendo o mundo – e, em especial, o Brasil – de uma maneira muito exclusivamente política...e este lumpemzinato brasileiro de primeiro ao quarto graus (i.é: nas nossas classes sub-operária, sub-classe média, sub-classe alta e ecto-lumpem) é tudo produto de um fenômeno que só ocorre no Brasil, descoberta minha, conscientizada por mim somente aos cinquenta e cinco anos! :...de que, no Brasil nunca nasceu ninguém, aqui só se reencarna, é uma descoberta diabólica. Os seres já “nascem” com uma carga que vai gerar grandes contradições, um filho da puta de um pé-de-chinelo qualquer acaba esfaqueando grevista ou alguém que queira tirar-lhe a mãe, mulher e a filha da zona...se lhe acenar com um estado de coisas “dito” comunista...ou igualitário...ou algo parecido...Mas, em seguida vai dar a bunda pro patrão que o humilhará cada vez mais! Um senso de metempsicose (não confie Floreg, vá ao dicionário!) sempre acaba tomando o infeliz pobre diabo de espírito cacete o mais com todas as sanhas de feroz cão de guarda cinzento de burguês com guarita, ui...ui...ui... QUEM? CÃES CAÍNS. Um maroto de um inglês (inglês, não é americano!) se não me falha a memória Guy Playfair, escreveu um livro sobre o reinado dos “phaenomena” paranormais, Brasil! com o título de (ah, achei o livro, a Biblioteca continua bagunçada, mas tenho ainda minha ordem, da memória) ”The flying cow: research into paranormal phenomena in the word´s most psychic country”, Souvenir Press, London, 1975; eu traduziria, li o livro, “PARAFERNÁLIA PARANORMÁLIA”; É o fim! Mas tem coisas intrigantes! Será que existem?!...Mas, politicamente, a “ficção” vira realidade...Se não se exorcizar, limpar tudo isso do Brasil, não haverá nunca luta de classes, a vida dos “karmas” e a ladainha das justificativas obnubilarão eternamente os juízos e os sentidos de justiça. Vejam lá o título “..... no país mais “psicado” do Universo”: aquele tal lugar onde ninguém nasce pela primeira vez, todo mundo se reencarna: imaginou, Floreg, se alguém quererá revolução?! Bem, queridos, de novidade: Cris está entrando numa ótima, de repensar a vida, firme no propósito de fazer cinema, isto dará a ela fé em si mesma e muita vontade de viver, tenho certeza. Ela bem que podia desenhar, tem um traço bonito, original. Falar nisso, estou felicíssimo em saber que você, Reg, está animada em descolar um ateliê ou coisa parecida pra praticar sua vocação. Vá em frente, mas não brigue com o Bebê, penso que ele ama muito você. (2 meses depois): Não queria continuar, para não deixar, politicamente, vocês dois em fossa, mas, hoje, primeiro de Dezembro de 86, acontece no Brasil: - Falta sal: filas pra você pegar um pacotinho de um quilo; - Ah, se o Lula tivesse se candidatado a deputado estadual, estaria eleito.. “É muito burro, querer ser governador logo de cara ( um amigo que você conhece), (1982); - “Pô, que burro! Se se condidata a Senador, esta eleito”....(Orlando, 1986) (Mais de 100 mil votos, agora, para o deputado federal à “Constituinte”). - Leite só amanhã, doutôire! Passa de leve, que arranjo-lhe um litrinho!...(o português da esquina, boteco, hoje, 1º Dez.); - Você é um ignorante tanto quanto era há 15 anos, Fia! Fale, fale mais sobre essas reuniões anarquistas da década de 40...Pô, pô, quer fazer o favor de calar a boca, ME-NE-ZES! IN-TE-RE-SSA O DE-PO-I-MEN-TO DO FÍÍÍÍA...:(há um mês atrás, aqui em casa, eu, Décio e Fia, depois de um papo moralmente desgastante, que varou a tarde no João Sehn e terminou aqui, (DESCULPA OS ERROS CONSTANTES DA DATILOGRAFIA, ACHO QUE É ATO FALHADO POR EU DETESTAR ESCREVER, MAS SINTO QUE ESTOU EM FALTA COM VOCÊS!-------Continuem a escrever, mesmo que eu mande umas linhas somente a cada 3 ou 4 meses: adoro receber cartas, na direta proporção do ódio, digamos aversão, em vez de ódio, de escrever-----------,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, e depois das onze, quando ia colocar na vitrola o que lhes prometi: a) O CHOPIN QUE EU AMO, LP maravilhoso, onde Rubinstein, aos quase noventa anos,
A Mazurca é a de nº 23,
ré
maior, op. 33, nº2!!!!!!!!!! Você verá, principalmente se a ouvir
tomando esse inigualável, infalsificável bourbon, em cmpanhia da Reg;
terei um neto na hora! - Esse piano afinado como cravo por essa besta, cravo é cravo, piano é piano!...
(DIGAM DE QUE PUBLICAÇÕES VOCÊS PRECISAM,
PERIODICAMENTE, PARA SABEREM O QUE ACONTECE NO BRASIL)
tecnologia – versão do Webern da Ricercare (i?) da Oferenda Musical de Bach!!!!!!!!!!!!!!!!!! Nem Miles Davis, nem Eric Dolphi, (releve os erros de grafia, tb., não ligo mais pra isso, a vida é curta), ah, agora, 21 h, na Cultura, estou começando a ouvir, escrevendo esta, um programa novo com KOEULLREUTER ( é assim que escreve?), nem Ornette Coleman (tb. errada grafia, desculpem, não estou com saco, hoje, para ir conferir no disco) nenhum deles iguala a fenomenal versão de Webern sobre a Ricercari de Bach!! É um fenômeno novo em música, tanto quanto o foi, penso eu!, quando alguém ouviu pela primeira vez as Danças dos Companheiros de Davi, de Schumann: “algo novo para a escrita para o ouvido”, como eu já disse uma vez, num jornaleco, não: num jornalzinho, de uma companhia estatal...Sabe, há uma escritura para articulação, que pertence ao ramo da morfologia, e uma escritura para oralizar, que é do campo da gnosiologia, algo do universo pensamental, que, por sua vez, está ligado à heurística, algo como um catecismo do existir, o porquê se repete no dia-a-dia, um problema crucial da cobrança de vida... uma coisa muito funda: saudade do que a gente não sabe bem + dever ético de questionar + instinto de caminho vital finível !... Espero que você procure entender!... Acho que Schumann ENTENDEU ao ouvir sua própria DAVIDSBUNDLERDANZE (a grafia!) Reouça de vez em quando – só de vez em quando! – essa enormíssima obra inaugural, eu diria “finaugural”, só possível num romântico... e do porte de Schumann...Chopin, um gênio insubstituível, idioleto de Deus (ou da Natureza), seria despiciendo (veja que não falo desprezível), se não tivesse existido Schumann... O mesmo mistério que saber o que há de importantíssimo...antes de Deus (ou Natureza). REMETO AO PARÁGRAFO, atrás, onde digo que não estou drogado, nem taroado etc etc etc etc e a DESCONEXÃO é devida à ansia que tenho em dizer-lhes tantas coisas que transcenderiam o mero relato de fatos...embora: O PMDB ganhou as eleições em todos os Estados do Brasil, menos num (mostro pelo recorte de jornal); Uma semana depois, desce o cacete na população com o CRUZADO 2: aumento dos preços, na ordem de 80% globais, sobre bebidas, cigarros (2 coisas que o povão gosta – e precisa!!!), automóveis e combustíveis (SANTAS TIAS DE DEUS, irmãs da Santa Mãe de Deus, para os sub-burgueses; remeto ao parágrafo onde reclassifico as 4 sub-classes sub-sociais do sub-Brasil) O KOEULLREUTER ESTÁ DIZENDO, NESTE MESMÍSSIMO MOMENTO, QUE A VIDA NÃO EXISTE, ALGUÉM TÁ SONHANDO!................o Borges parece que já manhou nisso.). O Governo, aumentando tudo, quer arrecadar dinheiro para saldar suas dívidas, externas (ATO MORAL INTERNACIONAL, que não deixa de ser pragmático) e i nternas, que é um ATO
sal, açúcar, fósforos, se matando nas filas, durante o dia. À noite, infestam as casas de bolsas, cintos, sapatos, roupas, um conjuntinho de saia-e-blusa está na ordem dos 5 a 6 mil cruzados! Estão falando em descongelar os aluguéis. Você não compra nada que não esteja...não só descongelado...como só no câmbio-negro: ingresso de cinema, mas pasmem! Penicilina! Carne, só em restaurantes de alto luxo. Cerveja é motivo de esfaqueamento entre os bebuns. Tenho 55 anos e nunca vi algo igual em minha vida. E olhe que me lembro do final da 2ª grande guerra mundial... Não há discos nas lojas. As editoras – de porte- estão mandando imprimir seus livros no Exterior. Um livro mais ou menos maçudo está custando na ordem de 250 mangos. Quando a única coisa que nos poderia salvar seria a velha amizade das velhas rodas, o cara percebe que está doente e que precisa ir logo pra casa ou por causa de si, em si, ou porque se ele chegar um pouco fora de hora algum assaltante está esperando por ele...felizmente ainda não tive esse desprazer.
INFLUENCIOU HAYDN, QUE NÃO INFLUENCIOU MAIS MOZART PORQUE ESTE MORREU ANTES QUE HAYDN PUDESSE INFLUENCIÁ-LO PARA QUE MOZART O INFLUENCIASSE!...” Aliás, um mês atrás, em Jacutinga, bebidos muito nós dois, o Dióginho disse-me que eu fui extremamente brutal com você na noite de aniversário da Cris, aqui em casa, ao gritar-lhe uns disparates a respeito do não respeito, por parte de um artista, pela obra do Caetano.
A princípio, fiquei muito chocado por pensar que tinha ofendido uma das pessoas que mais amo em minha vida, que é você. Mas, passado algum tempo, pensei: o Bebê não é burro e deve ter entendido minha maneira de discutir : a única coisa que cobro nos meus próximos é uma absoluta semelhança com minha subjetividade! Quer dizer: como não me ofendo nunca, depois de um certo tempo, com o que me dizem, exijo que as pessoas também não se ofendam. CREIO EM VOCÊ ESCREVA-ME TAMBÉM TECNICAMENTE ENVIE NOTÍCIAS SOBRE SEUS PROJETOS. EM JANEIRO SAIRÁ SEU LIVRO. FAREMOS
REVISÃO. MAS...O QUE VALE É ISSO AÍ: O AMOR É O CRESCIMENTO QUE NÃO MATA. papi Florivaldo Menezes 1/12/86
Obs.: A carta supra está entremeada com a figura da REG, recortada de um
jornal (semelhança incrível), **********
@ ROTEIRO-GUIA PARA DIZER NUMA FITA À CRIS
Querida Cris:
Você deve saber o sacrifício que é para mim escrever cartas! Se agora estou escrevendo uma, é porque ensaio aprender uma técnica para vencer esse obstáculo movido pela necessidade que sinto em trocar umas idéias com você. Você não pode imaginar a mudança de imagem operada em minha cabeça e, principalmente, em minha alma, que sua ausência me proporcionou. Vejo você, hoje, sob outro prisma, vejo novas faces, desfolho outras camadas, que estavam endurecidas pela proximidade, viciadas por pós-conceitos (permito-me o mau gosto da expressão) originários de uma falta de paciência, uma falta de mínima sabedoria de pai errado perante um ser humano tão complexo como você...Hoje vejo como você me faz uma falta difusa... e ao mesmo tempo simples como a falta de uma cinta ( e aqui não entra Freud) [ desenhei uma carinha rindo, que parecia o Roberto Campos, toc,toc,toc!).Pensei sempre que você não teria coragem de separar-se de mim, e quando falo mim falo nós, de nossa casa, de seu habitat original. E disso tiro uma lição belíssima: você tem uma força, Cris, um ânimo, um esplendor de vida difíceis, dificílimos, de serem encontrados em outra pessoa de sua natureza, idade, condição, condicionamento social, familiar, etc,etc, blá!(Escrevo do apê “Sylvia Beach” ( Sylvia Beach foi uma amiga de Joyce ai em Londres, tinha uma livraria onde Joyce passava algumas tardes, a Shakespeare & CO., acabou editando o ULYSSES.::::::: FICA EM PARIS! CORRIGI EM TEMPO: FICA EM PARIS.-.-.-.-.-.- começei a tomar whisky... mas não daria tempo para confundir minha memória excepcional...) (a megalomania começa a despontar). Quando você partiu, senti o mesmo alívio que deve ter animado seu espírito para alçar o primeiro vôo. Conheço você e tenho absoluta certeza do que estou falando. Suas primeiras cartas chegaram a me irritar um pouco pelas conceituações neblinosas sobre Londres, seu casario, seus transeuntes, sua atmosfera, enfim, era uma areia movediça puramente sensorial e precipitada a visão que você teve da cidade-berço de tudo que é verdadeiramente contemporâneo ( ou falsamente contemporário!). Aí esteve tudo...e ter estado é mais sólido do que estar, como em Nova York, por exemplo). Mas continuo, hoje em dia, a lhe dar o direito de não gostar de Londres. E como, desesperadamente (e às vezes em vão), procuro não soar dogmático, pode ser que voltando a ver Londres, não sofra o impacto que sofri em 1981, quando aí estive. A partir de um certo tempo, começei a dimensionar certas verdades que você começou a falar. Foi porque fui-me distanciando emocionalmente de uma certa birra que viciava nossas relações, uma intransigência meio maluca minha de não respeitar você à altura do que você é ( e era!, hoje vejo)... Como se fosse um parêntese, reafirmo uma das poucas certezas que tenho em minha vida: a de que você é uma das inteligências mais portentosas que conheci. Seguramente, é a mulher mais inteligente que conheci ( que nenhuma outra mulher nos ouça!) Por incrível que pareça, o dia que você tiver ciência concreta disso ( e se ainda não teve, não diminui em nada tal inteligência!), você vai dar um vôo de condor, pode até ficar chata. Comecei a esperar certas mudanças de enfoque, que hoje noto, em sua visão, suas resignações, sua maturidade em transacionar com os seres daí, sua objetividade em ver o real, a labuta nos empregos, a porfia brava, mas nunca a desesperança, mesmo diante de ocorrências meramente passageiras, como a de que as pessoas se afastavam (será que se afastavam, ou nunca chegaram a estar realmente numa situação consciente?) por simples dificuldade de comunicação lingüística etc, etc. Veja como tudo já passou e como foi um grãozinho minúsculo que se perdeu! Hoje, sinto que você já incorporou a couraça na própria pele, não se molesta mais com frustrações, está para o que der e vier, encara com sabedoria, até com certa sofisticação expressional, como quando descreveu magistralmente, como o melhor dos narradores de ficção, seu encontro com aquele cineasta que fez muitos filmes ai para as BBCs, um tal de Frears(sic?); pela sua descrição memorável ( mostrei pro Percy, pro Zelão, pro Nilton, meus estilistas de bares), repito: pela sua descrição justa, machadiana!, deve ser ( tenho certeza!) uma bichona tremenda ( não mostre pra nenhuma bicha, que ela vai pensar que sou um machista – e sou!- do cacete!). Se por acaso você resolveu mudar de Artes, tem um caminho aberto pra você na prosa de ficção, estou certíssimo disso. NÃO ENTRE EM FREARS(NÃO ENTRE EM FRIA)!Esse tipo de cinema não leva a nada, longe de BLADE RUNNER,longe de TERRA EM TRANSE, longe de APPOCALIPSE NOW, muito longe de um filme de seu querido(como homem) John Cassavettes ( morreu em Abril!) ( é assim que se escreve?) que acabei de ver aqui, pelo vídeo, chamado “AMANTES” (acho que o título original é STREAMSLOVER, ou LOVER´S STREAMS, veja aí) dirigido e interpretado, ambos por Cassavettes magnificamente, uma obra original, subliminar, roteiro sonoro, fotomóvel, montagem descolada, um Rimbaud domesticado, com hodiernidade (=hoje+ódio+idade), uma coisa muito parecida com os anseios de você, é incrível!...É a obra de arte (- e melhor exemplo por ser no Cinema) que mais se parece com você... Pode ser que haja algum exagero, ou deformação de minha parte...mas você entende, pode estar havendo uma idealização de minha parte nascida pela necessidade de reparar injustiças que cometi: se eu sumisse de repente, seria uma catástrofe humanística de Deus ou da Natureza eu perder eternamente a oportunidade de fazer você sentir o conceito que hoje tenho de você.
(parei pra tomar um gole. Estou ficando rebarbativo, sinto. Mas... seja o que Deus quiser.) Cris...mamãe está bem, Phila está bem, Natália é meu novo amor (a gente sempre tem um novo amor, legal ou ilegalmente, moral ou imoralmente), eu estou naquelas “neuras” de sempre, amando detestar a vida, vivendo a detestar o amor, detestando amar a vida, mudando as palavras por mudar, sabendo nada de nada, sabendo tudo de tudo, me achando – como sempre – um sábio-gênio imbecís...mas ainda sei distinguir o que está fora de mim, isso salva. Quanto à sua vida prática, espero que você curta o máximo que uma pessoa jovem, cheia de vida, pode tirar das visões de uma viagem como essa: veja museus, vá a TATE GALLERY, veja com calma TURNER, (pare meia hora na frente dos MONDRIAM que tem aí), observe os demais paisagistas ingleses do séc. XIX, XVIII, veja detalhes, esquadrinhe as cenas com religiosidade, vá sozinha, sozinha, ver esses museus (nunca vá a Museus acompanhada! : Você só acabará comendo sanduíches!) Tome alguns pileques acompanhada de pessoa do mesmo sexo (que não seja lésbica): elas ou cairão juntas...ou tentarão ajudar você, no fogo. Macho vai querer te ferrar, em todos os sentidos. Pense sempre nisso. Nunca pare de beber, você gosta. Manere na saúde e... let the ivory run (nota I). Apesar de você estar segura (disso que vem) pelas últimas cartas, não entre em drogas! Mesmo que você esteja firme, acabarão por deixá-la with the pants in the hands (nota II). Veja que escrevo with all the ff and rr (nota III). Assim sendo, quero que fique claro que seu mundo é aqui, embora você pense em não mais voltar. Preste bem atenção: você terá de voltar, um dia. Sua pátria é sua melhor mãe (não é civismo de Olavo Bilac). É a única mãe eterna. E,jogando Freud fora, por comodidade ou instinto de preservação...nunca jogue as mães pela janela, como no título dessa comédia que está nas telas do mundo todo. Pai é outro papo. É choque, luta, desafio, demonstração do viver, exemplo de coragem, não se tem culpa do que não se conhece bem. Honestamente, hoje assumo qualquer assomo de babárie moral que me acene com o Inferno! Quando você estiver a perigo, diante de um fantasma de solidão...cante, como aquele cubano gordo (não estou em casa, senão veria no disco) “La vida no vale nada...” Tirando de lado qualquer tipo de desabafo que você tenha feito, antes de viajar, com alguma amiga (o), sobre sua necessidade de independência (= distanciamento da figura do Pai), gostaria muito, amaria muito mesmo, que você um dia conhecesse algo, a sério, da teoria dos arquétipos junglianos, para se sentir aliviada sobre a eleição inconsciente dos modelos (ideais ou não), que cairam sobre mim. Se eu mesmo me invejo, por que uma filha, da mesma natureza, não me invejasse? Não me elegeria como flour of the same bag? (NOTA IV). É duro, depois de tempos inúteis, complaining with a full stomach (NOTA V). Você, como mulher inteligente, está vendo que aplico racionalizações freudianas...mas é claro que, de mim, jamais receberia uma carta formal, legalizada, na linha da corrente, isso é insípido e covarde, não seria honesto. Ademais, estou animado com um filme sério, embora chochinho, que vi ontem na Globo, do Otto Premminger, “BON JOUR TRISTESSE”, onde uma menina (17 anos), interpretada pela belíssima Jean Seberg (o filme é de 1958), tem um relacionamento com o pai muito sofrido, mas assumido como uma contingência que, entretanto, não a separa da vida comum. O fim do filme é muito instrutivo, gostaria tanto que você o visse! Aliviaria muito, tenho certeza, seus, nossos, até de sua mãe (que é muito mais inteligente que você pensa) os “complexos” de todos, é uma catarse divina, se você não puder ver o filme, leia o livro (“Bon Jour, tristesse!”, da genial “nati-morta” Fraçoise Sagan). Escrevo tudo isto, para deixar bem claro que você é, não direi nossa querida filhinha saudosa, babyzinha desprotegida nos fins do mundo, desamparada freelancer do futuro fugidio, heróica aventureira do amparo salvador, eslovena cariátide do flêmur mais andor, nada disso:
(São Paulo) | (Londres) | Seu quarto está sempre limpo |-> - Não se entregue fácil | | | Seus discos querem te ouvir |-> - O futuro a gente não | [pega | | Os verdadeiros amigos são -> |- Rua escura nem sempre é | [poética | | Pátria é sempre Pátria | -> -Pai nem sempre é mãe
.-.-.-.-. SOBRE A FITA: Respirei fundo, não vomitei, fiz um sursum corda 9 (NOTA VI), e – “quero dizer uma coisa a você” (cacoete do Ulysses Guimarães): nessa fita estão os noventa minutos que eu gostaria de tê-los antes de morrer, se, numa agonia tranquila, movida só a luz e som, pudesse ver sua mãe a meu lado, fazendo tricô, e ouvir, na ordem que está, toda essa fitinha maravilhosa que dipensa Mozart (Novos Baianos!), Bach (Tim Maia!), Beethoven (Gil!), Schumann (Marina!), Wagner (Cauby!), Stockhausen (João Gilberto!), Chopin (Jorge Ben!) etc etc, Caetano!!, João Bosco/Clementina!!, Noel Rosa com Violeta Cavalcante!!! ( Os três em um – não é goiabada, marmelada, pessegada, explique aos amigos ingleses – os três em um Cae-Gil-João em “Milagre”!!!!!!!! (etcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetcetc)
Mostre aos amigos ingleses a ♪ BR!
NOTA I – “Deixa correr o marfim” NOTA II - “Com as calças na mão” NOTA III – “Com todos os efes e erres” NOTA IV – “Farinha do mesmo saco” NOTA V – “Reclamar de barriga cheia” NOTA VI – “Elevação de coração” (i.e. com espírito altaneiro, etc).
(falsas versões do Mllôr!)
@ Para Aninha, em 12-02-06: 1. - Aninha, ontem ou anteontem o Lyra (tb. Aly em e-mail, o Alberto Lyra Filho, sobre quem lhe mandei um acesso a "blog" muito inteligente e rico, Letteri Café: http://www.letteri.blogger.com.br/index.html ), mandou-me esse apanhado maravilhoso de geração, que você está me enviando.! 2. - Valeu! 3. - Um dia desses também recebi uma foto sua com o Phila, fiquei muito emocionado, só não respondi por estar muito, extremamente desanimado com um terrivel estado gripal, sem febre !, tenho medo disso. Febre tem de vir junto!... 4. - Bem..., por falar em Phila, gostaria de tratar com você da permissão hereditária de edição do Livro que deixou armado, cujo boneco o Marcos Bastos esboçou. 5. - O Plínio, da Ateliê Editorial, se dispôs a editar, não sei ainda sob que condições financeiras, os Poemas do "boneco" que nós dois temos e que ele não viu ainda, ninguém viu ! Sugeri também os ensaios e micro-ensaios que deixou e, igualmente, alguns poemas verbais de grande força, enorme inventiviade sonora e originalidade.Também ele não viu. Estamos no puro jogo de intenções. 6 - Precisaríamos encontrar um apresentador/prefaciador de grande expressão. Um nome que me parece bem credenciado, e acho que você também pensa igual, é o da Maria Lúcia Santaella, que, além de tudo, tem ibope. 7 - O Medeiros, no Estadão, abrirá para mim o espaço necessário, à época que eu quiser. Precisamos ver na Folha : está entrando lá um nome que espera por um artigo meu, mais informativo e sentimental, mas também técnico, onde explico um por um aqueles poemas que o Phila deixou, com a vantagem de ter anotado as gêneses das concepções, que ele me confidenciou de oitiva, com aquele jeitão reticente dele, mas provocando-me pequenas invejas ( "Rriso" ). Trata-se da vantagem da "interpretação autêntica", uma das normas da denominada "Hermenêutica Jurídica", isto é, aquela que promana do próprio autor da peça. 8 - No ensaiete, que é mais um suelto de educação sentimental no sentido flaubertiano, procuro ligar-me a ele, sem que o leitor veja qualquer influência, mas sim o que denominei um caso de "intuição reinfluente" por tabela : lembra-se daquele meu texto que acompanha meu poema / "encarte" num dos catálogos de exposição do Orlando? : aquele poema cujos membros da família são os dedos da mão? ("Três insights na vida glamorosa de Eustáquio Parreira", veja aquele catálogo que tem na última capa o clássico poema do Ronaldo sobre os olhos da Greta Garbo se abrindo ao devaneio). Ali explico o fenômeno da intuição reinfluente que se deu do Phila para mim. O artigo se chama "Dum Pai, Dum Filho", e é uma alusão a Dumas Pai e Dumas Filho. 9. - Finalmente, precisamos conversar : a - eu e você; b - você e Maria Lúcia. c - eu, você e Maria Lúcia. d - você e o editor. e - eu, você e o editor. 10. - ATÉ ORDEM EM CONTRÁRIO, NÃO ENTRAREI EM CONTATO COM A MARIA LÚCIA, ASSIM COMO PEÇO QUE VOCÊ NÃO O FAÇA COM O EDITOR DA ATELIÊ. Aguardo resposta breve. Bgs Menezes.
Caro Herrmann;
Primeiramente, espero que você perdoe a demora em responder sua emocionante carta; acho que no fundo eu não a merecia. Leve a demora à conta de uma maldita, e natural, preguiça que tenho em escrever...infelizmente não só cartas como qualquer coisa. Nasci seco na escrita que envolva confidências. Você sabe que gosto muito de papear com os verdadeiros amigos, aí me abro, rompo nos exageros, mas pra cartas... mesmo para artigos, ensaietes, incursões pela prosa... só qd. a coisa me incita muito na criação, nas coisas abstrusas (perdoi-me), aí faço um esforço e depois que pega fogo fica incontrolável. Ou então quando estou bêbado ou meio bebido. Como não tenho bebido ultimamente, a ponto de aportar naquelas paragens onde qualquer bobagem vira lance de epifania, relutei, relutei, mas vá lá, você me merece o máximo de respeito como poeta e como homem de grande caráter... E sua alma não pervaga nos círculos do rancor onde gravitam alguns espíritos de “glass menagerie” que conhecemos bem... Uma brincadeira a 4 mãos como nós dois fizemos em cima do augusto versor (cuidado! não veja “versor” aqui senão no exclusivo sentido de “tradutor”, pelo amor de Deus!), qual seja, a de que era o GUILHERME DE ALMEIDA DA LETRA SET, mais alguma farpinha moderada de delíquio de pubs perdizeiros custou-nos – a menos a mim – uma recolhida de fausta, longa e aprazível amizade também digna , deiscente, sempre um grande palco...mas, enfim, não se pode, impunemente, apagar as luzes do fundo do salão dos hip-campos, hip-campos, hurra-pignatari!... Voltando a nós, mortais, e sem literatice, que já ia me tomando o ego – mas você sabe, Herrmann, quando começamos a abrir a boca, automaticamente, somos artistas! , começamos a parlapatar... a não ser quando a coisa é grave. E o que houve entre nós dois foi até uma coisa gosada; jamais quis menosprezar um amigo como você, quando, por telefone, aquela noite na casa do Phila, lhe disse que o sítio do Décio se chama Valdevinos, o de Mallarmé se chamava Valvins (cito de memória, é assim a grafia?) e que o seu deveria chamar-se Mal de Vinho. Foi, sim, pra fazer, como você critica em mim, umas firulas verbais... mas tudo na gratuidade... não tenho nem capacidade para articular nada na base da verdadeira ironia. Nunca a usei. Detesto-a fora dos livros. Não tenho amigos irônicos. Sentiria remorso em ferir alguém com esse tipo de vezo. Assim, também me explico – e retifico – a alusão à litografia famosa de Charles Munch, mas é fantástica a semelhança de sua fisionomia, Herrmann, com aquela figura expressionista que está lá! Sabe?, é o “ar” daquela alma atormentada, que encarna muito de seu olhar, de um grande poeta romântico que tem a plena obsessão de encarar de frente a Arte e a Vida, como você... dos poucos raros tipos maravilhosos que tiveram a grande coragem de renunciar à Vida, para melhor serví-la. Soturnamente. Te entendo, meu caro, nas angústias nobres de fim de noite, que sempre começa trêmula, mas que termina intrépida. Não estou fazendo demagogia verbal, mas admiro muito sua maneira de viver. Incrível, mas acho uma coisa de Dichens, você pelos “seus cantos” e... de repente: no sábado almoçando rodeado de pais e irmãos e cunhados ; de repente :domingo e você agitando a bandeira tricolor numa cadeira-cativa. Você é uma figura única! Se você não se ofender... vou te chamar... de... abencerragem... Tentando, novamente; falar mais sério (embora tudo que disse acima tenha sido sincero – e não veja nisso, contraditoriamente, uma ironia retórica!), acho que você é dos poucos caras, que conheço bem, que não têm a mínima possibilidade de ficar louco. Isso que você chama, em sua carta de “ponto fraco do meu psiquismo”, i.e. , o temor que você tem pela desrazão, pela loucura, nada mais é que o pessimismo natural dos grandes infelizes (também estou nesse meio), que acham a vida tão sem sentido, que lançam mão de todas as artes para dar-lhe uma semântica... Por isso admiro cada vez mais os tolos religiosos. Os grandes tolos religiosos. Não há tolo que não seja profundamente religioso, nem religioso que não seja profundamente tolo! E veja que a coisa é tão imbricada que, à medida que vão perdendo a fé em Deus, vão virando progressistas, acalentam, protegem mais o complexo social! O grande místico, o Iluminado, o Umbelicado, este rasqueia, abjura seu próximo. É estranho. Sabe – e não pense que vou desgarrar na meada deste filosofar -, sabe no que quando mais me identifiquei com o triste e ereto confrade numa fralda de madrugada? Foi quando, há uns quatro anos já passados, percebi que você ouviu comigo, e conseguiu entender, a frase que aquela infanta também ouvia naquele quarto de um castelo, de seu amado, fingindo-se de fantasma, cantando, em parceria com o músico Chopin: - “Eu já estive aqui! Eu já estive aqui!” Você precisava ver como seus olhos sorriam no escuro e seus dente perscrutavam a sequência, na meia luz de nossa sala! Por esses esparsos – e aparentemente desatinados exemplos -, você vê, querido Herrmann, que estimo muito a você e à sua poesia, algumas delas sempre me causando inveja, o koito, a valsa do infinito, o grande poema pop da Miss Kodak (tenho uma análise meio longa dele, que vai sair num “ersatz” verbal de meu próximo livro, (o Phila conhece), enfim, quase tudo que você faz. Você me agracia , cortezmente , com uma influência que teria tido sobre sua produção artística. Sabe qual a coisa mais bonita nesse papo de influências? : veja como Haydn influenciou Mozart, que influenciou Haydn, que influenciou Mozart, que influenciou Haydn, que não influenciou mais Mozart porque este morreu antes que Haydn pudesse influenciá-lo para que Mozart o influenciasse!... As palavras sobre a Cristina, aceito-as como muito sinceras, mas embora eu cometa alguma injustiça verbal com ela, saiba que é por um misto de ansiedade pelo futuro de sua realização como artista... e, consequentemente, por sua integridade pessoal, sua felicidade de ser que almeja, como todos, realizar alguma coisa de duradouro neste mundo passageiro. “As coisas que duram mais que a vida é que mostram que ela é tão efêmera” (Millor? Marquez de Maricá? Eu-bêbado?) Mas, mesmo em se sabendo desse triste aforisma , o homem almeja prolongar-se... “C e nymphes, je les veux perpetuer!...” Quanto ao que você sente pela Maria Cristina, continuo respeitando, distantemente, como sempre me impôs meu ponto de vista a respeito. Espero recebê-lo de novo em nosso convívio, boca-livre, embriaguês sem policiamento, livre-pensadores-verbais, orlandos das grandes salas, hipóteses de vida, arte só na cabeça (que importa! o bonito é ter projeto!), mitificações, mistificações toleráveis, festa de viver!... é isso nossa vida menos íntima e penosa. E que cada um lute pela obra, que pereniza, enfim, o amargo contra-peso da solidão. Pois muita alegria também mata. (ACHO QUE ESSA ÚLTIMA FRASE É UMA GRANDE BESTEIRA).
Abraço
(MENEZES) 5/11/86
- Salvador Dali é um gênio enorme!
- Você é um cara muito bom, Herrmann! (Cézanne também é.)
@ Para Janaína; (10-02-06)
Gostaria de te passar uma alegria, que contraí quando conheci Cuba no Paraízo idealístico de minhas cerebrações. O “Lasciate ogni speranza, voi ch´entrate” tem de ser visto não como inscrição na porta do Inferno dantesco, mas na alfândega buliçosa e desesperadamente política e social dos homens de bem, É o preço. E que o burguês acha caro. Você, que acredita pouco nos homens de bem, ou do mal, tem de se concentrar na frescura genuína dessas canções de Silvio Rodriguez, pra ver como a irresponsabilidade guiada ( pode? : irresponsabilidade guiar-se?!?!) pelo mero lazer do som, do povo, da rua e do amor, tão presentes neste LP, até ressoar em suas (de você), sensações, como numa feérica mentira das coisas que rondam pela Realidade. Abra a porta do LP na faixa “Te doy una cancion”. : Cuba não é, não foi, não será real, nunca, mas o eco de seus socorros, para as coisas boas e más ( Cuba é a única coisa que pede socorro no bem!, prenúncio de que será até perdulária, veja o riso e a sandália de seu povo nos pedregulhos) e que sempre será, e é, até que o Homem mude, o hino da transperança! Ouça. Ouça. Ouça a voz – que seja a mera voz... – de Silvio Rodriguez e o desânimo jamais surgirá em seu horizonte. A Tristeza não prostitui, como o Medo. (O tratamento pronominal variável, 2a., 3a. pessoas, só é possível na verdadeira liberdade. E lá estamos, nela.) Abraço Menezes. S. Paulo, 10, fevereiro, 2006. ( E tome um Xarope São João!...)
**********
@ Para Paulo Fernando Araújo, via e-mail, que, diz ele, não chegou...
Paulo: 1
- Conforme lhe disse ontem por telefone, no agradabilíssimo papo que
tivemos, onde muita coisa foi repassada, com vantagens para mim, que
sempre aprendo algo com você, encontrei o CD que você me fez e que se
chama "SOM BRASIL - 05.11.99, Coletânea CRIPTON, from LP".
@ - Para ALBERTO LYRA JÚNIOR ( O nosso inconfundível Ly-Ly, Albertinho Lira, aly), nov. 2005.
Tu és o quelso do pental ganírio saltando as rimpas do fermim calério carpindo as taipas do furor salírio nos rúbios calos do pijom sidério.
que ruge e passa no festim sitério, em ticoteios do pártamo estírio rompendo as gambas do hortomogenério
são começúrias que carquejam lantes, nas cavas chusmas de nival oblôneo.
mas duas pélias por que pulsa Obálio, em vertimbráceas do pental Perôneo.
(Teus lindos olhos que têm barcalantes são começúrias que carquejam lantes : isso é belíssimo e como é verdadeiro!, Ly)
Castarcinando márgoras no pascorel [ ..................................................]
@ Para Ivan Teixeira, madrugada de 13-12-05, por e-mail : Caríssimo Ivan.
Li e gostei desmedidamente de seu artigo sobre o Manoel Botelho de
Oliveira. Mas o foco estanto em você: é um traçado didático perfeito; você quando quer escreve qualquer coisa, este truismo, embora tautológico, é meu de longa data! Lembra-se ? : "Quando ainda não tinha intimidade com você, e li o 'Apresentação de Machado de Assis', anotei lá: “Mais uma vez digo: o A. consegue ´expressar` o que quiser. Doravante, vai ser uma questão de idéias-teses!...”. &nbs |